<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736</id><updated>2012-02-14T17:04:22.711-08:00</updated><title type='text'>Deus Nos Uniu</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>21</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-5460586255998723503</id><published>2011-02-09T15:39:00.000-08:00</published><updated>2011-02-09T17:39:44.524-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 21 - O chamado</title><content type='html'>A Débora e eu havíamos acabado de voltar de um fim de semana em Criciúma, no dia 14 de dezembro de 1997, quando recebemos a notícia: meu avô havia falecido. Coloquei a Bíblia numa pasta e fiz a seguinte oração: “Senhor, se Tu quiseres que eu fale algumas palavras no sepultamento do meu avô, faze com que alguém me peça isso.” Imediatamente fomos para Florianópolis e tomamos o primeiro ônibus para Criciúma. Eu sabia que a família (especialmente minha mãe) estava sofrendo muito e desejava poder falar-lhes da ressurreição dos mortos e das últimas conversas que havíamos tido com meu avô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns quinze dias antes, quando ele ainda conseguia falar, a Débora e eu fomos visitá-lo no hospital. Pudemos dizer o quanto Deus o amava e queria vê-lo salvo. Minha mãe também teve oportunidades de falar do amor de Jesus enquanto cuidava do pai que tanto estimava. Procuramos lembrar-lhe dos assuntos que havíamos estudado na Bíblia alguns anos antes, especialmente sobre a promessa da volta de Jesus e a esperança da Nova Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos ao Velório Municipal de Criciúma, encontramos quase uma centena de pessoas no local. Como meu avô havia sido vendedor de leite na juventude e treinador de times de futebol, era conhecido de muita gente. Todos estavam ali para dar o último adeus ao “Zé Tostão”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Débora e eu observamos brevemente o corpo inerte no caixão e nos sentamos ao lado de alguns parentes. Discretamente coloquei a pasta com a Bíblia embaixo da cadeira. Instantes depois, um pastor pentecostal começou a pregar o sermão fúnebre (ele havia sido convidado pela irmã do meu avô, que também é pentecostal). Notei a expressão de contrariedade de alguns enquanto o homem esbravejava e soltava ameaças sobre o “fogo eterno” para aqueles que vivem em pecado e não se preparam para o encontro com Deus. Quão inconveniente era aquela mensagem estridente para pessoas de precisavam de conforto e esperança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminada sua fala (durante a qual algumas pessoas haviam se retirado do recinto), o pastor foi embora e deixou um líder da igreja dele responsável por dar andamento ao sepultamento. Naquele momento, uma tia (das que mais criticaram o fato de minha mãe, a Manu e eu termos nos tornado adventistas) tocou-me o braço e perguntou: “Você não vai falar nada?” Era o sinal que eu havia pedido a Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando estávamos quase chegando ao local em que seria depositado o caixão, coloquei a mão no ombro do auxiliar do pastor e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sou neto dele e quero falar algumas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem ficou surpreso com o meu pedido e deu um passo para trás. Abri minha Bíblia no capítulo 11 do Evangelho de João e falei a todos sobre a ressurreição de Lázaro. Depois, passeando pelas páginas sagradas, falei sobre o sono da morte, a volta de Jesus e a Nova Terra, onde não haverá mais choro, dor ou morte; onde Jesus enxugará nossas lágrimas e onde o mal não se levantará pela segunda vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do sepultamento, alguns familiares vieram me agradecer por ter-lhes confortado com verdades bíblicas. Aquilo me deixou feliz, apesar da dor da perda. Senti-me usado por Deus para “abraçar” minha família por Ele. Na volta de Jesus, quero abraçar meu vovô também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos depois, em 2006, minha avó Idalina, então com 82 anos, foi batizada na Igreja Adventista Central de Criciúma. Tive o prazer de entrar com ela no tanque. Curiosamente, nosso novo nascimento seguiu a ordem inversa das gerações: eu, minha mãe e minha avó. Em 2006, minha avó também faleceu, e a cerimônia fúnebre, desta vez, foi realizada pelo pastor adventista da Igreja Central de Criciúma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Florianópolis, a rotina prosseguia. Acordar às cinco da manhã, tomar o ônibus, viajar quase uma hora e encarar as crianças e adolescentes, alguns dos quais perguntavam: “Pra que estudar História? Tudo isso já passou mesmo.” Por mais que eu me esforçasse como professor, sempre me sentia aquém do ideal, o que me deixava num estado de frustração constante. Além disso, era difícil aceitar o fato de ter perdido as economias de todo um ano num apartamento que nunca seria construído. Eu já havia desistido de tentar entender por que Deus nos havia deixado passar por aquilo. Em lugar disso, entreguei tudo nas mãos dEle e resolvi esperar pela resposta. Afinal, como diz a Bíblia, “a minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nEle. Bom é o Senhor para os que esperam por Ele, para a alma que O busca” (Lamentações 3:24, 25).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia um ano que a Débora e eu estávamos casados. Essa era a parte boa da história. Era maravilhoso poder contar com minha querida esposa em todos os momentos. Poder adormecer e acordar ao lado dela. Ela me dava força e motivação para continuar lutando em busca de nossos sonhos. Eu sabia que ela estava disposta a tudo, mesmo que tivesse que ir para o Chile comigo, caso o “plano B” tivesse dado certo. Como não havia um “plano C”, continuamos contando com a boa vontade dos pais dela e morávamos num dos quartos da casa deles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuei servindo à Igreja Adventista da Barra como ancião e, juntamente com minha esposa, ministrávamos muitos estudos bíblicos nos fins de semana. Durante a semana, ambos trabalhávamos para tentar economizar algum dinheiro: ela numa creche no bairro Caminho Novo, e eu na escola adventista de Florianópolis. Mas ganhávamos pouco e não víamos muitas possibilidades de ter nosso próprio lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi fácil decidir pelo casamento nessas circunstâncias, mas como já namorávamos havia quase três anos e não sabíamos quando os “bons ventos econômicos” iriam soprar a nosso favor, decidimos, com o apoio de nossos pais, ir avante com o matrimônio assim mesmo e batalhar unidos por um futuro melhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-3yvcrjMR8cM/TVMlnCbYDzI/AAAAAAAANJY/tv8i3eff6fg/s1600/casamento3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="319" src="http://2.bp.blogspot.com/-3yvcrjMR8cM/TVMlnCbYDzI/AAAAAAAANJY/tv8i3eff6fg/s320/casamento3.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Quando acordava antes de o Sol raiar, para ir à escola, olhava para a Débora na cama, ainda dormindo, e frequentemente me lembrava de quão linda ela estava naquele dia em que a vi entrar de vestido branco pelo corredor do templo adventista de Campinas. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Pudemos receber a bênção de Deus por intermédio do pastor e amigo Ademar Paim. Ao tomar minha amada como esposa, prometi protegê-la e amá-la para sempre. A lembrança desse momento, toda vez que beijava o rosto macio da minha esposa antes de sair para o trabalho, de certa forma carregava minhas baterias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, um ano depois, mesmo que eu não quisesse demonstrar, era visível para a Débora (de quem eu não mantinha segredos) que o desânimo começava a me rondar. Quando estava no limite das minhas forças, Deus interveio e me deu um motivo para prosseguir com mais ânimo: fui chamado para apresentar, juntamente com o jornalista e amigo Felipe Lemos, um jornal diário na recém-inaugurada Rádio Novo Tempo de Florianópolis. A emissora pertence à Associação Catarinense (a mesma entidade mantenedora das escolas adventistas no Estado) e é ligada à Rede Novo Tempo de rádios do Brasil. Fiz grandes amigos lá, especialmente o Felipe e o meu chefe, o radialista Amilton Menezes, um verdadeiro cristão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-qev5U50g1DQ/TVMl6PembXI/AAAAAAAANJg/T_by0iwYZso/s1600/novo+tempo.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="236" src="http://4.bp.blogspot.com/-qev5U50g1DQ/TVMl6PembXI/AAAAAAAANJg/T_by0iwYZso/s320/novo+tempo.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin: 0cm 0cm 0pt;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Arial','sans-serif'; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Antiga localização da rádio Novo Tempo de Florianópolis&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;O trabalho era difícil. Eu tinha que ir bem cedo para a escola, dar as primeiras aulas do dia, depois cruzar a ponte Colombo Sales, ir para a rádio (que ficava no continente) e preparar o jornal. Ao meio-dia, corríamos para o restaurante, almoçávamos depressa e regressávamos à rádio, pois à uma hora o jornal ia ao ar, ao vivo. Das catorze às quinze horas, eu gravava alguns programas e depois regressava à escola de ônibus para dar as últimas aulas do dia. Realmente era um ritmo intenso, mas a satisfação de poder atuar na área de comunicação me fez recobrar um pouco do ânimo quase perdido. Só que o salário ainda era baixo, e com a perda das economias feitas para comprar o “apartamento virtual” não tínhamos como sequer pensar em alugar uma casa. &lt;br /&gt;Depois de alguns meses, com a ajuda do meu cunhado Dilamar, pude comprar um Fusca 1973, em Criciúma. Era azul, bem conservado e todo original: calotas e para-choques cromados, volante grande e estribos. Com ele, ir para o trabalho e cruzar a ponte de lá para cá e de cá para lá todos os dias acabou ficando mais fácil (curiosamente, o primeiro automóvel do meu pai também havia sido um Fusca). Fiquei seis meses nessa correria de dois empregos, até que numa manhã, enquanto preparava o jornal daquele dia, recebi uma ligação que mudaria minha vida de uma maneira que eu sequer poderia imaginar naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, é o pastor Rubens Lessa, da Casa Publicadora Brasileira. Ele quer falar com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Felipe era muito brincalhão o que me fez pensar que se tratasse de algum tipo de “trote”. Rubens Lessa era o redator-chefe da editora adventista do Brasil. Por que ele telefonaria para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixa disso, Felipe! Estou muito ocupado para brincar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tô passando a ligação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma voz diferente e percebi que não se tratava mesmo de trote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aqui quem fala é Rubens Lessa, da Casa Publicadora. É o Michelson?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim – respondi, quase gaguejando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho recebido seus textos e os apreciado muito. Além disso, temos aqui o seu currículo e queremos fazer uma entrevista com você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia perdido a conta de quantos artigos tinha enviado para a Revista Adventista. Um deles havia sido publicado em 1992, quando eu estava no primeiro ano da faculdade de Jornalismo. E do meu currículo, já tinha até esquecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você pode vir aqui para conversarmos? Cobriremos todas as suas despesas com a viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés ao ouvir aquele convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro, pastor. Quando devo ir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode ser na semana que vem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem. Vou conversar com a diretora da escola e com o meu chefe aqui na rádio. Creio que eles possam me liberar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desliguei o telefone ainda achando que fosse um sonho. Tinha que contar aquilo para a Débora, senão ia explodir. Liguei para a creche e ela atendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi. O que você acha de nos mudarmos para Tatuí? – disparei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Do que você está falando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acabei de receber uma ligação do redator-chefe da Casa Publicadora Brasileira me convidando para fazer uma entrevista lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro que sim! Eu não ia tirar você da sala de aula para fazer piada, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso é maravilhoso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu também achava maravilhoso, mas me sentia um pouco inseguro, afinal, não tinha formação teológica, como a maioria dos editores da Casa, e era jovem e inexperiente demais para função tão importante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia deixar de alimentar esperanças. Seria essa, finalmente, a resposta para nossas orações? Mesmo assim, procurei deixar os pés bem firmes no chão da realidade. Estava “escaldado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana demorou a passar. Numa segunda-feira de abril de 1998, tomei o ônibus para São Paulo. Assim que o veículo começou a se mover, lembrei-me da viagem que havia feito para o Instituto Adventista de Ensino quase dois anos antes. Será que dessa vez as coisas dariam certo? Ou teria que regressar novamente, com meus sonhos guardados na bolsa? Seria esse o plano de Deus para minha vida, afinal? Ou voltaria para casa com outra decepção e a cabeça cheia de por quês?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã do dia seguinte, desembarquei no Terminal Tietê (pelo menos esse eu já conhecia), peguei o metrô (pela primeira vez na vida) até o Terminal Barra Funda onde embarquei noutro ônibus que me levaria a Tatuí. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem pela rodovia Castello Branco, na maior parte formada por longos trechos em linha reta, pareceu nunca acabar. Observava ansioso as placas no caminho querendo logo ler a palavra “Tatuí”. Menos de duas horas depois, de repente, o ônibus saiu da Castello e entrou na rodovia SP 127, que passa em frente à Casa Publicadora Brasileira. Levantei-me, peguei minha bolsa e pedi ao motorista para parar na editora, ao que ele respondeu: “Ali está ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal pude acreditar no que vi. Do outro lado da rodovia estava uma das maiores editoras adventistas do mundo, que eu só conhecia por fotos. Dava para ver quase todo o pavilhão industrial e parte do prédio administrativo. Era tudo muito grande e bonito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-sRNguySZTVk/TVMp8lXcJUI/AAAAAAAANJs/BvO9QB9oFHU/s1600/CPB.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="207" src="http://4.bp.blogspot.com/-sRNguySZTVk/TVMp8lXcJUI/AAAAAAAANJs/BvO9QB9oFHU/s400/CPB.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;O ônibus parou e na minha frente desembarcou um senhor que eu identifiquei como um dos editores. Como eu admirava aqueles homens e mulheres que usavam o computador e a caneta como “púlpito” para alimentar milhares de leitores com palavras que salvam e edificam. Estremeci só de pensar que talvez pudesse vir a me tornar um deles.&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Meu coração acelerou quando vi o logotipo da Casa em aço em frente à portaria da empresa. Os olhos ficaram úmidos de emoção. Identifiquei-me e entrei no complexo. Enquanto caminhava em direção à recepção interna, fiquei encantado com os belos jardins floridos e com as árvores majestosas que lembram pinturas da Nova Terra. Tudo era realmente muito belo, limpo e organizado. Na fachada principal, pude ler: “Casa Publicadora Brasileira, Editora dos Adventistas do Sétimo Dia.” E em letras azuis: “Jesus Cristo é a Resposta.”&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-_pycq7Wcz8c/TVMq4AhhAQI/AAAAAAAANJw/accK3tSmFiE/s1600/Casa2.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="200" src="http://3.bp.blogspot.com/-_pycq7Wcz8c/TVMq4AhhAQI/AAAAAAAANJw/accK3tSmFiE/s200/Casa2.jpg" width="199" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Passei por dois tanques com carpas douradas, brancas e pretas, entrei pelas portas de vidro fumê e a recepcionista sorridente avisou à secretária do pastor Lessa de que eu havia chegado. Em instantes, o homem surgiu na minha frente. Ele era magro, caminhava com passo firme e tinha um olhar inteligente. Pelo porte não aparentava os sessenta e tantos anos que tinha. Apertou minha mão e sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como vai? Fez boa viagem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondi que sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Venha comigo. Minha sala é por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que caminhávamos em direção à Redação, pude avistar vários corredores longos e pessoas indo e vindo com papéis e pastas na mão. Seria fácil me perder naquele labirinto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Andréa, este é o Michelson. &lt;em&gt;O da foto&lt;/em&gt;, lembra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, sim, lembro – ela não conseguiu esconder o sorrisinho maroto. – Como vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A secretária do pastor Lessa era bem simpática, gentil e prestativa. Tempos depois, ela acabaria me revelando o “mistério” da tal foto. Meses antes da entrevista eu havia enviado um artigo acompanhado de uma foto. A única foto boa que eu tinha de terno e gravata havia sido tirada no intervalo de um curso para jovens realizado no antigo Centro Adventista de Treinamento (Catre), em Itapema, SC. Era Inverno e a Débora eu caminhávamos pela praia. Subi num brinquedo que tinha uma tela e nela havia um buraco. Coloquei o rosto ali e a Débora me fotografou. Gostei da foto. Pensando que na editora poderiam “recortar” meu rosto, enviei a foto junto com o artigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum tempo depois, vasculhando os arquivos, a Andréa localizou minha foto e mostrou ao pastor Lessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Esse é o Michelson? – ele perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim – ela respondeu, e completou: – Não parece que ele está num galinheiro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois caíram na risada. E por isso tiveram que conter o riso quando o “moço do galinheiro” apareceu na Redação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-wRz9DL2Ilfk/TVMntLv3p2I/AAAAAAAANJk/0DL5vyJdduI/s1600/galinheiro.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="318" src="http://1.bp.blogspot.com/-wRz9DL2Ilfk/TVMntLv3p2I/AAAAAAAANJk/0DL5vyJdduI/s320/galinheiro.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;O “moço do galinheiro”&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Quando entrei na sala do redator-chefe, fiquei maravilhado. Atrás da cadeira dele havia uma estante de madeira cheia de livros. Na parede à direita, dois quadros com pinturas de cenas bíblicas ornamentavam o ambiente. Sentei-me em frente à mesa de madeira escura e, enquanto o pastor Lessa me fazia várias perguntas – relacionadas à minha conversão, passando por meu casamento e atuação na igreja, até o meu trabalho na escola adventista de Florianópolis e na Rádio Novo Tempo –, estremeci só de pensar que daquela conversa dependia todo o meu futuro. Elevei a Deus uma prece silenciosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sinal do meio-dia soou, interrompemos a conversa e fomos almoçar no refeitório da empresa. A comida era vegetariana e centenas de funcionários faziam suas refeições ali todos os dias. Depois do almoço, sempre dava fazer uma caminhada em meio aos jardins. Que contraste entre aquele ambiente tranquilo e o corre-corre dos meus dias em Florianópolis, quando mal dava para engolir o almoço antes de entrar no ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À uma hora, o pastor Lessa e eu estávamos de volta à sala dele. Depois de mais alguns minutos de conversa e uma prova oral de conhecimentos gerais, fui submetido a um exame escrito de gramática, na sala de reuniões da Redação – apropriadamente batizada de Sala de Reuniões Guilherme Stein Jr., já que esse pioneiro havia sido o primeiro editor a produzir literatura adventista em língua portuguesa, além de ter sido o primeiro converso da Igreja Adventista batizado no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quinze horas, o sinal soou novamente, deixando-me confuso. Seria o fim do expediente, tão cedo? Depois fui informado de que além dos costumeiros sinais de início e fim da jornada de trabalho e do intervalo para almoço, o sinal soa às nove e às quinze horas, avisando os funcionários de que é o momento da pausa para oração. Onde quer que esteja, a pessoa – funcionário ou visitante – é convidada a participar de uma prece pelo trabalho desempenhado na editora e pela pregação do evangelho. Aquilo me deixou impressionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o exame, fui levado para um &lt;em&gt;tour&lt;/em&gt; pela editora. Pude ver as enormes impressoras planas e a rotativa de vários metros de comprimento, capazes de imprimir milhares de páginas por hora com textos que salvam e instruem. Pude ouvir algumas histórias relacionadas com a editora, como a do ex-presidiário transformado por um folheto. Quando foi libertado, ele não sabia que rumo dar a sua vida. Sentado numa sarjeta após a chuva, ele pôde ver um pedaço de papel amassado vindo em sua direção, boiando no fio de água que corria embaixo de suas pernas. Ele pegou o folheto impresso pela Casa Publicadora Brasileira, leu a mensagem, procurou uma igreja adventista, recebeu estudos bíblicos, foi batizado e começou nova vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa era apenas uma entre muitas histórias que mostram que a CPB é mais do que apenas uma editora de livros e revistas. Seria bom demais fazer parte dessa história, dessa missão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, depois de me levar para jantar, o pastor Lessa gentilmente me mostrou a cidade de Tatuí, também conhecida como “cidade da música”, devido ao fato de abrigar um famoso conservatório musical mundialmente conhecido. O centro da cidade fica a uns dez quilômetros da CPB. O município tem quase duzentos anos, mas a população não passa muito de cem mil habitantes e dá para contar nos dedos o número de edifícios. No entanto, o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de praças na cidade. Pareceu-me haver uma por quarteirão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 23h30 embarquei no ônibus que me levaria a Curitiba, onde tomaria outro para Florianópolis. Dormi pouco na viagem que durou toda a madrugada, pois o veículo parava muito e minha mente estava fervilhando de pensamentos e sonhos. Mal via a hora de poder contar para a Débora tudo o que eu havia visto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trinta longos dias se passaram sem que eu recebesse qualquer notícia da Casa Publicadora Brasileira. Já estava me consolando com o pensamento de que havia sonhado alto demais, afinal, eu era apenas um jovem recém-formado, sem muita experiência em jornalismo e menos ainda do ramo editorial. Devia haver muita gente interessada no cargo que eu poderia ocupar na editora. Então por que eu? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto aguardava a quebra do silêncio angustiante, lembrei-me de algumas cartas que havia trocado com um jornalista adventista que, como eu, dava aulas de História em Curitiba. Ruben Dargã Holdorf era também repórter do jornal &lt;em&gt;O Estado do Paraná&lt;/em&gt; (hoje ele é professor no curso de Jornalismo do Unasp). Não sei bem como iniciamos a correspondência (na época ainda não usávamos e-mail), só sei que procurávamos animar um ao outro, pois nosso desejo era de contribuir na obra de Deus por meio de nossos talentos e formação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa dessas cartas, datada de 14 de julho de 1997, Dargã escreveu: “Graças ao poder divino, temos suportado todas as provas, galgando sempre novos degraus e, assim, aperfeiçoado nosso caráter. Fique certo de que estaremos orando para o Senhor apresentar a você e sua família Seus planos. Confie nEle e aceite o que vier. Viva o presente, confiando que o futuro pertence a Ele somente. Mais para frente Deus repartirá com você Seus anseios e desejos. Nós também vivemos uma tremenda expectativa, mas aprendemos, após muito apanhar, que, às vezes, precisamos nos aperfeiçoar mais na escola da vida, do dia a dia. Assim, nossa esperança cresce.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De fato, o sofrimento e as lutas nos preparam para enfrentar a vida. Moisés teve que passar quarenta anos no deserto pastoreando as ovelhas do sogro, até que Deus o considerou apto para a tarefa gigantesca de guiar milhões de pessoas à terra prometida. Paulo também teve sua escola no deserto antes de poder falar às multidões. Longe de querer me comparar a esses gigantes da fé, o que quero destacar é que o meu “deserto” durou pouco: apenas dois anos e meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa manhã de abril, o telefone tocou na redação da rádio. Era o presidente da Associação Catarinense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olá, pastor. O senhor tem alguma notícia para mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho sim. Mas não sei se é o que você gostaria de ouvir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei por que, tive a impressão de que ele estava brincando comigo e tentei averiguar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O senhor está brincando...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou, sim, filho. Pode arrumar as malas. A CPB te chama. Eles precisam de um editor associado para livros didáticos. Alguém que escreva bem e que tenha experiência em sala de aula. Parece que acharam a pessoa certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livros didáticos! O pastor Lessa tinha comentado isso comigo durante a entrevista, mas na ocasião eu não me havia dado conta de como as coisas se encaixavam perfeitamente e de como o meu “deserto” realmente não fora tão prolongado. Meus dois anos e meio de experiência em sala de aula haviam sido o verdadeiro teste; a preparação adequada. E pude constatar mais uma vez que o trabalho bem feito, não importa qual seja – se numa metalúrgica ou numa escola –, é um verdadeiro cartão de visitas que depõe contra ou a favor de nós. Conforme escreveu Ellen White, “aquilo que merece ser feito, merece ser bem feito” (Mensagens aos Jovens, p. 145).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 1º de maio de 1998, um dia frio de feriado, entramos na casa alugada em que moraríamos a partir dali. Uma casa de meio lote no bairro Junqueira, em Tatuí. A casa estava praticamente vazia, pois não tínhamos mobília. Mas era a nossa casa. A partir dali iríamos ter nossa vida. Era como se estivéssemos começando a vida de casados. Uma nova vida em todos os sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-jXdAPPEcir0/TVMoon8-JcI/AAAAAAAANJo/t1aRo7iNJXU/s1600/Michelson1.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/-jXdAPPEcir0/TVMoon8-JcI/AAAAAAAANJo/t1aRo7iNJXU/s400/Michelson1.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;O escritório na Redação da Casa Publicadora Brasileira (2005)&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;No dia seguinte, abri a porta da minha sala na redação da Casa Publicadora Brasileira. Sentei-me na cadeira giratória em frente ao computador. Contemplei o jardim que podia ser visto através da janela do escritório. O céu estava azul, sem nuvens. Com um sorriso nos lábios, repeti em pensamento: “Bom é o Senhor para os que esperam por Ele, para a alma que O busca.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-5460586255998723503?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/5460586255998723503/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=5460586255998723503&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/5460586255998723503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/5460586255998723503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2011/02/capitulo-21-o-chamado.html' title='Capítulo 21 - O chamado'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-3yvcrjMR8cM/TVMlnCbYDzI/AAAAAAAANJY/tv8i3eff6fg/s72-c/casamento3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-7939942232587310651</id><published>2011-02-08T18:33:00.000-08:00</published><updated>2011-02-09T16:31:47.091-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 20 - Um só coração</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;“Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que Me temam todos os dias, para o seu bem e bem de seus filhos” (Jeremias 32:39).&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Era o nosso terceiro ano de namoro e eu não conseguia mais imaginar a vida sem meu amado. Mas as circunstâncias não eram favoráveis para pensar em casamento, pelo menos não naquele momento. Não tínhamos condições financeiras de ter nossa casa própria e de manter um lar. O Michelson não conseguia trabalho em sua área de formação (comunicação), pelo fato de ser fiel aos mandamentos de Deus e guardar o sábado bíblico. Além disso, ele dava poucas aulas na escola adventista. Eu era recém-formada no ensino médio e ainda estava pensando em me preparar para cursar uma faculdade no ano seguinte. Mesmo assim, sentia que Deus nos ajudaria de alguma forma, e ao pensar no futuro, meu coração se enchia de esperança de que nossa situação iria melhorar. Então, apesar de não termos dinheiro suficiente, marcamos a data do casamento para o fim daquele ano de 1996, e eu comecei a sonhar com o grande dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo semestre, surgiu a oportunidade de eu substituir uma auxiliar de professora numa creche da rede estadual. Era uma experiência nova que me marcaria a vida. Aprendi muitas coisas, principalmente o que fazer e o que não fazer no relacionamento com crianças e com as famílias delas. Na verdade, aquele emprego acabou me influenciando para cursar Pedagogia anos depois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O salário na creche era baixo, mesmo assim, foi possível guardar um pouco de dinheiro para ajudar nas despesas do casamento. Além do mais, eu gostava de trabalhar lá e apreciei as amizades que fiz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro dia de trabalho, a professora que eu iria auxiliar, a Stela, percebeu que eu era religiosa e me abordou com a pergunta: “Você acha que Deus pode perdoar qualquer pecado? Qualquer um?” Ela revelou angústia e inquietação no olhar. Procurei assegurar-lhe de que o amor de Deus é incondicional – eu sabia disso por experiência. Ele nunca deixa de nos amar e está sempre disposto a nos perdoar e nos dar uma chance de mudar. Ela me pediu para confirmar isso várias vezes e me fez muitas perguntas sobre a Bíblia. Ofereci-me para estudar a Palavra de Deus na casa dela, nos sábados à tarde, e ela aceitou com alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma professora de outra classe sempre ficava me observando quando nos encontrávamos. Eu achava que ela não gostava de mim porque minha tia havia sido noiva do esposo dela e aquela reação à minha presença poderia sem algum tipo de implicância. Um dia, no horário do lanche das professoras, ela sentou ao meu lado e me perguntou em alto e bom som, para que todas pudessem ouvir: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E aí, Débora, você que conhece bem a Bíblia, diga para nós quando é que Jesus vai voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para ela e vi que estava sorrindo. Interpretei aquilo como deboche e senti o rosto ficar quente. Devo ter corado, mas procurei responder com calma, porém, num tom de seriedade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Bíblia diz que o dia e a hora ninguém sabe, mas Jesus nos deixou alguns sinais que mostram a proximidade desse dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? Eu gostaria de saber mais sobre isso – ela disse com sinceridade na voz. – Posso estudar a Bíblia com vocês, na casa da Stela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei tão surpresa que não soube o que dizer naquele momento. Estava esperando provocação, mas, na verdade, ela queria mesmo conhecer as Escrituras Sagradas. A partir daquele dia, nos tornamos grandes amigas e ela passou a estudar a Bíblia conosco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nosso grupo de estudos foi crescendo. A coordenadora da creche estava de licença por causa de depressão e ficou sabendo dos estudos bíblicos. Ela e o esposo pediram para se unir a nós. Depois de mais algum tempo, outra auxiliar nos contou que o marido havia estudado a Bíblia com um adventista. Na época, ela foi contra porque tinha muito preconceito. E de tanto brigar com ele por causa dos estudos, ele acabou desistindo. Mas ela começou a ler a lições dele e a compará-las com a Bíblia. Viu que o que ele havia estado estudando era correto e descobriu muitas coisas que não conhecia sobre Deus e sobre a vontade dEle. Agora ela estava arrependida de tê-lo feito desistir dos estudos, mas ele realmente havia perdido o interesse e não quis voltar atrás. Sabendo disso, a convidamos para se unir a nós nos estudos e ela concordou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, a Stela, que motivou o início dos estudos na casa dela, não foi perseverante. Na verdade, ela nunca abriu de verdade o coração. Estava sempre agitada e não se concentrava no que estávamos estudando. A exemplo de Marta, irmã de Lázaro e Maria, ela ficava preocupada com outras coisas e mal conseguia se sentar para ouvir. Deixava que tudo ao redor interrompesse sua atenção e aos poucos foi colocando empecilhos para não continuar o estudo. Fiquei triste por ela. Era uma pessoa boa, mas nunca conseguia estar em paz – e eu sabia que Jesus podia dar-lhe a paz que ela desejava. Continuei orando por ela, mas tivemos que mudar o local da classe bíblica e prosseguir sem ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vida e do Michelson antes do casamento virou uma correria só e mal tínhamos tempo para namorar. Apesar de sentir muita satisfação por tudo o que fazíamos, minha esperança era de que depois de casados pudéssemos ter mais tempo para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como não tínhamos automóvel, perdíamos muito tempo no percurso entre um lugar e outro. Um dia calculei quanto tempo havia desperdiçado dentro dos ônibus e achei absurdo. O Michelson conseguia ler até em pé, nas viagens, mas eu ficava enjoada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde a segunda série eu pegava ônibus para ir à escola. Na sexta-série, fui estudar em Florianópolis e aí a viagem demorava ainda mais. Se tudo corresse bem e o trânsito fluísse normalmente, levava uma hora para ir e uma hora para voltar. Mas, na volta para casa, o congestionamento era terrível e a viagem frequentemente levava até duas horas. Isso em um ônibus velho, com bancos desconfortáveis e cheirando a óleo queimado que eles passavam no assoalho do veículo. De vez em quando, via pessoas escorregando por causa daquele óleo. Não sei por que passavam aquilo no ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pior parte da viagem era quando saíamos da BR 101 e entrávamos num bairro anterior àquele em que eu morava. Ali não havia calçamento. A estrada era de terra e cheia de buracos e curvas. Mesmo assim, os motoristas não diminuíam a velocidade e íamos literalmente sacolejando até chegar à Barra do Aririú. Quando a porta do ônibus se abria para sair ou entrar passageiros, junto entravam nuvens de pó. Se lambêssemos os lábios, dava para sentir o gosto do barro. Então, eu chegava em casa com odor de óleo misturado com poeira, e os cabelos quase nem mais balançavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A creche em que eu trabalhava não ficava tão longe de casa, mas era preciso tomar dois ônibus, ou apenas um e caminhar mais uns dois quilômetros. Eu preferia caminhar, quando não estava chovendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo ia passando e a data marcada para o casamento se aproximava. Eu ainda esperava por um milagre. Sonhava em pelo menos ter nosso cantinho para morar. Nem que fosse um cômodo e um banheiro, mas que pudéssemos ter nossa privacidade e começar a construir a vida juntos. Fomos até ver uma quitinete para alugar, mas qualquer aluguel consumiria a maior parte do nosso salário, e todos diziam que era jogar dinheiro fora. Não sabíamos o que fazer. E o Michelson ainda sonhava e fazia planos para cursar teologia. O futuro era bem incerto, mas orávamos e eu sentia que Deus estava cuidando de tudo. Eu me sentia mesmo como uma filhinha querida e confiava que meu Pai celestial cuidaria de nós, de um jeito que eu ainda não conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que às vezes eu ficava ansiosa e surgiam sentimentos de angústia e vontade de ver tudo resolvido mais rápido e da maneira que eu queria, sem esperar que Deus fizesse do modo dEle. Mas ainda bem que Ele é soberano e dirige tudo, porque se Ele atendesse todos os meus pedidos, não sei onde estaríamos sofrendo hoje. É como escreveu C. S. Lewis, em seu livro &lt;i&gt;O Problema da Dor&lt;/i&gt;: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando queremos ser algo além do que Deus quer que sejamos, estamos desejando na verdade aquilo que não nos fará felizes. As exigências divinas que soam aos nossos ouvidos naturais mais como as de um déspota e menos como as de alguém que ama nos conduzem aonde deveríamos querer ir, caso soubéssemos o que desejamos” (p. 63). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, o Michelson e eu fomos visitar a amiga Rafaela. Ela havia conhecido um jovem, filho de líderes da Igreja Adventista Central de Palhoça. Namoraram pouco mais de um ano e se casaram três meses antes de nós. A casa deles era pequena, mas bem bonitinha. Tudo era novo, ficava em um bairro razoavelmente bom, e o melhor: era deles. O Michelson pregou na igreja que ficava ali perto e passamos o dia lá. Foi muito agradável. A Rafaela amava muito o esposo e não mais parecia guardar qualquer ressentimento por mim. Conversamos muito sobre a Bíblia e também sobre os planos que tínhamos para o futuro. Mas, embora nosso casamento estivesse marcado, não sabíamos dizer onde iríamos morar ou quando poderíamos ter uma casa, como nossos amigos tinham.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na volta para a casa dos meus pais, no ponto de ônibus, o Michelson notou que meu olhar estava um pouco triste e talvez ele tenha ficado meio chateado comigo. Como se pudesse ler meus pensamentos, ele disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei que você gostaria de estar numa situação parecida com a deles. Só que enquanto ele trabalhava e guardava dinheiro para comprar casa e carro eu estava estudando e gastando dinheiro. Mas saiba que não me arrependo nem um pouco. O que ele tem pode acabar, mas o conhecimento que adquiri ninguém pode me tirar, e para mim vale muito mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não queria que o Michelson sentisse aquele peso e nem desejava dar a impressão de estar fazendo qualquer tipo de comparação entre a vida deles e a nossa. Na verdade, eu também pensava como meu noivo, mas sonhava ter nossa casinha e não precisar mais perder tanto tempo andando de ônibus. Mas, definitivamente, bens materiais nunca foram a prioridade do Michelson. Ele só tinha interesse em continuar estudando e pregando o evangelho. Se Deus nos acrescentasse algo, seria muito bom, mas meu futuro marido não buscava lucro. Até hoje, quem se preocupa mais com a parte financeira de casa sou eu. E não reclamo disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que ele era uma pessoa muito especial, diferente daqueles que só pensam em acumular tesouros neste mundo. Ele me ensinou que nossa segurança, até mesmo financeira, reside em nossa dependência de Deus. Por isso, ao lado dele, eu me sentia tranquila, embora não tivesse quase nada concreto em que me apoiar. Mas, dentro de pouco tempo, nossa fé seria ainda mais severamente provada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite de sexta-feira, uma prima que morava num bairro distante aguardava no carro com meus tios em frente à igreja. Fiquei muito surpresa ao vê-los ali nos esperando e mais ainda quando nos contaram o motivo da visita. Ela soube que eu iria me casar e veio nos oferecer um apartamento financiado que ela queria vender. Ficamos interessados, mas pedimos desculpas e explicamos que não iríamos conversar sobre negócios nas horas do sábado. Expliquei-lhes que era o dia do Senhor e que nós respeitávamos a Lei de Deus. Eles ficaram um pouco desconsertados, mas não insistiram e prometeram voltar no domingo pela manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei completamente entusiasmada e queria crer que aquilo era uma resposta às minhas orações. Saí falando para todo mundo, sem nem saber se o negócio daria certo, porque eu queria muito que Deus nos desse um lugar para morar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo, eles levaram todos os papeis para nos mostrar: planta, contrato, fotos. Acreditamos cegamente que aquele plano havia “caído do Céu” e fechamos negócio sem ao menos ter ido ao local. Para o Michelson isso não importava muito, pois nos planos dele moraríamos lá por pouco tempo. A promessa era de que o apartamento ficaria pronto em fevereiro daquele ano, três meses depois do nosso casamento. Então, ele achava que ficaríamos lá apenas até o fim do ano, quando poderíamos vender o imóvel para ir para o Chile, onde o Michelson pretendia cursar Teologia. Ele se referia a essa ideia como “plano B”, já que o “plano A” (de estudar no Unasp) havia falhado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não seria fácil pagar as parcelas do apartamento e ainda manter as despesas normais de um lar. Não teríamos dinheiro para comprar mais nada. Ainda assim, contaríamos com a ajuda do meu pai para a alimentação ou qualquer necessidade extra que surgisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava feliz e preocupada. Muitas pessoas nos aconselharam a pensar melhor no negócio, mas eu nem me dei tempo para duvidar de nada. Queria que desse tudo certo, e pronto. Quais eram as nossas opções? Morar no “meu” quarto, na casa dos meus pais, ou pagar aluguel. E, se realmente fôssemos para o Chile no ano seguinte, teríamos feito um ótimo investimento, pois os imóveis costumam valorizar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda-feira, providenciamos os documentos necessários e saquei o valor que minha prima pediu para cobrir o que ela já havia pago. Era exatamente o que eu tinha conseguido economizar. Lá no escritório da construtora, chamou-me a atenção uma jovem que estava muito impaciente. Ela falava nervosamente que não aguentava mais esperar e por fim saiu dizendo: “Eu desisto!” Perguntei para outra moça que estava ali o que havia acontecido para aquela mulher ficar assim tão nervosa, e a moça explicou que era pela demora na entrega do apartamento. Então fiquei sabendo que aquela já havia sido a terceira remarcação de data, e que provavelmente, pelo andamento das obras, dali a cinco meses o nosso apartamento ainda não estaria pronto. Mas a moça parecia bem mais otimista do que aquela que tinha saído aos gritos, e acreditava que no máximo até o meio do ano eles entregariam as chaves. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei um pouco desanimada ao pensar que teria que esperar tanto tempo, mas já que estávamos ali no escritório prestes a assinar o contrato, fomos adiante. Quem sabe eles conseguissem entregar o nosso apartamento antes do prazo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha prima não havia mencionado absolutamente nada sobre essa demora e ficou um pouco envergonhada ao me ver descobrir tudo minutos antes de assinar os documentos. Eu simplesmente ignorei as evidências e a insegurança que estava sentindo. Ingenuamente e também constrangida de voltar atrás, quis manter o negócio e ainda acreditar que logo teríamos nosso lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquilo, os preparativos para a cerimônia e a festa de casamento absorveram toda a minha mente, meu coração e meu tempo. Nossos pais iriam dividir os gastos e dentro do orçamento me deram carta branca para escolher o que eu quisesse. Minhas ideias começaram a fervilhar. Passei a prestar atenção como nunca em vestidos de noiva, decorações... e reunia aquilo que eu achava mais bonito de cada casamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi um casamento em que os noivos paravam embaixo de um quadrado de flores (que não eram naturais) em frente ao pastor. Achei lindo e quis fazer um arco de flores para nós, mas com flores naturais e bastante verde. Assisti a outro casamento em que os pilares dos arranjos do corredor eram de vidro e iluminados. Então comecei a pensar como seriam os nossos. Fui a algumas floriculturas a procura de bons preços e de quem estivesse disposto a materializar cada detalhe dos meus sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na terceira tentativa, encontrei uma pequena floricultura no caminho da creche em que eu trabalhava. Na entrada do estabelecimento, havia uns suportes (pedestais) que mais pareciam colunas romanas, com lindos arranjos de flores. Perguntei se aqueles suportes poderiam ser usados nos corredores da igreja, no meu casamento, e a Rita, a proprietária, disse que sim e também concordou em fazer o arco de flores, e tudo por um ótimo preço. Ela era muito simpática e atenciosa, e vibrava comigo imaginando como tudo ficaria lindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pendurada na parede havia a foto de um bebê. Quando perguntei quem era, lágrimas rolaram pela face da mulher. “É minha bebezinha. Ela morreu no ano passado com quatro meses de vida. Os médicos não descobriram o motivo. Dizem que foi morte súbita.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, falei-lhe sobre a volta de Jesus e a ressurreição. Quase todos os dias eu passava lá, conversávamos sobre o casamento e sobre as promessas de Deus de nos dar a vida eterna em companhia daqueles a quem amamos. Tenho certeza de que foi Deus quem me encaminhou especificamente para aquela floricultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo voava e eu vivia sonhando acordada. Queria que tudo saísse do jeito que eu havia planejado. A ansiedade estava tomando conta de mim. Para os homens, esses detalhes talvez não importem tanto, mas para a maioria das mulheres o dia do casamento e de se vestir de noiva é como viver um dia de princesa parecido com os contos de fada da infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava vivendo um sonho e quase nem mais pensava nos dias que se seguiriam à cerimônia e à festa; em nosso futuro. Achava que o assunto do apartamento estava caminhando muito bem e logo tudo estaria finalmente resolvido. Eu só pensava no “grande dia”; no momento em que eu entraria na igreja vestida de branco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rita disse para não me preocupar com a decoração, pois as noivas ficam tão nervosas durante a cerimônia que praticamente não notam nada. Foi a pior coisa que ela poderia ter me dito, porque coloquei na cabeça que iria reparar em cada detalhe! Só uma coisa poderia estragar tudo: a possibilidade de eu chorar. Se começo a chorar, não paro mais. Perco o controle das emoções. Todos os dias eu orava pedindo a Jesus que não me deixasse chorar. Era um pedido especial e eu sabia que somente Deus poderia segurar minhas lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto mais o grande dia se aproximava, mas a correria para deixar tudo pronto se intensificava. Para piorar minha tensão, tivemos alguns contratempos com coisas muito mais importantes do que a decoração. Simplesmente duas semanas antes do dia do casamento, os responsáveis pelo &lt;i&gt;buffet &lt;/i&gt;que eu havia contratado me disseram que não seria mais possível realizar a festa no salão combinado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como assim?! Faltam apenas duas semanas para o casamento, os convites foram distribuídos... O que vou fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cozinheiros da festa haviam prometido alugar um belo salão com vista para a ponte Hercílio Luz, no clube da empresa da qual eles eram funcionários. Mas, àquelas alturas, eles tinham descoberto que só poderiam usar o salão pagando uma taxa irrisória se fosse para a família &lt;i&gt;deles&lt;/i&gt;. Do contrário, o valor cobrado seria muito maior. Nossos recursos já estavam comprometidos e ficamos sem saber o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há situações em que só nos resta chorar. E foi isso mesmo o que fiz. Procurei a diretora do clube, expliquei-lhe a situação e comecei a chorar diante dela. Mesmo assim, ela disse que só poderia me ajudar com cinquenta por cento de desconto. Foi uma ajuda válida e valeu cada lágrima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava tudo quase perfeito. Mas, por mais que tentemos, parece que sempre ficam detalhes para resolver no último dia, no último momento. De manhã, eu quis ir até a igreja para ver como estava a decoração. Quando cheguei com o Michelson, fiquei totalmente frustrada. Eu havia combinado que seriam flores em tom pastel, mas os decoradores estavam colocando todo tipo de flores e cores. Tive a impressão de que deviam ser sobras de outro casamento realizado no sábado, pois, além de tudo, estavam um pouco murchas. Quando vi os pedestais no corredor, desanimei de vez. Disseram-me que não era possível usar os que eu havia escolhido porque eram muito pesados. Em lugar deles, acabaram levando uns de madeira rústica. O Michelson percebeu meu olhar de tristeza e decepção. Então, as palavras dele conseguiram me animar e despertar para a realidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora, vai ficar bonito. As cores fortes darão mais vida, as fotos ficarão mais bonitas. Ninguém vai reparar nos pedestais. Não fique preocupada; confie neles. Eles sabem o que estão fazendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas palavras me fizeram pensar no que realmente era importante. Fiquei tão feliz em olhar para meu noivo e por tê-lo ao meu lado! Agradeci a Deus porque eu estava vivendo aquele dia e iria me casar com o amor da minha vida, um homem tão bom e temente a Deus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de todos os detalhes não terem ficado como eu havia planejado, consegui relaxar e pensar que depois de tudo o que ficaria na memória das pessoas eram a impressão do nosso amor, a felicidade e a presença de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, acho que não foram somente as palavras do meu noivo que me acalmaram, mas, sim, a atitude dele. Ele me transmitia segurança. O Michelson conseguia sempre ser otimista e dificilmente perdia a calma. Eu era bastante ansiosa e muitas vezes via as dificuldades maiores do que realmente eram, só para perceber, no fim das contas, que a maioria dos meus temores não se concretizava. Com o tempo, fui aprendendo a me entregar realmente nas mãos de Deus e parar de antecipar sofrimentos, uma vez que “Ele tem cuidado de [nós]” (1 Pedro 5:7) e sempre convida: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de todo o estresse e da correria, mal acreditei que havia chegado à porta da Igreja Adventista de Campinas, em São José, pontualmente às dezenove horas, como combinado. Estava ali pronta para entrar, quando vieram correndo me avisar para não sair do carro porque o pai do Michelson havia ido levar o bolo ao salão de festas e estava preso no congestionamento de Verão, na BR 101, próximo à entrada de Florianópolis. Naquele horário, os turistas costumavam sair das praias e o trânsito ficava extremamente lento. Por isso, fiquei ali esperando por uma hora até o pai do noivo chegar! Só que, como a noiva sempre leva a culpa, todos pensaram que eu havia chegado atrasada para a cerimônia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, ouvi a marcha nupcial. Parecia um sonho! Aquela música me encheu de emoção, e quando fitei o Michelson com olhar de cumplicidade, as lágrimas ameaçaram jorrar. Imediatamente clamei a Deus em pensamento e O lembrei do nosso acordo: “Por favor, Senhor! Não me deixe chorar!” “Engoli” o choro e continuei sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-rGuYiFlsA98/TVMkiqceh5I/AAAAAAAANJU/TXPKddvg6OE/s1600/casamento5.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="248" src="http://2.bp.blogspot.com/-rGuYiFlsA98/TVMkiqceh5I/AAAAAAAANJU/TXPKddvg6OE/s400/casamento5.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;A cerimônia foi singela, mas o pastor Ademar Paim conseguiu tocar o coração dos convidados. À porta, pude notar que todos estavam emocionados e transmitiam sentimentos de carinho e contentamento. Foi muito gostoso receber tantos abraços amistosos e sinceros. Parecia que as pessoas estavam exalando amor. O clima era de felicidade e esperança, não somente em relação a nós dois. Pude sentir que o sermão e as músicas – uma das quais cantada pela Emanuela – haviam promovido um verdadeiro reavivamento entre as famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;Geralmente, os casais dizem que não conseguem comer em sua festa de casamento. No entanto, toda a tensão daquele dia havia me deixado faminta. Agora eu estava tranquila e realizada. Fiz questão de comer muito bem e de aproveitar cada momento. Infelizmente, o tempo passou rapidamente e algumas pessoas tiveram que ir embora – principalmente alguns parentes que moravam longe – sem conversar conosco. Tive a sensação de que algo estava faltando. Mas era uma grande ilusão pensar que seria possível dar atenção a todos os duzentos convidados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, dois jovens felizes e cheios de sonhos caminhavam de mãos dadas por uma praia deserta, em Garopaba, SC. O dia estava nublado e não muito quente, fazendo com que a praia fosse só “nossa”. Acho que estava estampado em nosso rosto: “Recém-casados!” Estávamos simplesmente “abobalhados”. Às vezes, fixávamos o olhar um no outro e caíamos na risada. Então o Michelson me abraçava e sussurrava: “Minha esposa”, e eu devolvia: “Meu marido.” Era como se estivéssemos dizendo repetidamente: “Casei! Casei! Casamos! Nem acredito!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha tia Roseli havia sido muito bondosa em nos emprestar por uma semana a casa de praia da família dela. Ali tivemos uma amostra do que é viver casados e ter nosso próprio cantinho para construir nova vida juntos. Foram momentos preciosos e inesquecíveis. Uma confirmação de que os planos de Deus para o ser humano sempre são os melhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH7Tm0ZrFI/AAAAAAAANIc/-MRhgFmENss/s1600/garopaba.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="248" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH7Tm0ZrFI/AAAAAAAANIc/-MRhgFmENss/s400/garopaba.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Depois que a lua de mel acabou, tivemos que voltar para a casa dos meus pais e ajeitar nossos poucos pertences no “meu” quarto: a cama de casal que havíamos ganhado de presente do tio João, uma estante de livros do Michelson, a escrivaninha usada dele e um aparelho de TV velho que ele tinha ganhado quando era criança. Os outros presentes ficaram encaixotados na sala de estar, até que nosso apartamento ficasse pronto e pudéssemos levar tudo para lá. Era só uma questão de meses, pensávamos, sem saber o que nos aguardava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o passar do tempo, nossa esperança de morar no apartamento foi se transformando em angústia. Cada vez que chegava a data marcada para a entrega das chaves, havia nova remarcação de datas. Não víamos progresso na construção, apesar de os pedreiros estarem na obra. Dos quatro prédios do projeto, apenas um tinha sido levantado, e não era o nosso. A construtora alegava muita inadimplência, mas nós estávamos pagando fielmente em dia, com muito sacrifício. A maior parte do salário do Michelson era usada para pagar as prestações e o restante apenas cobria as despesas dele com transporte e alimentação. Ou seja, ele estava trabalhando apenas para pagar o apartamento. Se quiséssemos comprar algo ou passear, tinha que ser com o meu salário mínimo. Por isso, tudo era bem calculado e racionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus pais demonstraram muita bondade em nos acolher. Morávamos na casa deles sem contribuir com nada. Aquela situação era muito desconfortável para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fim do ano foi chegando e pude ver que o cansaço e o desânimo estavam quase vencendo meu marido. Ele estava profissionalmente insatisfeito, pois havia se preparado para ser jornalista e não professor de adolescentes. Quando ele chegava em casa, depois do longo percurso em um ônibus lotado, eu percebia no rosto abatido sinais de frustração. Falar do “Plano B” era única coisa que o reanimava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia algum tempo que o Michelson estava se comunicando com um amigo que cursava Teologia no Chile. Ele até havia comprado a Lição da Escola Sabatina em espanhol e estava tomando algumas aulas com um colega professor que tinha morado na Argentina. O valor das mensalidades da faculdade adventista lá era mais baixo do que no Brasil. Então, o “Plano B” consistia em vender o apartamento quando ele ficasse pronto, a fim de que, com o dinheiro, pudéssemos começar os estudos no outro país, no ano seguinte. Poderíamos ter guardado dinheiro naquele ano, mas acho que o Michelson decidiu investir no apartamento mais por minha causa, para satisfazer meu desejo de ter um lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;﻿﻿ &lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-j6OZdRzu5rE/TVMxhdnq2gI/AAAAAAAANKU/kroAKD8_w7Q/s1600/quarto.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="278" src="http://3.bp.blogspot.com/-j6OZdRzu5rE/TVMxhdnq2gI/AAAAAAAANKU/kroAKD8_w7Q/s320/quarto.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;"Meu" quarto, nossa primeira "casa"&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;﻿﻿ &lt;br /&gt;Mas o sonho nunca se concretizou. O ano terminou e ainda morávamos no “meu” quarto. Colocamos um anúncio no jornal para vender o apartamento “em construção”, mas ninguém se interessou em comprá-lo naquelas condições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos agora meio desnorteados. O contrato previa devolução de certa quantia do dinheiro pago, caso desistíssemos do plano. Mas iríamos perder boa parte do valor investido. Eu estava esperando saber que rumo iríamos tomar, para decidir onde faria minha faculdade. Enquanto esperava, me matriculei no curso de Pedagogia da UFSC, como aluna especial. A vantagem era que, se depois eu passasse no vestibular, poderia eliminar as matérias que já havia cursado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em fevereiro do ano seguinte, nossas esperanças em relação ao apartamento foram totalmente desfeitas. A construtora declarou falência e o dono acabou se suicidando. Agora não tínhamos nem mesmo a chance de reaver parte do dinheiro. Com isso, o “Plano B” também afundou. Não tínhamos um “Plano C” – mas não sabíamos que Deus tinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o Michelson chegou em casa com a triste notícia da falência da construtora, meu mundo desabou. Foi muito difícil dormir naquela noite. De manhã, meus olhos estavam inchados de tanto chorar. Quis perguntar a Jesus por que Ele havia permitido tudo aquilo. Mas me lembrei de que quando fechamos o negócio não havíamos consultado a Deus como deveríamos. Apesar de todos os sinais contrários, fui teimosa e escolhi ser iludida. Coloquei minha vontade acima de tudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus é muito bom e nunca deixa de nos amar. Embora às vezes tenha que permitir que soframos as consequências de nossas más escolhas, Ele nunca nos abandona. Mais uma vez pude sentir a mão dEle segurar a minha. Depois de orar, tirei da caixinha de promessas um cartãozinho com um verso bíblico: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5). Aquela “noite” parecia tão longa, mas ainda teria fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidimos ir até a Associação Catarinense conversar com o diretor de educação. Queríamos expor nossa situação e pedir que ele ajudasse o Michelson a conseguir mais aulas ou alguma maneira de ele obter ajuda para um aluguel. Na verdade, queríamos mais era desabafar e ver se ele poderia nos dar algum conselho, apontar uma luz no fim do túnel que para nós parecia ficar cada vez mais escuro e estreito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No trajeto para lá, ainda no ônibus, senti mais uma vez o toque de Jesus me consolando. Sintonizei meu rádio portátil na emissora adventista Novo Tempo, coloquei os fones de ouvido e comecei a ouvir uma música muito bonita. Senti como se aquela letra houvesse sido escrita especialmente para mim. Ela falava de uma promessa bíblica muito preciosa: “Serei contigo na alegria ou na dor. Quando orares, Eu te ouvirei. Lutarei nas batalhas que o mal te trouxer. Serei contigo, serei contigo, pois Eu sou teu Deus.” A música era cantada pelo grupo Harmuss, mas, para mim, parecia a voz de Deus me falando ao coração: “Filha, Eu estou vendo tudo; a vida de vocês Me pertence. Eu estou no controle. Nunca vou deixá-la.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali, no ônibus, as lágrimas brotaram mais uma vez. O Michelson me olhou com compaixão, apertou mais forte a minha mão e encostei a cabeça no ombro dele. Ele ainda não sabia, mas Deus já estava me confortando. Eu sentia que Deus tinha reservado algo de bom para o nosso futuro, só não sabia exatamente o quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diretor do departamento de educação foi muito atencioso conosco e demonstrou grande empatia. Depois de pensar um pouco sobre como poderia nos ajudar, ele fez algumas ligações telefônicas. Não havia espaço para o Michelson dar mais aulas, mas existia a possibilidade de ele trabalhar em algo que lhe daria mais prazer. Naquela época, a rádio Novo Tempo de Florianópolis tinha sido recém-inaugurada e estava precisando de jornalista para produzir um jornal diário. O diretor da rádio ficou interessado e marcou uma entrevista com meu marido. Na semana seguinte, ele já era o novo membro da equipe da emissora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a rádio estava começando suas atividades, tinha orçamento apertado. Por isso, o Michelson iria trabalhar somente algumas horas por dia. O salário aumentou um pouco, mas o que mais lhe trazia satisfação era o fato de poder atuar na área de formação dele. Fiquei feliz em vê-lo mais animado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram feitos arranjos na escola para que o horário das aulas não coincidisse com o expediente na rádio. Mesmo assim, era difícil chegar a tempo nos dois lugares. O Michelson precisava sair correndo da escola, pegar ônibus e cruzar a ponte a fim de chegar à rádio. Depois do almoço com tempo cronometrado, ele ajudava a apresentar o jornal ao vivo e em seguida voltava para a escola. Alguns dias nessa correria foram suficientes para o Michelson decidir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos comprar um Fusca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um Fusca?! Eu não gosto do cheiro de Fusca. Não pode ser um Chevette, um Fiat 147, qualquer outro?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Meu pai começou com um Fusca. Todo mundo na minha família começou com um Fusca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Detesto barulho de Fusca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você vai se acostumar. O Fusca é um carro forte, de manutenção barata. Não podemos ter um carro velho que fique quebrando a toda hora. Vamos guardar dinheiro neste ano e o Fusca é só para nos ajudar em nossas necessidades. Será um veículo missionário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH7vhfQGbI/AAAAAAAANIk/0YN5F8Z6fgE/s1600/fusca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH7vhfQGbI/AAAAAAAANIk/0YN5F8Z6fgE/s320/fusca.jpg" width="310" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;O Fusca azul 1973&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Assim, nosso fusquinha azul-claro se tornou um grande “companheiro” de atividades, de viagens para Criciúma e de trabalho missionário. Eu até estava começando a gostar dele. Sem dúvida, era bem melhor do que andar de ônibus. Para os admiradores de Fuscas, ele era lindo. Tinha sido fabricado em 1973 e era todo original. As calotas eram cromadas e o pegador da marcha tinha um caranguejo dentro do plástico transparente. Eu achava superbrega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A verdade é que o Fusca nos ajudava a ganhar tempo e, com ele, conseguíamos dar mais estudos bíblicos. Se algo estava nos trazendo alegria e satisfação no meio daquele turbilhão de desapontamentos, eram as pessoas sinceras que Deus colocava em nosso caminho para estudar a Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele grupo de estudos que começou com minhas colegas da creche já havia rendido frutos. A Simone e a Alessandra entregaram a vida a Jesus e foram batizadas naquele mesmo ano. O Pedro Daniel e a esposa, Salete, ainda não haviam tomado a mesma decisão das duas, mas sabíamos que eles eram pessoas especiais e que no momento certo a semente da Palavra de Deus germinaria também no coração deles. E foi o que aconteceu algum tempo depois. A semente frutificou mesmo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em janeiro de 2011, quando o Michelson e eu visitamos a Igreja Adventista do Rio Grande, em Palhoça (não muito longe da Barra do Aririú), encontramos lá o Pedro, a Salete, a Alessandra e o esposo dela. Mas não foi apenas isso. O filho da Salete e a filha da Alessandra, Filipe e Monique, na época dos estudos bíblicos eram apenas crianças. Em 2011, os dois, além de noivos, haviam se tornado líderes daquela igreja em fase de organização. Eles fazem um trabalho parecido com o que meu esposo e eu fazíamos na Barra. Vimos o cumprimento da promessa de Eclesiastes 11:1: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH8EBxwt8I/AAAAAAAANIs/2RkHlBZ7wSw/s1600/rio%2Bgrande.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH8EBxwt8I/AAAAAAAANIs/2RkHlBZ7wSw/s400/rio%2Bgrande.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Frutos da classe bíblica iniciada com colegas da creche; no centro, Filipe e Monique&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Depois da conversão da Simone e da Alessandra, ainda estudamos a Bíblia com mais dois casais. Certo dia, encontrei no ônibus uma amiga de infância. Deixei com ela um folheto bíblico e anotei nele meu telefone. Ela ligou alguns dias depois pedindo estudos bíblicos. Ficamos muito felizes em poder iniciar os estudos com ela e o esposo. Eles tinham verdadeira sede da Palavra de Deus e muitas vezes nos emocionamos conversando sobre o amor de Jesus ao dar a vida por nós. Eles também se tornaram grandes líderes da igreja e levaram a muitas pessoas o conhecimento da mensagem de salvação. Em 2010, a filha mais velha desse casal foi estudar no Unasp e se tornou excelente colportora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro casal com quem estudamos a Bíblia era formado por dois jovens que haviam aceitado o convite para assistir a uma série de palestras sobre saúde. Eles enfrentaram alguns obstáculos para conseguir cumprir a vontade de Deus, como o trabalho no sábado, por exemplo. Mas pouco a pouco Deus foi abrindo as portas e até uma nova profissão o moço pôde aprender. Depois de muitas lutas vencidas pelo poder de Deus, eles puderam ser batizados. Infelizmente, como ocorreu na parábola do semeador, eles acabaram permitindo que os problemas sufocassem a semente e abandonaram o convívio dos irmãos da igreja. Mas ainda podemos ter surpresas, como já aconteceu e acontece com outras pessoas que voltaram para Jesus. Deus por certo deve estar trabalhando no coração deles, de maneiras que nem imaginamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envolvendo-nos com a salvação de outras pessoas não tínhamos tempo para lamentar nossa situação. Estávamos felizes e ocupados. Depois da fase do choro e dos questionamentos, passamos a sentir paz, contentamento e vivemos com a esperança de que Deus nos reservava um futuro melhor. Esse mesmo Deus que até ali havia conduzido nossas vidas, tornando-nos uma só carne e um só coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH8oqao_NI/AAAAAAAANI0/SqXj47bLN88/s1600/casamento4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="324" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVH8oqao_NI/AAAAAAAANI0/SqXj47bLN88/s400/casamento4.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-7939942232587310651?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/7939942232587310651/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=7939942232587310651&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/7939942232587310651'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/7939942232587310651'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2011/02/capitulo-20-um-so-coracao.html' title='Capítulo 20 - Um só coração'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-rGuYiFlsA98/TVMkiqceh5I/AAAAAAAANJU/TXPKddvg6OE/s72-c/casamento5.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-7574164494413880823</id><published>2007-11-22T01:25:00.000-08:00</published><updated>2011-02-08T15:31:15.789-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 19 – Planos e sonhos</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;“Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário. Aquele que bebe da água viva, faz-se fonte de vida. O depositário torna-se doador” (Ellen G. White, &lt;i&gt;O Desejado de Todas as Nações&lt;/i&gt;, p. 195).&lt;/blockquote&gt;&lt;br /&gt;Entre as muitas coisas que aprendi com meu “pai na fé”, o Vanderlei, uma delas é que para ser espiritualmente forte o cristão deve trabalhar para Deus e pelo semelhante – e isso ele me ensinou na prática, mesmo antes de eu ser batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Depois que terminei o estudo do Apocalipse e mais uns dois outros cursos bíblicos, o Vanderlei me convidou para ministrar estudos bíblicos para um jovem que morava no bairro Pinheirinho, em Criciúma. De início, o Vanderlei explicava os temas para o rapaz, mas com o tempo foi me passando essa responsabilidade e apenas completava meus comentários. Ele teve a mesma atitude de Jesus com os discípulos dEle: treinou-os para o discipulado. Tenho mais essa dívida de gratidão com o meu “pai na fé”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ano anterior à minha aprovação no vestibular da UFSC e de minha mudança para Florianópolis, meu pai havia me dado uma Mobilete usada que o Vanderlei e eu apelidamos de “Evangelista”, já que a usávamos para dar estudos bíblicos em lugares diferentes da cidade. A cena era até hilária, pois éramos grandes demais para a motoneta. Mas ela suportou bem o esforço. E pudemos partilhar as verdades bíblicas com muitas pessoas, inclusive com meus avós, Idalina e José (mais conhecido como Zé Tostão), e minha tia “Neca”. Nessa época, meu avô já estava com a saúde e a mobilidade bem comprometidas devido a alguns derrames cerebrais. A imagem que eu tinha dele era a de um homem forte, enérgico e carinhoso. Por isso era difícil vê-lo naquele estado. O Vanderlei e eu levávamos um velho projetor de &lt;i&gt;slides&lt;/i&gt;, projetávamos belas figuras na parede e falávamos da esperança da volta de Jesus e da Nova Terra. Muitas vezes meu avô derramava lágrimas ao ouvir as promessas bíblicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra missão que nos impusemos foi voltar àquele bairro onde havíamos tido uma experiência missionária frustrada meses antes – e onde o Vanderlei tinha me feito compreender a incoerência de querer pregar o que eu não vivia. Dessa vez, conseguimos ensinar a Bíblia para umas quatro famílias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que fui batizado, fiz um pacto com Deus de, com a ajuda dEle, levar pelo menos uma pessoa por ano a Jesus. E Deus nunca falhou comigo. As primeiras pessoas que tive o prazer de ver passar pelas águas do batismo graças à atuação do Espírito Santo através do meu trabalho foram a minha mãe e a Emanuela. Em seguida, vieram a tia “Neca” e um jovem chamado Willian Bittencourte, que eu havia conhecido num trabalho missionário interessante no CIS, o colégio no qual eu havia completado o ensino médio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a aula de religião, uma aluna perguntou à professora sobre a besta do Apocalipse. Como a professora não sabia a resposta, outra aluna, que era membro da Igreja Adventista Central de Criciúma, disse que poderia convidar alguém para falar sobre o tema. A professora aceitou a proposta e a moça me pediu que fosse ao colégio para falar a sua turma. Quando cheguei lá, fiquei surpreso ao descobrir que aquela havia sido minha professora de religião no primeiro ano do ensino médio. Ela ficou muito feliz em saber que eu seria o palestrante. Mas, em lugar de falar sobre a besta do Apocalipse, fiz-lhe uma proposta: se ela me permitisse, poderia desenvolver o assunto em mais aulas, dando aos alunos uma visão geral do livro profético. Ela concordou e disse que eu poderia usar quantas aulas quisesse e que, além disso, poderia utilizar sua cota de fotocópias para reproduzir as lições. Era bom demais para ser verdade! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram várias sextas-feiras à noite lecionando gratuitamente para centenas de estudantes. Ao tomar o ônibus para ir para casa, pude perceber que um dos meus alunos – um rapaz de cabelos longos, pretos e escorridos – morava na mesma rua em que meus pais moravam. Fiz amizade com ele e sempre que a aula acabava íamos embora conversando sobre o assunto que eu havia apresentado. Depois, ao invés de ir para sua casa, o Willian parava na minha e ficávamos conversando sobre religião até altas horas da noite. Meses depois, tive que interromper as aulas no colégio (alguns pais de alunos começaram a reclamar da “pregação” deles em casa), mas prossegui os estudos com o Willian. Ele cortou o cabelo, leu o livro &lt;em&gt;O Grande Conflito&lt;/em&gt; em algumas semanas, se apaixonou por Jesus e foi batizado. ﻿&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;﻿&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBoE6Y5pOI/AAAAAAAANHs/OKYhgXWrhaw/s1600/willian.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBoE6Y5pOI/AAAAAAAANHs/OKYhgXWrhaw/s320/willian.jpg" width="271" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Lilian (Teca), Willian, Débora e eu, em Joinville, SC, 1994&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Infelizmente, com minhas idas cada vez menos frequentes a Criciúma, o Willian acabou voltando a se relacionar com os antigos amigos e a se distanciar dos irmãos da igreja. Certa vez, convidei-o para ir à casa dos meus pais para conversarmos. Ele disse que estava enfrentando uma luta muito grande entre o que sabia ser o correto e o que gostava de fazer. Disse até que preferia não ter conhecido a verdade bíblica, pois agora se sentia como “uma formiga fora do formigueiro”, tanto na igreja quanto no “mundo”. Choramos muito naquela noite e eu disse que havia partilhado o que tinha de mais precioso com ele: Jesus. E que ele só seria realmente feliz ao lado do Mestre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, para a minha tristeza, o Willian acabou abandonando a igreja. Orei durante quinze anos para que ele voltasse para Jesus, até que um dia recebi um e-mail que me deixou tremendamente surpreso. Mais vou deixar que o próprio Willian conte o que aconteceu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu primeiro contato com a mensagem adventista se deu por volta dos meus quinze anos de idade. Nesse período, eu cursava o ensino médio no Centro Interescolar de Segundo Grau Abílio Paulo (CIS), em Criciúma, SC. A professora de religião de então havia convidado um jovem chamado Michelson Borges para nos ministrar algumas aulas sobre o Apocalipse. Ao longo das aulas, acabei descobrindo que o Michelson morava próximo à minha casa. Sempre, no fim das aulas, pegávamos o ônibus de retorno juntos e ficávamos até altas horas da noite conversando sobre religião e a mensagem da salvação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Confesso que a inteligência daquele jovem me impressionava. Todos os questionamentos que eu lhe fazia sobre religião, muitos até em tom provocativo, ele me respondia com paciência e muita convicção. O tempo nos tornou verdadeiros amigos – desses de um frequentar a casa do outro e tudo mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O tempo, a amizade, os estudos da Bíblia e de outros livros me levaram a aceitar Jesus. Fui batizado nas águas. Tornei-me adventista do sétimo dia. Foram realmente dias felizes em minha vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passado algum tempo, o Michelson precisou se ausentar de Criciúma, já que ele cursava Jornalismo na Universidade Federal, em Florianópolis, capital do nosso Estado. Sua ausência, aos poucos, tornou-se definitiva, e o Michelson passou a frequentar uma igreja em Florianópolis e a morar nessa mesma cidade. Como eu tinha poucos amigos na igreja, e como o Michelson agora pouco vinha a Criciúma, comecei a sair com meus antigos ‘amigos’. E aí deu no que deu. Acabei me afastando da fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já fora da igreja, me profissionalizei em contabilidade, também me formei em Direito e me pós-graduei em Processo Civil. Posteriormente, em 2005, abri juntamente com um sócio uma empresa na área de assessoria tributária. Obtive muito sucesso profissional. Atualmente [2010], me dedico à profissão de contabilista, sou advogado e empresário. Tenho 32 anos, sou casado e tenho um filho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o que mais chama atenção em minha história é o plano que Deus tinha para mim. Sou obrigado a confessar que sempre fui uma pessoa muito ambiciosa. Sempre pensei em estudar para ganhar muito dinheiro. E, nesse aspecto, Deus foi muito generoso comigo. Coisas que jamais imaginei alcançar, mesmo em sonho, Deus me permitiu conseguir. Comprei carro importado dos mais modernos, terrenos em áreas nobres da cidade, cobertura duplex com piscina em bairro chique, frequentava festas sociais, Lions Club, e várias outras coisas com as quais muita gente sonharia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Todavia, mesmo tendo conseguido tudo isso, eu não era feliz. Vivia triste, desolado. Alguma coisa me faltava. Tinha tudo, e ao mesmo tempo não tinha nada. Algumas vezes, inclusive, pensei até em fazer coisas piores que não convém aqui nem mencionar... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sucesso profissional, bens materiais, juventude (apenas 32 anos de idade), uma linda esposa, um lindo filho, mas na verdade uma pessoa muito infeliz. Esse era o retrato da minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um dia, em uma reunião com um cliente na empresa (o nome dele é Celézio Morona), ele me questionou acerca de minha fé. E eu, muito tristemente, lhe respondi que não tinha nenhuma. Que era infeliz. Incomodado, ele me perguntou: ‘Mas como? E tudo isso que tu tens?’ Respondi-lhe que tudo não passava de ilusão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Disse-lhe, então, que na minha juventude havia frequentado uma igreja, e que, naquela época, embora não tivesse nada de bens materiais, eu havia sido muito feliz! Qual não foi minha surpresa quando, com alegria, meu cliente me disse que era adventista; que havia recentemente abraçado a fé e sido convertido. Ficamos, então, conversando por um longo tempo sobre esse assunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posteriormente, cada vez que esse meu cliente vinha à empresa, nós conversamos sobre religião. Certo dia, meu cliente me perguntou se eu não gostaria de voltar a estudar as Escrituras. Se eu aceitaria fazer estudos bíblicos ministrados por um pastor chamado Arildo Oliveira, segundo ele homem muito consagrado. Prontamente aceitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo ao fim do meu primeiro estudo bíblico (numa sexta-feira à tarde), o pastor Arildo me convidou para ir à igreja no outro dia, sábado. Quem iria pregar era um pastor de Florianópolis, muito conhecido. A pregação seria na mesma igreja que eu havia frequentado quando jovem. Disse-lhe que iria pensar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No sábado pela manhã, acordei cedo, tomei coragem e fui ao culto. Chegando à igreja, meu coração disparou. Lembrei-me de todos os momentos felizes que havia passado ali naquele local. Mas a surpresa maior ainda estava por vir. Iniciado o culto, o assunto do sermão foi a história do jovem rico. Foi uma das pregações mais lindas que já ouvi em toda a minha vida. Deus estava falando comigo ali, naquele momento, disso eu tenha certeza! Chorei copiosamente o culto inteiro. Não tive vergonha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Confesso, aquele sermão me abalou demais. Fiquei estupefato. Tive certeza de que Deus estava me chamando. Chegando em casa, entrei no quarto do meu filho, fechei a porta em secreto, e orei a Deus com todo o meu coração, como nunca antes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Em profunda oração, questionei: ‘Meu Deus, se aquela mensagem sobre o jovem rico foi para mim, se o Senhor falou comigo, se o Senhor está me chamando, por favor, me dê um sinal aqui e agora, estou com Tua Palavra sob minhas mãos; vou abrir a Bíblia e se Tu tens alguma coisa para me dizer, me diga.’&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por incrível que pareça, em lágrimas, ao abrir as Escrituras, deparei-me novamente com a história do jovem rico! Não tive dúvidas. Deus realmente estava me chamando! Tudo aquilo não podia ser coincidência!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na semana seguinte, disse ao pastor Arildo que queria ser rebatizado o mais rápido possível. Contei-lhe tudo que tinha acontecido e da certeza que tive de que Deus havia me falado! Fui rebatizado nas águas no dia 21 de novembro. Encontrei novamente minha felicidade!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBl3AJYLqI/AAAAAAAANHc/Ql73xEKbEGs/s1600/willian2.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="316" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBl3AJYLqI/AAAAAAAANHc/Ql73xEKbEGs/s320/willian2.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Pastor Arildo batiza o Willian, em novembro de 2009&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Nem preciso dizer que essa história do Willian me comoveu profundamente, e me fez ter certeza, uma vez mais, de que os planos de Deus sempre são os melhores para nossa vida. Vale a pena semear a “boa semente”!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Florianópolis, também aproveitei as oportunidades que Deus me ofereceu para partilhar o conhecimento de Sua Palavra. Assim que conheci melhor meus dois companheiros de república, ofereci-me para estudar a Bíblia com eles. Eles aceitaram a oferta e nos reuníamos uma noite por semana. Infelizmente, como nossos cursos eram integrais e estudávamos em vários períodos, nossas agendas não mais possibilitavam os encontros. Depois disso, comecei a dar estudos bíblicos para dois colegas de curso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando soube que a Débora estava estudando a Bíblia com a amiga Teca, tive ainda mais certeza de que ela era a resposta às minhas orações, afinal, eu não havia pedido a Deus que simplesmente me enviasse uma namorada, mas que ela tivesse interesse na salvação das pessoas e espírito missionário. Pouco depois de termos iniciado o namoro, a Débora me convidou para dar estudos para sua mãe. A “dona” Lúcia foi batizada alguns meses depois, o que nos trouxe muita alegria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do conselho do Sr. Palma (aquele adventista que vendia livros usados no campus e que me motivou a concluir a faculdade de Jornalismo), minha vontade de cursar Teologia ainda era forte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de quase três anos de namoro, a Débora e eu já falávamos em casamento, mas ainda não tínhamos a vida profissional definida. Meu salário na escola adventista (eu dava poucas aulas) e o dela na creche, como auxiliar de professora, não nos conferia a estabilidade econômica necessária para iniciar a vida a dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que surgiu um negócio de ocasião: uma prima da Débora havia comprado e queria vender um apartamento na planta, num plano habitacional cujas parcelas eu poderia assumir com meu pequeno salário. O “seu” Zulmar ofereceu um quarto da casa dele para a Débora e eu morarmos enquanto o prédio era construído. Praticamente todo o meu salário seria utilizado para pagar as prestações, mas acreditamos que seria um sacrifício válido. Além do mais, depois de estar com as chaves na mão, poderíamos até mesmo vender o apartamento e fazer outros planos. Fechamos o negócio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco mais animado com a aquisição do apartamento (que ainda não existia, é verdade), convidei a Débora para irmos até o Instituto Adventista de Ensino (IAE, hoje Unasp), em Engenheiro Coelho, no interior de São Paulo. Eu sabia que as faculdades adventistas tinham planos para bolsistas e que o IAE tinha apartamentos para casais. Não custava tentar algo lá (já que na colportagem eu não havia me dado bem). Se Deus quisesse que eu fosse pastor, as portas se abririam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizemos algumas economias e numa quinta-feira de outubro de 1996 embarcamos no ônibus rumo a São Paulo. Na bagagem, levava, além das roupas, meu portfólio com alguns trabalhos publicados – desenhos e textos. No coração, ansiedade; e na mente, muitos sonhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas e os quilômetros transcorriam cheios de incertezas. Mas era confortante ter minha noiva ali, ao meu lado, e saber que tanto ela quanto seus pais acreditavam em meu sonho e apoiavam meus projetos. Aquilo me deu forças para ir avante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desembarcamos muito apreensivos no terminal Tietê, o maior de São Paulo. Nunca havíamos visto tanta gente circulando rapidamente num só local. Pessoas de todo tipo caminhavam para lá e para cá. Parecia que estávamos no interior de um formigueiro. Segurando firmemente a bagagem e a mão um do outro (duvido que se alguém parasse para nos observar não perceberia que éramos do interior), caminhamos até o guichê da empresa que nos levaria até Campinas e de lá para Engenheiro Coelho. Fomos informados de que o ônibus passava bem em frente à entrada do colégio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colocamos nossas bolsas no bagageiro e nos sentamos nas poltronas. À medida que nos distanciávamos da Capital, a paisagem ia mudando. Era tudo bem diferente do que estávamos acostumados a ver no Sul. Não havia montanhas altas, nem tampouco – e obviamente – o mar aparecendo de quando em quando. O horizonte podia ser visto ao longe, entre colinas suaves e verdejantes, geralmente cobertas por pés de cana-de-açúcar. Os minutos se transformaram em horas e eu já estava ficando impaciente quando, finalmente, pude avistar a placa do colégio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedi ao motorista que parasse ali e desembarcamos. Só então descobrimos que teríamos que caminhar uns cinco quilômetros até o portão do colégio. Olhamos um para o outro, demos de ombros e começamos a caminhada pela estrada de pó vermelho (na época ainda não havia asfalto ali). Felizmente, alguns metros depois, um professor parou e nos deu carona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim que chegamos ao prédio administrativo fomos informados de que o diretor do colégio estava viajando e somente retornaria na segunda-feira. Ficamos desolados. Todo aquele esforço para nossos planos terminarem em nada? Na verdade, havíamos sido imprudentes, pois devíamos antes ter telefonado para saber se o diretor estaria ali ou não. Mas agora era tarde e não sabíamos o que fazer. Foi então que a Débora se lembrou de uma moça que havia conhecido quando colportava em Itajaí, a Elisângela. A família dela morava no colégio e o pai cuidava da pecuária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos mais um quilômetro por uma estrada de terra em declive e encontramos a casa da Elisângela. Meio sem jeito, explicamos nossa situação e perguntamos se podíamos pernoitar ali a fim de partirmos no domingo. O “seu” Amós, pai da moça, não somente nos acolheu como fez mais: ofereceu-nos pousada até a segunda-feira para que pudéssemos falar com o diretor. Além disso, quando soube que eu era jornalista e que havia escrito um livro-reportagem sobre a chegada do adventismo ao Brasil, ele se ofereceu para me apresentar ao então diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White e do Centro Nacional da Memória Adventista, Dr. Alberto Timm. Ele estava precisando de um assistente para ajudá-lo a levar avante alguns projetos. Tentaríamos falar com ele naquele mesmo dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBmMf-xkFI/AAAAAAAANHg/d0Et_BXGkEE/s1600/UnaspPecuaria.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="298" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBmMf-xkFI/AAAAAAAANHg/d0Et_BXGkEE/s400/UnaspPecuaria.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Estrada que leva ao setor pecuário do Unasp&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Como o Dr. Timm teria aulas pela manhã, meu plano era falar com ele à tarde, mesmo sabendo que as tardes de sexta-feira são uma correria para os funcionários e professores do colégio. É o momento que eles têm para fazer compras, ir ao banco, lavar o carro, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do almoço, fui até a casa do Dr. Timm. Ele já me esperava ao lado do seu automóvel. Convidou-me para entrar no carro e explicou que precisava levá-lo ao mecânico na cidade. “Podemos conversar no caminho e enquanto o mecânico verifica o carro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei impressionado com a simplicidade e prestatividade daquele servo de Deus que na época já era um ícone da educação adventista. Com doutorado pela Universidade Andrews, nos Estados Unidos, o Dr. Timm era mundialmente respeitado como teólogo e professor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chegamos à mecânica, na pequena cidade de Artur Nogueira, a uns sete quilômetros do campus, mostrei meus trabalhos ao Dr. Timm e lhe falei de meus sonhos. Ele manifestou interesse em meus textos e desenhos e disse que precisava de alguém como eu para ajudá-lo no Centro da Memória Adventista. Fiquei empolgado e cheio de esperanças. Seria bom demais trabalhar ao lado de um homem como ele e poder lidar com a história da igreja no Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao IAE, antes de me deixar na casa do irmão Amós, o Dr. Timm me aconselhou a falar com o coordenador do curso de Teologia, o Dr. José Carlos Ramos, no domingo de manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela sexta-feira havia sido muito agitada e cansativa. Depois de um banho revigorante e do lanche na casa do irmão Amós, alojado na sala de estar, dormi feito uma pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com o cantar de galos e o mugir do gado no pasto. Dava para sentir no ar o cheiro da fazenda e da cevada sendo coada na cozinha. A mãe da Elisângela era uma senhora muito simpática e prestativa. Levantei-me depressa para não atrapalhar quem quisesse cruzar a sala e, minutos depois, as duas amigas também já estavam de pé. Fizemos um breve culto e tomamos o desjejum com pão integral e geleia natural. A paz reinava naquela casa e nos sentíamos como hóspedes esperados, apesar de termos aparecido de surpresa. Como era bom estar num verdadeiro lar adventista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado foi maravilhoso. Assistimos ao culto no auditório principal, ao lado do refeitório (na época, o templo com mais de três mil lugares ainda não havia sido construído). O sermão foi inspirador e pude constatar que o ambiente no colégio era realmente muito agradável. Moços e moças sorridentes, com a Bíblia na mão, caminhavam em meio às árvores, conversando animadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã de domingo, o irmão Amós me levou para conhecer a leiteria e outras partes do colégio. Naquela época (1996), o IAE tinha apenas treze anos de existência e havia sido desmembrado do campus São Paulo. Futuramente, com a inclusão do campus Hortolândia (Iasp), os três internatos se tornariam o Centro Universitário Adventista de São Paulo. Era maravilhoso imaginar como seria morar e estudar naquela instituição que inspirava sabedoria e santidade. Um sonho bom demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBmrDZsPfI/AAAAAAAANHk/jeckLSPttLw/s1600/unasp.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="238" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBmrDZsPfI/AAAAAAAANHk/jeckLSPttLw/s400/unasp.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Vista aérea do Unasp, campus Engenheiro Coelho&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Depois do &lt;em&gt;tour&lt;/em&gt;, o irmão Amós pediu ao namorado da Elisângela que me levasse para conhecer o Dr. Ramos. Com uma enxada nas mãos, ele estava cuidando do jardim de sua casa, na “vila dos professores”. Conversamos alguns minutos, ele me deu alguns conselhos e disse que iria orar para que minha conversa com o diretor transcorresse conforme a vontade de Deus. Aquela noite, a terceira na casa do irmão Amós, me encontrou tentando conter a expectativa pelo desenrolar dos fatos no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove horas da manhã, o pastor Walter Boger nos recebeu em sua sala, no prédio administrativo. A Débora e eu falamos de nossos planos de nos casarmos dali dois meses e de meu sonho de estudar teologia e ser pastor. Contei também que o Dr. Timm havia demonstrado interesse em ter-me como auxiliar e que gostaríamos de receber uma bolsa de estudos do colégio. A resposta não foi a que esperávamos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meus jovens, por mais que eu reconheça a nobreza dos planos de vocês, no momento o IAE não pode ajudá-los. Não há condições de admitir mais bolsistas do que já temos. Lamento. O que sugiro é que vocês voltem para Santa Catarina, façam um “pezinho de meia” por lá e voltem com algum dinheiro para se manterem por alguns meses. Depois a gente vê o que pode ser feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como vamos fazer um ‘pé de meia’ se mal tenho dinheiro para comprar as meias?”, pensei. Olhei para a Débora desolado, agradeci ao diretor por nos ter recebido e voltamos para a casa do irmão Amós, a fim de pegar as bolsas para retornar a São Paulo. Eles ficaram bastante tristes com a notícia. Fizemos uma oração e nos despedimos agradecendo a amizade e a grande hospitalidade da família. (Eu nem imaginava que, anos depois, voltaríamos àquele colégio em circunstâncias bem diferentes.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem de volta para Santa Catarina foi bastante triste. O futuro parecia não querer sorrir para nós. Pelo menos tínhamos o apartamento... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eu precisava contar para a Débora o meu “plano B”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-7574164494413880823?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/7574164494413880823/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=7574164494413880823&amp;isPopup=true' title='16 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/7574164494413880823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/7574164494413880823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2007/11/captulo-19-planos-e-sonhos.html' title='Capítulo 19 – Planos e sonhos'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVBoE6Y5pOI/AAAAAAAANHs/OKYhgXWrhaw/s72-c/willian.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-3138444068960687320</id><published>2007-09-19T16:23:00.000-07:00</published><updated>2011-02-06T06:35:41.908-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 18 - Novo nascimento</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando era ainda bem pequena, eu olhava para o céu e perguntava por que eu tinha que ter nascido ali, naquele lugar, e levar aquela vida, enquanto meus colegas de escola pareciam ter vida bem melhor do que a minha. Aliás, como eu bem sabia, minha vinda a este mundo nem havia sido planejada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe perdeu o pai em um acidente quando tinha apenas seis anos de idade. Minha avó não podia sustentar os seis filhos sozinha e acabou dando alguns para famílias conhecidas e deixando outros sob os cuidados de um orfanato em Florianópolis. Foi o caso da minha mãe, que, de repente, viu sua infância mudar drasticamente. Num dia, ela corria livre, brincando com os irmãos pelos pastos e plantações da pacata colônia alemã de São Pedro de Alcântara, com seus pouco mais de três mil habitantes e distante 31 km da Capital. No outro, estava confinada a um orfanato católico dirigido por freiras, cheio de regras e horários rígidos. A vida dela se transformou num eterno sofrimento de dias que duravam tempo demais. A dor, a saudade e a carência afetiva pareciam não ter fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6tybZiiZI/AAAAAAAANGc/Bh5bEZOR1zU/s1600/sao+pedro+de+alcantara+-+panoramio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6tybZiiZI/AAAAAAAANGc/Bh5bEZOR1zU/s400/sao+pedro+de+alcantara+-+panoramio.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;São Pedro de Alcântara foi a primeira colônia alemã de Santa Catarina&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6unKTeVCI/AAAAAAAANGg/x6h5eKBJmBs/s1600/sao+pedro+de+alcantara.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6unKTeVCI/AAAAAAAANGg/x6h5eKBJmBs/s400/sao+pedro+de+alcantara.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Minha avó nunca deixou que ela fosse adotada, pois tinha esperança de que um dia poderia reunir a família novamente. Mas esse dia nunca chegou. Minha mãe tinha quinze anos quando a mãe dela tornou a se casar. Então ela pôde sair do orfanato, mas não voltou para casa. O padrasto, também viúvo, tinha quatro filhos e não queria mais bocas para alimentar. A solução para minha mãe foi trabalhar na residência de outras famílias. Por isso, por alguns anos ela morou em várias casas, sem nunca encontrar seu lar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela conheceu meu pai, já tinha vinte e dois anos e morava com um de seus irmãos, mais velho que ela e casado. Naquele dia, meu pai casualmente pegou o mesmo ônibus que ela para visitar a namorada. Mas, quando viu aquela linda loira de olhos verde-claros, não resistiu. Ele não poderia deixá-la desaparecer sem saber quem era aquela moça de quem ele não conseguia desviar o olhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele desembarcou do ônibus logo atrás dela e descobriu que ela iria à missa. Começaram a conversar e ambos acabaram desistindo de seus respectivos compromissos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois namoraram pouco tempo e logo casaram. Meu pai era recém-formado em Geografia e trabalhava como bolsista no Museu de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina. O salário dele, aliás, meio salário mínimo, apenas ajudava a custear os estudos. Mas, de repente, a notícia da gravidez veio como uma bomba. Agora o mísero salário tinha que milagrosamente sustentar uma família. Com o tempo, a situação financeira obrigou meu pai a desistir do mestrado que estava iniciando e enterrar seus sonhos. Acabou deixando o trabalho no museu e foi lecionar Geografia em escolas estaduais em busca de uma renda maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No primeiro ano de casados, eles moraram com meus avôs paternos. Era uma casa de madeira sem pintura, com as tábuas enegrecidas pelo tempo e algumas até apodrecidas, se desfazendo. Eles tinham que colocar alguma coisa para remendar os buracos a fim de não deixar o vento entrar. Ali, em quatro cômodos, moravam doze pessoas: minha mãe, meu pai, os sete irmãos dele, mais meus avôs e eu, recém-nascida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era um ambiente muito agradável para um bebê. As brigas e a gritaria eram frequentes. Finalmente, quando eu tinha quase um ano, meu pai construiu nos fundos do terreno uma casinha de madeira com dois cômodos. Até que ela era bonitinha, pintada de amarelo e com as portas e janelas brancas. Mas era muito simples, não tinha nem mesmo forro ou banheiro. Quando ventava muito, lembro-me de que ficávamos com medo e corríamos para baixo da mesa a fim de nos proteger, caso o vento arrancasse uma telha e ela caísse dentro da casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O “banheiro” era um caso à parte. Era comum naquela época os mais pobres não terem banheiro. Todos tinham as terríveis e nojentas patentes (latrinas). Eram um cubículo de madeira com uma tábua que servia de assento, com um buraco no meio. E, claro, não havia descarga. O cheiro era insuportável, por isso elas tinham que ficar bem longe da casa. Nossas patentes – da minha casa e dos meus avôs – ficavam praticamente dentro do mangue. Tinha até um caminho feito com pedras para chegar até elas cheio de caranguejos por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A casa dos meus avôs ficava bem em frente à praia. Havia só uma ruazinha de terra que passava em frente e a separava da areia branca. Logo depois da rua estava o rancho das canoas do meu avô, ao lado dos ranchos dos vizinhos, que também viviam da pesca. Eram como pequenos galpões de madeira com telhado baixo, feitos para abrigar as canoas e guardar utensílios de pesca, como redes, tarrafas, remos, etc. A uns três metros do rancho ficava o mar, com suas ondas sempre suaves e calmas. Ali da praia se avista a ilha de Florianópolis, uns sete quilômetros à frente, em linha reta, indo pelo mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paisagem é muito bonita. Ao longe, se veem as cadeias de montanhas da Serra do Tabuleiro, que ficam a poucos quilômetros dali. E a praia faz belas curvas, formando baías ornamentadas com pedras de vários formatos e tamanhos. Entretanto, o mar não é próprio para banho, pois o fundo é cheio de lama e restos de conchas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6vM-c7_0I/AAAAAAAANGk/J-dWzktt45k/s1600/cambirela+-+%25C3%2589rika+Fraccaroli%252C+Picasa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6vM-c7_0I/AAAAAAAANGk/J-dWzktt45k/s400/cambirela+-+%25C3%2589rika+Fraccaroli%252C+Picasa.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Vista do alto do Morro do Cambirela, na Serra do Tabuleiro. As montanhas ao fundo são da ilha de Florianópolis&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;O terreno dos meus avôs até que não era pequeno. Era de areia, mas na frente da casa havia um gramadinho com algumas flores – algo típico em Santa Catarina. Atrás da casa havia um “ranchinho”, que era uma espécie de segunda cozinha, com um fogão a lenha feito de barro, utilizado mais para fritar e assar peixes, prato principal na região. Ao lado esquerdo do ranchinho, havia algumas árvores frutíferas, como goiabeira, limoeiro e um pé de fruta-do-conde, que eu adorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns quatro metros para trás, ficava minha casinha amarela. E mais um pouco para o fundo, do lado direito, ficava o galinheiro, onde patos, marrecos e galinhas conviviam em paz. Em seguida, começava o manguezal, com algumas centenas de metros de extensão, talvez um quilômetro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe não estava acostumada àquela realidade e estranhou muito no começo. Eram culturas bem diferentes. A família dela era de origem alemã e trabalhava nas plantações o dia inteiro. Parecia não terem tempo para risos e brincadeiras. Depois ela foi criada na cidade e acabou se adaptando à comodidade da vida urbana, com seus confortos – como um banheiro decente, por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6wFlGpzBI/AAAAAAAANGo/8iyMwB5HjFw/s1600/familia+martins.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6wFlGpzBI/AAAAAAAANGo/8iyMwB5HjFw/s400/familia+martins.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Meus pais, Zulmar e Lúcia, comigo&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Embora eu tenha nascido em circunstâncias não muito favoráveis para meus pais, sei que fui muito amada. E o amor que minha mãe nutria por mim aliviava um pouco o sofrimento de sua vida difícil. Depois, apesar de não desejarem outro filho naquela situação adversa, ela engravidou de meu irmão e, quando eu tinha um ano e cinco meses, o Robson nasceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto minha mãe o embalava para dormir, eu a imitava com meu boneco de plástico. Eu tinha muito ciúme dele e sempre estávamos disputando a atenção da mãe. Mas eu também queria ajudar a cuidar dele e protegê-lo. Quando crescemos um pouco, eu sempre o defendia se algum menino quisesse brigar com ele. Entretanto, quanto mais os anos passavam, mais distantes ficávamos um do outro. Tínhamos carinho mútuo, mas nossos interesses eram muito diferentes e, se ficávamos muito tempo juntos, acabávamos brigando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;foto: débora="" e="" robson=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6wSGRVIrI/AAAAAAAANGs/EbjtfSf69es/s1600/debora+e+robson.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6wSGRVIrI/AAAAAAAANGs/EbjtfSf69es/s320/debora+e+robson.jpg" width="240" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Débora e Robson em 1986&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Pouco antes de eu completar três anos, nossa casa de madeira foi transportada em cima de um caminhão para um terreno que meu pai havia comprado, distante uns dois quilômetros da casa dos meus avôs. O lugar ainda era pouco habitado na época e havia apenas umas cinco famílias ali, nossos vizinhos. Logo teve início a construção de nossa nova casa de alvenaria. O banheiro – sim, agora tínhamos banheiro! – ficou pronto bem rápido. Mas a construção toda só ficou pronta vários anos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Binho (como chamávamos o Robson) e eu nos divertíamos muito brincando naquele lugar com nossos amiguinhos. Não havia muitos perigos como hoje e corríamos livremente com as outras crianças do bairro. Subíamos nas muitas árvores – principalmente pitangueiras – que havia ao redor das casas e nos terrenos da vizinhança. Comíamos pitanga de várias qualidades o dia inteiro, até enjoar. Brincávamos de esconde-esconde, de carrinho, de casinha, de taco e muitas outras brincadeiras que inventávamos e que em nossa imaginação eram grandes aventuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Somente quando fui para a escola é que comecei a considerar minha vida infeliz. Aos seis anos, a primeira série foi um tormento para mim. Eu era excessivamente insegura e tinha medo de ficar longe da minha mãe. Com o tempo, fui me acostumando àquela rotina e me conformando com a situação. Mas foi quando mudei de escola que as coisas pioraram de vez. Eu já havia me tornado mais independente, nessa época. O problema era outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;﻿A primeira escola em que estudei era pública e todos os alunos eram praticamente da mesma classe social. Na verdade, quase todos eram ainda mais pobres do que eu. Porém, na segunda série, meus pais decidiram – e com razão – que eu me desenvolveria mais estudando numa escola particular no centro da cidade. &lt;br /&gt;Na minha turma havia duas outras meninas que também moravam na Barra do Aririú. A maioria dos alunos eram filhos de comerciantes, empresários e políticos que moravam perto da escola. As crianças ricas nos menosprezavam porque morávamos num bairro pobre e distante dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As carteiras (mesas) acomodavam dois alunos. A professora fazia rodízio para que sempre mudássemos de lugar. Certa vez, uma menina recusou sentar-se comigo. Ela disse que eu devia ter cheiro de peixe e que meus cadernos eram encapados com saco de lixo. A professora a repreendeu na frente de todos e a puniu pela discriminação. Mesmo assim, continuamos a ser excluídas das brincadeiras. Éramos alvo de piadas e acabamos nos sentindo diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a me considerar inferior. Ficava triste quando saía da escola e via meus colegas entrando em seus lindos carros, ao passo que eu tinha que pegar o ônibus velho. Antes eu não sentia falta de quase nada em minha vida simples de criança. Mas a verdade é que não era a carência de bens materiais que mais me entristecia agora; era o fato de me sentir rejeitada. Não entendia por que a vida era tão injusta e por que meus pais não poderiam ter tido a mesma oportunidade de prosperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai sempre tentava me consolar mostrando o quanto eu era privilegiada. Ele dizia que quando tinha a minha idade fazia o mesmo percurso de sete quilômetros da Barra ao centro caminhando descalço, pois não tinha calçados nem para ir à escola. Mas isso não me servia de consolo e, sem querer, acabei desenvolvendo valores distorcidos. Achava que só gostariam de mim se eu estivesse bem vestida, tivesse uma bela casa e um bom carro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu amava profundamente meus pais e era grata por tudo o que eles faziam por mim. Sabia que eles estavam me dando o melhor que podiam, mas se eu pudesse escolher onde nascer, teria escolhido outro lugar. Queria ter a mesma família, mas em circunstâncias diferentes. Meu pai dizia que eu deveria estudar muito, e tudo mudaria. O que eu queria mesmo era nascer de novo, mas não sabia como. Deus iria atender o meu pedido – de uma maneira completamente diferente do que eu esperava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa época eu já conversava com Deus, mas não O conhecia. O que eu pedia era que Ele me ajudasse a ser como as outras crianças da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não conhecia quase nada sobre o verdadeiro Deus. A família do meu pai era espírita. Minha avó me contava histórias sobre feiticeiras que assombravam aquele lugar e se escondiam dentro das moringas (vasos de barro feitos pelos oleiros da região). Histórias de mulheres misteriosas que seduziam os pescadores no mar e depois desapareciam. Meu avô também sempre tinha um “caso” assombroso para contar, de coisas sobrenaturais ocorridas durante as pescarias. Ele até descrevia em detalhes a vez em que foi perseguido pelo “lobisomem”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado disso tudo foi que meu pai e seus irmãos passaram a se relacionar com os “espíritos” e a procurar centros espíritas para buscar explicação para tais fenômenos. Eu cresci com muito medo de “fantasmas”. Sentia pânico só de ficar sozinha e queria estar sempre o mais perto possível da minha mãe. Ela aprendeu a doutrina católica com as freiras do orfanato, mas nunca a vi se relacionar com Deus. Ela achava que Deus era muito severo e estava sempre disposto a castigar quem desobedecia, o que a mantinha distante dEle. Afinal, foi essa a religião que ela aprendeu desde a infância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas mesmo com todo o medo que eu sentia, no fundo e de alguma forma eu sabia que podia recorrer a um “Ser maior” e mais poderoso e pedir para Ele me proteger. Em meio a tanta confusão sentimental e espiritual, eu já sentia os pequenos “toques” de Deus me preparando para um dia conhecê-Lo de verdade e me libertar de tudo aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Jesus me encontrou, eu era uma adolescente que já se havia machucado de tanto correr atrás de ilusões. Mas ainda queria ter a chance de nascer de novo. Começar outra vez. Como nos meus sonhos infantis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia do meu batismo na igreja adventista foi exatamente isso. Jesus me deu um novo coração. Novas motivações. Libertou-me daquela ambição tola de achar que ter é poder. Livre do medo de um inimigo que atormenta as pessoas, brincando de “fantasma”. Livre, finalmente, para ser feliz ao lado do Deus que havia muito tempo estivera tentando chamar minha atenção, como que a dizer que meu desejo de nascer de novo era possível – o Deus que sempre havia cuidado de mim e esteve disposto a dar o que é melhor para minha vida, para me aperfeiçoar e me tornar uma pessoa melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi num domingo à noite, 25 de setembro de 1994, que a minha vida enfim passou a fazer sentido. Começava ali uma nova caminhada. Um caminho totalmente diferente daquele no qual eu até então havia andado. Ainda tropeço, de vez em quando, como uma criança que se esforça para caminhar ao lado do pai. Mas Jesus nunca solta minha mão e me levanta quando caio. O medo se foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda morava ali, naquele mesmo lugar. Eu é que havia mudado. Jesus me devolveu a capacidade de ser feliz com as coisas simples desta vida e eu me sentia novamente como uma criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Primavera é a minha estação preferida. Tudo parece renascer nessa época. O clima agradável me traz uma sensação de alegria, festividade e a esperança de que os dias sejam sempre melhores. Nada melhor, então, do que me entregar totalmente a Jesus no Batismo da Primavera. E foi o que decidi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele dia estava quente e agradável. No fim da tarde, o famoso vento sul começou a soprar cada vez mais forte, tornando-se numa grande ventania que refrescou a noite em que a Teca e eu seríamos batizadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde daquele dia, a Teca e a Rafaela foram até a minha casa. O Michelson já estava lá. A Teca e eu precisávamos conversar antes do nosso batismo. Não sei por que, nossa amizade parecia um pouco desgastada ultimamente. Talvez porque agora eu passava muito mais tempo com o Michelson, o que fez com que ela acabasse buscando o apoio e a companhia da Rafaela. Sentíamos falta uma da outra, mas quando estávamos juntas frequentemente divergíamos sobre alguns assuntos. Eu sofria naturalmente a influência do meu namorado e ela, a da Rafaela. Mas sabíamos que nada mudaria o amor que tínhamos uma pela outra. Éramos como irmãs, e irmãs nem sempre estão de acordo. Nos abraçamos, pedimos perdão por eventuais mágoas e oramos pedindo a Jesus que permanecesse para sempre conosco e nunca deixasse nossa amizade acabar – muito mais a partir daquele momento em que iríamos renascer juntas nas águas do batismo. Para mim, aquele dia era um milagre. Uma resposta de Deus às minhas orações regadas com muitas lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns irmãos da igreja do meu bairro foram assistir ao nosso batismo, realizado na Igreja Central de Florianópolis, a mesma igreja onde sete meses antes eu havia conhecido o amor da minha vida. Meu irmão e minha mãe aceitaram nosso convite e foram assistir à cerimônia. Infelizmente, nenhum parente da Teca compareceu (mas Deus tinha planos especiais para o irmão mais novo dela, o Lenilson).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Robson, meu irmão, ficou bastante emocionado com tudo o que viu. Mas foi minha mãe quem me surpreendeu: ela não só ficou emocionada naquele momento especial, mas parece que se tornou outra pessoa a partir dali. Até então, ela sempre se esquivava de nossos convites para estudar a Bíblia conosco e conhecer melhor a mensagem adventista, porque achava que iríamos fazer algum tipo de “chantagem emocional” ou ameaçá-la de queimar no “fogo eterno”, caso não se convertesse. “Já cansei de ouvir essa conversa”, ela dizia. Sem perceber, minha mãe ainda dava ouvidos aos ecos da religião distorcida e opressora que havia aprendido na infância. Como tudo é diferente quando se conhece o verdadeiro Deus revelado em Cristo! Como eu queria que ela conhecesse esse amorável Salvador a quem eu estava entregando a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus, ao me ver no tanque batismal e contemplar minhas lágrimas de alegria, algo mudou dentro dela. O Espírito Santo transformou seu coração e ela pareceu ter visto Jesus em pessoa naquela noite. Não parava mais de pensar nEle e de querer estar com Ele. No dia seguinte, ela pediu para estudar a Bíblia com o Michelson e comigo, o que fizemos com muita alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, minha mãe foi compreendendo que, ao contrário do que ela pensava, Deus faz e continua fazendo de tudo para nos dar a vida eterna – Jesus já pagou a dívida da humanidade na cruz e prossegue Sua obra de intercessão no santuário celestial. Finalmente, aquela menina órfã encontrou consolo nos braços do Pai. O amor de Jesus venceu todos os preconceitos e rancores dela. Dali alguns meses, ela também seria batizada como eu fui, o que deixou meu pai muito feliz por ter a família quase completa na mesma fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;foto: débora="" e="" teca=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6xrBgu_-I/AAAAAAAANG0/F-TqNNwPCew/s1600/debora+e+teca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6xrBgu_-I/AAAAAAAANG0/F-TqNNwPCew/s320/debora+e+teca.jpg" width="218" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Naquela noite do meu batismo, na Igreja Central de Florianópolis, era impossível não me emocionar. Ao olhar para a Teca ali do meu lado, pude perceber como o poder de Deus faz o impossível acontecer. Ao recordar tudo o que nós duas havíamos passado para estar ali, juntas, senti o amor de Jesus uma vez mais nos envolvendo, cuidando de nós de maneira carinhosa e especial. A maior evidência da existência de Deus e de Seu amor naquele momento éramos nós duas e nossa vida renovada. Sentia-me serena e feliz, como nunca antes. Uma paz indescritível invadiu-me o coração. E no momento em que vi que o Michelson cantaria uma música especial para mim, as lágrimas brotaram abundantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se virou para mim, olhou em meus olhos e cantou uma linda canção, cuja letra dizia que Jesus me ama como uma criança, para sempre. Senti-me como uma menininha novamente, como se toda a minha história estivesse começando a partir daquele momento, quando ouvi as palavras “Como criança eu pra sempre vou te amar”. Tive a certeza de que Jesus me trataria com o mesmo amor, para sempre, mesmo que eu viesse a falhar de vez em quando, tropeçando aqui e ali para aprender a caminhar. Ele me amaria como Sua filhinha e jamais me abandonaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6xDlr7tuI/AAAAAAAANGw/LY97HYcl3dE/s1600/batismo+debora.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: left; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6xDlr7tuI/AAAAAAAANGw/LY97HYcl3dE/s320/batismo+debora.jpg" width="238" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;A música originalmente cantada pelo pastor Fernando Iglesias era muito linda. Mas para mim ela se revestiu de um significado ainda mais profundo pelo fato de ter sido cantada pelo Michelson. Eu o amava tanto e pensava que para ter o amor de alguém tão maravilhoso Deus realmente havia me perdoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós dois ainda frequentávamos a Igreja Central de Florianópolis, mas nossas visitas ao grupo da Barra do Aririú se tornaram cada vez mais frequentes. O Michelson era convidado para pregar lá pelo menos uma vez por mês. E como fomos nos envolvendo cada vez mais nas atividades da congregação e ministrando estudos bíblicos para pessoas ali do bairro, acabamos ficando de vez com os irmãos daquela igreja. Algum tempo depois, o Michelson foi eleito diretor do grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia sofrido tanto ali, no passado. Só que agora tudo prometia ser diferente – Deus estava me dando, até nesse aspecto, uma chance de recomeço. Agora eu sabia realmente quem era Jesus e tinha o Michelson ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia fui ajudar minha mãe a limpar a igreja do nosso bairro. Como não havia utensílios suficientes lá, eu levei de nossa casa uma vassoura e um balde. Terminado o trabalho, voltávamos para casa, conversando felizes pela rua. Eu estava cansada e suada, mas muito satisfeita por ter ajudado a deixar em ordem a casa de Deus. De repente, me dei conta da minha aparência e comecei a rir comigo mesma. Vestia uma “roupa de crente”, com chinelos de borracha e uma vassoura nas mãos. Realmente não me importava mais com superficialidades ou com o que os outros iriam pensar de mim, contanto que estivesse fazendo o que era correto e nobre. Deus havia quebrado meu orgulho e vaidade. Meu conceito de beleza era outro agora: a beleza da simplicidade, do bom gosto e da decência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente eu me sentia livre por não mais pertencer a este mundo. Quando era ainda bem pequena, eu olhava para o céu e perguntava por que eu tinha que ter nascido ali, naquele lugar, e levar aquela vida. Naquela tarde, essa pergunta não mais me incomodava. Olhei para o céu, mas em lugar da pergunta, fiz um agradecimento: “Obrigado, meu Jesus, por me fazer nascer de novo.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-3138444068960687320?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/3138444068960687320/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=3138444068960687320&amp;isPopup=true' title='5 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/3138444068960687320'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/3138444068960687320'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2007/09/captulo-18-novo-nascimento.html' title='Capítulo 18 - Novo nascimento'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6tybZiiZI/AAAAAAAANGc/Bh5bEZOR1zU/s72-c/sao+pedro+de+alcantara+-+panoramio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-6866297304299644848</id><published>2007-04-24T18:35:00.000-07:00</published><updated>2011-02-09T16:25:35.655-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 17 - Transições e lições</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6dCKqac-I/AAAAAAAANF0/hJbJl3VqmNA/s1600/batismo+debora.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6dCKqac-I/AAAAAAAANF0/hJbJl3VqmNA/s320/batismo+debora.jpg" width="224" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dezembro de 1995. Depois de quatro anos de estudos e muita luta para me manter como estudante bolsista na UFSC, finalmente havia chegado o dia da formatura. Mas a minha maior recompensa não era apenas o canudo que naquele momento mágico eu segurava como um verdadeiro troféu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucas semanas antes da cerimônia de formatura, tudo já estava preparado. O local escolhido foi o auditório da Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina. O famoso jornalista José Hamilton Ribeiro tinha aceitado o convite para ser nosso paraninfo. Mas o dia marcado para formatura tinha sido o sábado dia 17, às 18h30. Ou seja: pelo fato de ser Verão, a cerimônia teria início ainda durante as horas sagradas do sétimo dia. Não comentei sobre isso com ninguém no curso. Não queria ser inconveniente e já estava me conformando com a ideia de ter que fazer a colação de grau em separado. Foi quando um colega formando me perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E aí, Michelson, tá preparado para a formatura? No baile eu sei que você não vai, mas a cerimônia de colação também promete!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem que eu gostaria de ir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ué, e por que não vai?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque a cerimônia foi marcada para o sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nem esperou que eu desse mais explicações. Colocou a mão na cabeça e exclamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Minha nossa! A gente esqueceu completamente desse detalhe. Espere aí que eu já volto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentei-me na escada da recepção do curso e observei meu colega desaparecer numa das salas. Minutos depois, ele retornou sorrindo e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Conversei com o pessoal que está organizando a formatura e eles concordaram em atrasar um pouco a cerimônia para você poder participar. Imagine que iríamos deixá-lo fora! Às 19h30 está bom pra você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está ótimo! Muito obrigado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-ldAAJTI8rhQ/TVMvSM2nzBI/AAAAAAAANKI/R1HWaV_DL0I/s1600/capa+livro.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="200" src="http://2.bp.blogspot.com/-ldAAJTI8rhQ/TVMvSM2nzBI/AAAAAAAANKI/R1HWaV_DL0I/s200/capa+livro.jpg" width="118" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Deus estava me dando um segundo presente ao permitir que eu participasse com meus colegas da cerimônia de formatura. O primeiro havia sido minha nota máxima no projeto de conclusão do curso. Eu havia dedicado mais de um ano e gasto meus parcos recursos em pesquisas sobre a chegada do adventismo ao Brasil (posteriormente, esse livro-reportagem foi impresso pela Casa Publicadora Brasileira com o título &lt;i&gt;&lt;a href="http://www.adventismo.blogspot.com/" target="_blank"&gt;A Chegada do Adventismo ao Brasil&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;). Tive que viajar algumas vezes para Brusque, Lajeado Baixo, Itajaí, Jaraguá do Sul e Gaspar Alto. Entrevistei descendentes de pioneiros e visitei lugares inspiradores. Mais que um livro-reportagem, aquela pesquisa foi um incentivo para me dedicar ainda mais à pregação do evangelho, como fizeram os adventistas de um século atrás, quando dispunham de pouquíssimos recursos para o trabalho. Tudo o que vi, ouvi, li e registrei ajudou a solidificar ainda mais a minha fé num movimento religioso que nasceu no coração de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre todas as viagens e pesquisas que fiz, visitar Gaspar Alto foi especialmente emocionante. Eu sabia que a ida àquele lugar seria inspiradora, por isso convidei a Débora para ir comigo. O pastor José Miranda, que me havia batizado em Criciúma, estava servindo como distrital em Brusque, e me deu todo o apoio de que precisava em minhas pesquisas lá. Naquela tarde de sexta-feira, a esposa dele, Rosemarie, foi nos buscar na rodoviária a fim de nos levar a Gaspar Alto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já era fim de tarde quando iniciamos a subida da estrada de terra que leva ao local onde viveram os primeiros conversos ao adventismo no Brasil. Muitas curvas e buracos depois, finalmente chegamos. Gaspar Alto é uma vila incrustada num vale entre as montanhas. Pouca coisa mudou em um século, o que nos faz respirar ali um ar de pioneirismo e história ainda hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal Eliseu e Iria Calson nos esperava com um delicioso lanche à mesa. Ficaríamos hospedados na casa deles enquanto eu faria as pesquisas e entrevistas naquele fim de semana. Lanchamos à luz de velas pois havia faltado energia naquela noite. Conversamos um pouco e depois fomos dormir, a Débora num quarto de hóspedes e eu num colchão na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, depois do desjejum, fomos à igreja. No trajeto, alguns irmãos passaram por nós de carroça. Parecia que havíamos voltado no tempo. Depois de alguns minutos, chegamos ao pequeno templo que fica exatamente no mesmo local onde fora construída em 1896 a primeira casa que havia servido de local de reuniões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6Yj3PoyHI/AAAAAAAANFc/XAdnyY9_6Ns/s1600/igreja%2Bgaspar%2Balto.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6Yj3PoyHI/AAAAAAAANFc/XAdnyY9_6Ns/s400/igreja%2Bgaspar%2Balto.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-GgQ3H_QnSOU/TVMsjZV_76I/AAAAAAAANKA/NVtNFNSsgDc/s1600/igreja+gaspar.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="266" src="http://3.bp.blogspot.com/-GgQ3H_QnSOU/TVMsjZV_76I/AAAAAAAANKA/NVtNFNSsgDc/s400/igreja+gaspar.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Na Escola Sabatina, metade da congregação recapitulou a lição da semana em alemão e a outra metade, em português. Logo em seguida, subi à plataforma para apresentar o sermão sobre a videira verdadeira (Jesus). Fiquei emocionado ao colocar minha Bíblia sobre o púlpito de madeira centenário. Pensei em quantos sermões haviam sido pregados dali e de quantos pioneiros o haviam utilizado para animar a igreja a continuar firme até a volta de Jesus. Aqueles foram momentos muito especiais. Era muito bom poder estar naquele lugar com minha amada Débora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde, depois do almoço, o irmão Eliseu, líder da igreja, nos levou para visitar alguns descendentes dos primeiros adventistas. Gravei horas e horas de conversa e pude cruzar com os relatos daqueles irmãos as informações obtidas em minhas pesquisas no Museu Histórico do Vale do Itajaí e em outras fontes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1884, um jovem alemão conhecido como Borchardt, residente na então chamada Colônia de Brusque, em Santa Catarina, envolveu-se em uma briga, ferindo gravemente seu oponente. Com medo da polícia, resolveu fugir de Brusque em direção ao Porto de Itajaí. Lá chegando, embarcou clandestinamente em um navio que rumava para a Alemanha. Numa das escalas, acabou conhecendo dois missionários adventistas que lhe perguntam se conhecia algum protestante no Brasil. Meio desconfiado, Borchardt respondeu que o padrasto, Carlos Dreefke, era luterano. Os missionários pediram-lhe o endereço de Dreefke, deixando claro que o único interesse deles era enviar literatura religiosa para o Brasil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns meses depois, um pacote contendo revistas adventistas em alemão chegou à Colônia de Brusque, endereçado a Carlos Dreefke e com selo de Battle Creek, Estados Unidos. A encomenda foi aberta na casa comercial de Davi Hort, um típico casarão colonial de dois pavimentos, distante oito quilômetros do atual centro de Brusque. Dreefke, ainda meio desconfiado, tomou para si uma das revistas, com inscrição de capa &lt;em&gt;A Voz da Verdade&lt;/em&gt;, e distribuiu as outras nove para seus amigos que estavam ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-Cc8ybROdCY8/TVMrleKYbEI/AAAAAAAANJ0/aaWWpj7uSwE/s1600/brusque1.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/-Cc8ybROdCY8/TVMrleKYbEI/AAAAAAAANJ0/aaWWpj7uSwE/s400/brusque1.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Casarão onde foi aberto o pacote contendo revistas adventistas em alemão&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-M6yedoY4M_A/TVMr7zfpOTI/AAAAAAAANJ4/z96p5eSwfFU/s1600/brusque2.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://3.bp.blogspot.com/-M6yedoY4M_A/TVMr7zfpOTI/AAAAAAAANJ4/z96p5eSwfFU/s400/brusque2.JPG" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;﻿﻿&lt;br /&gt;Com o tempo, algumas famílias demonstraram interesse por aquelas publicações que falavam, entre outras coisas, da segunda vinda de Cristo, de um estilo de vida saudável e da importância de se reservar o sábado para atividades de cunho religioso. Continuaram a pedir mais literatura usando o nome do Sr. Dreefke que, com medo de que algum dia lhe mandassem a conta de todas as revistas, acabou cancelando os pedidos futuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frustração foi geral. Quem poderia assumir a responsabilidade pelas revistas? Um polonês de nome Chikiwidowski chegou a se responsabilizar pelos pedidos, mas seu entusiasmo durou pouco. Foi então que uma terceira pessoa entrou na história: Frederich Dressler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dressler era filho de um pastor luterano na Alemanha. Foi expulso de seu país por ser alcoólatra. Aproveitando as correntes migratórias para o Brasil, foi parar em Brusque. Trabalhou como professor, mas toda a renda dele era gasta em bebida. Quando Dressler ouviu falar das tais revistas adventistas que eram enviadas de graça, resolveu fazer um pedido com a intenção de vendê-las para alimentar o vício que o destruía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As revistas (como a &lt;em&gt;Hausfreund&lt;/em&gt;, “Amigos do Lar”) chegaram e, com elas, alguns livros. Entre eles, um muito especial: o &lt;em&gt;Comentário Sobre o Livro de Daniel&lt;/em&gt;, de Urias Smith. Após a leitura desse livro, Guilherme Belz se tornaria, em 1895, o primeiro no Brasil a reconhecer o sábado como dia de descanso, graças à literatura adventista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em certas ocasiões, enquanto Dressler caminhava pelas ruas em busca de compradores, os folhetos caíam-lhe das mãos trêmulas. Como não havia muito papel espalhado pelo chão naquela época, as pessoas, curiosas, apanhavam os folhetos e os liam. Sem saber, Dressler prestou grande contribuição à causa adventista que ensaiava seus primeiros passos em terras brasileiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A editora da igreja enviou centenas de dólares em literatura que Dressler transformou em cachaça. Na venda de Davi Hort, Dressler trocava as revistas e folhetos diretamente por bebida. O Sr. Davi as usava como papel de embrulho. E foi dessa forma que a mensagem adventista conseguiu se espalhar mais e mais, alcançando famílias e corações nos quais a semente do evangelho começara a germinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dez anos depois, o missionário adventista Albert Bachmeyer foi a Santa Catarina. Grande foi sua alegria quando, ao oferecer livros a uma família em Brusque, descobriu que havia adventistas ali e em Gaspar Alto. Frank Westphal era o único pastor adventista no continente. Trabalhava na Argentina e quando foi informado da descoberta de Bachmeyer, veio ao Brasil. Em fevereiro de 1895, ele desembarcou no Rio de Janeiro e seguiu primeiro para o interior de São Paulo, para batizar os primeiros conversos que já havia ali. Guilherme Stein Jr. foi o primeiro adventista brasileiro a ser batizado, numa manhã de abril de 1895. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia 30 de maio de 1895, o pastor Westphal chegou a Brusque, e lá encontrou os primeiros grupos de conversos ao adventismo no Brasil. Emocionados, os novos conversos ouviram pela primeira vez a pregação de um ministro adventista. Em 8 de junho de 1895, foi realizado o primeiro batismo de oito pessoas no rio Itajaí-Mirim, uns cinco ou seis quilômetros acima da então Vila de Brusque. Três dias depois, o ministro adventista realizou o segundo batismo, em Gaspar Alto. Naquele dia, mais quinze pessoas foram batizadas no riacho que passou a ser represado nessas ocasiões especiais. Com esse grupo de conversos catarinenses foi organizada a primeira congregação adventista do sétimo dia no Brasil. No ano seguinte, 1896, foi construído o primeiro templo em Gaspar Alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6ZoswbiMI/AAAAAAAANFo/9Gt9LZMCmIY/s1600/1%25C2%25BA+templo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="248" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6ZoswbiMI/AAAAAAAANFo/9Gt9LZMCmIY/s400/1%25C2%25BA+templo.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Primeiro templo de Gaspar Alto, construído em 1896&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;A Débora e eu estávamos ali, cem anos depois, revivendo aquelas belas histórias da atuação da providência divina. Depois das entrevistas, fomos visitar o Cemitério da Esperança, localizado num terreno atrás da igreja. Lá estão sepultados vários pioneiros, dentre os quais Guilherme Belz. Ali, naquele local bucólico no sopé de uma pequena montanha, fiquei imaginando o dia da ressurreição, quando aqueles bravos homens e mulheres se levantarem para conhecer o fruto de seu trabalho árduo. Pedi a Deus que me mantivesse fiel para encontrá-los naquele grande dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo, visitamos mais alguns lugares e em seguida fomos conversar com a mulher que tinha o único automóvel disponível para nos levar de volta a Brusque, onde tomaríamos o ônibus para Florianópolis. Acertamos o valor do combustível e o irmão Eliseu desceu a montanha conosco, dirigindo o fusca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O passo seguinte foi organizar todas as informações em forma de livro. Senti-me muito feliz ao perceber que alguns dos meus professores passaram a conhecer a história da minha igreja e a respeitá-la, graças ao que eu havia escrito. Foi realmente um grande privilégio poder descrever para os componentes da banca examinadora (os professores Neila Bianchin, Francisco Karan e Nilson Lage) a história de pioneirismo dos primeiros adventistas que pisaram em solo nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com as últimas economias que me haviam sobrado naquele fim de ano, comprei alguns exemplares do livro &lt;em&gt;O Grande Conflito&lt;/em&gt;, de Ellen White, e dei-os aos meus professores e para alguns colegas mais chegados. Tinha plena consciência de que devia deixar um “rastro de luz” naquele local, afinal, era a primeira vez que um adventista passava por ali e eu não sabia quando outro viria. Assim, pude cumprir de alguma forma as palavras do meu amigo Campolim Palma, ditas anos antes diante de uma banca de livros usados no campus: “Onde as trevas são mais intensas, é justamente ali que nossa luz deve brilhar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus pais estavam lá naquela noite de sábado, juntamente com minhas irmãs, meu cunhado, sogros e a minha querida Débora. Unidos comigo na alegria da conquista de mais uma etapa importante em minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6akQgyDEI/AAAAAAAANFs/eFQ_Jp__UCY/s1600/formatura.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="200" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6akQgyDEI/AAAAAAAANFs/eFQ_Jp__UCY/s400/formatura.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha pensado que a escolha da faculdade era uma das mais difíceis da vida e que o vestibular era o pior obstáculo para se transpor. Agora eu estava diante de decisões cruciais, que, de certa forma, tornavam aquelas pequenas: O que fazer da minha vida? Onde trabalhar? Deveria voltar para Criciúma, para a casa dos meus pais, ou continuar morando em Florianópolis? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meus colegas de curso perguntavam onde eu iria trabalhar como jornalista, já que guardava o sábado, dizia que minha igreja tem uma grande editora e que eu &lt;em&gt;poderia&lt;/em&gt; trabalhar lá (era praticamente um blefe, pois não conhecia ninguém em São Paulo, tinha poucos anos de igreja e não era teólogo; mas pelo menos silenciava meus inquisidores).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho de cursar Teologia não havia saído da minha mente e resolvi pedir ao escritório estadual da Igreja Adventista uma oportunidade de experimentar a colportagem (venda de livros religiosos) numa equipe de estudantes do Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Naquele ano, a equipe trabalharia em Florianópolis e meu plano era me unir a eles para adquirir experiência, depois de terminado meu projeto de conclusão de curso. Encerradas minhas atividades na universidade, fui procurar o líder dos estudantes e fiquei sabendo de uma mudança de última hora: devido às fortes chuvas das semanas anteriores, houve enchentes e deslizamentos de terra na Capital, o que fez com que a equipe resolvesse mudar o campo de trabalho, indo para o município de São Bento do Sul. Àquelas alturas, eles já estavam trabalhando lá havia algum tempo. Isso, mais a distância, foram fatores que acabaram inviabilizando meu ingresso na equipe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora? Lá estava eu, sozinho na casa de madeira que havia alugado com o Lauro, o Luís e o Cláudio (eles já estavam desfrutando as férias) e sem saber o que fazer. Foi então que resolvi estudar o livro &lt;em&gt;O Colportor de Êxito&lt;/em&gt; e tentar trabalhar por conta própria. Consegui alguns livros e numa segunda-feira criei coragem para sair de casa em casa. Escolhi um bairro nobre, não muito longe de onde eu morava, recapitulei mentalmente as orientações do livro sobre como fazer ofertas, orei a Deus e toquei o interfone da primeira casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pois não? – a voz tinha um tom de impaciência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bom dia. Sou estudante e estou apresentando um material que trata de saúde e relacionamento familiar. Posso falar com a senhora um momento?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não tenho interesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não tenho interesse... Não tenho interesse...” Repeti aquelas palavras em pensamento, tentando recordar as dicas do livro para vencer objeções. Mas não teve jeito. Tive que partir para a casa seguinte. Dessa vez, um advogado de meia idade me permitiu entrar e ouviu meu discurso. No fim, repetiu as mesmas palavras da vizinha: “Obrigado, mas não tenho interesse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com poucas variações, a cena se repetiu em todas as residências daquela rua. Agora, quem estava ficando sem interesse era eu. Cansado e desanimado, resolvi voltar para casa. Antes passei no supermercado em comprei iogurte para beber e uns biscoitos. Aquele seria meu almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-7gv8iuq2Ma4/TVMwbSY1iqI/AAAAAAAANKQ/-qnWAj8NFkw/s1600/quarto+republica.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/-7gv8iuq2Ma4/TVMwbSY1iqI/AAAAAAAANKQ/-qnWAj8NFkw/s320/quarto+republica.jpg" width="208" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Deitado em meu colchão, no quarto escuro que ficava ao lado da cozinha, eu era o próprio desânimo em pessoa. Queria conversar com alguém, mas a casa estava completamente silenciosa. Nem com a Débora eu podia falar, já que ela estava colportando com uma equipe de moças em Itajaí (a saudade era grande, mas, pelo menos, ela havia conseguido ingressar numa equipe e devia estar se saindo melhor do que eu). Tentando recobrar o ânimo, peguei alguns livros de Ellen White que eu já havia lido e comecei a copiar em cartõezinhos os textos que eu havia sublinhado. Aquilo me fez bem e depois se transformou numa espécie de caixinha de promessas. Resolvi reler &lt;em&gt;O Colportor de Êxito&lt;/em&gt; e orei pedindo a Deus que me mostrasse um bairro onde eu poderia trabalhar (coisa que não havia feito na primeira vez).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;quarto&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, levantei cedo, fiz meu culto, peguei os prospectos e comecei a trabalhar nas ruas do próprio local onde estava morando, o bairro Trindade. Disse a Deus que a primeira casa seria decisiva para eu continuar ou desistir daquele trabalho. Sentindo um frio no estômago, toquei a campainha. Uma mulher de uns quarenta anos me atendeu na varanda. Sentamo-nos nas cadeiras que havia ali e comecei a falar sobre os livros &lt;em&gt;Saúde Pelas Plantas&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;Vida Natural&lt;/em&gt;, com o prospecto nas mãos. Ela cruzou os braços e começou a demonstrar desinteresse em minha exposição. Depois disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olha, moço, obrigado por tudo, mas achei sua exposição muito primária. Sou professora de bioquímica na universidade e não creio que precise desses livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primária?! Fiquei sem reação e apenas orei a Deus para me ajudar a sair daquela situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem – prossegui. – Mas me permita ao menos terminar a exposição. Falta apenas um livro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei por que disse aquilo, já que, humilhado como me sentia, minha vontade era ir embora imediatamente. Quando tirei da pasta um exemplar avulso do livro &lt;em&gt;O Grande Conflito&lt;/em&gt; e comecei a falar da história do cristianismo descrita pela autora e das profecias bíblicas expostas ali, a jovem senhora descruzou os braços e inclinou o corpo para frente, agora visivelmente interessada no que eu estava falando. Fiquei surpreso e prossegui exaltando as qualidades do livro que eu conhecia muito bem. Quando terminei, ela disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode me deixar a coleção. Vou ficar com todos – ela entrou em casa e retornou instantes depois. – Aqui está o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com receio de perguntar o que a tinha feito mudar de ideia, peguei o dinheiro e combinei a data da entrega. Despedi-me e prossegui confiante, certo de que havia recebido uma resposta de Deus. Depois de alguns dias, tinha conseguido algum dinheiro e feito muitos contatos missionários interessantes. Pude orar com várias pessoas em seus lares e falar de Jesus para outras tantas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A experiência havia sido boa, mas minha vontade mesmo era atuar na área de comunicação. Cheguei a fazer entrevistas e recebi convites para trabalhar em alguns jornais importantes da Capital, como o &lt;em&gt;Diário Catarinense&lt;/em&gt;, mas em todos havia a mesma dificuldade: era necessário trabalhar aos sábados. Até que o diretor das escolas adventistas do Estado de Santa Catarina ficou sabendo da minha intenção de trabalhar na obra adventista e me ofereceu uma vaga como professor de História no Colégio Adventista de Florianópolis (na época conhecido como Escola Adventista Dr. Siegfried Hoffmann). Eram poucas aulas e o salário mal dava para pagar o aluguel do apartamento que eu agora dividia com meus amigos de república que ainda estavam estudando na UFSC (ficamos pouco tempo na casa de madeira). Mas, de qualquer forma, era um trabalho. Mais do que isso: um desafio. E eu teria que compensar minha falta de formação específica e experiência com muito esforço e dedicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudei bastante os livros da coleção adotada pela escola e livros de didática, mas confesso que não estava preparado para a cena que veria no primeiro dia de aula. Assim que entrei na sala, a meninada da quinta série me saudou com um “bom dia, tio”. Eram apenas crianças! O desafio seria maior do que eu imaginava. E foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esforcei-me ao máximo para ser um bom professor para minhas turmas de quinta a oitava séries, mas depois de dois anos e meio naquela atividade para a qual não havia me preparado, a frustração e o desânimo chegaram ao auge. Quando ia para a casa dos meus pais, nos fins de semana, ainda tinha que ouvir coisas do tipo: “Você estudou quatro anos de Jornalismo para agora dar aulas e ganhar tão pouco? Há colegas seus que já estão na TV, ficando famosos.” Eu sabia que a crítica tinha que ver com minha opção religiosa. Aos olhos de alguns parentes, era loucura um profissional como eu rejeitar ofertas promissoras de trabalho por causa do sábado. Apenas minha mãe e minha irmã mais nova entendiam minha motivação, já que eram adventistas como eu. Tive que ouvir e sofrer calado, esperando que um dia Deus honrasse minha fidelidade. E Ele o faria de uma forma que eu nem sequer imaginava na época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava vivendo uma verdadeira fase de transição em minha vida. O namoro com a Débora ia muito bem, mas o fato de não ter um emprego que me desse estabilidade financeira impedia qualquer projeto de um futuro casamento. No entanto, eu nutria confiança no Deus nas mãos de quem eu havia colocado meus sonhos e projetos. Havia aprendido a confiar nEle durante os anos de estudos e privações. Jamais me faltara algo que fosse necessário para viver. Até ali meu Pai celestial havia cuidado de mim. Fazia bem relembrar as bênçãos do passado a fim de não temer as incertezas do futuro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela tarde de 1996, sentado em meu colchonete num dos quartos do terceiro andar do apartamento-república, terminei de corrigir algumas provas e me pus a lembrar alguns eventos ocorridos em anos recentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois anos antes, o Luís, o Lauro, o Cláudio e eu embarcamos no ônibus que nos deixaria próximo à pensão (onde morávamos na época). Ouvimos algumas moças falando algo sobre a morte do famoso corredor de Fórmula 1 Ayrton Senna. Era o dia 1º de maio de 1994 e havíamos participado de um retiro espiritual com os jovens da Igreja Adventista Central de Florianópolis. Durante aqueles três dias, tínhamos ficado alheios ao que se passava no mundo (e eu mais ainda, já que a Débora havia ido comigo). Naquele domingo, em nossos primeiros dias de namoro, o Brasil estava em transe e não sabíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que vocês estão dizendo? – o Luís não se conteve e perguntou às moças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês não sabem? O Senna bateu o carro e morreu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um daqueles momentos que marcam uma geração, como no caso da campanha por eleições presidenciais “Diretas Já”, em 1984; da morte do presidente Tancredo Neves, em 1985; do &lt;em&gt;impeachment&lt;/em&gt; do presidente Fernando Collor, em 1992; e outros, que permanecem na mente como marcos na linha do tempo. Agora, o ídolo da nossa geração que levava o patriotismo dos brasileiros até as nuvens a cada corrida que vencia; o jovem corredor que tinha orgulho de passear com a bandeira nacional na pista de corrida; o Ayrton Senna do Brasil estava morto. O jovem campeão que tinha a vida pela frente não mais existia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo me fez pensar uma vez mais na fragilidade da vida, descrita nas palavras do salmista: “O ser humano é como um sopro; a sua vida é como a sombra que passa” (Salmo 144:4). Lembrei-me também do que escreveu o filósofo e matemático Blaise Pascal no livro &lt;em&gt;Pensées&lt;/em&gt;: “Não existe nada mais real que isto, nada mais terrível. Por mais heróicos que sejamos, este é o fim que aguarda a vida mais nobre do mundo. Vamos refletir nisto e, então, dizer se não é indiscutível que não existe bem nesta vida. A não ser a esperança de outra; que somos felizes apenas na proporção em que nos aproximamos dela; e que, como não existem mais aflições para os que têm plena certeza da eternidade, não existe mais felicidade para os que não têm essa esperança.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senna tinha tudo nesta vida, menos a própria vida, que não lhe pertencia. Embora a morte exista desde que o pecado entrou neste mundo, o ser humano nunca conseguiu se acostumar a ela. Não fomos feitos para morrer, e nossa inconformidade com esse inimigo mostra isso. Tentamos ignorar essa triste realidade levando a vida sem pensar muito no fato de que o destino final de todos é a sepultura. Quando alguém famoso ou muito próximo de nós deixa de existir, a vida nos joga no rosto essa crua realidade, chamando-nos mais uma vez à reflexão. Nesses momentos, entendemos que o que realmente importa são as pessoas, os relacionamentos. De uma hora para outra, tudo – formação acadêmica, &lt;em&gt;status&lt;/em&gt; social, posses – fica tão pequeno... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assistindo ao noticiário que não tinha outro assunto naquele dia, pensei na Débora e nos momentos agradáveis que havíamos tido no acampamento. Dei-me conta do quanto gostava de tê-la ao meu lado, de como a vida fazia sentido com ela e de como nunca mais gostaria de viver sem sua companhia. Ela era a mulher da minha vida e eu não poderia jamais perdê-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum tempo depois da oficialização do nosso namoro no terminal urbano de Florianópolis, a Débora me convidou para conhecer seus pais. Eu nem imaginava o quão desastrado eu seria naquela tarde tão importante (sem dúvida, a Débora seria mais bem-sucedida em seu primeiro contato com minha família, poucos meses depois, em Criciúma). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de viajar quase uma hora em dois ônibus, cheguei à Barra do Aririú, no município de Palhoça. Era um domingo à tarde e as ruas de calçamento de pedra estavam tranquilas. Quando encontrei o endereço, bati na porta (acho que meu coração batia mais forte). A Débora surgiu sorridente e me deu um abraço. Puxou-me pela mão e foi logo anunciando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mãe, pai, ele chegou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, eu já conhecia os pais dela de um breve encontro naquele dia em que apresentei o sermão na igreja adventista do bairro. Mas era a primeira vez que ia à casa deles oficialmente como namorado da filha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles foram bastante simpáticos comigo e me ajudaram a ficar bem à vontade. Lanchamos juntos e conversamos bastante. O “seu” Zulmar me falou de seu dia a dia como professor de Geografia da rede pública estadual e de suas “aventuras” como pescador. Como eu descobriria depois, quase todos naquela localidade tinham algum tipo de relação com a pesca. Alguns faziam dela um meio de sobrevivência; outros pescavam mais como &lt;em&gt;hobby&lt;/em&gt; ou para complementar a renda familiar, como era o caso do “seu” Zulmar. Quando o estresse de suas atividades docentes aumentava, ele partia para o mar e às vezes passava a noite em companhia de seu pai e das tarrafas de náilon que eles mesmos confeccionavam. Descendente de açorianos, ele tinha a pele queimada de sol e os cabelos já ficando grisalhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dona” Lúcia era mais quieta. Falava pouco e parecia tímida, mas não tanto quanto minha mãe. Os olhos azuis e os cabelos loiros não negavam a ascendência germânica. Seus pais haviam nascido na primeira colônia alemã de Santa Catarina, São Pedro de Alcântara. A mistura dos dois havia trazido à luz minha princesa: os cabelos loiros e os olhos esverdeados lembravam os da mãe, e os lábios carnudos eram herança do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de lanchar, fomos para a sala de TV continuar a conversa. Foi quando pedi para ir ao banheiro e eles me indicaram o da suíte. Para ir até lá, era necessário passar pela sala de estar. Pedi licença e quando estava atravessando o cômodo, escorreguei no tapete sob a mesa de centro. Tive que me segurar na mesinha para não cair. Nem tive coragem de olhar para trás, mas pude imaginar os três segurando o riso. Recompus-me rapidamente e me tranquei no banheiro. Precisei de alguns instantes para recobrar coragem e voltar à sala de TV. Mas eles foram bonzinhos e fizeram de conta que não tinha acontecido nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVHRfuw1vEI/AAAAAAAANIA/7Sw-3O94Wm0/s1600/tome.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TVHRfuw1vEI/AAAAAAAANIA/7Sw-3O94Wm0/s320/tome.jpg" width="251" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Morro do Tomé,&amp;nbsp;Barra do Aririú&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Com a aprovação dos pais dela e dos meus, nosso namoro prosseguiu e nosso amor foi se aprofundando. Vivemos muitas situações juntos e passei a frequentar a igreja dela, sempre que possível. Com o tempo, tornei-me líder daquela comunidade adventista e procurei ajudá-los a mudar certos tipos de mentalidade e conduta. Eram bons irmãos e muito dedicados ao evangelismo e à igreja, mas a tendência legalista prejudicava o trabalho e os relacionamentos (tanto é que a Débora havia se afastado da igreja em grande parte devido a isso). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por se tratar de uma congregação de periferia, nem sempre era possível contar com a presença e as orientações de um pastor. Por isso, em meus sermões e mesmo em conversas com os irmãos, procurei falar-lhes do amor de Deus; que a igreja é um “hospital” para tratar os doentes do pecado; e que embora os princípios devam ser mantidos, as pessoas estão acima das normas e das regras. Chamei-lhes a atenção para as atitudes de Jesus, que é carinhoso e sempre preocupado com o bem-estar e a salvação de Seus filhos. Foi uma experiência muito gratificante para mim. Pude ver a igreja crescer. Em pouco tempo, a casa de madeira que utilizávamos para as reuniões já não comportava os adoradores. Com a ajuda dos irmãos, realizamos algumas séries evangelísticas (usando na época um velho projetor manual de &lt;em&gt;slides&lt;/em&gt;). Com muita oração e esforço, demos início à construção do templo, que ficou pronto depois de alguns anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Débora e eu passávamos muito tempo juntos. Dávamos estudos bíblicos, pregávamos na igreja e visitávamos os irmãos e os interessados em conhecer a Palavra de Deus. Em pouco tempo nos tornamos muito íntimos, conhecendo muito bem os pensamentos e sentimentos um do outro. Mas essa intimidade também teve um lado perigoso bem explorado pelo inimigo que certamente não estava contente com o que estávamos fazendo pelo reino de Deus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, depois de alguns meses de namoro, tivemos que tomar firme decisão em relação à nossa pureza sexual. Um dia a Débora me abordou com palavras diretas: “Temos que estabelecer certos limites em nosso namoro. Jesus me disse que corremos perigo e nosso relacionamento pode ser prejudicado se não nos cuidarmos.” De início, achei aquela conversa meio estranha, mas depois compreendi os motivos dela. Ambos éramos recém-convertidos, e até conhecer a mensagem bíblica, tínhamos como parâmetro os relacionamentos propostos pelo “mundo”; relacionamentos via de regra focalizados na busca do prazer irresponsável. Nossos padrões morais eram outros agora e precisávamos viver à luz deles. Além disso, éramos líderes em nossa igreja e devíamos servir de modelo aos outros jovens, como diz o apóstolo Paulo: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, &lt;em&gt;torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza&lt;/em&gt;” (1 Timóteo 4:12, grifo meu).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisávamos ser puros e entendi que nossa felicidade futura dependia disso. Mais uma vez agradeci a Deus por ter me concedido uma namorada fiel, que me ajudou a levar cativo “todo pensamento à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que para uma pessoa que não vive à luz da Palavra de Deus as recomendações que vou dar a seguir e essa nossa atitude no namoro podem parecer bobagem. Mas há razões lógicas, além das teológicas, para se evitar o sexo antes do casamento. Eis algumas delas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para evitar sofrimentos futuros e promover a confiança.&lt;/strong&gt; Todo relacionamento humano se baseia na confiança. Com o casamento não é diferente. Descobri isso numa entrevista concedida ao pastor George Vandeman pelo doutor Josh McDowell, no programa de TV “Está Escrito”: Josh contou que namorou uma garota por cerca de três anos e, vinte anos depois, sua esposa acabou conhecendo aquela ex-namorada. As duas se tornaram amigas. Certo dia, ao voltar para casa, Josh recebeu um abraço da esposa. Olhando nos olhos dele, ela disse que estava muito feliz por ter sabido que ele havia se comportado bem durante aquele período. “Jamais pensei que o meu namoro de vinte anos antes poderia afetar meu casamento hoje. Minha esposa confia em mim”, disse ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para evitar lares sem estrutura (ou mesmo a ausência de lares).&lt;/strong&gt; Como dois adolescentes poderão assumir as responsabilidades de um lar, caso o envolvimento sexual pré-marital acabe em filhos (e frequentemente acaba)? Esse é um dos maiores motivos de infelicidade conjugal. E que tipos de cidadãos um lar infeliz e desestruturado formará? Deus sabe o momento e o contexto certos para o envolvimento sexual, pois “o matrimônio, na maioria dos casos, é um jugo muito aflitivo. Milhares há que se acham acasalados, porém, não casados. [...] Da qualidade do lar depende a condição da sociedade” (Ellen G. White, &lt;em&gt;O Lar Adventista&lt;/em&gt;, p. 44). Quando se envolve em sexo fora do casamento, o jovem, além de jogar para o espaço um dos melhores momentos da vida, depara-se também com os problemas do aborto e de “pais solteiros”. E ambos trazem tristes consequências. É por isso que Deus diz, em Hebreus 13:4: “Digno de honra entre todos seja o matrimônio, bem como o leito sem mácula.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Para não contrair DST.&lt;/strong&gt; As Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) são outro fruto amargo colhido por aqueles que se envolvem em sexo fora do casamento. Quando Deus diz “não cometa imoralidade sexual” (1 Tessalonicenses 4), faz isso porque quer nos proteger das consequências dessa prática (aliás, toda negativa divina se revela, cedo ou tarde, uma bênção para nós). O único sexo psicológica e fisicamente seguro é aquele praticado dentro do casamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a pergunta mais importante que deve ser feita pelos namorados é: “Como evitar o sexo antes do casamento?” Primeiramente, é preciso ter firmeza de caráter para “remar contra a maré” e dizer &lt;em&gt;não&lt;/em&gt;. Lendo alguns livros, pude relacionar algumas dicas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Evitem conversas sobre assuntos sexuais.&lt;/strong&gt; Isso é um forte elemento de excitação. Piadas, frases insinuantes, etc., devem ser evitadas. Existem outros assuntos sobre os quais conversar durante o namoro. Experimentem, por exemplo, ler bons livros juntos (ex.: &lt;em&gt;Só Para Jovens&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cartas aos Jovens Namorados&lt;/em&gt;, etc.).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Imagine que seus pais contrataram um detetive para segui-lo.&lt;/strong&gt; Ele fará um relatório de tudo o que você fizer. Tendo isso como parâmetro, você fará com seu amor apenas aquilo que pode ser visto e relatado. Isso é um namoro seguro. Enquanto namoram, a pergunta básica é: “Podemos fazer isso no meio da praça central, ao meio-dia, sem constrangimento?” Se a resposta for sim, tudo bem. Mas o que passar disso deve ficar para o casamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Evitem estar a sós por muito tempo.&lt;/strong&gt; Tarde da noite, então, nem pensar. Pesquisas revelam que os três locais onde mais ocorrem intimidades sexuais são: (1) a casa da moça, (2) a casa do rapaz e (3) o automóvel. Saber disso é bom para evitar o problema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Não se deixe levar pelos meios de comunicação.&lt;/strong&gt; Qual foi a última vez que você viu, na TV, um homem dizer a uma mulher: “Eu te amo”, e não irem para a cama? Qual foi a última vez que você ouviu alguém dizer não ao sexo em um filme? Os meios de comunicação (as novelas, seriados e filmes, principalmente) contribuem muito para a licenciosidade atual. Por isso, evite “ler, ver ou ouvir aquilo que sugira pensamentos impuros”, diz Ellen White, no livro Mensagens aos Jovens, página 285. E atenda ao conselho do salmista: “Não porei coisa má diante dos meus olhos” (Salmo 101:3). Não alimente indevidamente a chama que arde em você. Guarde-a para o momento certo, no contexto certo e com a pessoa certa. É assim que Deus deseja – para o seu próprio bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anos depois, tomei conhecimento de um estudo que confirmou, mais uma vez, os conselhos bíblicos quanto ao sexo. Ele foi publicado na revista científica &lt;em&gt;Journal of Family Psychology&lt;/em&gt;, da Associação Americana de Psicologia e sugere que casais que esperam para ter relações sexuais depois do casamento acabam tendo relacionamentos mais estáveis e felizes, além de uma vida sexual mais satisfatória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Independentemente da religiosidade, esperar [para ter relações sexuais] ajuda na formação de melhores processos de comunicação e isso ajuda a melhorar a estabilidade e a satisfação no relacionamento no longo prazo”, disse o pesquisador Dean Busby. “Há muito mais num relacionamento que sexo. Descobrimos que aqueles que esperaram mais são mais satisfeitos com o aspecto sexual de seu relacionamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Débora recebeu aquele conselho de Jesus, pudemos ter certeza de que Ele queria nos ver felizes e unidos em santidade. Outra vez havia ficado claro que Deus nos havia unido e estava ao nosso lado.&lt;/quarto&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-6866297304299644848?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/6866297304299644848/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=6866297304299644848&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/6866297304299644848'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/6866297304299644848'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2007/04/captulo-17-transies-e-lies.html' title='Capítulo 17 - Transições e lições'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU6dCKqac-I/AAAAAAAANF0/hJbJl3VqmNA/s72-c/batismo+debora.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-1625173991969752670</id><published>2007-04-18T20:00:00.000-07:00</published><updated>2011-02-05T16:59:45.943-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 16 - O primeiro beijo</title><content type='html'>&lt;em&gt;Débora Borges&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tati, é pra você. É o Michelson – a Teca sorriu e me estendeu o telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, tudo bem? Como foi o acampamento? Estava bom?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estava – ele respondeu, meio sem jeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, é? Aqui não estava tão bom – falei em tom de brincadeira, e ele emendou rápido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer dizer... não estava muito bom lá, não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não? – eu queria ouvi-lo dizer que havia sentido minha falta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Parece que faltava alguma coisa... Sabe o que era?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Eu não sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu queria mesmo era estar perto de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos em silêncio por alguns instantes. Imaginei que ele estivesse sorrindo timidamente como eu. Como gostaria de poder ter olhado nos olhos dele naquele momento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabia que eu consegui chegar em segundo lugar na corrida de diretores de clubes? ¬– ele disse, quebrando o silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? E quantos participantes havia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem... três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Puxa, não acredito! Que proeza – falei rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pelo menos não fui o último. Mas me conte como foi sua conversa com a Rafaela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na verdade, quase não houve conversa. Contei para ela que você havia me pedido em namoro e ela foi embora furiosa. Acho que não quer mais falar comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E agora, o que você vai fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não posso fazer mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como assim? E nós dois?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estamos livres... – eu disse um pouco hesitante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que notícia maravilhosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não vai lamentar nem um pouquinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Lamento ter estragado a amizade de vocês. Mas tenho certeza de que um dia ela vai pensar melhor e perdoar a gente. Mas, por outro lado, estou muito feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E sábado, você vai à igreja central?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que não vai ser possível novamente... É que tenho compromisso na igreja de Criciúma. Me perdoe só mais esta vez. Agora tudo vai mudar. Vou fazer planos para ficar aqui nos fins de semana. Domingo vou dar um jeito de chegar mais cedo e vou à igreja. Você também vai, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Vou ver se não tenho algum compromisso – brinquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, eu estava triste e um pouco desapontada. Pensei que ele estivesse tão ansioso quanto eu para estarmos juntos. Mas tentei compreender suas responsabilidades. As palavras seguintes dele me fizeram sentir um frio na barriga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De agora em diante, seu compromisso é comigo, Débora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Emudeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi... Então tá ¬– voltei à “Terra”. – Nos vemos no domingo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até lá, então. Fique com Jesus. Um beijo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Também o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fique com Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o que mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um beijo – falei baixinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um beijo – ele repetiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti como se estivesse sendo beijada pelo telefone e meu rosto ficou mais quente. Quando desliguei, meu corpo parecia leve e eu não conseguia parar de sorrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele domingo de abril de 1994 já fazia um friozinho em Florianópolis e, para variar, tinha chovido. O Michelson estava com uma blusa de lã cor de vinho e calça &lt;em&gt;jeans&lt;/em&gt; azul claro. Segurava a Bíblia e seu guarda-chuva preto. Naquela ocasião, ele estava só, sem os amigos da pensão. Após o culto, caminhamos os três – a Teca, ele e eu – até o terminal de ônibus. Havia cumplicidade em nosso olhar. Queríamos dizer muita coisa um ao outro, mas não sabíamos como e nem quando começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, enquanto nós três conversávamos, ele colocou o braço sobre meus ombros. Mesmo sem palavras, ele encontrou uma maneira de deixar claro que estávamos namorando. Correspondi abraçando a cintura dele. Nosso olhar voltou a se encontrar e sorrimos um para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamo-nos em um dos bancos do terminal para esperar o ônibus e a Teca ficou em outro banco lendo a Bíblia. “Façam de conta que eu não estou aqui”, disse ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele manteve o braço sobre meus ombros enquanto contávamos um ao outro como havia sido nossa semana. Logo chegou o ônibus que a Teca eu deveríamos tomar. Então ele me abraçou mais forte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não vá nesse. Espere o próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei para a Teca, com olhar suplicante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tá bom. Vamos no próximo – ela falou, solidária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos ali, respirando o monóxido de carbono dos ônibus que passavam a todo o momento, ouvindo o ruído dos motores e das pessoas que passavam falando. Mesmo assim, o clima era romântico. Não prestávamos atenção em nada, só um no outro. Para nós, o tempo e o espaço estavam congelados. É irônico que Florianópolis tenha tantos cenários lindos e estivéssemos começando oficialmente nosso namoro num lugar tão inapropriado. Mas as circunstâncias nos levaram até ali e para nós tudo era maravilhoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vez em quando, parávamos de falar e nos olhávamos fixamente. Até que acabávamos sorrindo e desviávamos o olhar com a face corada. Num desses momentos, ele aproximou o rosto do meu, como se fosse me beijar, mas não teve coragem. Como um piloto de avião que está prestes a aterrissar, mas percebe que há problemas em solo, ele “arremeteu” e desviou o rosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dali em diante, era evidente que queríamos selar o início do namoro com um beijo. O silêncio constrangedor trazia inevitavelmente o sorriso de timidez. Eu sabia o que ele queria e ele também sabia o que eu queria, mas eu jamais tomaria a iniciativa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, nova aproximação. O rosto dele voltou a ficar próximo do meu e ele esperou que eu aproximasse mais ainda. E foi o que fiz. Cheguei ainda mais perto, mas sem encostar nele. Então ele chegou mais para frente e tocou meus lábios, beijando-os levemente. Foi um momento breve, mas inesquecível. Depois deitei a cabeça no ombro dele e nos abraçamos longamente, desfrutando o momento sublime. Era maravilhoso sentir o aconchego de seus braços. Gostaria de ter ficado assim para sempre, mas o ônibus havia chegado ruidosamente, como se fosse o relógio que anuncia a meia-noite para a Cinderela, no conto infantil. Era hora de ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava tão feliz por tudo o que Jesus estava realizando em minha vida, mas havia sofrido tanto no passado que me sentia insegura e tinha medo de que aquela felicidade um dia tivesse fim. Era tudo tão bom para ser verdade: Jesus conseguira finalmente fazer com que eu deixasse o “mundo”, suas vaidades e ilusões, e me trouxera de volta para Sua igreja; minha melhor amiga havia entregado o coração a Deus; e eu ainda tinha o amor de uma pessoa cristã e fantástica como o Michelson. Me sentia tão imerecedora que tinha medo de perder tudo aquilo. Minha autoestima muito baixa me tornava insegura e ciumenta demais. Além disso, eu já havia confiado em pessoas que mentiram para mim, me traíram e me decepcionaram. Levou algum tempo para eu perceber que agora tudo era diferente. O Michelson foi me provando que seu amor por mim era sincero e profundo. Ele sempre queria o meu bem e me levava para mais perto de Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU3yAAk53nI/AAAAAAAANFY/35h3EpW8F2c/s1600/michelson+debora.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="320" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU3yAAk53nI/AAAAAAAANFY/35h3EpW8F2c/s320/michelson+debora.jpg" width="254" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Primeira foto tirada após o início do namoro (1994)&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Nos encontrávamos quase todos os dias. Todos os planos que fazíamos ou lugares a que íamos eram sempre submetidos à opinião um do outro. Não fazíamos absolutamente nada sem que o outro soubesse. E o interessante é que jamais me senti sem liberdade por isso. Nossa união era tão espontânea e sincera, que nossa felicidade consistia em realizar tudo levando em conta a vontade e os desejos do outro. Isso me trazia segurança e eu aprendi a confiar plenamente em meu namorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde o início eu sentia que o amava, mas tinha medo de demonstrar isso total e abertamente. Depois de pouco tempo de namoro, o Michelson me surpreendeu e sussurrou em meu ouvido: “Eu te amo.” Meus olhos ficaram marejados, o coração acelerou e meus lábios se abriram num grande sorriso. Ele ficou esperando que eu também dissesse que o amava, mas embora eu realmente o amasse, ainda tinha medo de dizê-lo. Somente depois de alguns meses é que tive coragem de abrir totalmente o coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em junho daquele ano, a Seleção Brasileira disputava o tetracampeonato na Copa do Mundo de Futebol. Os alunos haviam sido dispensados das aulas mais cedo para poderem assistir ao jogo. Os jovens da Igreja Adventista Central de Florianópolis tinham combinado de se reunir no apartamento de um deles, que ficava próximo à Avenida Beira-Mar Norte, a fim de torcer pelo Brasil. O Michelson foi me buscar no colégio para irmos caminhando juntos até lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade estava eufórica. As pessoas passavam apressadas, com seus apitos e bandeiras verde-amarelas. Caminhões cheios de trabalhadores na carroceria percorriam a avenida. E os motoristas buzinavam de vez em quando, extravasando ansiedade misturada com alegria. Faltavam apenas alguns minutos para começar o jogo, mas nós dois caminhávamos pela beira-mar calmamente e de mãos dadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao nos aproximarmos do trapiche onde o Michelson havia me pedido em namoro três meses antes, ele me puxou naquela direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O apartamento é para o outro lado – informei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei. Mas que tal sentarmos aqui um pouco e ir para lá somente no segundo tempo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tem certeza? Você não está com vontade de assistir ao jogo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Prefiro ficar com você aqui no “nosso” trapiche. Mas se você quiser ir até lá eu vou entender...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha resposta imediata foi um amplo sorriso. Fiquei tão feliz com aquela atitude dele e me senti tão importante que foi impossível conter a alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É claro que prefiro ficar aqui com você. De qualquer forma, saberemos pelo som dos foguetes quando o Brasil fizer gols.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro de instantes, tudo ficou em silêncio. Não havia ninguém nas ruas, além de nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você ainda não me deu um beijo hoje... – ele disse, colocando o braço sobre meus ombros e aproximando o rosto do meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos combinar uma coisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê? – ele perguntou, curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Só vamos nos beijar quando o Brasil fizer gol, está bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E se ele não fizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas vai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Certo. E se o Brasil ganhar a Copa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E daí?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você casa comigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se ganhar, eu caso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos divertimos com aquela brincadeira e, felizmente, naquele dia a Seleção Brasileira venceu de goleada. Além disso, naquele ano o Brasil conquistou o tão sonhado tetracampeonato. No dia da final, estávamos na casa da Teca assistindo ao jogo pela TV, quando o goleiro Tafarel defendeu o pênalti e fez do Brasil campeão. Mesmo não gostando muito de futebol – como o Michelson –, foi emocionante ver acontecer algo que eu ouvia falar desde criança e pelo que as pessoas tanto aguardavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E agora, você vai casar comigo? – o Michelson perguntou sorrindo, em tom de brincadeira, lembrando a proposta que me havia feito dias antes lá no trapiche da Beira-Mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora sou obrigada, né? – entrei no jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, em meu coração eu queria que aquela brincadeira se tornasse realidade. Quanto mais ficava perto dele, mais se tornavam difíceis as despedidas. Queríamos estar sempre juntos. Conversávamos sobre tudo: nossa infância, escola, a faculdade dele, a igreja; e gostávamos especialmente de imaginar como seria nossa vida no Céu. Também ficávamos muito tempo lendo juntos, principalmente nas férias. Lemos &lt;em&gt;Primeiros Escritos&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Mensagens aos Jovens&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Cartas aos Jovens Namorados &lt;/em&gt;(estes de Ellen White), &lt;em&gt;Felizes no Amor&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;Canção de Eva&lt;/em&gt; e vários outros livros. Às vezes, quando viajávamos de ônibus para Criciúma, ele ia lendo para mim porque eu ficava enjoada se lesse dentro do veículo. Isso fazia o tempo passar mais rápido, tornando a viagem mais agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hesitei um pouco antes de ir a Criciúma pela primeira vez. Fazia quatro meses que estávamos namorando e eu tinha receio de não me sentir à vontade ou de ser rejeitada pela família dele. Mas sabia que teria que enfrentar aquele momento e que seria importante para nós dois que eu conhecesse esse “outro mundo” em que ele vivia, assim como ele estava conhecendo o meu. Foi realmente difícil, pois eu sabia que, de certa forma, seria avaliada por todos, tanto na casa dele como na igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entramos na residência do Michelson – uma casa de dois pavimentos, com o superior de madeira –, não havia ninguém. Os pais dele estavam trabalhando na loja que eles tinham no centro da cidade e a irmã solteira dele, a Emanuela, estava com eles. Depois de alguns minutos, a mãe dele chegou. Ao ouvir a maçaneta da porta da cozinha se movendo, meu estômago gelou. Quando ela abriu a porta e nossos olhos se encontraram, não sei quem ficou mais envergonhada. Baixando o olhar, ela me disse que eu era bem-vinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo em seguida, chegou um amigo da igreja conhecido como “Buiú”, acompanhado da Emanuela. Ele era muito brincalhão e me perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você já ouviu o nome da sua sogra? É Enedina. O que acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei gaguejando sem saber exatamente o que dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nome feio, né? – ele nem esperou que eu articulasse uma frase. – Pode dizer. É feio mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos rimos e o “gelo” foi se quebrando aos poucos, à medida que comíamos o lanche da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Enedina tinha o rosto jovial e demonstrava certa fragilidade em sua maneira de ser. Mas depois pude perceber que ela é uma das mulheres mais fortes que já conheci. Passou por muitos sofrimentos e sempre trabalhou arduamente para ajudar o pai do Michelson, tanto no tempo em que eles tinham uma metalúrgica, quanto na época da fábrica de roupas. Ela nunca desanimou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos à mesa ainda quando o “seu” Francisco chegou. Muito alegre e simpático, sentou-se conosco e começou a contar sobre as histórias de Criciúma, muitas das quais ele mesmo acompanhou quando era pequeno. Relembrou o tempo em que as minas de carvão atraíam famílias inteiras para a cidade, sendo a principal fonte de renda e de desenvolvimento da região. Falou também de suas aventuras e travessuras vividas nos bairros em que morou com seus pais e seis irmãos. Depois, não poderia deixar de narrar suas conquistas no futebol, sua grande paixão; e que já havia morado na minha terra, quando jogou no Figueirense. O que dona Enedina tinha de quieta, ele tinha de conversador. Francisco era realmente muito divertido e também gostava de contar piadas. O repertório era inesgotável e naquela noite fui dormir com os músculos do maxilar doendo, de tanto rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, fui conhecendo a família e me sentindo mais à vontade. As irmãs do Michelson (que sempre o chamaram de “Mano”) demoraram um pouco mais para me aceitar como parte da família. Viam-me como uma espécie de rival que havia tirado delas o irmão querido. Embora sentissem ciúmes – o que é natural –, elas sempre foram educadas e amigáveis. E com o tempo foram se conformando com a ideia de dividir o Michelson comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu gostava de ir para Criciúma porque o Michelson se tornava ainda mais carinhoso. Me cobria de mimos e atenção para que eu me sentisse bem lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que nós dois queríamos servir a Deus de todo o coração. O Michelson estudava a Bíblia com entusiasmo e tinha prazer em partilhar comigo o que aprendia. Também não medíamos esforços para levar o conhecimento de Jesus às pessoas. Onde houvesse alguém interessado em estudar a Palavra de Deus, lá íamos nós – mesmo que fosse necessário tomar dois ônibus, caminhar longas distâncias, passar pelo meio da lama e do pó e até passar fome. A alegria que sentíamos em ver pessoas tendo a vida transformada por Cristo valia qualquer sacrifício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu admirava muito o amor que o meu namorado demonstrava por Jesus e pela igreja. Quanto mais o conhecia, mais descobria o quanto ele era sincero e bondoso. Um homem verdadeiramente transformado pelo Espírito Santo. E a maneira como ele me tratava me fazia amá-lo cada vez mais. Ele era sempre tão gentil e carinhoso. Me olhava de um jeito que me fazia sentir linda, especial; uma verdadeira princesa. Às vezes, ele simplesmente ficava me olhando com um leve sorriso nos lábios e acariciando meu rosto. Meu olhar mergulhava no dele e não precisávamos dizer nada. Sabíamos que nosso amor era puro e verdadeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a confiar muito nele porque sabia que suas intenções eram boas e que ele nunca iria querer me prejudicar. Por isso eu achava que era desnecessário impor limites ao nosso namoro. Por conhecer a religiosidade sincera e a consagração do Michelson, acreditava que ele nunca faria algo que Deus não aprovasse. E ele realmente era bem intencionado, mas era um homem sujeito às tentações como qualquer outro. Certa vez, começamos a nos abraçar e beijar mais demoradamente, até que isso despertou em nos um desejo sensual muito forte, a tal ponto que foi preciso muita força de vontade para não ir adiante. Então, meu querido Jesus falou ao meu coração de maneira muito especial e me abriu os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei explicar direito como foi, mas me lembro que um dia acordei sentindo tristeza e angústia muito fortes. O Sol brilhava, mesmo assim tudo o que eu olhava parecia cinza. Não conseguia ver alegria em nada e tive vontade de orar e chorar. Voltei para o meu quarto para ficar a sós com Jesus. E ele impressionou minha mente, mostrando-me o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você está se tornando uma tentação perigosa para o Meu filho Michelson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas, Senhor – tentei argumentar –, ele sabe o que está fazendo. Ele jamais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você pode e deve ser mais forte nesse assunto – senti mais uma vez Sua voz doce, porém firme. – O futuro de vocês depende disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendi que, de certa forma, para o homem é mais difícil resistir à atração física e que, portanto, cabia sobretudo a mim estabelecer os limites necessários para conservar nossa pureza mental e vigor espiritual. Me senti muito mal por, de repente, tomar consciência de que poderia estar afastando o Michelson – e a mim mesma – de Jesus e desejei ardentemente agir de forma diferente. Sabia por experiência própria que com Deus nunca é tarde demais. Por todo o amor que eu tinha por Ele e pelo Michelson, consegui mudar minhas atitudes. De início, o Michelson achou estranha minha nova postura. Chegou a pensar que eu não o estava amando mais como antes; que eu estava ficando “fria” com ele. Mas depois de muita conversa e oração, ele acabou entendendo e me agradecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca mais queria viver sem Jesus e não imaginava minha vida sem o Michelson. Queria que Jesus abençoasse nosso relacionamento e desejava fazer bem ao meu namorado, como ele fazia a mim. Eu já sabia muito bem que tudo o que Deus nos pede é para nossa felicidade. As bênçãos do sexo são reservadas ao matrimônio, e fora das orientações de Deus só existem dor e mágoa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti a presença de Jesus e desejei acima de tudo ter coração puro para um dia poder olhar no rosto dEle. A partir daquele dia eu nunca mais seria a mesma. Ainda estava muito longe do ideal, mas aquela experiência me fez dar um grande passo. Mesmo assim, não foi fácil seguir a vontade de Deus. Na verdade, sempre é mais difícil não ceder à inclinação natural de todo ser humano, ainda mais tendo um inimigo ao redor nos tentando e elaborando armadilhas para nos fazer tropeçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos confiavam em nós – até nós mesmos. Foi então que acabamos descobrindo que a autoconfiança pode ser um laço. Acabávamos ficando sozinhos em ocasiões e horários muito oportunos para dar entrada ao pecado. Ainda bem que Deus é mais forte e cuida de Seus filhos. Porém, os pais devem vigiar e aconselhar os filhos incessantemente, e os jovens devem fugir o quanto puderem das situações tentadoras. Eles poderão ser guardados de provações desnecessárias e poupados de grandes sofrimentos, se puderem contar com o apoio dos pais e dos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha certeza de que o Michelson era o amor da minha vida e de que Jesus me havia feito encontrá-lo. E assim como nos guiou desde o início, Ele esteve conosco cada dia do nosso namoro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-1625173991969752670?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/1625173991969752670/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=1625173991969752670&amp;isPopup=true' title='8 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/1625173991969752670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/1625173991969752670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2007/04/captulo-16-o-primeiro-beijo.html' title='Capítulo 16 - O primeiro beijo'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU3yAAk53nI/AAAAAAAANFY/35h3EpW8F2c/s72-c/michelson+debora.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-116646845314976936</id><published>2006-12-18T09:57:00.001-08:00</published><updated>2011-02-05T10:58:26.483-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 15 - Conflitos no campus</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me lembro se era aula de Sociologia ou Filosofia. Só sei que naquele dia a discussão descambou para religião. “O cristianismo provou que não é boa coisa para a humanidade. Basta lembrar-se de quantas pessoas foram mortas pela Inquisição e pelas Cruzadas”, disparou meu colega de classe, ateu e comunista de carteirinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca gostei de criar polêmica, mas diante do que ele havia dito eu não poderia ficar calado. Disse a ele que as ideologias materialistas promovidas por Hitler, Stalin, Pol Pot e outros foram responsáveis pelo extermínio de mais de cem milhões de pessoas. A Inquisição matou umas três mil pessoas – o que é deplorável –, mas o ateísmo político matou muito mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também fiz meu colega ver que o verdadeiro cristianismo praticamente nunca existiu, assim como o comunismo também não. Na verdade, o “comunismo” só existiu uma vez na história, e foi nos tempos da igreja cristã primitiva, quando os discípulos vendiam tudo o que tinham e depositavam num caixa comum (cf. Atos 4:32-35). Comunismo e igualdade não funcionam quando o coração não é convertido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admitindo que havia feito confusão entre cristianismo e catolicismo, meu colega passou a questionar a existência de Deus, afirmando que essa é uma ideia ilógica. O professor e os demais colegas pareciam entusiasmados com o assunto e me senti encorajado a prosseguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já que você falou em lógica, pense no seguinte: (1) Tudo o que teve um começo tem uma causa; (2) o Universo teve um começo; (3) portanto, o Universo teve uma causa. É pura lógica, concorda? – obtendo o assentimento dele, continuei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A premissa número 1 é a lei da causalidade, um dos princípios fundamentais da ciência. Mas será que a premissa número 2 está correta? O Universo teve começo? A primeira prova disso vem da segunda lei da termodinâmica. De acordo com essa lei, a cada momento que passa a quantidade de energia utilizável está ficando menor, o que significa que um dia toda a energia útil terá se esgotado e o Universo morrerá. Já a primeira lei da termodinâmica afirma que a quantidade de energia no Universo é constante, ou seja, finita. (Essas informações estavam frescas na memória de todos, pois havíamos passado recentemente por um vestibular bastante disputado.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, o Universo estaria sem energia neste momento se estivesse funcionando desde toda a eternidade, certo? Mas o Sol ainda brilha, a vida ainda existe, o que significa que o Universo deve ter começado em algum tempo no passado. E é exatamente isso o que diz a Bíblia: tudo o que existe foi trazido à existência do nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notem bem: em algum tempo passado, no princípio, Deus criou tempo, espaço e matéria. Não havia leis naturais antes da Criação. E uma vez que a causa não pode vir depois de seu efeito, as leis naturais não foram responsáveis pelo surgimento do Universo. Quem foi responsável, então? Alguém acima da natureza e sobrenatural é que fez isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também é bom lembrar que as leis que regem o Universo são finamente ajustadas. O cosmos não é apenas um amontoado de matéria desorganizada. Pense na força da gravidade, por exemplo. Se ela fosse um pouco mais forte, a Lua seria atraída para a Terra e ambas despencariam no Sol; se fosse um pouco mais fraca, não teríamos atmosfera com os gases necessários à manutenção da vida em nosso planeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a força dos núcleos (prótons e nêutrons) fosse apenas alguns por cento mais forte, o Universo ficaria sem hidrogênio. Estrelas como o Sol – para não mencionar a água – talvez não existissem. De onde veio toda essa ordem? É a velha história do relógio que não pode existir sem o relojoeiro. Sem essa ordem toda a vida não seria possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por falar em vida, como explicar que a informação encontrada apenas no núcleo de uma pequena ameba seja maior do que os 30 volumes combinados da Enciclopédia Britânica, e que a ameba inteira tenha tanta informação quanto mil conjuntos completos da mesma enciclopédia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se alguém aqui estivesse caminhando pela praia e encontrasse uma frase escrita na areia e alguém lhe dissesse que a frase, por mais simples que seja, tivesse sido produzida pelo incessante bater das ondas ou pelo vento, vocês certamente não aceitariam isso. Mas, por incrível que pareça, é o que muitos fazem quando o assunto é a tremenda informação complexa e específica que determina quem somos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas informações me eram bastante familiares, pois eu havia dedicado alguns anos à pesquisa sobre a controvérsia entre o evolucionismo e o criacionismo – pesquisa que acabou originando, tempos depois, o livro &lt;i&gt;A História da Vida – De onde viemos, para onde vamos&lt;/i&gt;, impresso pela Casa Publicadora Brasileira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia sido evolucionista por muitos anos, embora nunca houvesse negado a existência de Deus. Cria sinceramente que a macroevolução havia sido responsável pelo surgimento da primeira forma de vida e pela diversificação dela. Mas tive uma surpresa quando descobri que existia outra maneira de entender a origem da vida: o criacionismo. Na época, aqui no Brasil, esse assunto quase não era abordado pela imprensa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com muita surpresa que descobri que as bases do pensamento evolucionista não são assim tão sólidas. Na área da Geologia, os intervalos de tempo no registro geológico permanecem um mistério indecifrável. Faltam sinais de erosão entre as camadas da coluna geológica. Se cada extrato ficou exposto às intempéries por milhões de anos, onde estão esses sinais? As camadas são planas, o que sugere deposição rápida em algum evento catastrófico hídrico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra fragilidade do evolucionismo são as lacunas no registro fóssil e as extinções em massa. Os fósseis bem preservados nos dizem que os animais foram sepultados e mineralizados muito rapidamente, sem se decompor ou ser devorados por outros animais. Um bom exemplo são os fósseis de Santana do Araripe, no Ceará. Na parte superior da formação há os ictiólitos (peixes), com órgãos e até mesmo a cor das escamas preservados. Como pude perceber depois, em conversas com geólogos, em condições normais, esse tipo de fossilização não ocorre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando li o livro &lt;i&gt;A Caixa Preta de Darwin&lt;/i&gt;, do bioquímico Michael Behe, minhas dúvidas em relação ao darwinismo aumentaram ainda mais. Behe trata dos sistemas de complexidade irredutível que necessitam de partes múltiplas para funcionar; se uma parte é removida, o sistema não funciona mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa entrevista que me concedeu anos depois (e que foi publicada em meu livro &lt;i&gt;Por Que Creio&lt;/i&gt;), Behe explicou: “Para Darwin e seus contemporâneos do século dezenove, a célula, por exemplo, era uma ‘caixa preta’. Era simplesmente muito pequena, e a ciência daquela época não dispunha de ferramentas para investigá-la. Os microscópios daquele tempo eram bem rudimentares e as pessoas podiam ver só os contornos da célula. Assim, muitos cientistas pensavam que a célula era bastante simples, como um pedacinho de gelatina microscópica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A partir daquela época, a ciência tem mostrado que a célula é um sistema extremamente complexo, que contém proteínas, ácidos nucléicos e diversos tipos de ‘máquinas miniaturizadas’. No meu livro eu examino várias dessas ‘máquinas’ e argumento que a seleção natural darwiniana não pode tê-las produzido justamente por causa do problema da complexidade irredutível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acredito que tais sistemas são mais bem explicados como o resultado de um deliberado planejamento inteligente. E eu cheguei a essa conclusão por um tipo de argumento lógico indutivo: sempre que vemos tais sistemas no mundo real, no mundo macroscópico de nossa vida cotidiana, concluímos naturalmente que eles foram, de fato, projetados. Ninguém se depara com uma ratoeira e se pergunta se foi projetada ou não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquela conversa em sala de aula, meu colega ateu passou a tomar mais cuidado com suas observações relacionadas à religião. Além disso, meus colegas nutriram maior respeito por mim e perceberam que é possível ser “crente” e um ser pensante ao mesmo tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU2asCbSCHI/AAAAAAAANFQ/ptgAf_EsbpI/s1600/ufsc+-+reuni.mec.gov.br.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU2asCbSCHI/AAAAAAAANFQ/ptgAf_EsbpI/s400/ufsc+-+reuni.mec.gov.br.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Prédio da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Ainda bem que eu sabia em que cria e havia tido tempo de solidificar minhas convicções antes de ingressar na universidade. Mesmo assim, me impus o esforço adicional e ler muito material sobre ciência, religião, apologética e filosofia, além das muitas leituras exigidas pelo curso. A Bíblia era meu livro de cabeceira e sempre dediquei tempo para estudá-la. Desses momentos em comunhão com Deus e com a Palavra dEle vinha minha força para enfrentar os desafios da vida universitária. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ambiente secularizado do campus não deixou de exercer forte pressão sobre minha fé e meus princípios. Vi colegas abandonarem suas crenças em nome de uma suposta liberdade de pensamento. Mas essa liberdade muitas vezes se traduzia no uso de drogas e na libertinagem. Colegas fumavam maconha abertamente e iniciavam a semana narrando suas aventuras sexuais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, fui contratado por uma colega formanda para produzir algumas ilustrações para o trabalho de conclusão de curso dela. O assunto da matéria de capa do jornal era educação sexual, e ela, de maneira insinuante, se convidou para ir ao meu apartamento discutir as imagens. Disse-lhe que preferia tratar do assunto ali mesmo, no curso, e ela me olhou como se eu fosse um “alienígena”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixei de participar de muitos eventos, como encontros de comunicação em outros Estados, por saber que nas excursões “rolava de tudo”. Era inevitável o choque de valores, por mais que eu procurasse ser amigo de todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que também houve momentos que me deixaram feliz, como quando a secretária do curso me ofereceu um cafezinho e gentilmente recusei. Estava ali perto um colega de classe cujos cabelos cacheados chegavam quase à cintura. Ele era guitarrista de uma banda da capital. Aproximando-se de mim, ele perguntou em tom jocoso: “O quê? Não bebe café também? Sua religião não permite?” Educadamente falei sobre os males da cafeína e apresentei alguns dados de pesquisas que havia lido. Disse também que não era escravo da minha religião, mas que a Bíblia, como “manual da vida”, nos dá conselhos para ter boa saúde física, mental e espiritual. Ele ouviu atento, olhou para o copinho plástico que tinha na mão e jogou o líquido fumegante no lixo. Depois acrescentou: “Sabe que você tem razão?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre procurei não ser dogmático e respeitar a opinião de todos, permitindo que minha postura falasse mais alto que minhas palavras. Nunca me esqueci do conselho de Francisco de Assis: “Pregue em todo o tempo; se necessário, use palavras.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, quando estava na fila da fotocopiadora, um colega viu o chaveiro com o logotipo dos jovens adventistas que eu carregava no bolso da calça e me perguntou se eu era adventista. Quando disse que sim, ele me contou que havia estudado alguns anos na escola adventista do município de Tubarão e que admirava muito a filosofia da igreja. Convidei-o para estudar a Bíblia e ele não apenas concordou como convidou outro amigo. Estudamos o Apocalipse por vários meses em meu apartamento e desenvolvemos grande amizade. Hoje esse amigo é jornalista em Brasília. Uma pessoa ética e correta. Nos tempos de faculdade, ele me chamava de “meu pastor”. Que responsabilidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A despeito dessas oportunidades evangelísticas, eu sentia que o secularismo do campus aos poucos estava me afetando de maneira negativa. O problema maior não era o relativismo e a incredulidade, nem tampouco o ceticismo (até porque eu sempre soube que certa dose de ceticismo sempre é salutar, ainda mais para um jornalista). Eu me sentia frustrado mesmo é com a falta de espiritualidade e o desrespeito pelas coisas sagradas. Quando estava na metade do curso, pensei em trancar a matrícula para estudar Teologia no interior de São Paulo. Foi quando conheci um servo de Deus que me fez ver as coisas sob outra ótica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Campolim Palma era formado em Teologia e ganhava a vida vendendo livros usados na universidade. Um dia, enquanto folheava alguns exemplares de sua banca, deparei-me com &lt;em&gt;O Grande Conflito&lt;/em&gt;, da escritora adventista Ellen White. Como os livros eram baratos e eu tinha pouco dinheiro, achei que seria uma boa oportunidade de aumentar minha coleção de livros da autora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você tem mais livros desta autora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho. Você gosta dela? – ele me perguntou ao mesmo tempo em que colocava em minhas mãos um exemplar em bom estado do best-seller &lt;em&gt;O Desejado de Todas as Nações&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim. Os livros dela são muito bons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você é adventista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou, por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu também sou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei muito feliz por conhecer um irmão na fé naquele ambiente (era o meu primeiro ano na UFSC e eu ainda não havia conhecido os jovens que seriam meus colegas de pensão). Passei a conversar com o Campolim com certa frequência e a partilhar com ele minhas frustrações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, quando contei a ele que estava pensando em trancar minha matrícula e expliquei os motivos, ele me disse algo que nunca saiu da minha mente e foi como uma diretriz que me motivou a prosseguir no curso até o fim. Ele me olhou nos olhos e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, onde as trevas são mais intensas, é justamente ali que nossa luz deve brilhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decidi que seria um verdadeiro cristão no campus, como foi José no Egito e Daniel, em Babilônia. Se Deus tinha um plano para mim ali, Ele me daria forças para prosseguir e deixar um rastro de luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos meses depois de tomar essa importante decisão, conheci a Débora e tive minha primeira grande recompensa de Deus. Ela foi a motivação que me faltava para continuar firme. Podia me abrir totalmente com ela. Além da resposta às minhas orações por uma namorada, a Débora foi minha grande amiga e confidente. Bendito conselho do Campolim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU2b3hfAZGI/AAAAAAAANFU/b-FeGmsyvPo/s1600/ufsc+-+estrutura.ufsc.br.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU2b3hfAZGI/AAAAAAAANFU/b-FeGmsyvPo/s400/ufsc+-+estrutura.ufsc.br.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Vista aérea do campus da UFSC&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-116646845314976936?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/116646845314976936/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=116646845314976936&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116646845314976936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116646845314976936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/12/captulo-15-conflitos-no-campus.html' title='Capítulo 15 - Conflitos no campus'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TU2asCbSCHI/AAAAAAAANFQ/ptgAf_EsbpI/s72-c/ufsc+-+reuni.mec.gov.br.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-116646463607250573</id><published>2006-12-18T09:57:00.000-08:00</published><updated>2011-02-04T17:52:32.926-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 14 - Livre para amar</title><content type='html'>Dois anos antes dos fatos narrados neste capítulo, eu estava iniciando os estudos bíblicos. Sentia-me especial porque Jesus havia me chamado para conhecer Sua Palavra e descobrir a verdade sobre a história da humanidade e o conflito entre o bem e o mal no Universo. Sentia que não pertencia mais à grande massa das pessoas que vivem sem saber de onde vêm e para onde vão; que desconhecem o significado da existência e nem sequer pensam nisso. Eu conhecia a realidade material da vida, mas agora a dimensão espiritual se descortinava para mim (e o curioso é que sempre há os que pensam que conhecer a Deus e as Escrituras traz alienação). Tornei-me portadora de uma revelação capaz de mudar a vida das pessoas – a começar pela minha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu era uma estudante regular. Conversava muito em sala de aula e o interesse de estar entre os colegas populares dificultava um pouco minha dedicação total aos estudos. Apesar disso, gostava de ler, o que me fazia ter bom desempenho em algumas matérias. Mas, quando comecei a estudar a Bíblia, acabei me disciplinando e retomando o interesse por muitas áreas do conhecimento. Tudo se tornou importante para mim. A ciência, bem compreendida, corrobora as verdades bíblicas. A história deixa claro que as profecias bíblicas só podem ter origem divina, tamanha é sua precisão. As leis da física e as maravilhas de complexidade da biologia apontam para o Criador inteligente. E assim por diante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, com o tempo, aquela boa motivação e os bons sentimentos que Deus havia colocado em mim foram se extinguindo, à medida que eu me afastava dEle. Até que minha vida se tornou completamente sem sentido – como havia sido antes de conhecer a Palavra de Deus – e eu não me importava mais com nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedi transferência do turno vespertino para o noturno, pois sabia que o nível de exigência do desempenho dos alunos era bem menor à noite. Mesmo assim, não consegui me dar bem nos estudos porque raramente comparecia às aulas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A orientadora do colégio me chamou para conversar e com meu histórico escolar nas mãos não conseguia entender por que minhas notas e meu comportamento haviam mudado drasticamente naquele ano. Nem tentei explicar, pois sabia que ela não entenderia meus “motivos”. Eu estava tão desnorteada que não tinha plena consciência do que estava fazendo. Aquele ano foi perdido e quase tive a matrícula cancelada. Tive que implorar para continuar estudando lá no ano seguinte e prometi que seria uma aluna assídua. Com essa condição, permitiram-me permanecer no colégio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, e agora que havia decidido voltar para Jesus, acreditariam que minhas faltas de sexta-feira à noite tinham que ver com convicções religiosas? Eu precisava mudar de turno novamente. Além do mais, à tarde os alunos eram mais dedicados aos estudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui até a secretaria e pedi transferência. A secretária me deu uma folha de papel para preencher e depois a colocou num arquivo com mais uma centena de outros formulários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Todas essas pessoas estão pedindo o mesmo que eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A maior parte sim. Vamos analisar seu pedido e, se for justo, você entrará na fila de espera. Mas seu pedido será o de número cento e alguma coisa. À medida que as vagas forem surgindo, vamos encaixando os primeiros da fila.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí dali completamente desanimada, mesmo assim orei: “Senhor, sei que não mereço, mas Tu sabes que estou arrependida e quero realmente ser fiel a Ti. Se eu tiver que continuar estudando à noite para provar a todos que mudei e assim dar testemunho do Teu poder e da Tua Lei, que assim seja. Mas, Senhor, eu gostaria de estudar à tarde porque o ambiente é diferente e é melhor para mim. Senhor, se essa for a Tua vontade, por favor, me ajuda a conseguir essa transferência.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUytBf0a1RI/AAAAAAAANFM/N3dxcz7EKTo/s1600/instituto+-+sed.sc.gov.br.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="265" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUytBf0a1RI/AAAAAAAANFM/N3dxcz7EKTo/s400/instituto+-+sed.sc.gov.br.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Instituto Estadual de Educação, Florianópolis&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Na semana seguinte, quando as aulas terminaram e eu caminhava para a saída do colégio, encontrei no estacionamento uma professora que havia me dado aulas às sextas-feiras à noite. Ela era muito simpática e havíamos nos tornado amigas. Sempre que me via, ela perguntava como eu estava. Naquela noite, ela estava acompanhada de outra senhora, mas mesmo assim me chamou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora! Venha aqui. Há quanto tempo não vejo você! O que está fazendo aqui? Não me diga que está estudando à noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pois é, professora... É que eu estava trabalhando no shopping e então precisei mudar de turno. Mas agora não estou mais lá e gostaria muito de voltar a estudar de dia. Só que descobri que é muito difícil conseguir isso. Além disso, eu também estudei a Bíblia e entendi que devemos observar o sábado como dia sagrado de repouso, conforme a Lei de Deus. E, de acordo com a demarcação bíblica da passagem dos dias, o sábado começa, na verdade, no pôr do sol de sexta-feira. Por isso, terei que faltar às aulas de sexta-feira à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu falava, as duas prestavam atenção. Então, a senhora que acompanhava minha ex-professora perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você é adventista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim. A senhora conhece a Igreja Adventista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho amigos muito queridos que são adventistas. Vocês se reúnem na hora do pôr do sol para orar e cantar, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É. Nós agradecemos a Deus a semana que Ele nos deu e pedimos que nos dê um sábado feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha ex-professora se virou para a amiga e lhe perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não poderia ajudar a menina? – E olhando para mim, explicou: – Ela é a nova diretora do colégio. Ela vai ajudar você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem pude acreditar! Sem dúvida era obra da providência divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? A senhora pode me ajudar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro que sim! Me passe seus dados e amanhã mesmo eu resolvo sua situação. Isso é muito sério. Eu respeito a convicção religiosa das pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Muito obrigada! Que Deus abençoe vocês! Professora, foi Jesus quem colocou a senhora no meu caminho hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas foram embora rindo da minha felicidade. E eu ria mais ainda. Agradeci a Jesus em pensamento. Na semana seguinte, já estava estudando à tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu podia sentir a mão de Deus em cada detalhe. Ele estava me abençoando e mostrando que me aceitava de volta. Na semana anterior, estava ansiosa e cheia de expectativas. Queria resolver logo essa questão da mudança de turno, mas não sabia como. E, para complicar, ficava ainda mais nervosa cada vez que pensava em como seria meu encontro com o Michelson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela quarta-feira, o shopping estava com pouco movimento, para desespero dos lojistas. A cada hora, mais ou menos, entrava uma pessoa na loja, olhava, olhava, e não levava nada. O tempo não queria passar. Eu ficava “enchendo o ouvido” da Dani falando sobre o Michelson e ela, bem-humorada como sempre, só ficava rindo de mim. De vez em quando, o gerente saía do escritório, todo estressado, para verificar a gaveta do caixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos lá! Vamos vender, pessoal! – ele dizia, enquanto batia palmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos levar uma sacolada para a praia e sair apresentando – eu retruquei, com ar de deboche.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Boa ideia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê?! – estranhei a reação dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pegue o telefone e ligue para os seus clientes. Avise que a coleção nova está chegando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Dani já ia zombar de mim, quando ele completou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você também, Dani.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos aquilo ajudou o tempo a passar mais rápido. Cada vez que pensava que naquele dia iria ver o Michelson, meu estômago apertava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim do expediente, a Dani, uma colega e eu descemos para o piso térreo, de elevador, para ganhar tempo. Mas percebi que ele não estava lá. Ficamos perto da porta uns dez minutos, conversando enquanto esperávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora, você tem certeza de que foi nesta entrada que vocês combinaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho – falei sem esconder o olhar triste, fixo na porta automática que se abria e fechava sem fazer surgir o rosto que eu queria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, me ocorreu um pensamento: “E se ele estiver do lado de fora?” Fiquei com medo de sair e me decepcionar. Mas lá estava ele, sentado na borda da floreira, de cabeça baixa, lendo a Bíblia. Minhas amigas se despediram e logo nos deixaram a sós. Ele me surpreendeu convidando-me para caminhar pela beira-mar. Apesar da chuva que havia caído durante toda a manhã, a tarde estava ensolarada. Perfeita. Então orei em pensamento: “Meu Deus, me ajude a conter meus sentimentos e fazer a coisa certa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o Sol já estava se aproximando do horizonte, paramos para conversar no trapiche e ele me pediu em namoro, expondo o que estava sentindo por mim. Tive vontade de abraçá-lo e dizer o quanto desejava fazer parte de sua vida. Mas não conseguia deixar de pensar em como isso magoaria a Rafaela. Pedi para que ele esperasse um pouco. Queria primeiro conversar com ela e convencê-la de que nem ele, nem eu havíamos tido culpa de nos aproximarmos. Não tínhamos culpa de sentir o que sentíamos. Queria que ela tivesse tempo para aceitar a ideia antes que o Michelson e eu pudéssemos assumir qualquer compromisso. Imaginei o choque que ela iria levar se naquela noite aparecêssemos de mãos dadas na igreja. Sentia que Deus estava dirigindo minhas atitudes e de alguma maneira Ele estava me garantindo que eu não iria perder o Michelson por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar dele demonstrava desapontamento, reforçando ainda mais a minha vontade de consolá-lo e mostrar meu amor. Queria dar-lhe algum sinal, fazer alguma coisa que lhe permitisse ir embora feliz naquela noite – e não com aquela carinha de criança que perdeu o doce. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar dos sentimentos de contrariedade que nutria naquele momento, ele conseguiu manter a serenidade enquanto pregava, mesmo quando meu pai entrou na igreja um pouco atrasado, vindo da escola onde lecionava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que o Michelson cumprimentou meu pai e se despediu dos irmãos à porta do pequeno templo de madeira, a Rafaela e eu nos dispusemos a levá-lo até o ponto de ônibus. Talvez fosse melhor tê-los deixado a sós para que tivessem uma conversa franca e a ilusão dela logo chegasse ao fim. Mas eu sabia que o Michelson tinha pavor dessa situação constrangedora – e eu também sentia um pouco de ciúme, é verdade. Enfim, minha presença a deixou furiosa uma vez mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o veículo chegou, nos despedimos com três beijinhos no rosto. &lt;em&gt;Quase&lt;/em&gt; sem querer deixei o terceiro beijo “escapar” bem no canto da boca dele. Surpreso, ele me olhou sorrindo, com as esperanças renovadas. Eu não havia premeditado aquilo, mas foi o “sinal” de que ele precisava e que eu tanto queria dar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, não foi fácil enfrentar a Rafaela. Assim que o ônibus se afastou do ponto que ficava em frente a um bar, ela deixou de lado a bicicleta que estava segurando e explodiu num tom de voz que chamou a atenção dos homens que bebiam no boteco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você conseguiu chamar a atenção dele, de tanto que “deu em cima”. Mas vamos ver quem vai conseguir namorá-lo, eu ou você! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não procurei chamar a atenção dele, Rafaela. Ele gosta de mim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Gosta nada! Só está sendo educado porque você fica chamando a atenção dele. Pensa que ele gosta de você? – o tom agora era de puro sarcasmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei que ele gosta. Ele me disse isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê?! Quando ele falou isso? – ela arregalou os olhos, num misto de surpresa e raiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fale baixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essas alturas, nossa discussão havia se tornado o foco da atenção dos homens que estavam no bar. Eles apontavam zombeteiramente para nós e riam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos sair daqui – ordenou a Rafaela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhamos uns poucos metros até a esquina e continuamos a conversa. Mas não teve jeito, a atenção dos beberrões já estava conquistada. Na porta do bar um deles falou alto: “Olhem lá! As crentes estão brigando por causa de homem!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era difícil lidar com a Rafaela alterada daquele jeito. Mas eu também não conseguia deixar de sentir certa empatia por ela. Não podia tirar-lhe a razão de estar magoada comigo, mas também não conseguia suportar impassível que ela me rebaixasse e me humilhasse, insinuando que eu havia sido vulgar e que teria tentado “roubar” seu pretendente. Essa definitivamente não era a realidade. Então, concluí que era necessário tirá-la dessa ilusão e fazer com que ela entendesse que não era minha culpa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hoje, quando nos encontramos para vir para cá, ele falou que está gostando de mim e me pediu em namoro. Mas eu disse não por sua causa e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não me esperou terminar e esbravejou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por minha causa?! Se é por isso, agora pode ficar com ele. Eu não quero mais – ela subiu na bicicleta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fique com ele – começou a pedalar e a se afastar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Case com ele! – gritou de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Espere, Rafaela! Não fique assim...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus apelos não serviram para nada. Fiquei ali parada, sozinha na rua, sem reagir por uns instantes. Os homens do bar ainda comentavam a cena e riam debochadamente. Então resolvi voltar para casa, tentando colocar os pensamentos em ordem enquanto caminhava lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei triste por tudo terminar assim naquela noite. Não queria perder a amizade da Rafaela e nem queria que ela sofresse, mas agora não havia mais nada para evitar. Tudo que eu temia havia acontecido. O melhor a fazer era mesmo seguir o conselho da própria Rafaela e namorar o Michelson. Eu me sentia livre, enfim, para demonstrar abertamente o meu amor por ele. Livre para amar. Só me restava orar para que um dia minha amiga compreendesse e me perdoasse. Embora ela tivesse gênio forte, também tinha muita comunhão com Jesus, e eu sabia que logo ela iria conseguir superar aquilo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria muito contar para a Teca tudo o que havia acontecido. Então resolvi ir até a casa dela no dia seguinte. Era maravilhoso poder abrir o coração sem receios e compartilhar meu amor por Jesus. Agora nós duas podíamos buscá-Lo em oração e ter mais sabedoria para aconselhar uma a outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, tudo bem? A Teca não está?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ta lá no quarto – a mãe dela respondeu secamente, sem sequer olhar para mim. Abri a porta lentamente e a encontrei chorando sobre a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que foi, Teca? O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ai, Tati! Não aguento mais. Acho que vou desistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas pernas amoleceram. Eu estava tão ansiosa para que chegasse logo a quarta-feira, para ver o Michelson, que temporariamente havia me esquecido da angústia pela qual a Teca estava passando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, Teca! Você não vai desistir. Jesus vai dar forças para você enfrentar o que for preciso. Ele não permite que a provação seja maior do que você possa suportar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas é muita pressão, Tati. A mãe, o pai... todo mundo está contra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei como é. Mas vamos orar. Isso vai passar. É apenas para provar sua fé e fazer você desistir mesmo. É isso que o inimigo de Deus quer, mas resista. Sua fé vai ser fortalecida e você vai ver a mão de Deus agindo. Jesus nunca vai nos desamparar, Teca. Vamos falar com Ele. Você vai se sentir bem melhor depois de orar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peguei-a pela mão e nos ajoelhamos ao lado da cama. Eu não sabia mais como argumentar para que ela pudesse ver as coisas de maneira diferente. Mas sabia que Jesus poderia fazer isso. Orei e a entreguei a Jesus, e ela se rendeu de todo o coração a Ele. A cada dia era visível o poder de Deus atuando na vida da minha amiga. Pouco tempo depois, ela estava tão fortalecida que não podia conceber a ideia de viver sem fazer a vontade de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber, a Teca estava me ajudando. Eu ainda estava presa a dois mundos. Quando estava na loja, com meus colegas de trabalho e passeando pelo shopping, minha vaidade e preocupação com coisas fúteis insistia em despertar. Mas quando estava estudando a Bíblia com a Teca e conversava com o Michelson, outros valores e sentimentos contagiavam meu coração. Queria viver para Deus a fim de levar para outras pessoas a esperança maravilhosa de estar com Jesus eternamente. Queria me desprender deste mundo e ser cada vez mais semelhante a Jesus. E quando eu percebia a incrível mudança que estava se operando na Teca, isso me dava ânimo para mudar também. Ela “respirava” Jesus e Ele recriou o coração, os sentimentos, a maneira de ser e as motivações dela. Era um milagre incontestável. O semblante dela se tornou puro e singelo. Tudo nela estava de acordo com as palavras de Jesus que agora sempre estavam em seus lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado seguinte foi o primeiro que passamos juntas na igreja. Aquela manhã ensolarada de abril marcou uma nova etapa em nossa vida. Era como se Deus tivesse aberto uma porta para entrarmos num mundo diferente e trilharmos outros caminhos – caminhos de paz e esperança; de verdadeira alegria e sentimentos puros. Passamos por tantas coisas juntas, mas nunca antes havíamos estado satisfeitas em nossa busca por algo que nem sequer sabíamos identificar. Cada uma foi chamada por Deus de maneira diferente, mas as duas haviam sofrido muito antes de chegar àquela porta. Mesmo assim, estávamos felizes como nunca e agradecidas por ter a chance de dedicar a vida a Jesus ainda tão jovens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos à Igreja Adventista Central de Florianópolis, descemos as escadas que davam acesso ao salão onde os jovens se reuniam para a Escola Sabatina e fomos muito bem recebidas pelos colegas de pensão do Michelson. Na sala havia uns trinta rapazes e moças, todos com expressão de alegria enquanto cantavam belas músicas e estudavam a Palavra de Deus. Fomos apresentadas a outros jovens pelos amigos do Michelson. O sábado estava perfeito. Só faltava algo: o Michelson. Ele havia assumido um compromisso com o clube de desbravadores de Criciúma muito antes daquela data, por isso não pôde estar ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos amigos dele se sentou na cadeira ao meu lado e, como que percebendo meus pensamentos, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É uma pena que o Mic não esteja aqui...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri e quase sem perceber suspirei, pensando: “Eu que o diga.” Como gostaria que ele pudesse participar daquele momento especial comigo. Mas me consolei pensando que num futuro bem próximo poderíamos estar ali juntos. E ter muitos e muitos momentos especiais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-116646463607250573?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/116646463607250573/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=116646463607250573&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116646463607250573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116646463607250573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/12/captulo-14-livre-para-amar.html' title='Capítulo 14 - Livre para amar'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUytBf0a1RI/AAAAAAAANFM/N3dxcz7EKTo/s72-c/instituto+-+sed.sc.gov.br.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-116255306571968012</id><published>2006-11-03T03:21:00.000-08:00</published><updated>2011-02-04T12:18:15.508-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 13 - Aquele dia à beira-mar</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que fosse um hábito o que eu estava prestes a fazer (e eu até não considerava isso como coisa de cristãos espiritualmente maduros). Mas, diante das circunstâncias, eu precisava ter certeza de que minha atitude estava realmente de acordo com a vontade de Deus. Pensei na resposta que Gideão pediu a Deus [Juízes 6] e fui em frente com meu teste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu noturno estava nublado, o que, humanamente falando, reduzia minhas chances. No dia seguinte – quarta-feira, 20 de abril de 1994 –, iria (ou não) me declarar à Débora. Precisava muito que Deus me orientasse, por isso fiz uma oração e estabeleci a condição: se não chovesse na tarde do dia seguinte, iria propor o namoro. Se chovesse – o que era mais provável, levando-se em conta as condições climáticas daquela noite de terça-feira –, desistiria do meu intento. Assim, saberia com certeza qual era a vontade de Deus (a despeito da imaturidade deste filho, para Deus essa prova era bem simples, pensei). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para mim não havia dúvidas quanto a ela ser a pessoa ideal, mas jamais tomaria uma decisão tão séria sem consultar meu amigo Jesus, porque “há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14:12). Um dia eu aprendi o quão importante é manter um relacionamento pessoal e íntimo com Deus. Eu sabia que já não podia viver sem meu Criador, por isso coloquei cada aspecto da minha vida nas mãos dEle. Era Ele quem deveria dizer se aquela deveria ou não ser minha futura namorada e, quem sabe, esposa, afinal, “a mulher prudente vem do Senhor” (Provérbios 19:14).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como pude aprender logo após minha conversão, a vida devocional é extremamente importante. Martinho Lutero, quando sabia que ia ter um dia atarefado, levantava ainda mais cedo para dedicar tempo à sua comunhão com Deus. E se houve alguém ocupado neste mundo, esse foi Jesus. No entanto, lendo os Evangelhos percebi que Ele reservava muitas horas para estar em contato com Seu Pai. Se Ele, sendo o Deus Filho, necessitava de oração (em Sua condição humana aqui na Terra), quanto mais eu, um simples mortal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que li o livro &lt;i&gt;Como Tornar Real o Cristianismo&lt;/i&gt;, de Morris Vendem, minha maneira de encarar o cristianismo prático foi radicalmente transformada. Percebi que não bastava um conhecimento teórico da mensagem bíblica. Cristianismo é relacionamento. Se não nos relacionamos com Deus por meio da oração (conversa franca e amiga) e do estudo devocional da Bíblia, logo “esfriamos” espiritualmente, restando um vazio, um vácuo na alma que nenhuma outra coisa ou realização (mesmo o sucesso profissional e acadêmico) preenchem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que era preciso me esforçar para desenvolver o hábito da devoção diária. Escolher um momento mais apropriado (pela manhã, à tarde ou mesmo à noite) em que eu pudesse dedicar alguns momentos a sós com Deus. Aos poucos, constatei também que não mais conseguia ficar sem esses momentos e que eles me ajudavam até mesmo a lidar com todas as atividades que requeriam minha atenção. A princípio, parecia difícil, e Satanás fez de tudo para atrapalhar. Mas, de acordo com Venden, eu não podia desanimar. Continuei me esforçando. E os resultados desse esforço têm compensado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sono demorou a vir devido à ansiedade – o dia seguinte poderia mudar minha vida para sempre e eu sabia disso. Embora confiasse totalmente em Deus, eu sabia que tinha uma parte a fazer, afinal, “ovo não dá em porta de geladeira”. Era essa a parte que mais me assustava. Se realmente não chovesse, o que eu deveria dizer a ela? Como iniciar a conversa? Em que lugar? Com essas perguntas me inquietando, finalmente adormeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela manhã, tive uma desagradável surpresa: nuvens carregadas ainda cobriam o céu e uma chuva fina caía. Fiquei decepcionado. Mas me consolei ao lembrar que tudo estava nas mãos de Deus, e que Ele por certo faria o que fosse melhor para mim – e para ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui até o prédio do Centro de Comunicação e Expressão, na Universidade Federal, mas não consegui prestar muita atenção às aulas de jornalismo daquela manhã. Mesmo observando as condições do tempo pela janela da sala de aula não perdi a esperança. “Para Deus não existem impossibilidades”, repeti para mim mesmo, enquanto ensaiava mentalmente o momento em que me declararia à Débora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encerrada a aula, passei rapidamente na Coordenadoria de Apoio a Eventos e Informações (espécie de departamento de publicidade da Universidade, onde eu trabalhava como desenhista bolsista). Na verdade, esse trabalho foi uma bênção para mim, pois não era necessário cumprir expediente como os outros bolsistas. Eu ganhava um salário mínimo por mês, com o qual pagava o aluguel da pensão e outras despesas. O problema é que quando havia muito trabalho eu tinha que dar conta, ainda que precisasse virar noites. Naquele dia, como nunca antes, torci para não haver nenhum serviço de última hora. Graças a Deus, estava tudo sob controle e minha presença não se fazia necessária ali. Voltei para a pensão e almocei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devia me encontrar com a Débora às dezesseis horas, em frente ao shopping onde ela trabalhava, na Avenida Beira-Mar Norte. Aquela agradabilíssima conversa que havíamos tido na sorveteria, no domingo anterior – durante a qual procurei deixar bem claros (ainda que não de forma explícita) meus sentimentos por ela e a certeza de que o que sentia pela Rafaela era apenas amizade –, acabou me encorajando bastante a fazer-lhe um novo convite. Lembrei-me de como havíamos combinado tudo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Posso passar aí para levar você até o terminal de ônibus? – perguntei-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro! – ela respondeu de forma espontânea e alegre, o que me encorajou a fazer a segunda pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você gosta de caminhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Gosto, por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque eu pensei... que tal irmos a pé pela beira-mar até o centro? Poderíamos conversar e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho uma ótima ideia – disse ela, sem esperar que eu terminasse a frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A oportunidade ideal havia sido criada. Só faltava “aquele” sinal de Deus pelo qual eu ainda aguardava, quando fui tomar banho aproximadamente às 14h30. Espiei pela janela do meu quarto e observei a chuva fina que ainda caía. Entrei no banheiro e enquanto me banhava elevei a Deus uma última prece para que se fizesse a vontade dEle e que eu pudesse aceitá-la. Às vezes, num momento de empolgação, suplantamos a razão e acabamos sofrendo as consequências de decisões precipitadas. Por isso, mesmo estando certo quanto a meus sentimentos, entreguei o caso mais uma vez ao Senhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao abrir a porta do banheiro, que dava para um corredor a céu aberto, um calafrio percorreu-me a espinha. Era inacreditável! Em poucos minutos – o tempo do meu banho –, o céu tinha ficado limpo e o sol brilhava com toda a intensidade. Mal podia acreditar naquilo. Era bom demais para ser verdade! Entrei em meu quarto e, emocionado, ajoelhei-me e agradeci a Deus por ter me respondido de forma tão clara. Agora tinha certeza absoluta de que devia revelar meus sentimentos e intenções à Débora. O maior problema era a coragem para fazer minha parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A hora de encontrá-la estava chegando. Demorei mais tempo do que de costume para me arrumar naquele dia – é claro que fiz a barba de forma caprichada dessa vez. O frio na barriga aumentava à medida que os ponteiros do relógio avançavam. Tentei me recriminar por estar agindo como um adolescente, mas não adiantava. Meus sentimentos estavam além do controle da razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajustei a gravata e dei uma última olhada no sermão. Naquela noite pregaria na Igreja Adventista da Barra do Aririú, a mesma que a Débora frequentava. Provavelmente conheceria o pai dela naquela noite. Peguei a Bíblia e o hinário, e, de paletó nos braços, tomei o ônibus que me deixaria em frente ao shopping.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei lendo a Bíblia (tentando me acalmar em vão) enquanto a esperava, sentado na borda de uma floreira em frente ao prédio do shopping. Poucos minutos depois, três moças surgiram em minha frente. Eram a Débora e duas amigas dela. Ela, graciosa como sempre, despediu-se das amigas e, juntos, dirigimo-nos à passarela da Avenida Beira-Mar Norte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxc3qrd9dI/AAAAAAAANEo/6_uPfxqspIg/s1600/Florianopolis+-+Panoramio.com+9c.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="300" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxc3qrd9dI/AAAAAAAANEo/6_uPfxqspIg/s400/Florianopolis+-+Panoramio.com+9c.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Avenida Beira-Mar Norte&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Conversamos sobre muitos assuntos enquanto eu procurava um local apropriado para levar a cabo minha “missão”. Cerca de um quilômetro depois, chegamos ao trapiche onde atracam barcos de passeios turísticos. Era fim de tarde e como não havia ninguém ali, convidei-a para nos assentarmos e descansar um pouco. Ela ficou (ou fingiu) surpresa com o convite, mas aceitou de pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamo-nos mais ou menos no meio da plataforma de concreto em forma de “T”, que se estende uns 20 metros mar adentro. A paisagem era maravilhosa. O Sol começava a descer no horizonte montanhoso ao longe, refletindo seus raios avermelhados nas águas sob nossos pés. Não muito longe dali estava a ponte Hercílio Luz, o mais famoso cartão-postal de Florianópolis. À nossa frente, do outro lado do canal marítimo que separa a Ilha do continente, estava o bairro Estreito, com seus prédios e casas à beira-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxdUzr1-zI/AAAAAAAANEs/UyDDdfW4UcU/s1600/Trapiche.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="273" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxdUzr1-zI/AAAAAAAANEs/UyDDdfW4UcU/s400/Trapiche.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Trapiche da Beira-Mar Norte: um local muito especial&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxdlMds2EI/AAAAAAAANEw/wYvIQ_VIDMY/s1600/Trapiche+2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="298" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxdlMds2EI/AAAAAAAANEw/wYvIQ_VIDMY/s400/Trapiche+2.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Uma brisa fresca começava a soprar encrespando as águas azul-cinzentas. Vesti meu paletó tentando parar de tremer, mas sabia que a tremedeira não era por causa do frio. Ficamos em silêncio por alguns instantes. Estávamos a cerca de um metro de distância um do outro, por isso convidei-a para se sentar mais perto de mim. Mas ela respondeu sorrindo: “Não, aqui está bom.” Em seguida, com uma pedrinha, começou a riscar um coração na laje de concreto do trapiche, e perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que será que dizem que o amor vem do coração?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É porque o coração produz dois movimentos: a cístole e a diástole. Além disso, tem dois ventrículos e duas aurículas... Tudo duplo, percebe? Como o amor envolve duas pessoas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade? Isso tem algo a ver? – ela me interrompeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ri da aparente ingenuidade dela e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É brincadeira. Eu acho que é porque a Bíblia, refletindo o pensamento da antiguidade, diz que o coração é a sede dos sentimentos e Cristo disse que dali vêm os bons e os maus propósitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compreendendo a insinuação, perguntei meio tímido, sem conseguir esconder o brilho em meus olhos e uma certa hesitação na voz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que você pergunta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por nada, não... – ela respondeu sorrindo, baixando os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio voltou a imperar por alguns segundos. Enquanto olhávamos para o mar, tentei criar coragem. O sol já estava meio escondido no horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você quer colocar meu paletó? Está ficando frio...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Obrigada. Mas não estou com tanto frio assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem... Eu estou tremendo, mas acho que não é mesmo de frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio de novo. Comecei a balançar os pés no ar e convidei-a a fazer o mesmo. “Ah, é! E se o meu sapato cair no mar?”, perguntou-me sorrindo. Disse-lhe que pularia na água para salvá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio outra vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez, respirei fundo e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu tenho algo para lhe falar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você já sabe, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não... Nem imagino – respondeu-me, com ar de fingimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não é boba, né? É que eu... eu estou gostando de você – a última frase saiu quase como um desabafo. Agora era tarde para arrependimento. O que disse estava dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nem você é bobo. Certamente também já sabe que eu sinto algo por você. Mas... o que você quer que eu diga?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que me dê uma resposta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei ainda... Espere um pouco. Vai depender da Rafaela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei meio confuso com aquela resposta. Achei que tinha deixado claro que não sentia nada pela amiga dela. Por que isso de novo? Havia ensaiado aquela cena e aquele diálogo centenas de vezes em minha mente, mas confesso que aquele não era exatamente o desfecho que eu esperava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Graças a Deus, minhas dúvidas e incertezas durariam pouco. Antes de voltar do culto na Barra do Aririú, a Débora me daria uma pequena demonstração de que enfim aceitava minha proposta de namoro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxeGOKQj3I/AAAAAAAANE0/WcqC5foPvkI/s1600/Florianopolis+-+Panoramio.com+9b.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="236" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxeGOKQj3I/AAAAAAAANE0/WcqC5foPvkI/s400/Florianopolis+-+Panoramio.com+9b.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Avenida Beira-Mar Norte à noite, vista do Estreiro&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxeqpQ6IkI/AAAAAAAANE4/o9UnGOim5rE/s1600/Florianopolis+-+Panoramio.com+6.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" h5="true" height="228" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxeqpQ6IkI/AAAAAAAANE4/o9UnGOim5rE/s400/Florianopolis+-+Panoramio.com+6.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Ponte Hercílio Luz: cartão postal da Ilha&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-116255306571968012?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/116255306571968012/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=116255306571968012&amp;isPopup=true' title='6 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116255306571968012'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116255306571968012'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/11/captulo-13-aquele-dia-beira-mar.html' title='Capítulo 13 - Aquele dia à beira-mar'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUxc3qrd9dI/AAAAAAAANEo/6_uPfxqspIg/s72-c/Florianopolis+-+Panoramio.com+9c.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-116255230095510219</id><published>2006-11-03T03:10:00.000-08:00</published><updated>2011-02-03T16:45:27.789-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 12 - Outra vez na igreja</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus pais ficaram furiosos quando informei que iria parar de trabalhar na loja. Minha mãe não podia compreender e meu pai não acreditava mais em mim. Ele achava que era pura irresponsabilidade e que novamente eu iria frequentar a igreja por algum tempo e depois me afastar. Eu não o culpava por pensar assim e tudo o que fiz foi ouvir calada sua oposição e ameaça:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode sair. Mas você terá que pagar suas contas. Além do mais, não vou comprar mais nada para você! Nem roupa, nem calçados, nada. Só vou dar o que precisa para viver. Com o resto, você vai “se virar” sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem – respondi, sabendo que ele estava só me testando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, por conta disso, tive que trabalhar até o fim do mês para saldar minhas dívidas que, felizmente, não eram muitas – apenas algumas peças de roupa da própria loja em que eu trabalhava. Se não fosse por isso, eu teria abandonado o emprego bem antes a fim de servir completamente a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passou tão rápido que nem percebi que o dia de o Michelson pregar na igreja adventista do bairro Forquilhinhas havia chegado. Além do mais, eu estava tentando não pensar nisso e nem teria coragem de pedir à Rafaela para ir junto. Já havia decidido que se fosse para encontrá-lo novamente seria uma ocasião promovida por Deus. Definitivamente, eu não tomaria nenhuma iniciativa. Também não tinha esperanças de que a Rafaela fosse me convidar, pois era natural que ela não me quisesse por perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele parecia um dia comum de trabalho no shopping, mas quando voltei do almoço vi que havia um recado para mim num pedaço de papel ao lado do telefone: “Débora, ligar para Michelson.” E havia um número de telefone anotado. Quando coloquei os olhos naquele bilhete, não consegui acreditar. “Será que anotaram certo? Será que não é Michel?” Naquele mesmo dia, quando tomei o ônibus, sentei-me ao lado de um amigo que se chama Michel, por isso pensei que ele houvesse esquecido de me dizer algo e havia me ligado para, quem sabe, dar um recado de sua irmã, que também era minha amiga. “Deve ser isso... Não vou me iludir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quem anotou este recado? – perguntei para as colegas de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi o gerente. Ele está lá no escritório – respondeu-me uma delas, a Dani, sorrindo e demonstrando preocupação ao mesmo tempo. Seus olhos pareciam dizer: “Melhor não incomodar o gerente.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, mas eu não vou aguentar, Dani – disse isso e já fui subindo a escada em direção ao escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Com licença. Preciso fazer uma pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Hum... – ele nem levantou a cabeça e continuou lendo algo sobre a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi o senhor que anotou este recado, não foi? Tem certeza de que o nome é Michelson?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho, mas não se esqueça de que nosso telefone é &lt;i&gt;comercial&lt;/i&gt;. Não vá ficar batendo papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tá bom, vou falar rapidinho. Prometo – não consegui conter a euforia e saí correndo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava ofegante e tentei me acalmar um pouco antes de pegar o telefone. Minhas mãos tremiam ao teclar o número. O que será que o Michelson iria falar? E eu? Estava tão nervosa, mas não queria demonstrar isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele atendeu e também parecia nervoso (acho que não foi tão feliz em disfarçar quanto eu). Depois de algumas palavras, ele lembrou o convite que havia feito para a Rafaela e para mim, um mês antes. Era lógico que, em consideração à Rafaela, eu não deveria ir. Durante todo aquele mês, ela não me procurou. Obviamente não queria que eu fosse àquela igreja e me encontrasse com o Michelson novamente. Mas não consegui me conter. Estava experimentando emoções tão fortes com a conversão da Teca que não suportava mais não poder compartilhar isso com alguém. Queria especialmente que o Michelson e a Rafaela soubessem disso e pudessem se alegrar comigo e orar por nós. Além disso, ouvir a voz dele me convidando de modo tão gentil e saber que ele também queria me ver a ponto de descobrir o telefone da loja e me ligar – tudo isso tornou o convite irresistível e acabei aceitando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei ao terminal rodoviário, ali estava uma amiga da Rafaela, a Sônia. Eu não sabia que ela também iria à igreja de Forquilhinhas. E ela também ficou surpresa em me ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você também vai, Tati? A Rafaela convidou você? – o tom de voz dela revelava contrariedade. Ela sabia que a Rafaela não me queria ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que ela se esqueceu de me ligar. Foi o Michelson que me ligou hoje, para me lembrar do convite – ela simplesmente sorriu, balançando a cabeça de forma negativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti vontade de me esconder, mas já era tarde. Eu estava ali. Todo constrangimento pareceu valer a pena quando o Michelson chegou. Nossos olhos pareceram se abraçar em pleno ar. Ele era lindo sem a barba! Mais do que eu havia imaginado. Era maravilhoso poder sentir seu olhar sobre mim novamente. Queria que aquele momento nunca terminasse. Ele veio acompanhado de um amigo que parecia estar interessado na Sônia. Estava tudo certo... Exceto pela minha presença intrusa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rafaela chegou logo em seguida. Fui ao encontro dela, mas de longe pude ver a expressão de indignação. Suas primeiras palavras foram:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você está fazendo aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Michelson me ligou e convidou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela pareceu ainda mais chocada com a resposta e emudeceu. Certamente, a situação era pior do que ela pensava. Depois, tentou disfarçar e, ao nos aproximarmos dos outros, esforçou-se para demonstrar simpatia por mim também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu achava que poderia estar ali sem que ninguém soubesse dos meus sentimentos pelo Michelson, mas era claro que a Rafaela havia percebido tudo. E a maneira de ela me tratar não poderia ser a mesma de antes. Lamentei profundamente tudo aquilo, ainda mais ao perceber que dali em diante ela passou a competir comigo pela atenção do Michelson e a me ver como rival e não amiga. Eu não sabia o que fazer para mudar aquilo. Todos pareciam perceber o que estava acontecendo, menos o Michelson. Eu estava tão feliz pelo fato de ele me dar total atenção... Mas ao mesmo tempo me sentia muito mal com o pensamento de estar sendo uma grande traidora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o ônibus chegou, fui a primeira a entrar. A Rafaela entrou depois de mim e se sentou no outro lado do corredor. Eu esperava que ela se sentasse ao meu lado, mas devia estar tão magoada que não o fez – ou talvez esperasse que o Michelson se sentasse ao lado dela. Mais uma vez não sabia se ficava feliz ou triste: ele escolheu se sentar comigo! A situação era terrível. Eu queria poder desfrutar o momento. Estar juntos, sentir que ele também gostava de mim era maravilhoso. Mas aquilo que eu estava fazendo era completamente errado. Minha amiga estava sofrendo. Eu queria não demonstrar meus sentimentos por ele e poder não corresponder a seu olhar, mas diante dele isso era impossível. Eu não devia mesmo estar ali...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sermão do Michelson foi grandemente inspirado por Deus. Ele me fez esquecer por alguns minutos de tudo ao meu redor e me levou para bem perto de Jesus. Sentia-me aceita novamente por Deus como se o tempo tivesse voltado dois anos, quando O conheci pela primeira vez, lendo a Bíblia numa madrugada triste. Parecia que se estendesse a mão poderia tocar a dEle e começar tudo outra vez. Desejei que o Michelson estivesse para sempre comigo, e quanto mais o ouvia mais tinha certeza disso. Mas tinha medo de que Jesus reprovasse esse meu desejo, porque eu achava que não devia sentir isso. Apesar desse temor, algo me dizia que era o próprio Jesus quem estava nos aproximando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram momentos maravilhosos os que passamos juntos. Mas chegou a hora em que todos foram embora e tive que enfrentar minha amiga. Era difícil até de olhá-la nos olhos. Eu não sabia o que dizer e nem poderia me desculpar. Como poderia fazer isso? “Me desculpe. Estou amando a mesma pessoa que você.” Eu realmente o amava, mas simplesmente deveria ter ficado longe dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você percebe o que está fazendo? – a pergunta expressava toda a mágoa que ela sentia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que estou fazendo? – devolvi a pergunta, com ar triste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você está “dando em cima” dele descaradamente! – a indignação não lhe permitia mais usar de meias palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? – da tristeza e arrependimento passei para o inconformismo. A Rafaela não estava certa nisso. Para mim, era claro que o Michelson é quem estava me cortejando. E apesar de eu estar adorando aquilo, simplesmente correspondia mais por educação. Não admitiria que ela fizesse parecer que era eu quem estava tomando a iniciativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É isso mesmo! – prosseguiu a Rafaela – Se você não tivesse feito isso ele estaria comigo. Você estragou tudo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É assim que você pensa, Rafaela? Então está bem. Eu prometo que nunca mais vou encontrá-lo. Vou me afastar de vocês e deixar que fiquem juntos. Se sou eu quem está impedindo que isso aconteça, não será mais por isso que você não ficará com ele. Eu sei que lhe devo desculpas por estar aqui hoje. Sei que errei. Mas estou com a consciência limpa porque sei que não “dei em cima” dele. Além do mais, foi ele quem me ligou convidando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você sabia que eu queria estar a sós com ele, e mesmo assim veio, Tati.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei. Me desculpe. Admito que sinto algo muito forte pelo Michelson, mas prometo que vou tentar esquecê-lo e nunca mais vou vê-lo. Eu não queria fazer você sofrer. Foi uma fraqueza da minha parte, mas não tornará a acontecer. Não quero deixar de ser sua amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem. Quero conversar com você com mais calma, outra hora. Vá até a minha casa – ela fez uma pequena pausa, como que pensando em algo antes de prosseguir, e completou: – na sexta-feira à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Pode deixar que eu irei sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lamentava muito aquela situação, mas não conseguia reprimir o que sentia pelo Michelson. Não parava de pensar nele, por mais que tentasse. Mesmo assim, decidi não vê-lo mais, até que a Rafaela desistisse dele e se convencesse de que eu não era culpada pelo fato de ele não gostar dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava quase terminando o expediente na sexta-feira quando o Michelson me ligou. Tive certeza de que ele também pensava em mim e queria estar comigo, assim como eu queria. Mas a promessa feita à Rafaela me obrigou a esconder meus sentimentos. Como era difícil ouvir a voz dele me convidando para encontrá-lo e ter que dizer não! Como gostaria de contar tudo o que sentia por ele e sobre a Rafaela... Mas não poderia traí-la dessa maneira. Queria muito conversar com ela naquela noite. Abrir-lhe o coração e obter seu perdão. Agora que eu estava voltando para a igreja e levando a Teca a Jesus queria que a Rafaela estivesse por perto para me apoiar. Sentia falta de poder dividir meus fardos com alguém que pudesse ser um conselheiro espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamei o nome da Rafaela por algum tempo, em frente à casa dela. Até que o irmão dela apareceu na janela:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Rafaela não está. Ela foi lá na Igreja Central de Florianópolis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés e me senti uma verdadeira tola. A Rafaela simplesmente queria garantir que eu não fosse estragar novamente sua chance de estar a sós com o Michelson. E conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bem”, pensei. “Vamos ver o que vai acontecer. Hoje ela vai deixar claro o que sente por ele e vai saber se ele também sente algo por ela ou não.” Confesso que senti um frio na barriga só de pensar que ela tivesse razão – que se eu não estivesse por perto ele ficaria em dúvida quanto a seus sentimentos quando descobrisse que ela gostava dele. Mas me convenci de que aquilo era necessário para definir as coisas. Era uma boa oportunidade para descobrirmos de quem ele gostava realmente. Mesmo com essa conclusão lógica, o desconforto no estômago não cessou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conseguia parar de imaginar a cena dos dois caminhando até o ponto de ônibus. O que ele faria no momento em que ela se declarasse? Quase não dormi naquela noite pensando nessas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele, felizmente, era meu último sábado na loja. Eu já estava farta de ter que estar ali, ainda mais naquele dia: com sono, ansiosa e preocupada. Acho que eram evidentes minha irritação e inquietação. Queria que aquele dia acabasse logo para saber o que havia acontecido na noite anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração só ficou mais aliviado quando o Michelson novamente me ligou, depois do meu horário de almoço. “Ele ainda gosta de mim”, pensei, emocionada. E mais uma vez tive que dar uma desculpa qualquer para dizer que não poderia ir à igreja à tarde. Mas não pude conter minha curiosidade e quis saber como havia sido o encontro dele com a Rafaela. Quando ele me disse que nem mesmo a havia visto, eu não sabia se ficava triste ou feliz. Era óbvio que ele não estava interessado em vê-la, mas essa indefinição aparentemente se prolongaria por mais tempo e minha agonia e a da Rafaela também. Não suportava mais ter que rejeitar os convites dele e, por impulso, acabei falando que iria à Igreja Central no domingo à noite. “Não devia ter dito isso”, pensei na hora. Mas concluí que a Rafaela não poderia me culpar por isso, pois fazia já algum tempo que eu estava acompanhando a Teca aos cultos da central. Não era correto deixar de ir com ela naquele domingo só porque o Michelson estaria lá. De qualquer forma, era um bom argumento para aplacar a consciência...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava muito quente naquele domingo. Quando ainda estávamos no ônibus, a caminho de Florianópolis, começou a chover forte. Eu já estava nervosa e agora ainda me preocupava também com a chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como vamos caminhar do ponto de ônibus até a igreja nessa chuva?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Calma, Tati. É só uma chuva de Verão. Já vai passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teca tinha razão. O ônibus levava cerca de uma hora para chegar ao centro da capital (isso antes da duplicação da BR 101), e quando chegamos a chuva já havia parado. O cheiro de chão quente molhado enchia o ar. Tínhamos que desviar das poças d’água pelo caminho a fim de não encharcar os sapatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentamos no penúltimo banco do lado esquerdo da igreja. O Michelson e seus amigos de pensão estavam sentados uns quatro bancos à nossa frente. Agora eu podia observá-lo por outro ângulo. Ele estava usando camisa mostarda e calça jeans azul escuro, e carregava um guarda-chuva preto. De vez em quando, antes de o culto começar, ele cochichava algo para os amigos e eles sorriam. O pregador começou a falar e tive que fazer força para me concentrar em suas palavras. Tudo o que eu queria era que o Michelson me visse ali. Ele chegou a dar umas espiadas para trás, mas não conseguiu me ver. Eu estava começando a ficar angustiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como estava sentada mais atrás, eu poderia ter saído primeiro, sem falar com ele, mas achei que isso seria muita “falta de educação”, e não tive coragem de ir embora sem ao menos cumprimentá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos paradas nos degraus da escada em frente à igreja, esperando que ele passasse por ali. Mas ao sair ele ficou encostado no murinho do primeiro patamar, esperando pelos amigos que conversavam com muitas pessoas que estavam ali paradas à porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, ele me viu, sorriu e convidou para que eu fosse até ele. Segurei a mão da Teca e puxei-a na direção dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, Michelson, tudo bem? – falei, enquanto lhe estendia a mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo. Senti sua falta no curso, ontem. Que pena que você perdeu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora terei mais oportunidades. Este foi meu último sábado na loja. Esta será minha última semana de trabalho. Semana que vem estou livre!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que bom saber disso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixe-me apresentar minha amiga, a Teca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você é a famosa Teca! A Débora fala muito de você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? É porque somos quase irmãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Bíblia diz que há amigo mais chegado que um irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade. Nós somos – eu confirmei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seguida, o Michelson apresentou a Teca para seus amigos Lauro e Luís, e ela ficou conversando com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, agora a Teca e eu temos que ir, senão perderemos o ônibus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não faz mal, vocês pegam o próximo. Fique mais um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não posso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É um pouco chato falar isso, mas não quero que você pense que sou antipática ou que não gosto de você, não é nada disso. Mas não posso continuar sendo sua amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por quê? O que eu fiz? – ele perguntou, espantado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu apenas sorri e respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não fez nada. Eu não posso falar o porquê. Por enquanto terei que evitar sua companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu já sei por quê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe?!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É por causa da Rafaela, não é? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora era eu quem estava espantada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como você sabe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Giovane me contou que ela está gostando de mim &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É por isso. Eu não sei por que – tentei dissimular – mas ela está com ciúmes de mim, e eu não quero perder a amizade dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas isso não é justo! Eu nunca senti nada por ela além de amizade. Nunca sequer suspeitei que ela me visse de outra maneira. E se você não falar mais comigo todos sairemos perdendo. Não ficarei com ela e nem falarei com você. Isso não pode acontecer – ele argumentava quase desesperadamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei, mas prefiro evitar essa situação. Além disso, só virei aqui aos fins de semana e você não estará aqui mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas e quando eu estiver? Não poderei falar com você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho melhor não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não posso acreditar nisso – ele estava inconformado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que você não dá uma chance à Rafaela? Ela é uma pessoa muito legal. Você tem namorada em Criciúma ou gosta de alguém?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, não tenho namorada. E não consigo olhar para a Rafaela de outro jeito, senão como amiga e irmã na fé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E aí, Mic? Vamos tomar sorvete? – o Luís cortou nossa conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês vêm com a gente? – o Michelson aproveitou a deixa e reforçou o convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É claro que sim! – a Teca respondeu sem ao menos me consultar. – Agora já perdemos o ônibus mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tive chance de opinar. Contrariando tudo o que eu havia dito, acabei não resistindo ao convite e fui com eles à sorveteria. A Teca não somente havia se convertido como tinha mudado de opinião em relação ao que eu sentia pelo Michelson. Agora ela – que inicialmente não queria que eu namorasse um adventista – me incentivava a ficar com ele e argumentava que isso não seria errado, uma vez que ele nunca havia tido qualquer envolvimento com a Rafaela, além da amizade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminho da sorveteria, que ficava numa ruazinha em declive, próxima à Praça XV e ao lado da Catedral, continuamos nossa conversa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E você, Débora, já gostou ou gosta de alguém da igreja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então lhe contei a história da minha conversão e a decepção que tive com o Carlinhos. Ele também falou um pouco sobre a vida dele antes de se tornar adventista. Disse como conheceu a Cristo, comentou sobre o amor platônico de sua adolescência e que tivera a primeira namorada aos dezoito anos, tendo ficado pouco tempo com ela. Agora ele estava esperando a pessoa certa indicada por Deus. Enquanto ouvia a história eu sentia uma vontade imensa de fazer parte da vida dele. Estava tão imersa na conversa que nem quis tomar sorvete. Apenas provei um pouco do sorvete de creme que ele estava tomando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando já estávamos indo embora ele falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora que você já pensou melhor na maldade que iria fazer comigo... Você sabe que eu vou pregar na igreja próxima à sua casa na quarta-feira, não é? – Fiz que sim com a cabeça e ele prosseguiu: – Você poderia me ensinar o caminho? Eu passo lá no shopping e podemos ir juntos. O que acha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei, Michelson. Tenho que pensar – disse isso sem conseguir esconder o sorriso de satisfação. Ele esperou alguns segundos e tornou a perguntar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já pensou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem. Tá combinado. Quatro horas da tarde nos encontramos na porta principal do shopping, aquela em frente à Avenida Beira-Mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora, não se preocupe com a Rafaela. Um dia ela vai entender e seremos todos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Espero que você tenha razão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-116255230095510219?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/116255230095510219/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=116255230095510219&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116255230095510219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/116255230095510219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/11/captulo-12-outra-vez-na-igreja.html' title='Capítulo 12 - Outra vez na igreja'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-115756566212086630</id><published>2006-09-06T11:00:00.000-07:00</published><updated>2011-02-03T13:54:35.425-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 11 - O caminhão boiadeiro</title><content type='html'>&lt;em&gt;Michelson Borges&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poeira e o cheiro da fumaça dos cigarros me sufocavam. Enquanto percorríamos a distância de cerca de 200 km entre Florianópolis e Criciúma, apenas as lembranças dos últimos dias é que me animavam um pouco. A imagem daquela garota loira não me saía da cabeça. A Débora havia causado profunda impressão sobre mim. Tentava me concentrar na lembrança de seu perfume suave, sua voz meiga e seu jeito delicado, para esquecer um pouco da rudeza ao meu redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do desconforto de viajar em um caminhão de operários de construção, havia sido uma bênção o fato de meu pai ter conseguido com um amigo dele, dono de uma construtora em Criciúma, carona para mim de ida e volta a Florianópolis todos os fins de semana. O “caminhão boiadeiro”, como os trabalhadores o chamavam, saía de Criciúma aos domingos, às 19 horas, e chegava à capital por volta das 23 horas. Da Ilha, saíamos às sextas-feiras, às 13h30. O lado bom era que eu podia chegar a Criciúma antes do pôr do sol de sexta-feira, havendo tempo suficiente para me preparar para o sábado e fazer o culto com minha mãe e a Emanuela, minha irmã mais nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caminhão terminava a viagem em frente à sede da construtora. Dali cada um ia para sua casa. A minha ficava a uns três ou quatro quilômetros e era preciso atravessar o centro da cidade para chegar lá. Confesso que era meio constrangedor ter que cruzar a região central de Criciúma com a roupa velha que eu costumava usar nessas viagens – afinal, se colocasse uma roupa melhor, poderia estragá-la e sujá-la com o pó do caminhão –, mas meu pai havia me ensinado uma importante lição de humildade quando eu ainda era adolescente. Durante algum tempo, trabalhei como seu ajudante em uma metalúrgica. Fazíamos diversos trabalhos em ferro e aço, e era inevitável não danificar e sujar a roupa com graxa e tinta. De vez em quando, meu pai me encarregava de ir à padaria. Quando percebia minha vergonha de ir com a roupa de trabalho, ele dizia: “Vergonha é ser preguiçoso. O trabalho é uma honra e essa roupa é símbolo disso.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve ocasiões em que me sentia até mesmo revoltado por ver meus amigos se divertindo e eu tendo que dar conta de uma encomenda de última hora, trabalhando mesmo nos fins de semana. Mas um dia meu pai me olhou sério e fez a seguinte proposta: “Filho, você viu como é o lado difícil da vida; trabalhar no pesado. O que você prefere: isso ou os estudos?” A lição foi clara e eu a aprendi. Jamais me esqueci daquela pergunta. Conhecer aquela faceta difícil da vida me ajudou até mesmo na adaptação a situações desagradáveis como as viagens no “boiadeiro”. (Embora ainda hoje eu experimente certo “desconforto interno” quando sinto cheiro de fumaça de solda ou de graxa.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro legado do meu pai foi a determinação. Ele sempre gostou de futebol e chegou a jogar em times profissionais, mas em 1969, quase quatro anos antes de eu nascer, teve que tomar uma importante decisão. Na época, ele jogava no Figueirense de Florianópolis, e era conhecido simplesmente como “Borges”. O Internacional de Porto Alegre demonstrou interesse nele, mas o Figueirense não quis vendê-lo para o time gaúcho. Diante do presidente do clube, na Capital, meu pai disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quero ir para o Internacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não, Borges. Conheço algumas pessoas no Fluminense e posso enviá-lo para o Rio, no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas eu também tenho muitos amigos no Inter e quero ir para lá. O time é grande e eles pagarão uma faculdade para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nada feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então vou embora. Vocês perderão a bolada que o Inter quer pagar por mim e me perderão também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não vai fazer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como resposta, meu pai arrumou a mala e voltou para Criciúma. Um dia, enquanto trabalhava como soldador para a Prefeitura, olhou para o chão e pelo canto da máscara de solda viu pares de sapatos brilhantes. Eram os diretores do Figueirense.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Olá, Borges. Viemos levá-lo de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já lhes dei minha resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que é isso, homem! Quanto você ganha aqui? Vamos lhe pagar mais do que você recebia antes, lá no time. Você não é burro, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sou. E tenho mais o que fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desencantado com o futebol profissional, meu pai fez sucesso nos torneios de várzea da região sul do Estado (e fez um bom pé de meia para poder casar com minha mãe, já que os times lhe pagavam quantias polpudas para disputar campeonatos). Continuou trabalhando como empregado no setor metalúrgico, adquiriu sua própria fábrica e depois de algumas experiências profissionais mudou para o ramo de confecções. E nunca se arrependeu da decisão que tomou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De certa forma, essa determinação toda e a caixa repleta de medalhas dele que minha mãe guardava me estimularam a também querer vencer na vida e superar os obstáculos (ainda que sempre tenha sido um “perna de pau”). Minha vitória não viria pela bola e meu “adversário” agora era o “boiadeiro”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminhão viajavam homens rudes e simples. Falavam de mulheres, bebiam e fumavam sem parar. Havia também alguns evangélicos. Íamos todos – algumas vezes mais de quarenta homens – sentados em toscos e empoeirados bancos de madeira com altura de uns trinta centímetros, colocados soltos sobre a carroceria do velho Mercedes azul. Uma lona nos cobria e escondia de uma possível fiscalização – afinal, a insegurança dessas viagens era grande. Nem quero imaginar o que poderia ter acontecido em caso de acidente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando não chovia, podíamos deixar um pedaço de lona dobrado, na parte de trás da carroceria, de modo que entrava um pouco de ar e tornava possível até contemplar as estrelas – quando se conseguia sentar naquele lugar disputado, é claro. Sem poder ver a estrada ou o lugar por onde passávamos, só restava contar os trevos das cidades pelo caminho para se ter ideia de onde estávamos: Tubarão, Laguna, Imbituba, Palhoça e, finalmente, Florianópolis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A viagem era mesmo difícil, mas bem melhor do que ter que ir para a rodovia tentar uma carona todas as sextas-feiras. Nunca sabia quanto tempo iria esperar por algum motorista generoso, nem com quem iria. A insegurança e o constrangimento eram a pior parte, mas é verdade que Deus nunca me desamparou em minhas “aventuras” pela BR 101. Além do mais, tive inúmeras oportunidades de falar sobre Jesus para diversas pessoas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro-me que difícil mesmo era quando chovia. O único abrigo próximo era o viaduto que cruza a rodovia e leva à ilha de Florianópolis. Nessas ocasiões, havia duas alternativas: desistir ou se apertar debaixo da laje de concreto e disputar com outros caroneiros o espacinho de acostamento seco, além de torcer para ser visto por um motorista que se arriscasse a parar no local. Os que paravam tinham que escutar o “choro” de pelo menos uns dez caroneiros suplicantes. “Só posso levar um ou dois”, dizia o motorista. Os primeiros a chegar ao carro embarcavam. Os outros voltavam para seus “postos”, lutando para recobrar o ânimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, que morávamos em Criciúma ou Araranguá, no extremo sul do Estado, éramos os que mais sofriam. Não somente pela distância, mas porque o pessoal que morava em cidades mais próximas acabava se aproveitando de nossas caronas. Às vezes, era tanta gente em cima do motorista que parava que ele decidia não levar ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossas táticas de caroneiro eram curiosas. A mais comum era usar uma placa ou faixa com o nome da cidade para onde se pretendia ir. Quando não se dispunha desse recurso, usava-se o bom e velho polegar. Nós, estudantes, sempre deixávamos nossas pastas próximas, em lugar bem visível, para garantir aos motoristas que se tratava de pessoa de bem. O que procurávamos, afinal, era conseguir numa fração de segundo a atenção e a empatia dos motoristas. Alguns conterrâneos meus chegavam a vestir a camisa do Criciúma Esporte Clube, que havia vencido na época o campeonato estadual. Isso fazia com que simpatizantes do time quase sempre parassem. Mas, por outro lado, era preciso estar disposto a ouvir os “elogios” dos adversários também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com todos esses truques, pegar carona era um desafio. Algumas vezes conseguíamos uma em cinco minutos; noutras, ficava-se até três ou quatro horas de pé sob o sol. Quando cansava e tinha algum dinheiro, voltava para o centro de Florianópolis e na rodoviária tomava o ônibus para Criciúma. A tentação de fazer isso quando tinha alguma economia era grande, pois os ônibus eram confortáveis e eu podia ir lendo em paz, nas quase três horas de duração da viagem. Mas eu não podia me dar ao luxo de gastar. Quando faltavam recursos, não havia mesmo escolha. Placa na mão e polegar em riste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que a maioria dos motoristas que paravam também haviam se servido de caronas algum dia. Outros, especialmente os caminhoneiros, queriam apenas uma companhia para quebrar a monotonia da viagem. Outros ainda não davam carona de jeito nenhum, com a justificativa de sempre: “A empresa não permite caroneiros.” Mas, no fundo, o que complicava mesmo a as coisas, em muitos casos, era o medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valdomiro, carioca de 28 anos (mas que aparentava uns 40) e motorista havia dez anos na época, conhecia muitas histórias de emboscadas nas longas subidas da Rio-Bahia e me contou algumas delas. Nas ladeiras mais íngremes, os assaltantes corriam na frente e abriam o capô, deixando o motorista sem visibilidade. O caminhão parava. Era o fim da viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia ainda os ladrões de carga que se aproveitavam da marcha lenta para subir na carroceria e tirar o que podiam. Por isso é comum ver o motorista com a cabeça para o lado de fora, quando dirige numa subida. “Uma vez, quando subia a Serra do Rio do Rastro, rumo a Lages”, relatou-me o senhor Monteiro, de Guarulhos, SP, “um cara subiu na carroceria e começou a jogar sacos de café para um outro no chão. Não pensei duas vezes. Atirei no cara e só ouvi o grito, nada mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O perigo constante nas estradas faz com que todos os motoristas, mesmo os que costumam dar caronas, sejam cautelosos. “Primeiro eu olho para a pessoa; se eu sentir confiança, paro”, disse-me Ronaldo, de Curitiba, PR. Certa vez, ao parar para uma garota, Ronaldo se viu obrigado a levar mais três rapazes que estavam escondidos atrás de uma placa de trânsito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas também houve bons momentos. Certa ocasião eu havia chegado à rodovia bem cedo e não tinha nenhum “concorrente”. Mesmo assim, as horas passavam e ninguém parava. Cheguei a perguntar “Por que, Senhor?”, quando me lembrei de que havia me esquecido de fazer algo que já era meu costume: retirar-me para o acostamento e antes de mais nada pedir a bênção de Deus. Meio envergonhado, baixei a placa onde se lia de um lado “Criciúma” e do outro, “Fpolis”, e virado de costas para a BR fiz minha oração. Mal abri os olhos e pude ouvir um carro buzinando alguns metros adiante. Peguei a bolsa, guardei a placa e corri na direção do Santana e do casal que acenava para mim. Eram adventistas. Ao me verem orando, sentiram que deviam parar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsjVUP1dhI/AAAAAAAAND4/qRjLvSt8oiQ/s1600/Carona.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="261" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsjVUP1dhI/AAAAAAAAND4/qRjLvSt8oiQ/s400/Carona.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Com esta placa eu pedia carona na BR 101. Num lado estava escrito “Fpolis”, no outro, “Criciúma”&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;No seu livro &lt;em&gt;Meu Encontro com Deus&lt;/em&gt;, Clifford Goldstein descreve bem o sentimento de um caroneiro: “Pedir carona pode conduzir você a um estado maníaco depressivo: você se sente extremamente desencorajado quando os desalmados carros vão embora e deixam você ‘na mão’, mas no momento seguinte, ao obter uma boa carona, você sobe voando aos píncaros abençoados.” Tive também meus momentos de desânimo e meus píncaros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas viajar no “boiadeiro” tinha lá suas vantagens. Horário fixo, carona garantida, economia (podia usar o dinheiro que gastaria com o ônibus), e havia também o meu amigo e irmão Saulo, que trabalhava na construtora e frequentava, como eu, a Igreja Adventista Central de Criciúma, aos sábados. Juntos, íamos cantando algumas músicas e hinos religiosos, sempre com o acompanhamento de seu inseparável violão. Algumas vezes, os operários até se uniam a nós, cantando alguns hinos mais conhecidos. Quando isso acontecia, meu irmão e eu sorríamos um para o outro contentes por tornar o ambiente mais agradável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, entretanto, enquanto voltava de Criciúma, mal podia me concentrar nas músicas que meu amigo tocava. Ficava imaginando uma forma de voltar a ver a Débora. Algumas semanas já se haviam passado desde que a vira pela primeira vez na Igreja Central de Florianópolis, mesmo assim, não conseguia parar de pensar nela. Em cada culto de que eu participava, às quartas-feiras, renascia a esperança de reencontrá-la. Em vão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrei-me então de que quando conversamos pela primeira vez e descobrimos que ambos gostamos de desenhar, prometi-lhe emprestar uma história em quadrinhos de minha autoria, além de tê-la convidado, juntamente com a Rafaela, para irem comigo à igreja do bairro Forquilhinhas, no município de São José. Era o motivo ideal para tentar um novo contato, mas... Deveria ou não procurá-la? Será que ela também estaria pensando em mim? Eu estava inseguro, mas sentia que devia fazer aquilo. Era uma estranha convicção que não vinha de mim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o caminhão subia o Morro dos Cavalos, a uns 40 km de Florianópolis, lembrei-me daquela quarta-feira, quando a conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– “Deus é tão bom; Deus é tão bom; Deus é tão bom, é tão bom pra mim!” – cheguei cantando na pensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que aconteceu, Michelson? – perguntou-me o Deoclávio, um jovem gaúcho que também morava lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Conheci a garota mais linda e adorável do mundo! Acho que estou amando! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que ainda era cedo para dizer aquilo, mas havia um sentimento muito forte em meu coração, algo que nunca havia sentido antes. Era impossível deixar de notar meu ar “abobalhado” de apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui dormir bem tarde naquela noite. Não somente pela euforia que me dominava, mas por ter narrado para meus amigos todos os detalhes do encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das 12h45, resolvi ir para a cama. Mas antes me ajoelhei em frente à escrivaninha do meu quarto e falei com Deus, em oração: “Querido Pai Celestial, Tu me conheces mais do que qualquer outra pessoa e sabes o que é melhor para mim. Tu conheces a Débora também... Se essa for a Tua vontade, permite que nos conheçamos melhor. Sinto muito a falta de uma namorada e amiga cristã, e ela parece ser a pessoa ideal. Mas que seja feita a Tua vontade e não a minha. Em nome de Jesus, amém.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia em que eu pregaria na Igreja Adventista de Forquilhinhas se aproximava. Meu maior desejo era de que a Débora fosse junto comigo. “Talvez ela já tenha até esquecido meu convite”, pensei, já me consolando caso ela não aparecesse. O problema é que, mesmo que ela quisesse ir, não teria como entrar em contato comigo. A única que tinha o telefone da pensão era a Rafaela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reunindo coragem não sei de onde, resolvi ir ao shopping onde a Débora trabalhava para entregar-lhe a história em quadrinhos. Cheguei lá pelas dezessete horas. Infelizmente, ela já não estava mais lá. Havia saído dezesseis horas. Cheguei a pensar que talvez não fosse da vontade de Deus que nos encontrássemos novamente. (É até estranho pensar em como seria meu futuro se eu realmente desistisse de reencontrá-la.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltei para casa desapontado, pois no dia seguinte iria a Forquilhinhas e não tinha certeza de que a Débora se lembrava do convite. Só havia uma maneira de manter contato com ela: por telefone. E foi exatamente isso o que resolvi fazer. Procurei na lista telefônica o número do telefone da loja em que ela trabalhava. Para piorar tudo, o telefone da pensão estava com defeito e só era possível ligar batendo no gancho do aparelho os números correspondentes ao telefone para o qual se queria ligar. O Luís me ajudou na “operação”, pois estava mais familiarizado com a artimanha por ter que ligar semanalmente para seus parentes em São Paulo. Cheguei a pensar em desistir da ideia. Minha boca estava seca e temia não saber usar as palavras certas. Mas, de repente, o Luís me passou o telefone. “É do shopping.” Não dava mais para desistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Boa tarde. Posso falar com a Débora? – perguntei, com o coração acelerado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ela saiu para almoçar – respondeu uma voz masculina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mudando da euforia e nervosismo para o desapontamento, pedi-lhe que transmitisse meu recado e desse a ela o número do telefone da pensão, para que ela me ligasse depois. “Será que fiz a coisa certa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os minutos seguintes foram os mais longos da minha vida. Mas depois de trinta eternos minutos, o telefone tocou na pensão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ninguém atende! Ninguém atende! – gritei e saí correndo em direção à cozinha, onde ficava o aparelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A-alô – disse ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi! – aquele “oi” soou como música ao meu ouvido. Um tremor tomou conta do meu corpo ao identificar a inconfundível voz do outro lado da linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem com você? Há quanto tempo, hein! – minhas mãos suavam frio. Se não segurasse firmemente, o telefone poderia escorregar pelos dedos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu vou bem. Você ligou para mim agora há pouco, né?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, é... Eu estive aí ontem à tarde, mas você já havia saído. Fui levar aquela história em quadrinhos, conforme tinha prometido – respondi, tentando não deixar claro (acho que sem muito sucesso) que minha real intenção era revê-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Verdade? Ninguém me contou nada – a voz dela tinha a mesma doçura de quando nos havíamos conhecido. Ainda não conseguia acreditar que estava falando com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem, eu liguei para reforçar o convite que lhe fiz naquela quarta-feira, lá na Igreja Central. A Rafaela deve ter lhe avisado, mas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Rafaela? – interrompeu-me, com tom de surpresa. – Não... Ela não me disse nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dias antes a Rafaela havia me telefonado para confirmar a ida a Forquilhinhas. Pedi-lhe então que convidasse a Débora, mas, pelo visto, ela havia esquecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De qualquer modo, estou lhe convidando, e não aceito “não” como resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bom, já que é assim, eu vou. E se você vir ou falar com a Rafaela, diga que eu tenho uma novidade para contar para ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E eu não posso saber do que se trata? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Prefiro contar pessoalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas horas seguintes, a curiosidade quase me matou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Débora e sua amiga Sônia [nome alterado], também do município de Palhoça, já estavam no terminal rodoviário quando o Saulo e eu chegamos. Senti um frio na barriga quando a vi de longe. A gravata me incomodava um pouco, talvez pelo nó que se formou em minha garganta. Logo eu que me considerava tão seguro agindo daquela maneira! Enfim, todo o esforço para contatá-la havia valido a pena. Ela estava ali! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo em seguida, a Rafaela também chegou. Terminados os cumprimentos, perguntei à Débora sobre a tal novidade, ao que a Rafaela interveio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não precisa nem falar. Eu até já sei o que é. Quer ver que é sobre aquilo que lhe falei, Michelson? – disse-me a Rafaela, lançando-me um olhar de cumplicidade. – É alguma coisa relacionada à carreira de modelo e sobre o book que você ia fazer, não é, Tati? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Não é nada disso – a Débora respondeu com estranha firmeza. – É que vou sair da loja, voltar para a igreja e estou dando estudos bíblicos para a Teca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi um ar de surpresa no rosto da Rafaela. E eu não conseguia esconder o sorriso de satisfação. Aquela resposta era o que eu mais desejava ouvir. A Débora realmente estava disposta a deixar tudo e voltar para Jesus. Senti uma alegria muito grande. Quase não consegui conter a vontade de dar-lhe um forte abraço. Entreguei-lhe a história em quadrinhos e disse, sorrindo e brincando de falso modesto: “Só não fique reparando os desenhos, tá? Eu sei que você também é boa nisso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus, quando percebi que o lugar ao lado da Débora estava vago, sentei-me ao lado dela. Uma sensação maravilhosa tomou conta de mim por tê-la assim tão perto. Conversamos tanto quanto a viagem nos permitiu. Ela me contou que aos sábados não conseguia vender nada na loja e que, ao passar em frente à igreja, sentia forte desejo de participar do culto. Eu podia notar a emoção em suas palavras, enquanto me falava do desejo de voltar a santificar o sábado, como Jesus, os apóstolos e os primeiros cristãos fizeram. Ela me contou também do milagre operado na vida de sua melhor amiga, a Liliam (mais conhecida como Teca). Como, inesperadamente, a Teca havia decidido seguir a Jesus e se interessado pela Palavra de Deus. Isso também havia exercido grande influência na decisão da Débora. Eu podia compreender perfeitamente a alegria dela, pois o mesmo havia acontecido pouco tempo antes com minha mãe e com a Emanuela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudando o livro do Apocalipse com elas, fiz com que percebessem o quanto Deus fez por nós, dando o próprio Filho para morrer em nosso lugar a fim de restabelecer a ligação entre criatura e Criador. Diante de tão abnegado amor, seria muita ingratidão rejeitar a vontade de Deus expressa na Bíblia. Enquanto para os que vivem longe de Deus obedecer à Palavra dEle se constitui num fardo, para os que O amam é um privilégio prazeroso. Afinal, todos os mandamentos de Deus foram estabelecidos por Ele para nossa proteção – assim como um pai fixa normas para proteger os filhos, mesmo que eles nem sempre o compreendam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, eu realmente compreendia a satisfação que a Débora sentia ao ver sua melhor amiga interessada no evangelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cerca de trinta minutos depois, chegamos à Igreja Adventista de Forquilhinhas, não muito longe do centro de Florianópolis. Logo que entramos no modesto templo de madeira (substituído anos depois por um de alvenaria), deixei minha Bíblia e o hinário com a Débora e fui beber água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relógio marcava vinte horas quando a Rafaela, um membro daquela igreja e eu subimos à plataforma onde ficava o púlpito. Feitos os pedidos de oração e os agradecimentos, oramos a Deus e agradecemos todas as bênçãos mencionadas naquela noite. Pedimos também que Ele atendesse a cada pedido, conforme a vontade dEle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de eu dar inicio ao sermão, meu amigo Saulo louvou ao Senhor entoando uma canção:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenho ouvido de uma terra linda e encantada,&lt;br /&gt;De um lugar onde a felicidade é total.&lt;br /&gt;Os meus olhos já divisam não tão distante,&lt;br /&gt;Meus ouvidos já escutam sons divinais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto a melodia enchia o ar, fiquei imaginando esse lindo lugar mencionado pelo hino. Lugar que Jesus prometeu preparar para os que O amam. Um mundo maravilhoso onde reinarão a paz, o amor e a justiça. Onde não haverá mais morte, tristeza ou dor. Cruzei meu olhar com o da Débora e, sem saber explicar como, pude perceber que nossos pensamentos eram os mesmos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Além do rio existe um lugar pra mim, &lt;br /&gt;Além do rio existe paz.&lt;br /&gt;Além do rio a vida não terá mais fim,&lt;br /&gt;E com Jesus irei morar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos vinte minutos seguintes, reinou uma paz indescritível pela presença do Espírito Santo. Enquanto pregava, sentia meus pensamentos claros e um poder, não de mim mesmo, em minhas palavras. Não existe sensação mais gratificante do que se deixar usar por Deus em benefício de outros!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradecido ao Pai do Céu pela oportunidade que mais uma vez me havia concedido – de falar de Seu amor e Sua vontade –, despedi-me dos irmãos daquela localidade e juntei-me aos meus amigos para voltarmos ao centro de Florianópolis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já no ônibus, tornei a me sentar ao lado da Débora. Continuamos nossa conversa animadamente. De vez em quando, ela me tocava o braço enquanto falava. Eu podia sentir um leve estremecimento ao contato de sua mão macia e me deleitava em ouvi-la e observar seu jeito especial, “manezinho” de falar. Não sei por quanto tempo mais conseguiria ocultar meus sentimentos. Na verdade, nem queria mais fazê-lo. Jamais em minha vida fui tão transparente quanto ao que se passava em meu coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O melhor de tudo é que seus olhos, seu jeito de falar e agir, tudo denotava certa reciprocidade de sentimentos. Era impossível deixar de sentir e perceber que “algo” estava surgindo entre nós. No entanto, pude notar certo receio por parte dela, como se estivesse travando uma luta interior. Mais tarde eu compreenderia por quê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na próxima sexta-feira à noite será realizado um curso de liderança jovem lá na escola adventista, ao lado da Igreja Central de Florianópolis. Você quer ir comigo? – perguntei-lhe, enquanto caminhávamos para o ponto do ônibus da Barra do Aririú, já no centro da Capital.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Acho que sexta à noite terei aula... Mas convide a Rafaela, ela pode ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta dela soou muito estranha. Ela não me pareceu tão convicta ao recusar o convite e, além do mais, algumas vezes parecia tocar no nome da Rafaela com alguma intenção que eu ainda desconhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, ela também pode ir, claro. Mas venha você também – insisti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Realmente não sei. Não posso prometer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus chegou e tivemos que nos despedir. O Saulo, que havia ficado conversando com a Rafaela e a Sônia, e eu voltamos, então, para o bairro Trindade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto da semana passou rápido, embora minha ansiedade por revê-la fosse enorme. Será que ela iria ou não ao curso? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu ficaria na Capital naquele fim de semana, devido ao curso na escola adventista, seria a oportunidade ideal para ficar mais tempo com a Débora – se tudo corresse conforme meus planos, é claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia até obsessão, mas tudo o que eu queria era estar com ela o tempo todo. Como era possível que, em tão pouco tempo, alguém invadisse e mudasse tão radicalmente minha vida e meus sentimentos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvi ligar para ela a fim de reforçar o convite. Por um momento, temi estar sendo muito insistente, mas resolvi ignorar esse sentimento. Eu tinha certeza do que sentia. Para que esconder? O que importava agora era convencê-la a ir ao curso naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, Débora. Estou ligando para confirmar aquele convite que lhe fiz na quarta-feira. O que você me diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, Michelson... Eu combinei de ir à casa da Rafaela hoje. Não vai dar, não. Nem eu, nem ela iremos – pude sentir uma ponta de tristeza na voz dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem, se é assim... Mas amanhã o curso continua. Se você puder ir...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Eu tenho que falar com a Rafaela primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Falar com a Rafaela?! Como assim?&lt;/em&gt; Qual a relação de uma coisa com a outra? Ela podia falar com a amiga outra hora. Eu não conseguia entender mais nada. Contrariado, desejei-lhe um feliz sábado. “Não vai ser fácil ter um sábado feliz aqui na loja”, disse ela. Desliguei o telefone, mas uma frase não me saía da cabeça: “Eu tenho que falar com a Rafaela primeiro.” O que a Rafaela tinha a ver com tudo isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha maior surpresa, no entanto, ocorreu quando cheguei à escola adventista naquela noite. A Rafaela estava lá! Uma multidão de dúvidas me assaltou a mente. Como a Débora poderia ter combinado algo com a Rafaela, se ela estava ali? Será que ela teria usado isso como desculpa para não vir ao curso e me ver? Não. Preferi não pensar nisso (como se fosse possível...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No intervalo de uma das aulas, o Giovane (dono da pensão onde eu morava) me procurou e disse que tinha algo para me contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Podemos conversar um pouco, Michelson?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro – concordei, curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe o que é? – ele olhou de soslaio para dentro da sala da qual havíamos saído – Tem uma garota que está interessada em você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por um momento exultei de alegria, pensando que ele estivesse se referindo à Débora. Mas não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ela está aqui, inclusive. Estou lhe contando porque sei que ela é uma pessoa superlegal e creio que vocês formariam um belo casal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E quem é? – perguntei já não muito curioso, afinal, se era alguém que estava ali, certamente não era a Débora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Giovane me pegou pelo braço e me levou até a porta da sala de aula onde estava sendo ministrado o curso. Dali apontou para uma garota que estava de costas para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Rafaela?! – eu disse surpreso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você já a conhece?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então... o que acha dela?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De fato, eu a considero uma pessoa superlegal, cristã... Mas sabe o que acontece? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou interessado em outra garota.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah... Tudo bem. Eu só achei que devia lhe falar sobre o que a Rafaela sente. E essa outra moça é daqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Também é de Palhoça. Ela já veio aqui na igreja algumas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aula recomeçou interrompendo nossa conversa. Passei as horas seguintes divagando. Agora podia entender por que a Débora tanto falava na Rafaela. Certamente ela queria saber se eu sentia algo por sua amiga ou não. Mas uma coisa ainda me intrigava: Por que ela teria dito que iria conversar com a Rafaela naquela noite? Será que não sabia que a amiga estaria no curso? Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminada a primeira etapa do curso, naquela noite, saí rapidamente sem falar com ninguém. Chegando à pensão, deitei-me no beliche e, para variar, não foi fácil dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, fui à Escola Sabatina com meus amigos e companheiros de pensão: Lauro, Luís, Cláudio e Marcelo. Mesmo sabendo que a Débora ainda estava cumprindo seus últimos dias de aviso prévio no shopping, alimentei leve esperança de revê-la na igreja. A Escola Sabatina começou pontualmente às nove horas. Às 10h30 teve início o culto. À medida que as horas passavam, minhas esperanças se desvaneciam. Pensei em ligar para ela ao chegar em casa. Mas novamente a sensação de estar sendo insistente demais me incomodava. O curso de liderança jovem recomeçaria quatorze horas em ponto. Tinha pouco tempo para decidir se ligaria ou não. Decidi ligar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Alô, Débora? – perguntei timidamente, com receio de estar importunando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi. Tudo bem, Michelson? – a voz dela não parecia tão entusiasmada quanto da última vez em que havíamos falado ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Poderia estar melhor – respondi. – Você perdeu um ótimo curso ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É? Que pena. Como foi? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Foi bom, mas... hoje ainda tem mais – insinuei novo convite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você viu a Rafaela ontem? – ela mudou bruscamente de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você foi levá-la ao ponto de ônibus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Eu saí antes dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Saiu antes?! Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essas alturas eu já entendia o significado daquelas perguntas e o porquê do interesse na Rafaela. Agora podia enfim compreender a hesitação da Débora, afinal, sua amiga estava interessada em mim e, evidentemente, ela não queria magoá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu estou perguntando porque fui até a casa dela ontem e ela não estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, é? Mas que tal se você vier hoje ao curso? – desviei o assunto. – Caso você não possa vir à tarde, à noite teremos um programa recreativo no pátio ao lado da igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... É que estou muito cansada e pretendo falar com Rafaela hoje. Mas domingo talvez eu vá ao culto, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem. Mas se mudar de ideia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até domingo, quem sabe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Até hoje à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei. Vou ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não foi muito convincente ao se dizer cansada. Obviamente o motivo para não ir ao programa recreativo era outro. Caso ela realmente estivesse gostando de mim, imaginei o dilema pelo qual estaria passando. Restou-me ficar na expectativa. E continuar orando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-115756566212086630?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/115756566212086630/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=115756566212086630&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115756566212086630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115756566212086630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/09/captulo-11-o-caminho-boiadeiro.html' title='Capítulo 11 - O caminhão boiadeiro'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsjVUP1dhI/AAAAAAAAND4/qRjLvSt8oiQ/s72-c/Carona.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-115756222696569992</id><published>2006-09-06T10:02:00.000-07:00</published><updated>2011-02-03T13:37:45.924-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 10 - Luta interior</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei assustada e encharcada de suor. Parecia ter sido tão real aquele sonho com a volta de Jesus – como se o tempo realmente houvesse voltado para que eu tivesse uma segunda chance. Fazia alguns meses que eu havia me afastado da igreja e quanto mais o tempo passava, mais eu me distanciava dos princípios que antes me eram tão caros e cedia espaço para o pecado em meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho com a praia da Pinheira havia sido mais um chamado de Deus para que eu voltasse para a proteção de Seus braços e parasse de me machucar. Quando me distanciei da igreja, o que eu mais queria era resgatar minha autoestima, mas exatamente o contrário acabava acontecendo. Tentava me parecer com as pessoas com quem agora eu convivia. Queria agradá-las. Mas isso só me trazia tristeza e me desvalorizava. Eu sabia coisas que elas ignoravam e não conseguia mais ser como elas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o tempo havia voltado para mim. Eu tinha recebido uma nova oportunidade de Deus para mudar minha história. “Como, meu Deus? Como? Não fui longe demais para voltar? Gosto de estar com minhas amigas e me divertir com elas... Além do mais, agora mesmo que ninguém vai acreditar em mim lá na igreja. Mas eu não quero viver assim longe de Ti. Sinto Tua falta. Ainda me sinto só. O que eu faço, Senhor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orei desesperadamente naquela manhã, mas feliz por estar viva e ter a chance de tentar fazer algo para mudar. Levantei-me e fui até a casa do irmão Gilberto, o líder do grupo adventista no bairro. Contei-lhe sobre o sonho e depois lhe pedi que estudasse a Bíblia comigo, a fim de que Deus operasse em mim a transformação que eu tanto desejava. “Mas tem que começar bem cedo e terminar antes das três da tarde, porque a Teca vem me buscar a essa hora para irmos à praia”, foi a ressalva de um coração ainda dividido e em conflito. “Está bem”, ele respondeu, meio confuso diante da condição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os estudos bíblicos eram regados com lágrimas. Eu chorava por minha condição e minha desesperada necessidade de Jesus. Ele, mais do que ninguém, sabia que em meu coração era travada uma luta terrível devido ao meu apego a coisas incompatíveis com uma vida de santidade, uma vida com Cristo. Sentia-me irremediavelmente perdida. “Não vou conseguir me salvar, não vou”, eu repetia entre soluços a cada estudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os sábados a Teca parava em frente à casa irmão Gilberto e me chamava, como combinado. Eu só gesticulava da janela, com os olhos inchados, dizendo que não iria. Isso aconteceu umas três vezes, até que ela acabou desistindo de me chamar. Assim, eu acabava ficando na casa do líder da igreja até a hora do pôr do sol. Não demorava muito e outros irmãos apareciam ali. Eu gostava muito de ouvi-los conversar sobre a Bíblia. Quando o tempo estava bom, íamos para o quintal, dávamos as mãos, formávamos um círculo próximo a uma grande árvore e cantávamos hinos, alguém lia um trecho das Escrituras e orávamos. Depois todos se abraçavam, desejando uma feliz semana. Logo em seguida, a esposa do irmão Gilberto servia seu delicioso pão integral com cevada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois disso, eu ia para casa me sentindo mais leve, serena, mais perto de Deus. Mas, então, vinham as outras influências e destruíam aquela paz. Desta vez, mesmo não gostando do fato de eu estar novamente estudando a Bíblia com os adventistas, a Teca não se afastou de mim. Ela estava sofrendo muito, pois seu namoro de mais de dois anos havia acabado e ela precisava de um ombro para chorar. Para ela, a única forma de esquecer a tristeza era se divertindo com uma boa amiga. Diante disso, eu acabava cedendo aos apelos dela e a acompanhava nas saídas à noite. É claro que os convites da Teca tornavam mais difícil resistir à vontade de também me divertir, mas eu ia mesmo porque gostava de ir. Ouvir música, estar com amigos, dançar – era apenas uma forma de tentar esquecer a luta interior pela qual eu passava. Mas era tudo ilusão e eu sabia disso. Só que eu não via como sair dessa rotina viciante, da situação “confortável” de servir a dois senhores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia fiquei muito contente ao encontrar a Rafaela, quando caminhava pelas ruas da Barra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, Rafaela! Você por aqui? Não está mais colportando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Oi, Tati, que bom ver você! Não, não estou mais colportando, por enquanto [colportagem é a venda de literatura religiosa e de saúde]. Preciso resolver algumas coisas... Vamos até a minha casa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem, vamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entramos no quarto dela, ela falou entusiasmada:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixe-me contar uma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê?! Você está namorando? – tentei adivinhar pelo tom de voz dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda não... Mas conheci um jovem muito legal, lá na Igreja Central de Florianópolis. O nome dele é Michelson. Ele faz Jornalismo na Federal e é bonito, inteligente e simpático. Mas, acima de tudo, o que eu mais gostei nele é que ele é muito cristão. Para mim, não importa tanto a beleza dele. O que me chamou a atenção mesmo foi a consagração. Quero ter um marido bem cristão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Puxa, que legal! – até suspirei em pensar em alguém com tantas qualidades. &lt;i&gt;Essa pessoa existe?&lt;/i&gt; Eu também precisava encontrar alguém assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois ela me mostrou um artigo dele publicado na &lt;i&gt;Revista Adventista&lt;/i&gt;, intitulado “Operação Cavalo de Troia”. Uma análise da coleção de livros escrita pelo jornalista espanhol J. J. Benítez, e que fazia muito sucesso nas décadas de 1980 e 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Fico feliz por você – continuei. – Gostaria de estar na mesma situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É só você querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não é tão simples assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rafaela se mobilizou para me ajudar. Emprestou-me fitas cassete de músicas e me incentivou a ler a Bíblia e os livros de Ellen White, além de me convidar a ir à igreja com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– No próximo sábado, um coral adventista do Chile vai cantar na Igreja Central. Talvez o Michelson não vá para a casa da família dele, em Criciúma, e fique por aqui neste fim de semana. Você gostaria de ir comigo à apresentação do coral e conhecê-lo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, vamos. Acho que vai me fazer bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A igreja estava lotada. Foi difícil procurar o “tal” Michelson no meio de tantas pessoas. Localizamos seus colegas de pensão, mas ele não estava junto com eles. Subimos até a galeria, mas ele também não estava lá. Bem, não seria naquela ocasião que eu iria conhecer o estudante que havia impressionado minha amiga. Mas gostei muito de ouvir o coral, principalmente quando com toda a igreja cantaram “Aleluia”, de Haendel, no fim da apresentação. Estremeci imaginando meu encontro com Jesus e saí dali disposta a me preparar para aquele dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos poucos, minhas saídas à noite com a Teca foram diminuindo. Ela já estava até se conformando com a ideia de um dia eu retornar à igreja. A Rafaela também acabou fazendo amizade com a Teca e ela parecia respeitá-la, apesar de pensar de forma diferente em muitos aspectos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meu coração ainda havia muitos sentimentos ruins para serem removidos, muito mais do que na primeira vez que conheci a Cristo. Durante o ano em que permaneci longe dos princípios bíblicos, maus pensamentos e más tendências foram cultivados. Não imaginava do que as pessoas sem Deus eram capazes. Mentira, mágoa e futilidade eram coisas comuns. E isso me causou feridas que antes eu não tinha. Além disso, alimentei minha vaidade de tal maneira que agora não sabia agir de outra maneira. Era muito mais difícil mudar desta vez. Não me sentia nem mesmo digna de tentar ser aceita novamente por Deus e pela igreja. Mas Jesus espalhava “lembretes” por meus dias dizendo que me amava. Ele usava pessoas, acontecimentos, textos bíblicos e até sonhos. Isso fazia com que minha esperança nunca desaparecesse. Por menor que ela estivesse, nunca se extinguiu de todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo parecia estar caminhando bem, apesar da constante luta interior. Sentia os fortes braços de Jesus ajudando em meu reerguimento. Até que o inimigo deu sua cartada estudada e me enganou mais uma vez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns meses antes, minhas amigas e eu havíamos ido à inauguração do Shopping Beira-Mar, na Avenida Beira-Mar Norte, em Florianópolis. Tudo era muito lindo e empolgante para mim. O ambiente era sofisticado, as pessoas bonitas, bem vestidas, aparentando cultura e educação. Estávamos caminhando lentamente, observando as vitrines, comentando as novidades, quando o gerente de uma loja famosa nos convidou para entrar. Ele conhecia uma das minhas amigas que já havia feito alguns trabalhos como modelo. Então, ela nos apresentou e ele sugeriu que preenchêssemos uma ficha para, quem sabe, trabalhar na loja como vendedoras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vibramos muito com a possibilidade e, na mesma semana, voltei à loja para entregar uma foto para ser anexada à minha ficha. Por algum tempo, esperei ansiosa pelo telefonema do gerente. Mas os meses foram passando e acabei esquecendo aquilo. “Talvez eu não combinasse mesmo com aquele ambiente”, pensei. Mas como eu queria ser como aquelas pessoas...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, meu desejo acabou se cumprindo. Quando cheguei em casa, certo dia, minha mãe me deu o recado toda feliz: “Ligaram do shopping avisando para você ir lá amanhã para fazer uma entrevista.” “Sério?!”, perguntei, tentando me recuperar da surpresa. Eu precisava contar a novidade para a Teca. “Logo agora que estou tentando voltar para a igreja... Será que devo ir?”, questionei-me em pensamento, pois minha mãe nem podia sonhar com essa hesitação. “Acho que vou só conversar, para ver o que eles querem. Quem sabe eles até me liberem aos sábados. Não custa tentar”, a tentação começava a me vencer e eu tentava me iludir querendo conciliar as coisas. No fundo, eu sabia que o problema não consistia apenas na guarda do sábado. Como poderia guardar os outros mandamentos também, especialmente o primeiro? Naquele ambiente, as pessoas via de regra só amavam a ostentação e a si mesmas. Na satisfação das vaidades, Deus era um ilustre desconhecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsfDoah5fI/AAAAAAAAND0/HyNGwgH4YJY/s1600/shopping+-+skyscraper.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="300" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsfDoah5fI/AAAAAAAAND0/HyNGwgH4YJY/s400/shopping+-+skyscraper.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Shopping Beira-Mar&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Fui muito bem na entrevista. O gerente disse que havia gostado de mim, que eu tinha o perfil ideal para a loja e que tinha certeza de que eu seria uma excelente vendedora. Entretanto, meu lado religioso o preocupava. Fiquei uma hora falando sobre como havia conhecido a Jesus e sobre a volta dEle a este mundo para resgatar Seus filhos. Disse que temos que nos preparar e observar a Lei de Deus, que o sábado é um sinal entre o Criador e Seu povo, e que eu não gostaria de trabalhar nesse dia. Depois de ouvir tudo, ele me deu um ultimato: “Você é quem vai escolher o que quer para sua vida. Não responda agora. Vá para casa, pense com calma e tome sua decisão. Ou você guarda o sábado e segue essa sua religião, ou trabalha aqui e se dedica à carreira promissora de vendedora. Uma coisa ou outra. Você terá que escolher. Amanhã você me liga e diz o que decidiu, está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esta bem”, respondi, ainda tentando assimilar a maneira como ele expôs a situação. Era muito claro. Minha ilusão estava desfeita. Queria ter as duas coisas, mas aquele homem deixou tudo muito claro: ou escolhia Jesus ou ficava com o “mundo”. Serviria a Deus ou à vaidade? Adoraria a Cristo ou a mim mesma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu devia ter buscado a Rafaela para me aconselhar, mas saí dali e fui para a casa da Teca. O que será que eu estava querendo ouvir? Meu coração estava apertado, pois eu não queria mais ficar longe de Jesus. Talvez para outra pessoa fosse fácil resistir àquele apelo, mas o inimigo conhece a fraqueza de cada ser humano e usa isso contra aqueles que não se apegam firmemente às mãos do Pai. Essa era precisamente a minha situação naquele momento. Não estava forte o bastante para resistir e a tentação era insuportável. “E se eu experimentar só por algum tempo?” Ficava alegre só de pensar como seria bom estar lá. Meu apego às vaidades e ilusões do mundo ainda era muito grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não é nem louca de não aceitar essa proposta de emprego! Ai, Tati, me poupe! Só por causa do sábado? Faz tempo que você deixou de guardar o sábado. Não vai querer voltar com isso logo agora, né? Por favor, não perca essa oportunidade. Essa experiência vai enriquecer seu currículo. Vamos poder ter roupas bonitas, conhecer novas pessoas... Vá lá e dê um jeito de me chamarem também. Pronto! Está decidido. Vai ser muito bom! – para a Teca, o dilema se resolvia de forma simples e ela sorria e vibrava com a possibilidade de também poder trabalhar na loja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sorri para minha amiga, mas não disse nada. Uma parte de mim estava triste porque aos poucos eu estava me entregando à tentação, o que levaria fatalmente à decisão errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Rafaela foi à minha casa, naquela mesma semana, encontrou-me bem maquiada saindo para o trabalho. Não foi preciso falar nada. Seu olhar era eloquente. Ela estava decepcionada. Depois desse dia, nos encontrávamos muito raramente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, eu estava entusiasmada com as novidades. Tinha muita vontade de aprender e disposição para ajudar a qualquer momento que fosse necessário. Queria me sentir capaz e ser bem-sucedida, correspondendo à expectativa de meus empregadores. E foi o que aconteceu. Peguei o jeito da coisa e no segundo mês fui a melhor vendedora da loja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo com o sucesso, com o tempo acabei me sentindo oprimida. Havia muita rivalidade e inveja entre as pessoas. O materialismo e a vaidade eram a maior motivação para a vida e comecei a ver quão fúteis eram essas coisas. Não me sentia mais à vontade naquele ambiente e percebi que ali não era mesmo o meu lugar. Mas estava confusa sobre o que fazer e insegura quanto ao meu futuro. Sentia que não merecia, mas ainda esperava que Deus fizesse um milagre em minha vida, mudando meu coração. Tinha vergonha só de pensar em voltar para a igreja. Eu não precisava passar por isso mais uma vez para saber que tudo era ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia mais um dia qualquer, até que a Rafaela me fez uma surpresa e apareceu lá na loja, no fim do expediente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Rafaela?! Está passeando? Vamos lanchar juntas? Já está na hora de eu sair e estou com uma fome...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos, sim. Como vão as coisas aqui? – perguntou-me, enquanto caminhávamos para a praça de alimentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem. Sabia que um dia desses um cara que contrata modelos para uma agência superfamosa esteve aqui na loja? Ele disse que eu deveria fazer um book e me convidou para participar de um teste para um comercial de TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É? E você vai fazer o teste?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que não... Tenho vergonha. Muitas moças bonitas vão participar. Tenho medo de ficar pra trás, sendo tão franzina. – sentamo-nos, pedi um &lt;em&gt;milkshake&lt;/em&gt; de morango e mudei de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas e você, Rafaela? Já está namorando aquele rapaz, o Michelson?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda não. Faz tempo que não o vejo, pois ele estava de férias da faculdade e ficou lá em Criciúma. Mas acho que hoje ele vai à igreja porque as aulas já recomeçaram. É por isso que vim aqui. Quer ir à igreja comigo nesta noite?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, não sei... Tenho aula e não posso faltar mais. Acho que vai ter que ficar para outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que pena. Pensei que finalmente você iria conhecê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Estou curiosa, mas hoje não vai dar. Obrigado por me convidar. A gente se vê por aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais tarde, quando estava caminhando para a sala de aula no Instituto Estadual de Educação, onde estudava na época, encontrei alguns colegas de classe vindo em direção contrária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ei, Débora, não vai ter aula hoje. Pode voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade? Por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Os dois primeiros professores faltaram e só haveria a última aula, mas ninguém quis esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sério?! – quase pulei de alegria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saí correndo e fui procurar a Rafaela. Ela estava sentada na escadaria em frente à Catedral de Florianópolis, na Praça XV. Como ainda faltava mais de uma hora para o culto começar na Igreja Adventista Central, ficamos conversando ali até o sol se pôr. Chegamos cedo à igreja e nos sentamos nos primeiros bancos, do lado esquerdo. De vez em quando, a Rafaela olhava para trás, para tentar localizar o Michelson. Mas o culto começou e nada de ele chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, sentimos que alguém havia se sentado no banco atrás do nosso. Era ele. Eu estava ansiosa para ver o rosto dele, mas tinha que ser discreta. Foi quando ele passou um folheto para a Rafaela e pediu que ela me entregasse. Era a minha chance. Virei-me para agradecer e sorri para ele. A Rafaela deixou passar um tempinho e depois cochichou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você achou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você não tinha me falado que ele usava barba...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E não usava. Não sei o que aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei o sorriso dele lindo e seus olhos muito expressivos. Tive uma estranha vontade de conhecê-lo melhor, mas obviamente me contive e tentei não demonstrar meu interesse. Sabia que não era correto sentir aquilo, mas não podia evitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o culto acabou, fomos conversar com ele e com seus amigos. O Michelson parecia muito interessado em saber quem eu era. A maneira como ele me tratou me fez sentir querida e especial. Quase sem perceber, empolguei-me dialogando com ele. Tínhamos algumas coisas em comum e quanto mais falávamos, mais assuntos surgiam. Eu não queria que a conversa acabasse. Estava me sentindo feliz como uma criança por estar perto dele. Foi tudo tão espontâneo e não proposital que eu não sei se consegui disfarçar. Meus sentimentos me pegaram de surpresa e só depois de algum tempo pude avaliar o que estava acontecendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me dei conta, nós dois estávamos isolados do grupo. Fiquei muito “sem graça” e ao caminharmos todos juntos – os companheiros de pensão do Michelson, ele e nós duas – para o ponto de ônibus, tentei me entrosar com os outros e, principalmente, deixá-lo a sós com a Rafaela. Porém, parecia que ele estava sentindo o mesmo por mim e acabava ignorando por completo minha amiga. Eu não sabia como agir. Não queria desprezá-lo de maneira alguma, mas comecei a sentir um frio na barriga só de pensar que minha amiga pudesse perceber o que parecia estar havendo entre mim e ele. A preocupação me dominou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de entrar no ônibus, o Michelson reforçou o convite que nos havia feito para que o assistíssemos pregar dali a um mês. Uma leve angústia se abateu sobre mim ao pensar que eu não poderia vê-lo novamente. Eu simplesmente respondi “até mais”, sem dar certeza de que iria, pois sabia que não seria correto de minha parte aproximar-me dele dali para a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você gostou dele, não é? – a Rafaela não conseguiu disfarçar uma ponta de sarcasmo na voz. E eu não podia condená-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Achei-o muito legal, mas não se preocupe; não gosto de homens de barba – tentei disfarçar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda bem que ele estava de barba &lt;em&gt;hoje&lt;/em&gt; – ela encerrou o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos caladas no ônibus que ia para a Barra e assim permanecemos a viagem toda. As duas, lado a lado, por quase uma hora olhando para o céu através das janelas do veículo, pensando na mesma pessoa, mas com tormentos diferentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como pude me apaixonar assim, de forma tão imprudente? Por que logo pela pessoa de quem minha amiga gostava? Por que não poderia tê-lo conhecido em outras circunstâncias? Sentia que eu não era a pessoa ideal para ele. Certamente eu não merecia um homem tão bom e tão cristão – a Rafaela é que merecia. Mas percebi que ele nutria apenas amizade por ela e talvez nem desconfiasse dos sentimentos dela por ele. Mas e se a amizade crescesse e ele descobrisse um dia a pessoa maravilhosa que minha amiga era? Se eu estivesse por perto, iria estragar tudo... Decidi, com muito pesar, que iria me afastar. Iria esquecê-lo e nunca mais voltaria àquela igreja, pelo menos nos cultos de quarta-feira, os quais o Michelson costumava assistir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desembarquei do ônibus próximo à casa da Teca. Precisava desabafar com alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ai, Teca... Conheci o amor da minha vida hoje!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que exagero! – ela sorriu. – Onde? Lá no shopping ou na escola?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na igreja? – ela engoliu o sorriso e fechou o rosto. – Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando expliquei o que havia acontecido, ela ficou horrorizada. Em parte porque não queria que eu namorasse um adventista, o que possivelmente facilitaria meu regresso à igreja; mas, principalmente, porque a Rafaela gostava dele. Isso nunca tinha me acontecido antes. A Teca e eu sempre fomos fiéis uma à outra e nunca nos interessamos por paquera uma da outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Juro que eu não queria sentir isso, Teca. Mas parece que a vida ganhou novo sentido porque ele existe. Queria ficar perto dele o tempo todo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas não pode! Isso não dá. Você tem que esquecê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui dormir triste naquela noite (pra variar). Queria falar com Jesus sobre o Michelson, mas me sentia envergonhada. Mesmo assim, acabei abrindo o coração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Senhor, só Tu podes sentir e compreender o que sinto de verdade. Eu queria tanto estar em outra situação e sei que a culpa de estar assim é só minha. Queria tanto ter aquele jovem como namorado. Ele me fez sentir coisas tão boas. Me senti feliz como nunca antes ao estar perto dele. Queria ser uma pessoa melhor para merecê-lo, mas não sou. Parece até um castigo imaginar o quanto poderia ser feliz e depois perder a chance para sempre... Senhor, não quero atrapalhar as coisas entre a Rafaela e ele. Mas se, por acaso, não der certo entre os dois, e se for da Tua vontade, guarde-o para mim, por favor. Que um dia, mais tarde, quando eu for uma pessoa melhor, possamos nos encontrar novamente e, quem sabe, eu ainda tenha uma chance. Amém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apaguei a luz e chorei baixinho até dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando acordei, tudo parecia ter sido outro sonho. “Será que ele só me tratou tão bem apenas para eu voltar para a igreja? Pode ser. Talvez eu nem seja especial para ele... Melhor esquecer. Além do mais, é possível que ele ainda vá gostar da Rafaela, e ela merece ser feliz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não soube me &lt;em&gt;aquietar&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;esperar&lt;/em&gt; pelo Senhor; agora estava sofrendo as consequências. Quando conheci a pessoa ideal para mim, eu havia me tornando a pessoa errada. Tudo porque não confiei em Jesus e tive pressa de viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dias seguintes foram tediosos e eu seguia minha rotina. Então, numa noite de domingo, quando a Teca e eu voltávamos de nossa choperia e pizzaria preferida, nossa vida mudou completamente, para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já estava em casa, me preparando para dormir, pois iria levantar cedo para trabalhar no dia seguinte. Estranhei quando ouvi a Teca batendo à porta e me chamando. Eu havia acabado de deixá-la em sua casa. Minha preocupação aumentou quando percebi que ela estava chorando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que foi, Teca? O que aconteceu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não respondeu. Só me abraçou e ficou chorando compulsivamente. Esperei uns minutos e perguntei novamente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Me conte, alguém morreu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fez que não com a cabeça, mas ainda não conseguia falar. Depois de algum tempo, gaguejou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A mãe... A mãe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O quê? Sofreu um acidente? Me fala! Estou ficando angustiada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não consigo – ela disse, entre soluços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos até a cozinha tomar água. Acalme-se e agora tente falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A mãe e o pai foram passear de canoa, hoje, com um casal amigo deles – ela prosseguiu, depois de beber metade da água no copo. – Eles guardaram a canoa no rancho e quando estavam indo para casa, passaram em frente ao cemitério. A mãe... A mãe mudou de voz e quis entrar no cemitério. O pai e o amigo dele não conseguiram segurá-la. Depois, ela desmaiou e em alguns instantes voltou ao normal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teca bebeu o restante da água e continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora ela não se lembra de nada, Tati. A mulher do amigo do meu pai é espírita e quer levar a mãe a um centro. Deus não pode permitir isso. Eu sei que foi o inimigo que se apossou dela. Eu acredito na Bíblia, Tati. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo realmente me surpreendeu, mas tinha mais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei que os mortos estão dormindo na sepultura e não podem se comunicar com os vivos, eu sei disso. Por favor, Tati, vamos orar pela minha mãe. Ore por mim também, por favor. Eu prometo que se Jesus libertar minha mãe, eu vou dar minha vida para Ele. E vou para a sua igreja, Tati.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei atônita e não sabia o que dizer. Era difícil acreditar no que estava ouvindo: minha amiga confessando que acreditava no que eu havia pregado para ela. Nunca pensei que fosse ouvi-la me pedindo para orar com ela. E também nunca pensei que uma coisa horrível dessas pudesse acontecer com a mãe dela. E agora? Como poderia interceder por elas se eu estava tão longe de Deus? Não me sentia digna de ajudar. Mesmo assim, sabia que Jesus nos ama. E se eu, que sou pecadora, me compadecia da minha pobre amiga, Jesus não Se compadeceria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fomos até o meu quarto e nos ajoelhamos. Naquela noite, pedi o perdão de Deus como nunca antes havia feito. Eu queria pegar a Teca no colo – como as mães que pediram a Jesus que abençoasse seus filhos – e entregá-la nos braços do Salvador. E Ele não nos rejeitou. Ele nunca rejeita qualquer pessoa! Senti Seu perdão me envolvendo. Me abraçando. Pude perceber quanta misericórdia Jesus tem de nós e senti o desejo que Ele tem de nos salvar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Teca, escute bem o que vou lhe dizer: Jesus é o Deus Todo-Poderoso, Criador dos céus e da Terra. Nada acontece sem que Ele permita. Se Ele não quiser, o inimigo não vai chegar nem perto da sua mãe. Confie nEle. Ele vai proteger vocês.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas eu não quero dormir mais lá em casa. Você me deixa dormir aqui?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É claro. Mas não precisa ter medo. Confie em Jesus, por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas e se acontecer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deus está no controle. Confie em Jesus. Ele estará do seu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu quero ficar aqui e quero que você estude a Bíblia comigo toda noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem. Vamos estudar a Bíblia e você pode dormir aqui até se sentir segura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava triste por vê-la sofrer tanto, embora na época não tivesse clara noção do terror pelo qual ela estava passando. Por outro lado, apesar de tudo, eu estava feliz porque tinha certeza de que aquilo iria passar e que tudo acabaria bem. Pela primeira vez, depois de muito tempo, pude olhar para o futuro e ter esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda noite nós estudávamos a Bíblia, e toda madrugada acordávamos para orar. Eu não suportava ver o semblante abatido e assustado da minha amiga. Preocupava-me muito com ela e por isso passei a orar mais ainda. Pedia que ela se apaixonasse por Jesus e encontrasse a alegria de viver ao lado dEle. No começo, foi uma luta terrível, mas em pouco tempo ela voltou a se alegrar e aprendeu a amar Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendi que não podia mais continuar trabalhando no shopping. Cheguei à loja naquela semana e anuncie que iria trabalhar apenas até completar o mês. Naquele sábado, recebi um sinal de Deus, confirmando minha decisão e me provando a santidade do sétimo dia da semana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sábado sempre havia sido o dia mais movimentado e todos vendiam mais nesse dia. Estranhamente, naquele sábado não consegui vender uma peça sequer. No meio da tarde, o gerente me chamou para conversar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora, o que está acontecendo? Eu vi você atender várias pessoas e por que não fez uma venda até agora? Você sempre foi uma ótima vendedora. Desistiu de vender?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu não sei o que está havendo. Estou agindo da mesma forma de sempre... Fique por perto e observe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou por alguns minutos analisando meu atendimento aos clientes. Mas também não encontrou explicação para o “fenômeno”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso é incrível! – ele me disse. – As pessoas provam, gostam, desejam, mas na hora de fechar a venda, desistem... Se fosse um ou outro cliente, tudo bem. Mas todos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Isso está acontecendo o dia todo. Mas já sei o porquê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Porque hoje é sábado! Deus está me mostrando que não devemos trabalhar no dia que Ele reservou para Si. O sétimo dia foi separado por Deus na Criação para que possamos estar com o Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gerente ficou sério e pensativo. Não falou mais nada, pois ele mesmo não sabia explicar o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olhei para o relógio, vi que o horário do pôr do sol havia chegado. O sábado estava acabando e chamei novamente o gerente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O sábado acabou – eu disse. – Agora vamos ver o que vai acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acabei de falar e comecei a atender uma cliente que comprou muitas peças de roupa. E assim foi, uma pessoa após a outra. Até as 20 horas vendi o equivalente a um dia inteiro de trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Agora você acredita? – desafiei o gerente, no fim do expediente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei o que dizer. Só me resta acreditar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ficou realmente impressionado e comentava com os funcionários o que havia acontecido naquele sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo, a Teca me pediu para levá-la à igreja. “Mas não quero ir aqui na Barra e nem na Palhoça. Quero ir à Igreja Central de Florianópolis. Não quero que algum conhecido me veja na igreja, por enquanto. Pode ser?” “É claro que pode”, respondi, não me contendo de felicidade. Era a primeira vez que a minha amiga me acompanharia a um culto na igreja adventista. Parecia um sonho!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, senti um forte desejo de encontrar o Michelson e poder lhe contar a novidade. Tinha certeza de que ele ficaria feliz em saber que eu estava voltando para a igreja, como ele me havia convidado, em nosso primeiro encontro, naquela quarta-feira. Mas eu também sabia que ele não estaria lá na central no domingo. Se quisesse vê-lo, teria que ir novamente ao culto de quarta-feira. A vontade era grande, mas eu não podia fazer isso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fim daquele culto de domingo, um jovem chamado Marcelo veio nos cumprimentar e saber quem éramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, então você é a Débora! – ele falou sorrindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por quê? Você me conhece? – fiquei surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um amigo meu falou que conheceu você outro dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que amigo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Michelson, lembra dele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração disparou e devo ter ficado corada. Acho que meus lábios alcançaram as orelhas, num largo sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Claro que lembro! E o que ele falou de mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nada... Só chegou em casa comentando que havia conhecido você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, enchi-me de esperança. “Se o Michelson falou de mim, é porque gostou de mim. Se não tivesse gostado, não sairia comentando”, pensei, enquanto me deitava. Novamente pedi a Deus: “Senhor, se essa for Tua vontade, que um dia daqui a algum tempo possamos nos encontrar. Mas, Senhor, se Tu queres que ele namore a Rafaela, faze com que se apaixone por ela logo e tira esse sentimento do meu coração. Meu Deus, não quero fazer a Rafaela sofrer. Por favor, se não for Tua vontade que ela fique com o Michelson, faze com que ela o esqueça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei sonhando acordada com o dia em que poderia encontrá-lo novamente, até que veio o sono e adormeci com um sorriso nos lábios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-115756222696569992?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/115756222696569992/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=115756222696569992&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115756222696569992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115756222696569992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/09/captulo-10-luta-interior.html' title='Capítulo 10 - Luta interior'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsfDoah5fI/AAAAAAAAND0/HyNGwgH4YJY/s72-c/shopping+-+skyscraper.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-115227786803337217</id><published>2006-07-07T06:07:00.000-07:00</published><updated>2011-02-03T13:26:11.896-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 9 - Um dia muito especial</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sensação de ser dono da própria vida era ao mesmo tempo empolgante e assustadora. Morar longe da família foi uma experiência que ajudou no meu amadurecimento, mas não foi fácil – especialmente nos primeiros meses – suportar a saudade. Eu não tinha condições financeiras de tomar ônibus toda semana para viajar os quase 200 km que separam Criciúma de Florianópolis. Assim, me vi obrigado a pedir carona na rodovia e contar com a bondade de algum motorista solidário. Na sexta-feira, levava minhas roupas sujas na mochila e no domingo as trazia de volta, limpas, junto com uma sacola cheia de alimentos que minha mãe bondosamente preparava. Aliás, se não fossem essas sacolas eu quase teria passado fome em várias ocasiões, pois os poucos recursos financeiros que recebia do meu pai davam apenas para pagar o aluguel e comprar alguns livros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior momento nesses fins de semana com a família era quando eu tinha que deixar a casa dos meus pais para ir à rodoviária tomar o ônibus que me deixava no trevo de acesso a Criciúma, na BR 101, para novamente pedir carona. Enquanto descia a rua, a distância podia ver meus pais e irmãs na janela, acenando para mim. Tinha que fazer força para segurar as lágrimas. Pensava no coração apertado da minha mãe, imaginando quem iria parar o carro ou caminhão para me levar a Florianópolis; se a comida iria ser suficiente para a semana; se o filho estaria bem. Sempre tentava confortá-la, dizendo que tudo estava sob controle, que era fácil pegar carona e que Deus cuidava de mim. E era verdade. Muitas vezes o Pai do Céu demonstrou de maneira incontestável que estava ao meu lado, tomando conta de tudo. Não era fácil suportar tantas privações, mas não creio que gostaria que as coisas tivessem sido diferentes. Contar com Deus um dia após o outro foi uma experiência que pude levar por toda a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma brisa quente e úmida, típica dos verões florianopolitanos, soprava suavemente naquele 16 de março de 1994. Um dia perfeito. E eu nem sonhava que naquele dia minha vida iria sofrer outra guinada. Meu amigo Cláudio (um goiano que dividia comigo um dos quartos da pensão onde morávamos) e eu conversávamos enquanto fazíamos algumas arrumações na mobília, que se resumia a um beliche, um pequeno guarda-roupa e uma escrivaninha com cadeira de madeira. Fazia dois anos que eu havia me mudado para a Capital. De início, morei numa “república” com dois outros estudantes, um de Criciúma, como eu, e outro de Lages. Eles eram boas pessoas, mas nossos hábitos eram muito diferentes. Toda sexta-feira eu continuava indo para Criciúma, para matar a saudade da família e “fugir” das festas regadas a cerveja e música que meus colegas costumavam fazer. Aquilo não era mais ambiente para mim. E quando conheci outros estudantes adventistas na Igreja Central de Florianópolis que estavam querendo morar juntos e soube que havia vagas numa pensão próxima ao campus, candidatei-me na hora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Há quanto tempo você está namorando, Cláudio? – perguntei ao meu amigo de quarto, enquanto terminávamos de arrumar as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Há dois meses, mais ou menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe, eu invejo você... Desde que terminei com minha namorada, há mais de um ano, tenho pedido a Deus que me mostre uma garota que realmente tenha interesse em assuntos espirituais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E por que vocês terminaram?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ela é uma boa moça, mas depois que comecei a estudar a Bíblia e compreender o que Deus quer de mim, nossos rumos começaram a divergir. Eu já não mais frequentava os lugares em que ela gostava de estar e ela não tinha interesse na mensagem adventista. O término do namoro foi uma questão de tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas não é fácil você arranjar uma namorada cristã por aqui. Você viaja todos os fins de semana para casa. Mesmo que haja alguma moça da igreja interessada, você não dá chance.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei... Mas é que tenho compromissos na igreja de Criciúma. Estou dando vários estudos bíblicos e minha mãe e irmã se converteram há pouco tempo. Preciso dar apoio a elas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Considero importante tudo o que você faz pela igreja, mas penso que Deus também Se preocupa com a nossa felicidade. Além disso, não vejo no que uma namorada iria atrapalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não que vá atrapalhar. Na verdade, o fato é que até agora não apareceu ninguém... O que me resta fazer é orar para que Deus me conduza à pessoa certa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Confie em Deus, Michelson. Com certeza, Ele tem alguém sob medida para você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu realmente acreditava nas palavras do meu amigo goiano. Mesmo assim, era bom ouvi-lo dizer isso. Desde que aceitei Jesus como meu Salvador e Senhor, tenho visto inúmeras evidências de Seu cuidado por mim. Portanto, tudo o que me restava fazer era exercitar a paciência e confiar em meu Mestre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia acabado de chegar das aulas. Estava cansado e na manhã seguinte teria que entregar um trabalho importante na faculdade. Pensei em não ir ao culto naquela noite para dar conta da tarefa, mas meus amigos (e como é bom ter amigos assim!) me convenceram a “buscar em primeiro lugar o reino de Deus” porque, fazendo isso, Ele me capacitaria para as demais atividades. Concordei com eles e esperei minha vez de usar um dos dois banheiros da pensão para tomar banho. Minha barba estava um pouco crescida e resolvi cortá-la, aproveitando para fazer uma brincadeira com meus amigos. Quando abri a porta do banheiro, foi uma risada só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, deixa assim, Mic! Deixa como está – incentivou o Luís.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Eu nunca usei cavanhaque. Só deixei para ver como ficaria e para ver a reação de vocês – respondi, ainda limpando a espuma do creme de barbear no rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Se fosse você, eu ia assim mesmo para o culto – reforçou o Lauro, um jovem alto, natural de Itajaí e um dos primeiros universitários adventistas a se tornar meu amigo em Florianópolis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Lauro e o Luís acabaram se tornando meus melhores amigos do tempo de faculdade. Lauro cursava Engenharia de Alimentos e dividia o quarto com outro adventista de Itajaí chamado Marcelo. Os dois eram meus vizinhos de quarto. Eles eram muito interessados em assuntos relacionados com saúde e alimentação. Estavam sempre lendo e partilhando comigo conselhos da escritora adventista Ellen White. Graças a eles (e a ela), também me interessei pelo tema e acabei abandonando a dieta cárnea. Foi uma decisão difícil porque, com os poucos recursos financeiros de que eu dispunha, não podia escolher muito o que comer. Mas Deus mais uma vez veio em meu auxílio e tudo se resolveu. Nunca me arrependi de optar pelo vegetarianismo. Na verdade, minha saúde melhorou bastante depois dessa mudança. Quanto ao Luís, ele cursava Administração e morava num dos alojamentos dos fundos da pensão. Nós formávamos uma verdadeira família de amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol estava se pondo. Seus raios avermelhados já se mostravam por sobre o Morro da Cruz. A hora de ir ao culto de oração estava chegando e não sei por que acabei deixando o cavanhaque, conforme haviam insistido meus amigos. “Pra que ter vergonha?”, pensei. “Não conheço quase ninguém da Igreja Central mesmo.” Mal sabia o quanto me arrependeria dessa decisão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei alguns minutos atrasado ao culto, pois tive que passar antes na casa de um rapaz que havia contratado meus serviços como desenhista (eram esses “bicos” que me ajudavam com as despesas e complementavam a ajuda financeira da família). O hino inicial já havia sido cantado. Corri os olhos pela igreja para ver se encontrava meus amigos a fim de me sentar com eles. Não os vi. Entretanto, meu olhar se fixou numa garota de cabelos loiros cacheados. Vi-a apenas pelas costas, ao lado da Rafaela [nome alterado], uma amiga do município de Palhoça, que de vez em quando assistia aos cultos na Igreja Central de Florianópolis. Sentei-me no banco imediatamente atrás das duas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os cabelos da garota desconhecida, soltos por cima do banco, deviam chegar à sua cintura. Eram realmente lindos. Senti uma vontade imensa de ver o rosto dele e, ao erguer disfarçadamente um pouco os olhos por sobre seus ombros, percebi que ela vestia calça &lt;i&gt;jeans&lt;/i&gt;. Como não é comum as mulheres adventistas irem à igreja de calça e como nunca havia visto aquela jovem por ali, imaginei que ela não fosse adventista. Chamei a Rafaela e pedi que ela entregasse um folheto com uma mensagem bíblica à moça loira – eu sempre levava folhetos em minha Bíblia para distribuí-los no caminho até a igreja. Ao receber o impresso, a garota se virou lentamente para me agradecer. Fiquei como que hipnotizado por aqueles olhos castanho esverdeados. Meu coração acelerou. Ela sorriu em agradecimento e acho que fiquei com o rosto corado. Correspondi-lhe o sorriso, meio sem jeito, condenando-me por, logo naquele dia – naquele único e inesquecível dia – estar usando o tal do cavanhaque que eu nunca havia usado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedi perdão a Deus, pois daquele momento em diante não consegui mais prestar atenção à mensagem que estava sendo pregada do púlpito (na verdade, nem me lembro quem era o orador). Aquele rosto pequeno e delicado e o olhar meigo não me saíam da mente. Qual seria o nome dela? Quem seria ela? Onde morava? Por nada neste mundo eu poderia perder a chance de conversar com ela no fim da reunião. Era estranho, mas eu sentia como se isso fosse inevitável. Como se nossos passos estivessem sendo guiados por algo – ou Alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na calçada em frente à igreja, a Rafaela veio falar comigo e me apresentou à jovem. Débora era seu nome. Débora Tatiane Martins. Cumprimentamo-nos e ela me agradeceu o folheto, dizendo que havia sido adventista. Sua voz era doce e suave. E o sotaque típico dos descendentes de açorianos (com o “r” carregado e o “s” com som de “x”) lhe conferiam um charme irresistível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Já está na hora de voltar para a igreja, não acha? – perguntei-lhe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ocorreram alguns problemas, mas eu ainda quero voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto conversávamos, nossos olhos permaneciam fixos um no outro. Esqueci-me dos que nos rodeavam. O próprio tempo parecia ter parado. Nada mais importava a não ser a linda jovem diante de mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era como um sonho. Tínhamos muita coisa em comum. Logo descobri que, além de apreciar bons livros, ela também gostava de desenhar, como eu. Era muita coincidência! O tempo passou. As luzes externas da igreja foram apagadas. Os irmãos foram todos embora. Mas nossos olhos permaneciam unidos por uma força irresistível. Foi a Rafaela quem quebrou o “transe”, lembrando à Débora que já estava tarde e que elas perderiam o ônibus, caso demorassem um pouco mais. Pensei que se não fosse aquela interrupção ficaríamos ali por horas, esquecidos de tudo o mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsdReZAefI/AAAAAAAANDs/AIngdJVPvr4/s1600/Igreja%2BCentral.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="253" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsdReZAefI/AAAAAAAANDs/AIngdJVPvr4/s400/Igreja%2BCentral.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: 'Arial','sans-serif'; mso-ansi-language: PT-BR; mso-bidi-language: AR-SA; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Igreja Adventista Central de Florianópolis&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;br /&gt;Resolvi tomar o ônibus expresso para o bairro universitário um pouco mais longe do ponto habitual, o que me permitiria acompanhá-las até próximo ao local em que tomariam o ônibus para o município de Palhoça, onde moravam. Dessa forma, eu passaria mais alguns minutos junto àquela garota que, sem dúvida, havia tocado meus sentimentos. Tentei conversar com a Rafaela também, mas minha atenção estava inevitavelmente sobre a Débora. Acho que acabei sendo até deselegante com minha amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poucos minutos depois, chegou o momento que eu havia tentado adiar e desejava nunca tivesse chegado: a despedida. O ônibus que eu devia tomar já estava partindo. Despedimo-nos e embarquei nele. Enquanto o veículo ganhava velocidade, continuei observando a moça pela janela, com uma dúvida a me martelar a cabeça: Quando nos veríamos novamente? Todavia, uma certeza tomou conta de mim. Era como se o próprio Deus estivesse a me dizer: “Eis aí a resposta a suas orações.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consolei-me com esse pensamento nas angustiantes semanas que se seguiram.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-115227786803337217?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/115227786803337217/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=115227786803337217&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115227786803337217'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115227786803337217'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/07/captulo-9-um-dia-muito-especial.html' title='Capítulo 9 - Um dia muito especial'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUsdReZAefI/AAAAAAAANDs/AIngdJVPvr4/s72-c/Igreja%2BCentral.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-115210005067452147</id><published>2006-07-05T04:46:00.000-07:00</published><updated>2011-02-03T03:31:17.371-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 8 - O castelo desmorona</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tenho pena de você, Tati. Não entendo como isso foi lhe acontecer. Logo você, uma pessoa tão inteligente, se deixar levar por uns ignorantes! Parece que fizeram lavagem cerebral!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confesso que fiquei com muita raiva ao ouvir o comentário da Teca. A forma como ela falou atingiu em cheio minha vaidade e meu orgulho. A vontade que eu tinha era de ofendê-la também, atacando algum ponto fraco dela. Mas eu pensava como ela até bem pouco tempo antes, por isso me contive e me esforcei ao máximo para não deixar transparecer meus sentimentos. Com a maior calma possível, respondi:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Guarde sua pena para você mesma, Teca. Estou muito feliz porque agora conheço a Deus de verdade. Você ainda precisa conhecê-Lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do meu “esforço diplomático”, a Teca não gostou da resposta e notei que ela também teve que se conter para não brigar comigo. Isso vinha acontecendo com certa frequência e nossa amizade já não era a mesma. Até ali, havíamos sido cúmplices em tudo. Quando uma sofria, a outra sofria junto. A alegria dela também passava a ser minha, e não fazíamos planos individuais. Mas, pela primeira vez, eu estava sozinha e incompreendida pela minha melhor amiga. De todas as críticas que ouvi, as que doíam mais eram as da Teca. Sua hostilidade me feria profundamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando meu pai, minha amiga que estava hospedada em nossa casa e eu iniciamos os estudos bíblicos com os adventistas, a Teca também participou. Assistiu umas três vezes, mas seu pensamento estava longe. Na verdade, ela ia apenas para me acompanhar. Até que o namorado fez tantas críticas que a persuadiu a desistir. E como minha outra amiga teve que ir embora, ficamos apenas meu pai e eu estudando a Bíblia com os dois “crentes”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De início, eu havia construído um muro de desconfianças. No fundo, menosprezava a inteligência e as crenças dos dois instrutores bíblicos. Sentia repulsa só de pensar em ser como eles. Queria fazer os estudos apenas para conhecer um pouco mais a Bíblia, mas jamais havia passado pela minha cabeça mudar de religião ou abandonar minha maneira de ser. Se Deus não houvesse me impressionado antes, despertando meu interesse pelas Escrituras e pelo Apocalipse, especificamente, talvez nem mesmo tivesse concordado em estudar com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bairro em que nasci e cresci – a Barra do Aririú, no município de Palhoça – é predominantemente católico. Uma comunidade açoriana onde por muito tempo a maior fonte de renda foi a pesca. O catolicismo e o mar influenciam muito o comportamento do povo. Todos os anos são realizados bailes, procissões marítimas, novenas, festas religiosas, e superstições e lendas são contadas pelos pescadores, de geração em geração. Todos se conhecem e parece que devem satisfação do que fazem uns aos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoLyzDuzTI/AAAAAAAANDY/3J9r5bIHYoU/s1600/barra+do+aririu.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="232" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoLyzDuzTI/AAAAAAAANDY/3J9r5bIHYoU/s400/barra+do+aririu.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Arial','sans-serif';"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Vista aérea da Barra do Aririú, Palhoça, SC&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Os “crentes” eram totalmente excluídos do convívio social. Lembro-me de quando era pequena e passava em frente ao templo da igreja evangélica Assembleia de Deus. Ficava muito assustada ao ouvi-los “falar em línguas estranhas”. Achava aquilo realmente amedrontador, confuso e apressava o passo. Quando perguntava à minha mãe por que eles gritavam daquele jeito, a resposta dela era curta e direta: “São loucos.” Cresci considerando aquelas pessoas dessa forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a Igreja Adventista do Sétimo Dia foi estabelecida no bairro, o preconceito não foi diferente. Era uma pequena casa vermelha, de madeira e com janelas e portas azuis. Ficava na parte da frente do terreno do senhor Gilberto, que então era o líder do grupo. A casa dele estava em construção, nos fundos do terreno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, passava por ali com minhas tias e elas comentaram: “Mais uma igreja de loucos. Mas essa aí é do filho do Gregório. É a igreja do Beto Louco.” Assim ficou conhecida, de início, a igreja adventista na Barra do Aririú – a “igreja do Beto Louco”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No começo, era apenas um grupo, formado por três famílias. Os únicos jovens eram o Paulo, de dezesseis anos, filho do Gilberto; o Carlinhos, de vinte e dois anos, que nos ministrava os estudos bíblicos; e a Rafaela, de dezoito anos, recém-convertida [nomes alterados].&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia em que vi a Rafaela vestindo saia longa e com a Bíblia na mão, quase não acreditei. Admirada, acompanhei-a com os olhos. Queria ter certeza de que era ela mesma. A Rafaela não tinha boa fama porque andava com uns jovens conhecidos por usar drogas. Sempre que eu a via estava gargalhando sarcasticamente de alguém, ou com uma expressão irada e revoltada que me dava medo. Procurava passar a distância, sem encará-la, para que ela não falasse nada para mim e me envergonhasse em público.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a conheci melhor, percebi como a havia julgado mal. Ela era uma jovem sensível e carente, mas um pouco revoltada com a vida. Depois que conheceu a Jesus, seu lado mais delicado aflorou. Era outra pessoa. A expressão do rosto mudou, os cabelos crespos e sempre desgrenhados estavam agora ajeitados e lindos cachos escuros lhe caiam sobre os ombros. Não cansava de falar de Jesus e de ler a Bíblia. Ela era uma pedra preciosa, mas que precisava – e quem não precisa? – ser lapidada pelo Criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como aconteceu com a Rafaela, Jesus foi mudando meu coração. As barreiras que eu havia levantado contra o verdadeiro cristianismo foram sendo pouco a pouco derrubadas a cada estudo bíblico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês são daquela igreja ali, a Assembleia de Deus? – perguntei aos dois instrutores bíblicos, na segunda vez que foram à nossa casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não. Somos adventistas do sétimo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nunca ouvi falar. Onde fica essa igreja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É aquela, mais perto da praia, da pracinha... Uma casa vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ah, sei... (e completei mentalmente: a do Beto Louco).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei afastar esse pensamento e logo no primeiro estudo, antes de prosseguirmos, perguntei sobre o que havia me intrigado na infância: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Me desculpem, mas por que vocês gritam daquela maneira na igreja? – eu achava que os adventistas faziam o culto da mesma forma que a Assembleia de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Nós não gritamos. Não falamos línguas estranhas. Não daquele jeito, pois não somos pentecostais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não são o quê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eles me explicaram o que aconteceu no dia de Pentecostes, lá em Jerusalém, conforme narrado no livro de Atos, capítulo 2. Falaram sobre o poder do Espírito Santo que foi colocado sobre os discípulos. Por causa dessa capacitação divina, eles puderam falar em outras línguas – de cada nacionalidade que estava na cidade, naquele dia –, a fim de que todos pudessem compreender a pregação do evangelho. Infelizmente, alguns interpretam erroneamente a Bíblia e fazem justamente o que o apóstolo Paulo diz para não fazer, em 1 Coríntios 14.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na Igreja Adventista já foi manifestado o verdadeiro dom de línguas, quando pregadores conseguiram falar na língua de quem os ouvias sem nunca ter estudado o idioma. Mas aqui, entre nós, não há essa necessidade. Todos falamos o português. O Espírito Santo Se manifesta de outras maneiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ficava maravilhada porque eles sempre abriam a Bíblia para responder nossas perguntas. Mesmo assim, quis conferir por mim mesma se não havia algo nas Escrituras que os contradissesse. Comecei a ler sistematicamente a Palavra de Deus, sozinha. Só que, quanto mais eu lia, mais obtinha a confirmação de tudo o que estávamos aprendendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram tantas descobertas importantes que eu não poderia continuar sendo a mesma pessoa. Como nunca antes, entendi o significado do sacrifício de Jesus pela humanidade. Isso porque eu desprezava o livro de Gênesis, considerando a história de Adão e Eva apenas um mito. Mas é exatamente ali que está registrada a história do início do pecado na Terra – uma triste história que na verdade se originou no Céu, quando o anjo Lúcifer desafiou o governo do Todo-poderoso Deus. Meus olhos foram abertos para uma realidade que eu ignorava, como se eu estivesse acordando de um transe que não me deixava perceber a vida além das futilidades e desgraças deste mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora tudo fazia sentido. Deus não criou um planeta caótico, com sofrimento e morte. Houve um originador do mal. Mas Deus não abandonou Suas criaturas e sempre esteve atuando na história da humanidade, a ponto de Se tornar um de nós e morrer para nos resgatar. Um dia Ele voltará e remodelará este planeta para se tornar o lar dos que quiserem estar com Ele para sempre, amando-O e respeitando Sua santa lei, os Dez Mandamentos. Deus deixou tudo isso escrito na Bíblia para que pudéssemos ser alertados e conhecer a verdade, antes que Jesus volte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me sentia muito especial. Deus existe! E Ele me conhece e Se importa comigo. Ele ouviu minhas orações e Se revelou para mim! Ele queria que eu me preparasse para encontrá-Lo e eu achava que isso aconteceria muito em breve. Precisava contar isso às pessoas e não podia continuar levando a mesma vida. Eu devia fazer parte do povo de Deus – aquele povo a quem pedi para ser apresentada, naquela madrugada, enquanto lia o Apocalipse – e viver como ele vive.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, isso não parecia nada fácil para mim. Depois de dois meses estudando a Bíblia, senti o desejo de conhecer a igreja daqueles dois missionários. Era uma quarta-feira de abril e a brisa que vinha do mar anunciava que o Outono havia chegado. Vesti calça e jaqueta &lt;i&gt;jeans&lt;/i&gt;, peguei minha bicicleta e enquanto pedalava pelo caminho, fui pensando numa maneira de entrar na igreja sem ser vista por alguém da comunidade. Não sabia nem se teria coragem de entrar, quando chegasse lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felizmente, não havia ninguém na rua quando cheguei em frente ao terreno da pequena casa de culto. Criei coragem e entrei. Tudo era muito arrumado e limpo, apesar da simplicidade. O ambiente era solene e tinha um cheirinho de flores. Assentei-me na última fileira de cadeiras de palha e fiquei quieta, observando tudo. Alguém sentou ao meu lado e me ajudou a manusear a Bíblia e o hinário. O culto foi calmo e racional e me causou boa impressão. Quando a reunião chegou ao fim, todos demonstraram satisfação e felicidade por eu estar ali. A maneira como me trataram fez com que eu desejasse voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui embora com meu pai, pois ele havia saído exatamente naquele momento da escola onde lecionava. Ele também ficou contente por me ver ali. Embora ainda não estivesse decidido pelo batismo, já estava muito mais envolvido do que eu nas atividades da igreja, e acompanhava os irmãos em alguns eventos, inclusive em outras localidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, o orgulho que eu sentia e a vergonha de ser alvo de zombarias foram desaparecendo. Não podia mais esconder o que sentia por Jesus e a fé que eu tinha. Isso envolvia mudança em meu vestuário, na minha maneira de agir e nos lugares que eu frequentava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira vez que vesti saia longa e me dirigi à igreja a pé, com a Bíblia na mão, as pessoas me olharam espantadas. Algumas simplesmente arregalaram os olhos, incrédulas. Outras zombavam, dizendo: “Aleluia! Glória a Deus!” Outras ainda postavam-se na janela e gritavam para as vizinhas: “Olha! Aquela menina virou crente.” “Vem ver! Não é a filha do ‘seu’ Zulmar?” Eu simplesmente ignorava os comentários e sorria por dentro, pensando: &lt;i&gt;Ah, se eles soubessem o que eu sei!&lt;/i&gt; Como eu queria falar para todo mundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas parecia que falar sobre a Bíblia deixava as pessoas nervosas. Minha mãe não me permitia nem comentar. “Pode parar! Nem comece a falar disso, senão a gente vai brigar. Eu não quero saber!” Sempre que tentava falar sobre Jesus para ela eu acabava chorando, porque ela ficava muito irritada. Algo semelhante acontecia com a Teca. Ela era a única amiga que me havia restado. Mas certo dia também me disse: “Tati, para continuarmos nossa amizade, vamos combinar uma coisa: não me fale sobre Jesus. Senão, não vai dar certo.” Eu ficava muito triste, mas sabia que a Teca era sincera. Ela era tão bondosa... Considerava-a muito melhor do que eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, minha mãe e a Teca se uniam para tentar me dissuadir. Tudo o que me restava dizer era que um dia elas entenderiam minha decisão. E um dia a resposta veio energicamente: “Se eu entrar nessa igreja, pode me internar porque que fiquei louca!” E a Teca completou: “Me interne também.” Ainda bem que certos tipos de pedidos acabam perdidos no tempo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sentia falta de conversar com alguém e me aproximei mais do Carlinhos e dos irmãos da igreja. Tinha vontade de pedir para os irmãos Carlinhos e Edaí não irem embora após os estudos bíblicos. Era tão gostoso conversar sobre a volta de Jesus, a ressurreição dos salvos, a Nova Terra... Parecia que o Carlinhos gostava tanto de responder minhas perguntas, e ele era tão eloquente, conhecedor das Escrituras, que me sentia bem com ele. Não percebia o tempo passar quando ele tocava hinos ao violão, na casa do irmão Gilberto. De todos, o hino que eu mais apreciava era o “Rude Cruz”. Era o que expressava melhor tudo o que eu sentia, e me deixava muito emocionada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava fragilizada e experimentando sentimentos novos. Estava confusa sobre o que sentia pelo Carlinhos. &lt;i&gt;Será que é algo fraterno ou é algo mais? Não, não... Não pode ser&lt;/i&gt; – eu lutava em pensamento. O Carlinhos não correspondia ao meu ideal de namorado. Era magro e mais baixo que eu (que já não me considerava alta). Além disso, ele não se vestia como jovem, o que lhe conferia aparência esquisita, antiquada. Mas ele tinha rosto bonito e um sorriso que encantava as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não estava certa sobre o que sentia, mas nossa amizade cresceu e começamos a namorar. Entretanto, relutei para tornar isso público. Não queria sair pelas ruas de mãos dadas com o Carlinhos porque tinha receio de que meus amigos nos vissem e rissem dele. Eu também queria poupá-lo, mas não pude impedir isso por muito tempo. Todos na igreja sabiam. Meu pai aprovava. Então, por que não mostrar para todo mundo que éramos namorados? Aquele dia causou mais escândalo do que quando as pessoas do bairro souberam que eu havia me tornado “crente”. Alguns faziam comentários que humilhavam o Carlinhos (como eu havia previsto), outros riam ou olhavam para nós contrariados. Fiquei com pena dele pelas coisas que ouviu; mas a auto-estima dele era boa e ele quase não se importou. Com o tempo, todos acabaram se acostumando com a “situação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de eu achar que as pessoas não tinham o direito de opinar sobre nossa vida, elas tinham motivos para o espanto. Eu havia mudado radicalmente minha maneira de ser. Antes, era vista como esnobe e arrogante. Talvez porque fosse muito vaidosa – não saía de casa sem batom nos lábios; minhas roupas eram curtas e justas, bem praianas, comuns naquela localidade. Havia estudado em escola particular, no centro de Palhoça, embora meu pai fosse professor da escola do bairro. Ostentava mais do que podia. Usava roupas de marcas caras e algumas joias. A Teca e eu nos relacionávamos mais com pessoas que moravam no centro da cidade e frequentávamos os lugares mais “badalados”. A partir da quinta série, passei a estudar em Florianópolis, numa grande escola, e meu círculo de amizades e oportunidades não era o mesmo do pessoal da Barra. Por tudo isso, era vista com certo preconceito pelo povo dali. Ninguém esperava que eu – a filha esnobe do professor – fosse namorar um pobre pescador. Muito menos o mais humilde e esquisito, filho do coveiro – e pior de tudo: “crente”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUqRuE6bqcI/AAAAAAAANDg/MmhMxDaGZFM/s1600/Debora.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="http://4.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUqRuE6bqcI/AAAAAAAANDg/MmhMxDaGZFM/s200/Debora.jpg" width="148" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Débora com 15 anos de idade&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Agora eu não mais me maquiava de maneira chamativa e nem usava adornos. Minhas roupas eram simples e decentes. Minha vida social se resumia à escola e à igreja. O que poderia fazer uma jovem de quinze anos mudar tanto? Sempre achei que isso não fosse possível, mas encontrei um mundo novo. Sentia-me parte do reino de Deus e não pertencia mais a este mundo. Deus sempre Se relacionou com pessoas especiais na história da Terra. E essas pessoas sempre viveram de maneira diferente de seus contemporâneos. Embora pecadoras e carentes da graça de Deus, eram pessoas santas que escolheram ser separadas por Deus para uma vida pura, não contaminada pelas práticas que levam ao mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existem duas influências, duas forças atuando no coração das pessoas: o bem e o mal. Há um conflito em andamento. Quando escolhemos seguir o bem – o caminho ensinado por Jesus –, inevitavelmente iremos nos distinguir do mundo que nos cerca. Era algo muito claro para mim. Entretanto, isso deve ser espontâneo. Deve brotar de um relacionamento de amor e amizade com Deus, pois nos tornamos parecidos com aqueles a quem admiramos e com quem convivemos intimamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No princípio, foi assim comigo. Estava tão grata a Jesus por ter sofrido por mim e me salvado que eu queria fazer qualquer coisa que O deixasse feliz. Além disso, estava empolgada com o cumprimento das profecias bíblicas e com a expectativa do fim dos tempos. Mas quando me dei conta, minha vida estava cheia de regras que eu seguia para tentar ser aceita por Deus. Sentia-me sempre indigna, e tudo o que eu fazia não parecia ser bom o bastante para me aproximar de Jesus – como se para Deus o &lt;i&gt;fazer &lt;/i&gt;fosse mais importante que o &lt;i&gt;ser&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nossa pequena igreja, a Lei de Deus era tão exaltada e a salvação tão essencialmente ligada à mudança comportamental que acabei por desconhecer a graça e a misericórdia de Deus. Cada sermão que ouvia me lançava no pó e me fazia sentir além do alcance da salvação. Havia irmãos que duvidavam da minha conversão pelo fato de eu ainda usar calças &lt;i&gt;jeans &lt;/i&gt;para ir à escola – na concepção deles, isso estava totalmente em desacordo com os princípios bíblicos. Por isso mesmo não me achava em condições de ser batizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha vergonha de dizer aos meus colegas de classe no que eu cria e o quanto amava Jesus. Sempre que tinha oportunidade, eu pregava até mesmo para os professores. Já não mais andava com a turma da bagunça e procurei me associar com os alunos mais reservados. Todos sabiam que eu era cristã. Mas tinha medo de parecer ridícula e ser excluída do grupo, caso usasse saia comprida (naquele tempo, esse tipo de vestuário não estava na moda e apenas os evangélicos tidos como fanáticos o usavam). Talvez eu não estivesse madura o suficiente para enfrentar essa situação e viver do jeito que eu quisesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, ao chegar à igreja, um irmão me questionava: “Será que você não está com vontade de colocar um brinquinho? Você já entregou todo o coração a Jesus?”, e outras perguntas semelhantes. “O irmão Carlinhos merecia uma namorada mais consagrada”, dizia outro. Hoje compreendo que foram comentários até certo ponto inocentes, feitos por pessoas simples, incapazes de compreender minha formação e meus sentimentos. Eram pessoas rudes, produto de seu meio, que ainda precisavam conhecer na prática a bondade e a mansidão de Jesus. Só que, naquele momento, aqueles comentários impróprios apenas aumentavam minha frustração. Eu me convencia cada vez mais de que a salvação era impossível para mim. O fardo que carregava estava me esmagando aos poucos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num sábado à tarde, meu pai e eu fomos com o Carlinhos e o irmão Edaí a um encontro de capacitação na Igreja Central de Florianópolis. Era a primeira vez que eu conhecia outra igreja adventista. Já havia sido “prevenida” quanto ao estado “morno e laodiceano” das igrejas em geral, principalmente as grandes. E isso fez com que esse primeiro contato fosse realmente chocante para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos questionamentos me vieram à mente quando vi que algumas cantoras do conjunto musical estavam vestidas e maquiadas de modo semelhante à maneira como eu me arrumava para ir aos bailes. Como era possível viver a vida pura e simples proposta por Jesus e conviver com o luxo e a vaidade? Como podia dizer “não sou mais eu quem vive, Cristo vive em mim”, e mesmo assim continuar satisfazendo os caprichos do meu &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt;, gastando dinheiro com roupas caras e adornos inúteis? Como poderia estar pronta para encontrar Jesus a qualquer momento, se vivia mais preocupada com as coisas deste mundo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senti-me muito mal naquele local porque meu ponto fraco havia sido atingido. Comecei a me sentir feia e desarrumada. Era muito conveniente que eu também pudesse me vestir daquela maneira. Talvez alguns de meus conflitos pessoais acabassem, mas eu sabia que não encontraria a paz que buscava tão ansiosamente. Como era difícil encontrar o ponto de equilíbrio... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eu queria era que Jesus transformasse meu coração e me ajudasse a não buscar uma religião de conveniências que se amoldasse aos meus gostos. O grande problema é que, nessa luta, acabei me tornando legalista e preconceituosa. Passei a julgar os outros pela aparência, da mesma forma como eu mesma havia sido alvo de julgamentos em minha pequena congregação. Estava devolvendo o preconceito de que tinha sido alvo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha muito ainda a aprender sobre o caráter de Deus e o que significa, de fato, ser “crucificada com Cristo”. Mas, naquele momento, o preconceito realmente me cegava. O padrão de santidade que me havia sido apresentado acabou se transformando numa régua para medir os outros. Aquilo não era o verdadeiro cristianismo, o verdadeiro adventismo, como eu iria descobrir mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia me tornado uma espécie de fariseu, infeliz por não conseguir cumprir todas as regras que me haviam imposto. Mas foi em uma sexta-feira que tudo piorou – e muito. Chovia e fazia muito frio naquela noite de julho. O Carlinhos chegou à minha casa logo após o pôr do sol. Ele era um exemplo de cristão para mim, mas estava prestes a fazer desmoronar de vez meu frágil castelo de fé. Sem delongas, ele abriu o coração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Débora, você sabe por que eu não sou completamente apaixonado por você?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre fui insegura. Não sei por que, mas sempre duvidei do amor das pessoas por mim. Por isso acabava estragando meus relacionamentos – ou era excessivamente ciumenta ou me tornava possessiva e agressiva. Tinha necessidade de que me demonstrassem amor para me sentir segura. Fazia algum tempo que eu reclamava da frieza do meu namorado, mas nunca me havia passado pela cabeça o motivo real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É que eu sou apaixonado por outra pessoa já faz muito tempo – ele completou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sabia se ria ou se chorava. Acho que comecei a rir, de tão nervosa que fiquei. Mas quem poderia ser essa pessoa? Não havia ninguém no nosso círculo de amizades que pudesse... Ou será que era a Rafaela e eu nem havia percebido? Perguntei sobre todas as pessoas possíveis, mas ele não quis me dizer de jeito nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o deixaria ir embora assim. Eu tinha o direito de saber. Então, ele não resistiu aos meus apelos e confessou. Seu semblante se transformou. Os olhos se encheram de lágrimas e as mãos tremiam. Aquele sentimento esteve escondido por tanto tempo e ele realmente não queria senti-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu... eu gosto do Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, tentando superar a estupefação, entendi que minha missão era ajudá-lo a vencer esse sentimento. Achava que era por isso que Deus me havia colocado na vida dele. Senti compaixão, pois percebi que o sofrimento dele era verdadeiro. Queria tanto poder fazer algo por ele, e me iludi achando que seria forte e que juntos superaríamos essa situação. Eu tinha esperança porque, a despeito da luta contra essa tendência homossexual, o Carlinhos era um jovem dedicado a Jesus e sempre procurava dar o melhor a Deus. Era um grande instrumento nas mãos divinas e não poderia deixar que uma ilusão estragasse tudo e destruísse o que ele era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas meu ciúme e insegurança entraram em ação e o término do namoro foi uma questão de semanas. Ninguém suportaria o comportamento que passei a ter. Aquele “momento iluminado” passou e brotaram em mim sentimentos muito ruins, como raiva, orgulho ferido e revolta. As pessoas não entendiam nada, mas achavam que eu era má e estava fazendo o Carlinhos sofrer. E eu não podia explicar nada para ninguém, pois o assunto era confidencial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, sim, eu estava me sentindo completamente só. Quando o culto terminava, meu pai ficava conversando com os irmãos e eu ia embora, caminhando sozinha. Um dia, ao passar em frente à casa do Carlinhos, seu sobrinho pequeno perguntou: “Titia, por que você não vem mais aqui?” Não consegui responder. Apenas chorei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe e a Teca não se conformavam com a vida que eu estava levando. Só saía de casa para ir à escola e à igreja, e nunca era vista sorrindo ou brincando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Minha filha, você é tão jovem, tão bonita, e está jogando sua juventude fora. Por que, filha? – era o que minha mãe vivia me perguntando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teca me conhecia muito bem e sabia que eu estava escondendo algo. Até que não aguentei mais e contei a ela tudo o que havia acontecido. Ela me abraçou tentando cuidar de mim como uma mãe consola a filha. Em seu olhar brilhou a esperança de que nossa amizade voltasse a ser como antes e de que eu esquecesse toda essa história de igreja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tati, por favor, me escute. Deus não quer que você fique sofrendo assim. Ele não vai deixar de salvar você simplesmente porque você quer se divertir. Deus não fez a gente para sofrer. Ele quer ver você feliz. Volte a sair comigo. Vamos! Vai lhe fazer bem. Vamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como eu queria que aquelas palavras fossem verdadeiras. De certa forma, eram. Mas a felicidade de Jesus é diferente daquela que ela achava que poderia me dar. No entanto, eu sabia que a intenção dela era boa. Eu é que tinha que ter mostrado a ela o que é ser feliz com Jesus. Mas onde estava minha amizade com Cristo? Eu apenas tentava obedecer regras e mandamentos a fim de me salvar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejei não ter conhecido a verdade. Queria apagar da mente tudo o que eu sabia e voltar a ter paz. Paz? Algum dia eu tive? Pensava que nunca mais a teria. Nunca mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os convites da Teca eram tantos e tão insistentes! Ela era minha única fonte de amor e aconchego. Por isso, não resisti e acabei cedendo. Arrumei-me. Senti-me bonita novamente, depois de me sentir tão desvalorizada. Ao mesmo tempo em que era bom me olhar assim no espelho, no fundo dos meus olhos havia medo e tristeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém mais acreditava em mim. Nem eu mesma. Como poderiam? Eu dancei. Eu bebi. Eu “fiquei”. Sorri e me alegrei até altas horas da madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, chorei amargamente. Lembrei-me de quando era pequena e deitava a cabeça no colo da minha mãe. A barriga dela tinha cheiro de sabão e seus dedos – com cheirinho de cebola – acariciavam meus cabelos. Era tão gostoso o colinho dela... Debrucei-me em algum lugar e fiz de conta que era o colo de Jesus. Fiquei imaginando Seu cheirinho. Seu toque. E chorei. Chorei muito. A Teca pensava que sabia por que eu estava chorando. Mas ela não sabia, porque nunca havia vislumbrado a eternidade e a perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, eu não imaginava o quanto Jesus me amava. Ele sempre me quis de volta, e nunca deixou de acreditar em mim. Ele continuou fazendo tudo para me salvar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-115210005067452147?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/115210005067452147/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=115210005067452147&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115210005067452147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/115210005067452147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/07/captulo-8-o-castelo-desmorona.html' title='Capítulo 8 - O castelo desmorona'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoLyzDuzTI/AAAAAAAANDY/3J9r5bIHYoU/s72-c/barra+do+aririu.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-114796278891862959</id><published>2006-05-18T06:57:00.000-07:00</published><updated>2011-02-03T03:25:52.060-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 7 - A decisão difícil</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A experiência vivida naquela noite após assistir ao filme &lt;i&gt;Ghost &lt;/i&gt;e o acidente com o carro do meu pai ainda estavam bem vívidos em minha memória. Havia compreendido claramente os “recados” de Deus para mim. Mas tomar a decisão definitiva não era fácil. Uma verdadeira luta estava sendo travada em meu coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado nas escadas de pedra da Igreja Matriz São José, no centro de Criciúma, eu olhava para o céu estrelado de Verão – para minhas “velhas amigas” estrelas –, quando pedi a Deus um sinal: “Senhor, se devo realmente tomar essa decisão, faze com que a estrela para a qual estou olhando agora brilhe mais forte.” Dentro da igreja, minha mãe e irmãs assistiam à missa alheias ao dilema pelo qual eu passava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajustei os óculos e continuei olhando fixamente para a luz bruxuleante do pequeno ponto luminoso no céu escuro. Aguardei alguns instantes pelo sinal e... nada. Abaixei a cabeça e me recriminei por tamanha ingenuidade. No fundo, sabia que não precisava de mais nenhum sinal. A Palavra de Deus, sua mensagem, é o maior sinal, a maior evidência que as pessoas podem ter, quando se permitem tocar por ela. Eu havia dedicado vários meses ao estudo de suas credenciais históricas e concluído que a Bíblia é realmente a Palavra de Deus, deixada entre os homens para guiá-los ao caminho certo, à vida eterna. Entendi que, uma vez que Deus existe e que Sua existência se explica também pela impossibilidade de, sem Ele, se poder explicar todas as outras coisas, e que se Deus é amor, como dizem as Escrituras, Ele certamente tomaria providências para Se comunicar com Seus filhos e deixar instruções registradas de forma perene. Quanto mais lia e estudava a Bíblia, mais ela se tornava preciosa para mim. Mais compreendia que ela é um Livro especial, capaz de mudar vidas e trazer esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava consciente de tudo isso naquela noite. Sabia que de nada adiantava conhecer as profecias e a mensagem do Livro de Deus sem colocar a vida em conformidade com seus ensinamentos. Tinha plena convicção do que devia fazer e nunca havia tido tanta certeza em toda a minha vida. Mas quem disse que a mente e o coração andam na mesma direção?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada vez que pensava em tomar a decisão definitiva, um coquetel de sentimentos confusos me invadia o coração. De um lado, a certeza da verdade bíblica e do chamado de Cristo. Do outro, meus amigos, o envolvimento com os trabalhos nas pastorais, no grupo de jovens. O preço seria alto e eu sabia disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentei, em algumas ocasiões, mostrar aos meus companheiros de grupo de jovens as verdades que havia descoberto. Nas últimas três reuniões que dirigi como presidente do Gênesis abordei os assuntos da volta de Jesus, da mortalidade da alma e do sábado. Foi muito frustrante. Fui colocado na parede com argumentos para os quais não tinha respostas adequadas, na época. A volta de Jesus e o estado do homem na morte foram doutrinas até relativamente bem aceitas pelo grupo, com uma ou outra objeção. Mas quando tentei explicar o significado e a vigência do sétimo dia como dia de repouso, a coisa desandou de vez. Meus amigos preferiram ficar com a tradição católica em detrimento do claro testemunho das Escrituras, a despeito de todos os meus esforços para mostrar-lhes os fatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu amor por aquelas pessoas era (e é) tão profundo que me era inconcebível a ideia de guardar apenas para mim o que estava descobrindo na Bíblia. Aonde quer que eu fosse, carregava comigo minha Bíblia Edições Paulinas e a lia para algum amigo quando uma chance aparecia. Ficava muito feliz ao perceber que alguns deles apreciavam sinceramente essas conversas. Mas, para outros, essa minha atitude estava gerando desconforto uma vez que não havia respostas para minhas indagações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A liderança do grupo de jovens chegou, então, à conclusão de que era necessário realizar um curso de aprofundamento bíblico na paróquia, a fim de solucionar as dúvidas e nos aprofundarmos na doutrina católica. Aquilo me deixou bastante contente, afinal, teria a chance de discutir minhas descobertas bíblicas. No entanto, o curso se revelou uma decepção para todos, uma vez que o professor, ex-seminarista, procurou racionalizar praticamente todos os milagres bíblicos, como a passagem dos hebreus pelo Mar Vermelho e outros eventos sobrenaturais. Por conta disso e por outros motivos, o curso foi encerrado. E nada de respostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O evento que determinou minha saída do grupo de jovens foi um sermão que apresentei numa celebração (missa sem o padre) no centro comunitário do bairro Lote 6. Era domingo de manhã. O salão estava lotado quando me levantei com a Bíblia na mão, as passagens anotadas e comecei a falar sobre a ressurreição de Lázaro e a esperança da vida eterna. Disse que esse milagre de Jesus é uma clara indicação de que os mortos estão dormindo na sepultura, aguardando inconscientes a volta de Jesus para, então, serem ressuscitados. Disse também que não seria justo Jesus chamar Lázaro do Céu, caso lá estivesse, apenas para demonstrar que Ele tem poder sobre a morte. Lázaro dormia no sepulcro, alheio ao que acontecia do lado de fora. E foi trazido novamente à vida por aquele que é o caminho, a verdade e a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei estranho que alguns líderes comunitários e ministros da Eucaristia cochichassem durante o sermão e fizessem expressão de estranheza enquanto eu falava. Mas eu tinha plena certeza de que minhas palavras contavam com o claro “assim diz o Senhor”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia depois da celebração, a Cris, uma das minhas melhores amigas e que me sucedeu na presidência do Gênesis, me procurou e, com sua sinceridade característica, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, os pais do pessoal do grupo estão preocupados com a sua postura. Alguns estão dizendo até que se você continuar no grupo, eles vão tirar os filhos. Você precisa tomar uma decisão, meu amigo. Ou é católico ou é adventista. As duas coisas é que não dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelas palavras foram cortantes e dolorosas. Estava recebendo um “convite” para deixar algo que me era muito caro. Até aquele momento eu não havia cogitado a ideia de abandonar o grupo de jovens e minhas atividades na Igreja Católica. Mas a Cris tinha razão. Eu precisava decidir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já havia participado de discussões com líderes da igreja, com amigos padres que me indicaram alguma literatura, mas nada nem ninguém conseguia me convencer de que o resultado de minhas pesquisas bíblicas estava certo. Admito que até poderia parecer teimosia e arrogância de minha parte, mas o que me movia era o sincero desejo de fazer a vontade de Deus, aonde quer que ela me levasse. Sem querer, a Cris acabou colaborando para a dura tomada de decisão que eu precisava tomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado na escada na Igreja Matriz, todos esses pensamentos me vieram à mente enquanto ouvia à distância a voz do padre pregando sobre a mudança do sábado para o domingo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a pensar, também, no tempo em que o Vanderlei me visitava quase todas as sextas-feiras à noite para estudarmos a Bíblia. Foram vários meses de estudos. Chovesse ou não, lá estava meu amigo com sua bicicleta velha e uma mochila surrada, contendo a Bíblia e outros livros. Aquilo me deixava profundamente impressionado, especialmente nas noites frias de Inverno. Frequentemente nossos estudos iam até altas horas da madrugada e eu ficava com pena dele, imaginando o frio que devia sentir ao transpor os seis ou sete quilômetros entre nossas casas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles eram momentos muito solenes para mim. Depois de orar, estudávamos por horas assuntos diversos da Bíblia. Mas, quando chegava o momento do apelo, eu sempre me sentia desconfortável:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, está na hora de você tomar uma decisão. Eu sei que não é fácil contrariar família e amigos para seguir Jesus. Eu mesmo tive que fazer isso anos atrás. Você já conhece a verdade, por que vive com o coração dividido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coração dividido. Aquelas palavras eram a radiografia do meu caso. Cada vez que sentia o chamado do Espírito Santo, algo dentro de mim parecia estar sendo rasgado ao meio. Meus amigos compreenderiam minha escolha? O que os líderes da igreja iriam pensar de mim? “O Michelson deixou que lhe fizessem lavagem cerebral”, certamente alguns diriam. Eu mesmo havia dito isso no passado quando soube que algum conhecido se tornou “crente”. Agora minha vaidade falava alto. Tomar a cruz e seguir Jesus parecia um fardo pesado demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além da luta com Satanás, naquela noite depois do cinema, e do acidente de carro, Deus ainda me falaria por meio de mais três sinais muito claros. Dois deles ocorreram justamente nas duas últimas missas de que participei, em 1991. Na penúltima, o tema do sermão do padre fora sobre a assunção de Nossa Senhora. Esse havia sido um dos primeiros temas que tentei provar pela Bíblia ao Vanderlei, ficando muito frustrado ao descobrir que, na verdade, as Escrituras nada dizem quanto à assunção ou mesmo sobre a “imaculada conceição” de Maria. Eu amava Maria (e nunca deixei de respeitá-la como exemplo cristão), mas entendi que esse assunto era um dogma católico e que a assunção fora declarada pelo papa Pio XII, em 1950. Tê la como intercessora no Céu não é correto, pois a Bíblia afirma que “há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, um Homem, Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5, Bíblia de Jerusalém). E Deus não permite adoração a outro ser (cf. Mateus 4:10 e Isaías 42:8). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquela noite, ao chegar em casa, fiz uma pesquisa em minha coleção de folhetos “O Domingo” (espécie de roteiro da missa), e encontrei o seguinte: “Pelo dogma da Assunção, afirmamos que Maria já está definitivamente glorificada na totalidade de seu ser humano e feminino. A continuidade do seu corpo terreno, agora glorioso, não deve nos fazer esquecer a transformação radical que lhe acarretou a ressurreição dos mortos” (Aleixo M. Autran, “O Domingo”, n° 39, 14/8/88). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que Maria passou a ser considerada a &lt;i&gt;mãe de Deus&lt;/i&gt;, mediadora entre Jesus e a humanidade. Deus, o Pai, passou a ser encarado como tendo um caráter vingativo, que precisava ser acalmado. Jesus, embora habilitado para fazer isso, poderia ser ajudado ou influenciado por Sua mãe. Assim, há quem ore primeiro para Maria, para que ela leve as orações até Jesus. Isso resultou de um conceito errado do caráter e personalidade de Deus, o Pai. Jesus Se tornou uma espécie de personagem passivo e o verdadeiro poder de interceder passou para os sacerdotes e para Maria. Descobri que na teologia católica Maria quase se torna um ser semidivino. Sendo Jesus o “segundo Adão”, Maria é encarada como a “segunda Eva”. O tema daquela missa causou-me grande desconforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No domingo seguinte, o padre apresentou sermão sobre o domingo como dia de guarda, e aquilo agora parecia ser uma espécie de “provocação pessoal”. Depois de ter estudado profundamente a Bíblia e descoberto que o sábado é o único e verdadeiro dia de repouso e que o domingo faz parte da tradição romana, como podia permanecer ali como se estivesse concordando com tudo? Foi quando saí da igreja e me assentei na escadaria, lá fora. Mas ainda viria o terceiro “recado” divino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez, o Vanderlei me convidou para fazermos uma pesquisa num bairro de Criciúma, com vistas a conseguir interessados num estudo bíblico. O lugar era distante de minha casa e era necessário subir um morro alto, o que tornava a caminhada bastante cansativa. Mesmo ainda não sendo membro da Igreja Adventista, eu gostava de participar dessas atividades missionárias, por isso aceitei o convite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegamos nossas pranchetas com as folhas e iniciamos a subida. Era Verão e chegamos ao local encharcados de suor. Começamos pela primeira casa da primeira rua do loteamento. Nossa missão consistia em chamar os moradores e fazer-lhes algumas perguntas relacionadas com eventos atuais e a importância de se conhecer a Palavra de Deus. Depois oferecíamos estudos bíblicos gratuitos que nós mesmos iríamos ministrar. Horas depois, havíamos visitado dezenas de casas, mas ninguém havia demonstrado interesse nos estudos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exaustos e sedentos, já no fim da tarde, o Vanderlei e eu nos sentamos numa pedra à beira da estrada. Colocamos as pranchetas de lado e permanecemos em silêncio por alguns instantes. Eu não conseguia compreender o que havia dado errado, uma vez que o Vanderlei tinha dito que aquele era um bom método para se conseguir estudar a Bíblia com as pessoas, usado há muito tempo pelos adventistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que será que deu errado? – perguntei, quebrando o silêncio. – Fizemos tudo como você disse que devíamos fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vanderlei esperou alguns segundos antes de responder, como que calculando bem o efeito das palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você acha? Será que Deus pode abençoar os esforços de um servo que não faz o que quer ensinar aos outros?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela pergunta havia sido tão penetrante que por um instante cheguei a esquecer o cansaço. Ele tinha toda razão. Eu estava sendo hipócrita. Como podia dar estudos bíblicos e ensinar temas como o sábado, por exemplo, se eu mesmo ainda não guardava o sábado conforme o mandamento? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia entendido mais aquele “recado” do Céu. Precisava me decidir logo e dar fim àqueles dois anos e meio de luta com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, minha mãe me despertou cedo para eu ir à escola resolver um assunto do estágio do curso de Química. Notei que ela estava estranha, com o rosto fechado. Sentamo-nos à mesa para o desjejum e perguntei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que houve, mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que houve?! – ela fuzilou, como se eu já tivesse que saber a resposta. E prosseguiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sempre sonhei que você fosse se tornar padre, e agora me vem com essa história de ser “crente”?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebi que a conversa não seria fácil. Durante meses, sempre que esse assunto vinha à tona, era a mesma coisa e minha mãe acabava aos prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Acho que vou proibir aquele galego [ela se referia ao Vanderlei] de vir aqui em casa. Não queria chegar a esse extremo, mas vocês me obrigam. Ele está fazendo a tua cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mãe, o que é isso?! Parece que não me conhece! Ele não tá “fazendo a minha cabeça”. Relutei muito tempo em aceitar que ele viesse estudar a Bíblia comigo. Só aceitei isso depois de conferir por mim mesmo se o que os adventistas ensinam faz sentido ou não. E quer saber? Nunca vi uma mensagem tão coerente com a Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia o que estava dizendo. Nos dois anos anteriores me pus a pesquisar com afinco a crença de diversas religiões cristãs. Afinal, como podia ter certeza de que a Igreja Adventista segue mais de perto as Escrituras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas por que esse rapaz foi pegar logo no teu pé?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mãe, ele é meu amigo e sei que o interesse dele é sincero. Além do mais, a Bíblia nos diz para pregar o evangelho a todas as pessoas, indistintamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas a Igreja Católica não tem o evangelho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim e há muitas pessoas sinceras nela. Mas a senhora há de convir que nunca estudamos a Bíblia. Portanto, como saber a vontade de Deus? Eu descobri que há muita coisa que nós não praticamos e que estão na Bíblia. Tenho tentado mostrar isso aos meus amigos e à senhora há vários meses, mas vocês não querem me escutar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está bem. Eu quero saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me deixou sem reação. Fazia tempo que eu estava orando por isso, mas não sabia que a resposta às minhas orações viria assim, de forma tão inesperada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer mesmo, mãe?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quero. Mas quero que você me mostre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele foi um dia muito feliz para mim. Não saí de casa com os olhos rasos d’água, como frequentemente acontecia depois dessas discussões. Saí com um sorriso no rosto e uma prece silenciosa de gratidão a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos meses seguintes, estudei a Bíblia com minha mãe e minha irmã mais nova, a Emanuela, que na época era muito nova e me deixava em dúvida sobre se compreendia ou não o que estudávamos. O estudo serviu para reforçar minhas convicções e para mostrar à minha mãe que o “galego” tinha razão. O tema que mais a encheu de esperança foi o da ressurreição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoE2ZEjiQI/AAAAAAAANDM/PuC0bSr3WzU/s1600/estudo%2Bbiblico.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="236" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoE2ZEjiQI/AAAAAAAANDM/PuC0bSr3WzU/s400/estudo%2Bbiblico.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Todos têm um sonho especial que será realizado por ocasião da volta de Cristo à Terra. Alguns aguardam o reencontro com o cônjuge falecido. Outros desejam rever o pai ou a mãe que havia descansam no pó da terra. De minha parte, a cena que mais me emociona, depois de contemplar o rosto glorioso do Salvador, é o reencontro da minha mãe com meu irmãozinho falecido aos oito meses de vida, o Marcelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o conheci, pois eu ainda não havia nascido. O Marcelo seria mais velho que eu, no entanto, será mais novo no Céu. Muitas vezes me pego imaginando o momento em que o anjo protetor do meu irmãozinho que hoje lhe guarda a sepultura o colocará nos braços da minha mãe. Atrás da cena, Jesus sorrirá satisfeito com ar de cumplicidade, como que a dizer: “Eu não falei que logo vocês tornariam a se encontrar? Que logo toda dor e saudade teriam fim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que o tempo passar, a bordo da Nova Jerusalém, em nossa viagem de mil anos, meu irmão vai crescer sem ter ideia do mundo em que não viveu. Junto conosco, o pequeno Marcelo conhecerá pessoas fantásticas como Moisés, Daniel, Paulo e Ellen White. Ouvirá histórias fascinantes que fizeram parte do drama chamado Grande Conflito. Para ele tudo parecerá um sonho, como para nós o Céu às vezes parecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino que num certo sábado, quando todos nos reunirmos diante do trono de Deus para nosso momento especial de adoração, o Marcelo observará com maior atenção as mãos e os pés de Jesus, que estará assentado à direita do Pai. Imagino meu irmãozinho olhando para mim e perguntando: “Que feridas são [aquelas] nas [mãos dEle]?” (Zacarias 13:6). Prometo dar-lhe a resposta após o culto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentados debaixo de um lindo salgueiro (escolhi o salgueiro porque foi a primeira árvore que plantei na vida), vou narrar para o Marcelo, com os olhinhos brilhando de vivo interesse, a história do amor de um Deus que entregou a própria vida para que pudéssemos estar ali reunidos naquela cidade maravilhosa que logo descerá sobre o planeta Terra. Restaurado, este planeta será nosso novo e eterno lar. Direi a ele que aquelas feridas garantiram sua ressurreição e a transformação dos remidos em criaturas imortais. Feridas de amor. Feridas de salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, creio que teremos o privilégio de testemunhar a muitas pessoas sinceras que não tiveram chance de conhecer a Cristo, mas que foram fiéis à luz que obtiveram. Teremos nos lábios o cântico de Moisés. O cântico de nossa experiência singular para a qual atentarão os próprios habitantes dos mundos não caídos, com seus milênios de vida e conhecimento. Seremos um povo especial, resgatados pelo Cordeiro de Deus e conhecedores, na prática, do significado do que é viver pela fé. A ovelha perdida que se extraviou e provou, como nenhuma outra, o amor incontestável e infinito do Bom Pastor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Testemunhas para sempre é o que seremos. Monumentos vivos a vindicar a justiça de Deus no trato com os seres por Ele criados. Glorificaremos e exaltaremos o nome de nosso Senhor por toda a eternidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe e eu entendemos que nossa missão deve iniciar aqui e agora, pois nos compete levar para o lar eterno o maior número de pessoas deste mundo suicida. O que distinguirá os 144 mil, aquele povo especial resgatado por Cristo, é o fato de andarem com o Cordeiro por onde quer que Ele vá (cf. Apocalipse 14:4). Mas essa característica não será adquirida no Céu. Muito pelo contrário. Devemos andar com o Cordeiro aqui. E ao fazê-lo será impossível não falar de Seu nome e Seu poder às pessoas que nos rodeiam. No Céu, falaremos do poder que nos tornou dignos de lá estar. Aqui, devemos falar do poder que nos vivifica em Cristo Jesus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior motivação que minha mãe e eu encontramos para mudar de vida e falar de Jesus a quantos pudermos foi ler o que a escritora inspirada Ellen White escreveu em seu livro &lt;i&gt;O Desejado de Todas as Nações&lt;/i&gt;: “Dando o evangelho ao mundo, está em nosso poder apressar a volta de Cristo. Não nos cabe apenas aguardar, mas apressar o dia de Deus.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, minha mãe acabou aceitando as doutrinas adventistas e me apoiando naquilo que antes condenava. Começamos a frequentar juntos a Igreja Adventista Central de Criciúma, a despeito da oposição de parentes e amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite de quarta-feira, após o culto de oração, o Vanderlei me convidou para ficar um pouco mais na igreja. Estava hospedado lá um evangelista muito consagrado a Deus, o irmão Nevani, que nos convidou para orar juntos. Nos ajoelhamos na nave vazia da igreja e ele orou. Suas palavras ecoaram pelo templo e penetraram profundamente em meu coração. Ali, com lágrimas descendo pelo rosto, entreguei minha vida completamente a Deus, decidi ser fiel a Seus mandamentos e pedi para ser batizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa época – meados do segundo semestre de 1991 –, eu estava me preparando para o vestibular, o que também me fez relutar em santificar o sábado. Pensava: “Se meu pai descobrir que faltarei todas as sextas-feiras à noite e sábados do meu curso pré-vestibular, ele não vai aceitar.” Era ele quem pagava o curso, e não era pouco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois daquela experiência missionária frustrada com o Vanderlei, deixei a questão sob os cuidados de Deus. Mas naquela semana, após minha decisão, as coisas pioraram. As matérias nas quais sempre tive maior dificuldade – Matemática e Física – foram transferidas justamente para sexta-feira à noite. Além disso, havia as aulas de sábado à tarde (inglês, por exemplo, era só nesse dia). Não assisti mais às aulas das matérias mencionadas, embora fizesse minha parte: estudava em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia do vestibular se aproximava e eu sabia que havia colegas mais bem preparados que eu para disputar as quarenta vagas do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis. Mas eu tinha certeza de que Deus cuidava de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoFIRVIh3I/AAAAAAAANDU/LR0AFH2RbhI/s1600/batismo+michelson.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" s5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoFIRVIh3I/AAAAAAAANDU/LR0AFH2RbhI/s200/batismo+michelson.jpg" width="195" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;No dia 28 de dezembro de 1991, fui batizado na Igreja Adventista Central de Criciúma, e, algumas semanas depois, recebi a boa notícia: havia sido aprovado – apenas eu e outra garota do pré-vestibular – para o curso de Jornalismo da UFSC. Mas o mais interessante foi o fato de minha nota na prova de Matemática ter sido tão boa quanto à das demais matérias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ano depois, minha mãe e irmã mais nova também foram batizadas. A decisão não havia sido fácil, mas valeu a pena. Nunca nos arrependemos disso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-114796278891862959?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/114796278891862959/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=114796278891862959&amp;isPopup=true' title='4 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114796278891862959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114796278891862959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/05/captulo-7-deciso-difcil.html' title='Capítulo 7 - A decisão difícil'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUoE2ZEjiQI/AAAAAAAANDM/PuC0bSr3WzU/s72-c/estudo%2Bbiblico.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-114735102601856788</id><published>2006-05-11T04:41:00.000-07:00</published><updated>2011-02-02T16:34:51.003-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 6 - O primeiro contato</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da rua eu conseguia ouvir a voz dele. Era fina e estridente e ele falava rápido, de maneira engraçada. O Neco é tio da Teca, mas apenas poucos anos mais velho que ela. De vez em quando, ia até a casa dela para conversarmos. Ele era nosso amigo, gostava de nos dar conselhos e também de nos consultar sobre a opinião das mulheres em relação ao comportamento dos homens. Embora não concordássemos com a atitude dele com as garotas, acabávamos sendo uma fonte de informações úteis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Neco era um verdadeiro conquistador. Uma vez teve cinco namoradas ao mesmo tempo! E se divertia contanto os “malabarismos” que fazia para se encontrar com todas, sem que uma soubesse da outra. Apesar desse ponto fraco e do jeito brincalhão, ele tinha muita vontade de servir a Deus e vivia com o coração dividido. Estava sempre envolvido com grupos de jovens da Igreja Católica e seu melhor amigo se preparava para ser padre. Acho que ele gostaria de ser como o amigo, mas não conseguia. Toda vez que nos encontrávamos, ele contava sobre “alguém interessante” que havia conhecido. Ainda assim, ele sempre repetia: “Se vocês querem seguir a Deus, têm que mudar de vida, pois não podem servir a dois senhores.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como assim? Eu acreditava que era perfeitamente possível conciliar religião com as minhas vaidades e diversões. Sempre falava com Deus e sentia Seus olhos sobre mim – mas, na verdade, eu queria que Deus me servisse e não eu a Ele...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei contente ao ouvir a voz do Neco. O que seria dessa vez? Quando me viu, ele fez um “escândalo”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deborinha! – gritou e me pegou no colo, erguendo-me no ar. Ele era como um irmão mais velho para nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a conversa começou a girar em torno de religião, pois o Neco havia visitado seu amigo no seminário. Ele disse em tom sério e com os olhos arregalados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês nem queiram saber o que está para acontecer com o mundo! Coisas horríveis! Nunca leiam o Apocalipse, senão vocês vão ficar com muito medo e não levarão mais uma vida normal. As sete pragas são horríveis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um calafrio percorreu-me o corpo ao ouvi-lo falar. Aquelas palavras causaram-me profunda impressão, de tal forma que não conseguia mais prestar atenção a outros assuntos. Quis logo ir embora e matar a curiosidade, lendo o Apocalipse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando em casa, procurei o Novo Testamento que havia lido depois da minha festa de quinze anos e abri no Apocalipse. Fui direto ao intertítulo “As sete últimas pragas”. A Bíblia para mim era um livro místico e sagrado. Achava que ninguém poderia decifrá-la ou cumprir suas recomendações, mas cria que era realmente o Livro de Deus. Ler a Bíblia era algo muito solene e eu a estava lendo com o maior temor, movida por uma atração irresistível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei perplexa ao descobrir o que acontecerá com este planeta. Continuei lendo várias partes do livro profético e gelei quando encontrei o versículo que diz: “Ai dos que moram sobre a Terra.” Parecia que estava lendo minha sentença de morte. Minha impressão era a de que aquilo não demoraria a acontecer, e fiquei angustiada tentando encontrar uma saída; a salvação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lembro exatamente qual versículo li em seguida, mas foi um que me fez entender que o povo de Deus será salvo e não sofrerá aqueles flagelos. Clamei a Deus no mesmo instante: “Meu Deus! Meu Deus! Não me deixe morrer! Por favor, livre-me e a minha família, e os meus amigos.” Eu queria poder salvar tanta gente... “Me ajude a fazer parte do Seu povo, meu Deus. Quero fazer parte desse povo especial, esteja onde estiver.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha que mostrar aquilo para o meu pai. Tinha que alertá-lo e ver se ele podia explicar melhor o que eu havia lido. Ele me ouviu e ficou pensativo por alguns instantes. Depois disse: “Não tenho conhecimento sobre isso. Mas vou me informar melhor e vamos descobrir o que significa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mal podia esperar pela resposta. Pensava no assunto todos os dias e pedia a Deus que me desse uma luz. “Deus, me ajude a entender quando acontecerão essas profecias e o que tenho que fazer para ser salva. Eu serei salva? Envie alguém para me explicar. Será que alguém sabe?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não dá bola para o Neco, não, Tati. Ele gosta de assustar a gente – a Teca disse. Mas não tinha jeito. O que eu havia lido ecoava na mente com insistência e eu precisava compreender o significado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solução do meu pai foi me levar a um centro espírita! Ele achava que era o melhor a fazer, pois sua família sempre obtivera ajuda ali e dessa vez ele acreditava que não seria diferente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos um pouco antes do horário da reunião. O médium que dirigia o centro nos levou a uma salinha e conversamos sobre trivialidades. Ele começou a explicar alguma coisa do espiritismo kardecista e afirmou que eu também podia ser médium, se quisesse. Então meu pai disse que estávamos com algumas dúvidas sobre a Bíblia. Mas não havia mais tempo para conversa. O médium precisava iniciar uma palestra e pediu que voltássemos noutro dia. Nunca voltamos. Cada vez que planejávamos ir, algo nos impedia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma amiga de infância, que havia sido minha vizinha durante alguns anos, veio me visitar e passar uns tempos em casa. Ela e a família também eram espíritas e um dia, no fim da tarde, enquanto voltávamos da casa da Teca, essa amiga me convidou para ir ao centro espírita. Concordei, sem saber o que Deus estava reservando para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegarmos em casa, minha mãe surgiu na janela da sala e nos falou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não entrem pela copa porque o teu pai ta lá conversando com uns crentes – e ela não via a hora de eles irem embora, para nunca mais voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É mesmo? – perguntei, com um sorriso de incredulidade nos lábios. – O pai não é disso...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós nos considerávamos católicos, embora em minha casa nunca houvesse muita devoção religiosa. Não me lembro de meus pais irem a uma missa que não fosse data comemorativa. Participei da catequese e fiz a Primeira Comunhão, mais por influência dos amigos do que de meus pais, e porque desde pequena eu realmente gostava de assuntos religiosos. Os principais temas de conversa em minha casa eram a situação política do Brasil e a corrupção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu tinha nove anos, fiz amizade com um casal de vizinhos. Eles eram bastante religiosos. Todos os dias o dono da casa lia para seus filhos e para mim histórias do Antigo Testamento. Eu adorava aquilo, mas meus pais começaram a ficar preocupados porque eu falava muito sobre o que aprendia lá e temiam que me tornasse uma “fanática religiosa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora era o meu pai quem recebia “crentes” em casa para conversar sobre a Bíblia?! A situação era realmente inusitada e me deixou muito curiosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vou entrar, sim. A casa é minha! Quero ver que tipo de bobagens eles estão falando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele momento, deixei transparecer todo o meu preconceito arraigado. Para mim, “crente” era o tipo de pessoa emocionalmente desequilibrada, sem cultura e alienada da realidade. Mesmo assim, procurei entrar educadamente em casa. Deparei-me com duas criaturas esquisitas (na minha avaliação inicial): um jovem loiro, de baixa estatura, e um homem de óculos, um pouco mais jovem que meu pai. Ambos trajavam calça social, camisa de mangas longas (num calor de quase quarenta graus!) e chinelos de dedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo era uma aberração para quem gostava de andar na moda e da forma mais descontraída possível. Mesmo assim, as palavras deles me surpreenderam. Meu pai falava da situação caótica do mundo e da “sujeira” na política brasileira. Eles explicaram que tudo isso é um sinal de que o fim está próximo, mas que há solução. Meu pai duvidou e eles revelaram: “A volta de Jesus resolverá todos os problemas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei ainda mais curiosa. Eu não sabia que Jesus havia prometido voltar a este mundo. Então, quando eles mostraram que isso está escrito no Apocalipse, meu interesse redobrou. O tema de nossa conversa agora eram as profecias apocalípticas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admirei-me com o conhecimento que eles tinham da Bíblia e como era coerente o que explicavam. Fiquei empolgada e quis fazer muitas perguntas. Mas eles sabiamente disseram que não se pode aprender tudo em um dia e que poderíamos fazer um estudo sistemático do Apocalipse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mãe ficou furiosa, mas no sábado seguinte lá estávamos reunidos em nossa sala de estar, para o tão aguardado estudo. Meu pai, minha amiga de infância, a Elaine, minha melhor amiga, a Teca, e eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de aceitar conhecer e estudar a Bíblia com os “crentes”, eu estava cega para admitir que aquelas pessoas tão simples, humildes e fora de moda fossem enviadas por Deus para esclarecer minhas dúvidas, conforme eu havia pedido. Naquele momento, eu não tinha a menor ideia de que “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias” e “escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes” (1 Coríntios 1:27). Para mim, havia sido simples coincidência aqueles homens aparecerem em casa justamente para falar sobre aquilo que eu queria saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era o primeiro contato que eu estava tendo com a verdade. Mas meus olhos ainda precisavam ser abertos. O preconceito devia ser quebrado para que a luz da presença de Cristo finalmente inundasse minha vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-114735102601856788?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/114735102601856788/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=114735102601856788&amp;isPopup=true' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114735102601856788'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114735102601856788'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/05/captulo-6-o-primeiro-contato.html' title='Capítulo 6 - O primeiro contato'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-114475610958798621</id><published>2006-04-11T04:45:00.000-07:00</published><updated>2011-02-07T13:54:50.106-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 5 - Gênesis</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia acabado de levar um “fora” daquela que poderia ter sido minha primeira namorada. Com os sapatos na mão, a calça dobrada até as canelas e os olhos rasos d’água, ali estava eu, caminhando pela praia escura, totalmente desolado e confuso. Passava da meia-noite e ainda faltavam uns três ou quatro quilômetros para chegar à casa de férias dos meus pais. Mas eu não estava com pressa. Queria ficar sozinho. Chegar a lugar nenhum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andando lentamente e olhando para o chão, pude perceber uns pontinhos brilhantes na areia úmida. Parecia que havia estrelas espalhadas pelo caminho. Curioso, abaixei e recolhi algumas daquelas “estrelas” com luz esverdeada. Como estava muito escuro, não dava para saber o que eram. Então guardei algumas nos bolsos da calça, para investigá-las mais tarde. Naquele momento, não tinha cabeça para descobertas científicas. Mas, motivado pelas “coisinhas brilhantes”, resolvi me deitar na areia para observar as estrelas – e como gostava de olhar para elas, identificar as constelações, os planetas... O céu estrelado me fazia sentir pequeno. Insignificante. O que eram meus problemas de adolescente diante de toda aquela imensidão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deus, se o Senhor existe mesmo (e no fundo eu sei que existe), por que nos deixa sofrer neste planeta?”, comecei a falar em pensamento. “Sei que há pessoas sofrendo muito mais do que eu. Há fome no mundo, guerras, violência, doença e morte. Mas a minha dor é só minha. É o que estou sentindo agora. Não posso evitar. Sabe, Senhor, às vezes a vida me parece tão confusa... Por que as coisas têm que ser tão difíceis? Acho que seria mais fácil se não tivesse nascido com sentimentos. Ao mesmo tempo em que sofro, com o coração apertado, sinto-me um tolo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fixando os olhos no Cinturão de Órion (nas estrelas conhecidas como Três Marias), completei: “Achei que tudo daria certo, então por que levei esse ‘fora’. Vai entender as mulheres!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conhecia a Cláudia desde os tempos da Primeira Comunhão, quando estávamos na faixa dos onze ou doze anos. Quando a reencontrei, seis anos depois, num evento envolvendo grupos de jovens católicos, ela havia crescido e se tornado uma jovem muito bonita. De vez em quando, nos víamos em algum curso ou encontro da igreja. Somente depois de algum tempo é que fui saber que ela estava apaixonada por mim, mas meu coração estava cego por um amor platônico que depois descobri ser ilusório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ignorei os sentimentos da Cláudia por alguns anos, chegando mesmo a dizer que deveríamos continuar sendo apenas amigos. O tempo passou e meu envolvimento com as atividades da Igreja Católica aumentou a ponto de não ter tempo para quase mais nada. Estava com dezessete anos e nunca havia namorado. Todos os fins de semana eram a mesma coisa: preparo de programas de rádio, coordenação de reuniões das Pastorais da Comunicação e da Juventude, cursos, organização de missas, entre outros compromissos. Eram atividades edificantes e nobres, mas sentia falta de um relacionamento mais profundo, além da amizade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essas alturas, apesar do desejo de servir a Deus de forma mais completa e do estágio de uma semana que havia feito no Seminário Teológico de Tubarão, SC, eu tinha uma certeza: não queria mais ser padre. Sentia falta de uma mulher com quem compartilhar sentimentos. Sentia falta de uma namorada. E assim descobri que a vocação sacerdotal não era para mim, embora fosse sonho da minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnt4F6Fa2I/AAAAAAAANCs/2I5ZjEPSG6I/s1600/Seminario+Tubarao+1989.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnt4F6Fa2I/AAAAAAAANCs/2I5ZjEPSG6I/s320/Seminario+Tubarao+1989.jpg" width="206" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Foto tirada no Seminário de Tubarão (1989)&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Certo dia, encontrei a Cláudia numa festinha do grupo de jovens. Ela me olhava de um jeito diferente. Me tratava de um jeito diferente, especial. E pensei: “Por que não? Ele gosta de mim. É uma boa moça. Por que não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era Verão. Dali alguns dias haveria um &lt;em&gt;show&lt;/em&gt; de &lt;em&gt;rock&lt;/em&gt; ao ar livre na Praia do Rincão. Eu não gostava muito desses eventos, com aglomeração de pessoas e barulho em excesso, mas a Cláudia iria ao &lt;em&gt;show&lt;/em&gt;, e talvez fosse a ocasião ideal para pedi-la em namoro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia do &lt;em&gt;show&lt;/em&gt; havia chegado. O nervosismo era insuportável enquanto me arrumava para sair. Como deveria abordá-la? O que deveria dizer primeiro? Odiava aquela sensação de insegurança e temia parecer ridículo. Quando cheguei ao local do evento, já havia uma pequena multidão em frente ao palco. Comecei a circular em meio às pessoas, incomodado pelo barulho das gigantescas caixas de som. Tive até vontade de ir embora. “Talvez não fosse mesmo o lugar ideal para se pedir alguém em namoro...” Na verdade, era puro medo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, avistei a Cláudia. Ela estava com algumas amigas e quando me viu sorriu surpresa. Não sabia que eu também iria ao &lt;em&gt;show&lt;/em&gt;. Aproximei-me do grupo, meio sem jeito, e perguntei se podia falar com ela um pouco, a sós. Afastamo-nos do palco. Mesmo assim, era difícil falar num volume de voz normal. Quando disse a ela que havia pensado bastante no assunto e que queria namorá-la, ela respondeu citando uma música popular da época: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.” Fiquei atordoado. Os pensamentos tão confusos que mal conseguia ouvir o barulho de fundo. Ela sorriu para mim, se despediu e voltou para as amigas. O que havia acontecido? Ela não gostava de mim? Não era o que todos diziam? Não era o que havia parecido, na festinha? Será que eu tinha dito algo errado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O show acabou para mim. Enquanto caminhava para a praia, em direção à casa dos meus pais, aquela música não saía da minha cabeça: “Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia.” Se aquilo era a vingança da Cláudia, admito, era a vingança perfeita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitado na areia, olhando para o céu, eu tentava racionalizar a situação, mas não era tarefa fácil. Quase sem perceber, me vi recapitulando os últimos anos da minha vida e o momento em que havia ingressado no grupo de jovens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha quinze anos quando o Mariélio, um jovem da minha idade que morava no mesmo bairro que eu (o Vera Cruz), me convidou para participar de uma encenação teatral natalina, com um grupo de jovens de outro bairro, conhecido como Lote 6. O pai dele era barbeiro e cortava meu cabelo desde a infância. Ele sempre foi muito envolvido com as atividades da Igreja Católica e o filho seguiu-lhe os passos. No meu caso, tive como referência a religiosidade de minha mãe, cujo sonho, como disse, era me ver padre. Mas meu envolvimento com a igreja, até então, se limitava a ir à missa aos domingos e rezar o terço com minha mãe e irmãs, de vez em quando. Aquela dramatização com o grupo de jovens marcou uma nova etapa em minha vida espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Encenação de Natal? Como é isso? – perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A gente ensaia um roteiro por uns dois meses e se apresenta no salão comunitário do Lote 6, no dia 23, e na Igreja Matriz, na noite de Natal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deve ser interessante. Mas não sou do tipo desinibido para falar em público...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu também não. Mas a fala é pequena e Deus ajuda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A insistência do Mariélio venceu minha timidez e acabei aceitando o convite. Os ensaios eram momentos muito agradáveis. Sentíamos que estávamos fazendo algo realmente importante e especial. E o contato com aqueles jovens do grupo me fez ver que existiam amigos verdadeiros; amigos para toda a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnupRczjRI/AAAAAAAANCw/WKEfIl3lLH4/s1600/Encenacao+1988.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="320" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnupRczjRI/AAAAAAAANCw/WKEfIl3lLH4/s320/Encenacao+1988.jpg" width="312" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Minha fala na peça de fato não era muito grande. Mesmo assim, o medo de esquecê-la me atormentava. As mãos tremiam e eu segurava a pedra de carvão mineral com alguma dificuldade. Eu era um dos três reis magos e levava como presente a Jesus o carvão, um dos símbolos da riqueza de Criciúma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tirando uns titubeios aqui e ali, a encenação tinha sido um sucesso – e uma bênção. Muitas pessoas haviam sido levadas às lágrimas ao relembrar a importância e o significado do nascimento de Jesus. Concluída a peça, nos retiramos para uma sala e fizemos uma oração de agradecimento a Deus. De mãos dadas, em círculo, cada um comentou o que estava sentindo. Depois, recitamos o Pai Nosso. Aquilo mexeu profundamente comigo e decidi que queria fazer parte daquele grupo. E foi uma das melhores decisões que tomei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grupo de jovens foi como um muro de proteção numa fase complicada da vida. É inegável o efeito da “pressão do grupo” na adolescência, quando se busca a autoafirmação e a aceitação. Por isso, pertencer a um grupo de jovens idealistas e de motivações puras foi a melhor coisa que poderia ter me ocorrido naquele momento. Éramos muito unidos. Fazíamos quase tudo juntos: celebrávamos o aniversário de cada um organizando festinhas surpresa embaladas com muita cantoria ao violão; conversávamos horas e horas sobre os mais diversos assuntos; íamos ao cinema; a bailes de formatura; festas e retiros.&lt;br /&gt;﻿﻿﻿﻿ &lt;br /&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Também participávamos de atividades mais sérias, como campanhas comunitárias para angariar fundos para projetos sociais, organização de missas, encontros de jovens, preparo de um jornal paroquial, festivais culturais, etc. ﻿﻿ &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;﻿﻿ &lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnvGjHEWpI/AAAAAAAANC0/aZncN9YfTn4/s1600/JEF+1988.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="352" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnvGjHEWpI/AAAAAAAANC0/aZncN9YfTn4/s400/JEF+1988.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;Grupo de jovens JEF (1988)&lt;/blockquote&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Quando o Mariélio e eu ingressamos no grupo, ele se chamava Jovens Esperança do Futuro (JEF). Achamos que conceitualmente aquele nome não era bom, uma vez que queríamos ser a “esperança do agora”. Então propusemos o nome “Gênesis”, sugerindo a ideia da semente, com seu potencial futuro, mas com sua história presente, de vida e crescimento. Desenhei o logotipo (um círculo com uma semente estilizada germinando) que foi estampado na camiseta verde do grupo. E ficamos conhecidos então como Grupo de Jovens Gênesis – nome que nos traria muitas saudades em anos posteriores. Estávamos fazendo a nossa história; forjando o nosso caráter; e talvez nem nos déssemos conta disso na época.&lt;/div&gt;﻿﻿ &lt;br /&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnvuqBkdgI/AAAAAAAANC4/CVWBEK99giw/s1600/Camiseta+Genesis.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="200" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnvuqBkdgI/AAAAAAAANC4/CVWBEK99giw/s200/Camiseta+Genesis.jpg" width="157" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Com a camiseta do Gênesis&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;O grupo também contribuiu muito para eu superar minha introspecção natural. Desde criança, meu passatempo predileto era me trancar no quarto, ler histórias em quadrinhos e desenhar. Gastava férias inteiras criando personagens e ilustrando histórias. &lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Embora tenha sido criado por um craque no futebol – meu pai –, nunca tomei gosto pela bola. A cobrança era grande: “O quê?! Filho do Chico Borges e não joga futebol?!” Realmente era difícil entender... Meu “esporte” eram o desenho e a leitura. &lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none;"&gt;Meu pai volta e meia me contava da ocasião em que havia me levado a um campo de futebol para assisti-lo jogar. Só quem ao invés de acompanhar a partida, fiquei “caçando” ossos de animais nas imediações do campo, para a minha coleção de “fósseis”. Tentei algumas vezes bater uma bolinha com amigos, querendo pegar o jeito da coisa e deixar meu pai orgulhoso. Mas não teve jeito. Faltavam coordenação e entusiasmo. Era melhor pendurar as chuteiras antes mesmo de usá-las, afinal, não queria ficar conhecido como “perna de pau”. Isso, sim, seria vergonhoso para o “Chico Borges”. Mas é bom que se diga que dele nunca houve a mínima cobrança e sempre serei grato ao meu pai por isso. Tinha toda liberdade para ser desenhista, cientista ou o que quer que escolhesse.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A sociabilização que o esporte poderia ter me dado encontrei-a no grupo de jovens. Quando ingressei no Gênesis, minha timidez foi aos poucos sendo superada. Tínhamos que preparar os temas das reuniões de sábado à tarde, além de apresentar dramatizações nas missas e dirigir as celebrações no centro comunitário, quando o padre não podia comparecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnwDCY3eAI/AAAAAAAANC8/HtW2nxK2_TY/s1600/Caminhada+vocacional+diocesana+1988.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="268" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnwDCY3eAI/AAAAAAAANC8/HtW2nxK2_TY/s400/Caminhada+vocacional+diocesana+1988.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Caminhada Vocacional Diocesana (1988). Aqui estou representando o apóstolo João. À direira, de roupão laranja, o Mariélio&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Algumas vezes, com apenas dezesseis anos e suando frio, tive que apresentar o sermão nessas celebrações. Era tremendamente desafiador falar em público. Mas era algo que também me dava muita satisfação (e alívio, quando o sermão acabava...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnwWqNLPjI/AAAAAAAANDA/2tIPsLy-KDc/s1600/Via+Sacra+1990.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="320" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnwWqNLPjI/AAAAAAAANDA/2tIPsLy-KDc/s320/Via+Sacra+1990.jpg" width="204" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Via Sacra (1990), no papel de Jesus&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Depois de algum tempo, fui eleito presidente do grupo de jovens. Aquilo me pesou nos ombros; por outro lado, foi a oportunidade de dar àquelas pessoas o melhor de mim, como forma de retribuição por tudo o que o Gênesis havia me dado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levei a sério o encargo e quando me dei conta, estava sobrecarregado de compromissos: reuniões paroquiais da Pastoral da Juventude, organização de eventos, cursos, missas, e um longo etecetera. Era bom me sentir responsável e respeitado (respeito que seria dolorosamente arranhado devido à minha escolha religiosa, com a qual, nessa época, ainda nem sonhava). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os compromissos e atividades relacionados com a igreja, sem dúvida, ajudaram no meu amadurecimento. Mas e o coração? Simplesmente não havia tempo para isso (ou seria falta de coragem?). Tentando entender psicanaliticamente a coisa, acho que o amor platônico foi a solução que encontrei de forma inconsciente para o dilema. E quando soube que a garota por quem estava apaixonado não queria nada além de amizade, perfeito. Podia amá-la à distância, sem o risco de envolvimento e frustração. Sofri bastante por alguns anos, até descobrir no que meu coração havia me metido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas essas lembranças me vieram à mente enquanto permanecia ali, deitado na areia sob o céu estrelado, remoendo o remorso e a tristeza por ter sofrido justamente o que havia evitado por tanto tempo: a desilusão amorosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era tarde e eu precisava ir para casa. Minha mãe já devia estar preocupada e eu sabia que ela não dormia até eu estar de volta. Além do mais, de nada adiantaria ficar ali “chorando as mágoas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me, sacudi a areia da roupa e continuei a caminhada para casa. As “estrelas” ainda brilhavam na areia, recordando-me que tinha um mistério para solucionar. Quando cheguei à varanda da casa dos meus pais, retirei as coisinhas brilhantes dos bolsos e as expus à luz. Foi então que percebi que eram restos de tatuíras mortas. As carcaças em decomposição deviam estar emitindo algum tipo de substância luminescente. Minha calça ficou fedendo a crustáceo podre, e pensei: “Que ótima maneira de encerrar a noite.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de abrir a porta, ainda dei uma olhada para o céu e pensei: “Haveria alguém especial para mim? Encontraria, afinal, a ‘tampa para a minha panela’? Será que Deus Se importaria mesmo com os desejos de um jovem sonhador?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu teria que esperar alguns anos mais para – em outro tempo e lugar – ter a certeza de que o Senhor havia ouvido minha súplica.&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="border-bottom: medium none; border-left: medium none; border-right: medium none; border-top: medium none; clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-114475610958798621?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/114475610958798621/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=114475610958798621&amp;isPopup=true' title='7 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114475610958798621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114475610958798621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/04/captulo-5-gnesis.html' title='Capítulo 5 - Gênesis'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUnt4F6Fa2I/AAAAAAAANCs/2I5ZjEPSG6I/s72-c/Seminario+Tubarao+1989.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-114295285856361256</id><published>2006-03-21T06:52:00.000-08:00</published><updated>2011-02-01T18:12:25.081-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 4 - Encontro adiado</title><content type='html'>&lt;i&gt;Débora Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava indecisa, como sempre. Havia gastado meu escasso dinheirinho comprando bugigangas para os parentes, como lembrança da viagem a Aparecida do Norte. Agora precisava decidir o que comprar com meus últimos trocados. Antes de chegar à loja, porém, encontramos dois meninos engraxates, com as roupas e a pele sujas, mas felizes porque haviam ganhado pão com mortadela das freiras que moram na Basílica de Aparecida. Eles vinham pulando, segurando os pães já pela metade, quando nos viram e pararam, como se estivessem vendo artistas de televisão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês são lindas, sabiam? Nossa! Olha só que cabelos lindos! Vocês parecem duas princesas! – disse o Cleiton, o mais velho, de uns dez anos de idade. O mais novo se chamava Eder e devia ter uns seis anos. Era mais tímido e tinha os olhinhos mais meigos do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estava esperando que eles nos pedissem algumas moedas, quando surpreendentemente eles estenderam a mão e nos ofereceram seus sanduíches.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês querem? Podem ficar para vocês. Podem pegar – eles insistiram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhei para a Teca e percebi que ela estava igualmente comovida com a atitude deles. Estavam dispostos a nos dar algo que era tão precioso para eles. A Teca então propôs que juntássemos nosso dinheiro para comprar um presente para eles. Assim, eles foram embora contentes, cada um com seu brinquedinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois da boa ação, lá estava eu, tentando decidir com o que gastar os últimos cruzeiros que me restavam. Com uma das mãos, segurava uma pequena Bíblia de capa marrom, com zíper. Com a outra, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quando vi que poderia ter uma Bíblia, fiquei surpresa. Não pensava que ela me pudesse ser acessível. Achava que era tão difícil ter uma Bíblia... Mas ali estava ela, bem ao meu alcance. Seria interessante poder conhecer as Escrituras. Mas, por outro lado, aquela imagem era tão cativante e me trazia a esperança de conseguir as graças pedidas. Além disso, ela poderia ficar “triste” se fosse rejeitada, eu pensava. E era um pouco mais barata do que a Bíblia, o que me deixaria ainda com uns centavos para o sorvete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Anda logo, Tati! Escolhe de uma vez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tá bom, Teca. Vou levar a Nossa Senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ia ser dessa vez que eu conheceria a mensagem de Deus para mim em Sua Palavra. Esse encontro teria que ser adiado um pouco mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Teca e eu nos tornamos grandes amigas quando eu tinha doze anos. Desde pequena, eu a considerava linda. Seus cabelos longos e escorridos chamavam atenção por onde ela passava. Eles balançavam e brilhavam quando ela caminhava, e quando eu a via, até suspirava com vontade de ser daquele jeito. Ela estava sempre tão arrumada. Andava de forma tão elegante e era tão meiga e simpática que todos gostavam dela. Eu queria tanto ter os cabelos longos, mas eles eram tão crespos e rebeldes que pareciam desafiar a lei da gravidade. Isso me rendia apelidos e lágrimas diante do espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos doze anos, uma amiga comum nos apresentou e finalmente consegui ser amiga da Teca. Era Verão e nós íamos à praia todos os dias. Passávamos horas tomando sol e aplicando chá de camomila nos cabelos, para deixá-los mais claros. Nos divertíamos muito caminhando pela praia e conversando com amigos e amigas. Mas, nos fins de semana, era a maior frustração. Nossos pais não nos deixavam sair à noite, e morríamos de vontade de ir à danceteria, como nossas amigas faziam. Meu sonho era completar quinze anos para ter mais liberdade. Pior é que a Teca completaria quinze anos naquele ano e eu ainda teria que esperar três anos para isso. Mas quem disse que nós conseguimos esperar? Eu era muito ansiosa. Queria experimentar grandes emoções; encontrar um grande amor... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram duas horas da manhã quando a chuva passou. Parecia possível ouvir as batidas do meu coração. Eu estava suando, apesar do frio daquele Inverno. Com os sapatos na mão, abrimos a janela o mais silenciosamente possível. Do lado de fora, já havia um tijolo bem posicionado para colocarmos os pés, sem precisar pular. Passamos abaixadas e tremendo embaixo da janela dos pais da Teca, que dormiam sem desconfiar de nada. A estrada de uns seis quilômetros que nos levaria ao nosso destino tinha os três primeiros quilômetros enlameados e escuros. Seguramos a mão uma da outra e corremos o máximo que pudemos. Não dava nem para sentir o chão frio e o barro sujando a meia-fina, de tão assustadas que estávamos. Eu repetia em voz alta a frase que havia aprendido do meu pai: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de estar fazendo algo errado, eu acreditava que Deus jamais me abandonaria e iria me proteger em qualquer circunstância. Achava até que Ele nos ajudaria em nossos planos para nos divertir, afinal, não bebíamos, não fumávamos e também não “ficávamos” com ninguém. Apenas “curtíamos” o amor platônico e nos contentávamos em olhar e sonhar... Queríamos tão-somente estar onde todos estavam, dançar, sorrir, ver e ser vistas. Nossos pais não entendiam esses desejos. “Mas Deus entende”, eu pensava, em minha inocência infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao chegar perto da danceteria, calçamos as botas nos pés enlameados. Felizmente, ninguém percebeu a sujeira, pois eram botas de cano longo, até a altura do joelho. Só nós sentíamos a dificuldade de andar com classe e dançar com os calçados cheios de pedrinhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio, achei aquele ambiente muito estranho. Eram tantas luzes e cores, mas ao mesmo tempo tão escuro, que me senti um pouco tonta. Sem falar no som ensurdecedor. Era como se estivesse sonhando, e as pessoas fossem sombras. Mas acabei me acostumando e entrando no “clima”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite passou rápido e a hora de ir para casa havia chegado. E agora? Será que os pais da Teca teriam acordado e sentido nossa falta? Será que haveria um carro de polícia na frente da casa, nos esperando? O que aconteceria se nossos pais descobrissem o que havíamos feito? A angústia do caminho de volta foi terrível, e tivemos tempo suficiente para pensar em tudo o que poderia acontecer. Tinha a impressão de que não iria suportar a tensão de voltar pela janela novamente, sem fazer barulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o tempo, aquelas saídas começaram a me desgastar emocionalmente e a consciência começou a pesar. Só em pensar na reação dos meus pais, o pânico tomava conta de mim. Assim, decidi que não valia a pena correr o risco. A Teca era mais obstinada e continuou saindo, mesmo sem mim. Numa noite, ela insistiu para que eu a acompanhasse e prometeu que seria a última vez. Quase cedi, mas algo me dizia que não deveria ir e não consegui vencer o medo, apesar dos apelos dela. Naquela noite, alguém ligou para a casa da Teca contando onde ela estava. Os pais dela foram buscá-la. A reação deles foi boa: depois de um castigo e uma longa conversa, ficou acertado que o pai dela a levaria e buscaria nos horários combinados. Mas no meu caso, não sei o que aconteceria, pois eu era mais nova e meu pai sempre dizia com certo exagero (em se tratando daqueles ambientes) que as danceterias eram “antros de prostituição”. Ainda bem que eu permaneci firme em minha decisão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus quinze anos demoraram um século para chegar. Enquanto isso, eu saí escondida mais algumas vezes, mas não mais pela janela. Simplesmente ia dormir na casa da Teca e a acompanhava à danceteria, já que agora ela tinha permissão. Outras vezes, meu pai acabou permitindo que eu saísse, desde que um adulto responsável fosse junto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, quando completei quinze anos, a vida noturna já havia perdido o encanto. Mesmo assim, ter mais liberdade não deixava de ser muito bom. A expectativa para a festa também era grande: a decoração, os convidados, o vestido, a valsa... Era a realização de um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi88IFKXiI/AAAAAAAANBc/CRj93JbegB0/s1600/Debora+e+Teca.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="400" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi88IFKXiI/AAAAAAAANBc/CRj93JbegB0/s400/Debora+e+Teca.jpg" width="228" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;Débora e Teca, na festa de 15 anos&lt;/blockquote&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;No dia seguinte ao da festa, comecei a rever os presentes. Que gostoso ganhar tantos de uma só vez! Entre eles, havia um diário, e aquela manhã parecia uma boa ocasião para inaugurá-lo. Era antevéspera de Natal. Então comecei a escrever sobre o sentido do Natal e sobre o nascimento de Jesus. Logo passei a meditar sobre a vida de Cristo e Sua morte na cruz. Quando me dei conta, lágrimas desciam pela minha face, ao pensar em tudo o que Ele havia sofrido. Senti que Jesus me amava profundamente e de alguma forma aquele sacrifício fora também por mim. Mas eu não entendia como aquilo mudava a situação da minha vida – ou da vida de qualquer outra pessoa. Eu sempre ouvia dizerem que Jesus morreu por nós, mas e daí? As coisas continuavam iguais: os homens pecando e as pessoas sofrendo cada vez mais. O que mudou com a morte de Jesus? Eu achava que o plano de Deus para nos salvar não tinha dado muito certo. Que pena... Aqueles homens horríveis, por que haviam feito aquilo com Jesus? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu meditava sinceramente, enquanto chorava sem parar. Nunca havia pensado em Jesus daquela maneira. Sempre conversava com Deus e com Maria, mas nunca havia me dirigido a Jesus. Estava brotando um amor que transformaria minha vida, de uma forma que eu nem sequer imaginava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;foto: 15="" anos="" débora="" e="" teca,=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi9dmtzcCI/AAAAAAAANBg/7XzUpxH-xdQ/s1600/Diario.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; cssfloat: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="181" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi9dmtzcCI/AAAAAAAANBg/7XzUpxH-xdQ/s200/Diario.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;O diário&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Minhas idas à danceteria agora eram mais frequentes. Mas, ao contrário do que esperava, o vazio e a ansiedade que eu sentia só haviam crescido. Parecia que faltava algo em minha vida, mas eu não sabia o que era.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa noite, ao chegar em casa, não consegui dormir. Não sei como, me deparei com um exemplar do Novo Testamento, daqueles pequenos que são distribuídos gratuitamente. Estava em cima da mesinha da sala de estar e parecia me chamar. Eu sentia que ali poderia encontrar as respostas que desejava. Abri a última página. Havia um índice indicando a passagem certa para várias situações: para quem está triste, com medo, desanimado, indeciso, etc. Acabei lendo tudo. Amanhecia quando terminei de ler os textos. Aquela foi a primeira vez que li a Bíblia. E quanto mais lia, mais queria conhecer. Algo estava acontecendo dentro de mim. Deus estava abrindo meu coração para receber a verdade e a salvação de Jesus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O encontro havia tempos adiado finalmente estava acontecendo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-114295285856361256?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/114295285856361256/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=114295285856361256&amp;isPopup=true' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114295285856361256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114295285856361256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/03/captulo-4-encontro-adiado.html' title='Capítulo 4 - Encontro adiado'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi88IFKXiI/AAAAAAAANBc/CRj93JbegB0/s72-c/Debora+e+Teca.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-114061500574002080</id><published>2006-02-22T04:31:00.000-08:00</published><updated>2011-02-02T03:21:41.543-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 3 - Acidente</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo estava preparado para a festa de despedida do curso Técnico de Química do Centro Interescolar de Segundo Grau de Criciúma (o antigo CIS). Durante três anos, nossa turma viveu muitas situações que certamente ficarão gravadas na memória: feiras de ciências, pesquisas, gincanas culturais, aulas de laboratório e solidariedade nas aulas de reforço organizadas pelos próprios alunos para ajudar a maioria a tirar notas pelo menos acima de 5,0 nas “terríveis” avaliações de físico-química. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi4H9zLXvI/AAAAAAAANBM/RDL8I1DIp_Q/s1600/3quimica1990.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="381" s5="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi4H9zLXvI/AAAAAAAANBM/RDL8I1DIp_Q/s400/3quimica1990.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Turma do terceiro ano do curso de Química, 1990&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="border: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border: medium none;"&gt;As “experiências proibidas” também ficarão na lembrança. Os mais corajosos de nós se divertiam “tomando emprestadas” pequenas quantidades de sódio metálico para fazê-lo explodir em copos de plástico com água, no meio do campo de futebol da escola. Como era divertido fabricar pólvora e encher o pátio de fumaça e cheiro de enxofre! É claro que, depois, ninguém sabia quem tinha sido o responsável pelo “ato terrorista”. Havia, no entanto, sempre uma certeza: “Só pode ser coisa do pessoal de Química.”&lt;/div&gt;&lt;div style="border: medium none;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi4z6f2klI/AAAAAAAANBQ/99e8Q85747c/s1600/LaboratorioCIS1990.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi4z6f2klI/AAAAAAAANBQ/99e8Q85747c/s200/LaboratorioCIS1990.jpg" width="168" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Impressionar as turmas do primeiro ano do ensino médio com nossas experiências era outro passatempo interessante. Como éramos bastante aplicados à disciplina de laboratório, o professor nos dava amplo acesso ao depósito de reagentes químicos. Algumas vezes, produzíamos antiácidos efervescentes e bebíamos o líquido em frascos de vidro transparente, diante da janela que ficava em frente à porta da sala de aula do primeiro ano. Era engraçado ver os olhos arregalados dos alunos. No rosto deles ficava estampada a exclamação: “Que malucos!” Como gostávamos disso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noutras ocasiões, abríamos frascos que continham sulfeto de amônio e soprávamos o gás fedorento, também pela janela em frente à sala de aula do pessoal do primeiro ano. O cheiro de ovo podre do sulfeto tomava conta do ar e a aula, às vezes, precisava ser interrompida. Muitos perguntavam “Quem foi?”, e nós, escondidos, tínhamos que conter as risadas para não ser descobertos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUk-GHX1syI/AAAAAAAANBk/kozp0Sw-zME/s1600/to+sabendo.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUk-GHX1syI/AAAAAAAANBk/kozp0Sw-zME/s200/to+sabendo.jpg" width="138" /&gt;&lt;/a&gt;Para mim, entretanto, a atividade mais prazerosa e compensadora durante o tempo de ensino médio não foram necessariamente as aulas e experiências de laboratório. Com muito esforço, organizei uma equipe, conseguimos patrocinadores e demos início à publicação de um jornal escolar chamado &lt;i&gt;Tô Sabendo&lt;/i&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Éramos responsáveis pelas reportagens, entrevistas, ilustrações e mesmo pela distribuição e venda nas salas de aula. Trabalhando no &lt;i&gt;Tô Sabendo&lt;/i&gt; pude ter certeza de que queria seguir a carreira de jornalista. Além disso, o estágio que tive de fazer numa indústria química serviu para me mostrar que a monotonia de um laboratório de análises químicas não era mesmo coisa para mim. Havia escolhido o curso de Química por ser, em minha cidade, o que mais combinava com minha apreciação pela ciência. Mas escolher uma carreira para a vida toda com aquela idade era muito difícil. Graças ao &lt;i&gt;Tô Sabendo&lt;/i&gt;, minha vida tomou outro rumo e pude me realizar como profissional, anos depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi5Ft4QWrI/AAAAAAAANBU/ns5Jr-IL5l0/s1600/CIS1990.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="273" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi5Ft4QWrI/AAAAAAAANBU/ns5Jr-IL5l0/s400/CIS1990.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;Centro Interescolar de Segundo Grau (CIS), em 1990&lt;/blockquote&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;Foi também durante o tempo do ensino médio (em 1989) que conheci um jovem que se tornaria mais que um grande amigo e faria verdadeira revolução em minha vida. O Vanderlei era diferente dos demais colegas de classe. Era bastante extrovertido e de ótimo bom humor. No entanto, agia com seriedade nos momentos em que isso era exigido. Seu interesse pela Bíblia e a atenção que dispensava às pessoas logo me impressionaram. Frequentemente, ele deixava folhetos com mensagens religiosas sobre a mesa dos colegas de classe. Que ousadia interessante! Na verdade, o cristianismo dele era diferente do meu. E isso me perturbava um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certo dia, enquanto eu discutia questões teológicas com um colega recentemente convertido às testemunhas de Jeová, o Vanderlei se aproximou e tomou posição a meu favor em alguns assuntos, como a divindade de Jesus e do Espírito Santo, por exemplo. Isso me impressionou. “Ele é ‘crente’ e mesmo assim concorda comigo?” Pouco depois, o colega testemunha de Jeová se retirou, deixando-nos a sós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você gosta de ler a Bíblia? – perguntou Vanderlei, na primeira vez em que tivemos um diálogo sozinhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Gosto muito – respondi. – Costumo lê-la, às vezes. E em nosso grupo de jovens a usamos muito como fonte de “iluminação”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Interessante. Mas você já estudou a Bíblia mais a fundo? No seu grupo de jovens vocês a estudam?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Na verdade, não exatamente... – respondi, meio confuso com a pergunta. Ele continuou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você acha do livro do Apocalipse?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Apocalipse... – respondi devagar quase soletrando a palavra, tentando ganhar tempo para pensar na resposta. – Acho interessante. Até já o li algumas vezes, mas muita coisa me parece incompreensível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava falando a verdade. Na adolescência, frequentemente me reunia com colegas de classe e tentávamos interpretar o último livro da Bíblia. As bestas com chifres, as pragas, os quatro cavaleiros... Tudo isso me impressionou muito na época. Aquelas imagens estranhas, mas solenes me vieram à mente, quando o Vanderlei tornou a perguntar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você acha de fazermos um estudo sobre esse livro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como é isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem – continuou ele, – eu tenho comigo algumas apostilas. Podemos estudar juntos e...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu prefiro estudar sozinho – interrompi, deixando o preconceito e o orgulho falarem mais alto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, minha intenção era pesquisar o assunto e mostrar ao meu novo amigo que a verdadeira igreja bíblica era a minha. Embora desconhecesse por completo as crenças dele, eu tinha grande reserva em relação aos evangélicos. Para mim, um seguidor do “catolicismo de esquerda”, defensor das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, eles eram todos uns fanáticos alienados, dissidentes e, na maioria das vezes, ex-drogados ou ex-libertinos que usavam a religião como um tipo de compensação pelo passado obscuro. Ninguém que tivesse convicção religiosa e cabeça no lugar seria capaz de se tornar “crente”. Meses depois, eu constataria o quão errado e injusto era o meu ponto de vista e que seriam inúteis meus esforços para dissuadir o jovem estudioso das Escrituras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo bem, Michelson. Pode ser assim como você quer. Só quero adiantar uma coisa: não vai ser nada fácil – advertiu-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como assim?! – fiquei curioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Surgirão muitos problemas e obstáculos... Você quer mesmo fazer o estudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse último comentário aguçou ainda mais minha curiosidade e creio que foi a maneira de Deus chamar minha atenção, despertar meu interesse e elevá-lo acima do preconceito. Assim, sentindo-me desafiado e nem imaginando o que realmente teria pela frente, respondi prontamente: “Quero!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que estudava o Apocalipse e outros livros bíblicos, eu me convencia de que as doutrinas adventistas estavam de acordo com a Bíblia. Nesse tempo, passei a me interessar ainda mais pelas Escrituras Sagradas e a pesquisar também as doutrinas de outras religiões. Afinal, era a primeira vez que eu estava tendo contato com uma igreja evangélica. O que me garantia que sua mensagem era a mais correta? Todas dizem ter a “verdade”, não é mesmo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri que Cristo é “o caminho, e a verdade e a vida” (João 14:6). Como Ele é a verdade, a Bíblia é a única fonte da verdade, pois testifica dEle e de Sua mensagem (João 5:39), legada à humanidade por Seus discípulos, testemunhas oculares confiáveis. Portanto, concluí que não era a beleza dos cultos, o poder político ou econômico, o número de adeptos ou outra coisa qualquer, a não ser a conformidade com os preceitos bíblicos, que caracteriza a verdadeira igreja de Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de minha decisão definitiva, passei por um conflito interior muito grande. De um lado, estavam meus amigos do grupo de jovens que havia exercido profunda influência em minha vida. Do outro, estava Jesus a dizer: “Segue-Me”; “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (João 8:32). A vaidade também teve seu peso. Como podia eu, líder de jovens, um dos coordenadores da Pastoral da Juventude e da área de Comunicação da Diocese de Tubarão, profundamente envolvido com as atividades da Igreja Católica, “deixar-me levar pela conversa de um ‘crente’?” O que meus amigos padres e líderes iriam dizer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta contra as evidências e o chamado do Espírito Santo duraram cerca de dois anos. Tudo que me acontecia; tudo o que eu lia e ouvia; até as missas de que eu ainda participava (agora mais para contentar minha mãe e evitar suas cobranças) pareciam me dizer que ali já não era o meu lugar. Os temas dos sermões dominicais pareciam vir de encontro ao que eu estava aprendendo na Bíblia. Lembro-me de que, nas últimas missas a que assisti, os sermões tinham tratado justamente sobre a “santidade” do domingo, a imortalidade da alma e a intercessão de Nossa Senhora. Era como se tudo estivesse sendo dirigido de maneira a me dizer alguma coisa. E estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia descoberto, por meio do estudo da Bíblia, que o sábado, e não o domingo, é o único dia santificado e reservado para atividades exclusivamente religiosas e de ajuda ao próximo. Isso havia sido um choque para mim. Fazia anos que lia a Bíblia, mas nunca me havia apercebido desse fato – da diferença entre os dez mandamentos do Catecismo e os dez mandamentos das Escrituras, registrados em Êxodo capítulo 20. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entendi que o sétimo dia, o sábado, é um marco comemorativo no tempo; o memorial da origem da vida; o monumento da Criação. Fiquei fascinado e ao mesmo tempo indignado ao perceber que não havia apenas uma versão para a origem da vida: o evolucionismo. Descobri com espanto o criacionismo, que sustenta ser Deus o Criador da matéria e da vida; que “em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado, e o santificou” (Êxodo 20:11). Como puderam me privar – na escola e na igreja – desse conhecimento? Por que não me disseram que a teoria da evolução não é unanimidade entre os cientistas (mesmo os ateus) e que apresenta sérias falhas? Por que não me disseram que, para ser harmonizada com o darwinismo, a história da criação nos primeiros capítulos de Gênesis era considerada mitológica pela igreja?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobri que do pôr do sol de sexta-feira ao pôr do sol de sábado (o ocaso do sol é o referencial bíblico para a passagem dos dias, conforme Levítico 23:32 e outros textos), o sétimo dia permanece em meio ao tempo, entre duas semanas, e entre duas épocas também: o passado e tudo o que foi feito e o futuro e aquilo que ainda pode ser realizado. É “o passo atrás antes do salto adiante”; um dia especial que acrescenta qualidade à vida humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao separar o sétimo dia da semana para fins religiosos (culto a Deus, auxílio aos necessitados, contato com a natureza), os adventistas reconhecem o Senhor como o Todo-Poderoso Criador do Universo. E o sábado é mais do que um simples repouso físico, é antes de tudo uma pausa para contato mais íntimo com Deus, de tal maneira que as outras atividades ficam para depois. Claro que durante a semana é necessário manter comunhão com Deus. Mas o Criador sabia que a vida agitada não nos permitiria ter tempo suficiente e de qualidade para um contato mais demorado e profundo com Ele. Por isso nos deu o sábado de presente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu havia descoberto, também, que Jesus é o único Intercessor ou Mediador entre Deus e os homens, e que os mortos, ao contrário do que muitos creem, aguardam a ressurreição por ocasião da segunda vinda de Cristo. Enfim, havia muita diferença entre o que eu estava descobrindo nas Escrituras e o que havia aprendido desde a infância. O abalo em minhas convicções e opiniões estava sendo profundo e intenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas tomar a decisão definitiva não foi fácil. Fiz algumas pequenas mudanças em minha vida, mas sabia que ainda não era o suficiente. Conversão não se trata de “remendar” a vida e melhorar comportamentos. É muito mais que isso. É entrega completa a Jesus com a disposição de, com a ajuda do Espírito Santo, obedecer a tudo quanto é ensinado na Palavra de Deus. Tudo. É como a história que li, certa vez, de uma pessoa que adquiriu uma casa e resolveu entregá-la a Jesus, com exceção de um pequeno prego em uma das paredes. E foi justamente nesse prego que Satanás pendurou um pedaço de carne podre que infestou toda a residência. A lição é clara: não é possível entregar um coração dividido a Deus. Eu sabia disso; e aquela situação me deixava muito preocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não era ex-drogado ou ex-libertino, mas Deus me fez ver que também precisava de libertação – da minha justiça própria, do meu orgulho intelectual, do meu vazio espiritual. Na verdade, por causa desse orgulho, eu era ainda pior do que aqueles a quem olhava por cima. Quem era eu para julgar meu semelhante? Quem era eu para me considerar melhor que outras pessoas? Aos poucos, o Espírito Santo me fazia tomar consciência de minha condição de pecador e de minha urgente necessidade de Jesus. Deus queria me dar nova vida e eu relutava. O Vanderlei fazia apelos constantes, mas eu me esquivava. As palavras dele e a voz do Espírito Santo em minha mente ardiam como fogo, mas eu não tinha forças para dar o passo definitivo. “Como posso deixar tudo – família, admiração, amigos – e Te seguir, Senhor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tentava esquecer o dilema. E a festa de encerramento do curso de Química naquela noite de sexta-feira era uma ótima maneira de afastar a convicção insistente que ecoava dentro de mim. Quase sem perceber, eu estava agindo como a maioria dos jovens da minha geração (e de todas as gerações): buscando diversão para me distrair e esquecer por alguns momentos que a vida é muito mais séria do que pensamos; que o vazio dentro do peito só faz aumentar quando o ignoramos; que enquanto se processa um verdadeiro conflito cósmico, uma disputa pelo nosso coração, fechamos os olhos na ilusão de que a tempestade vai passar e poderemos abrir os olhos quando o sol voltar a brilhar. Ilusão. Mera ilusão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como havia decidido não mais consumir bebidas alcoólicas, meus colegas me consideraram a pessoa ideal para buscar uma caixa de som para animar a festa. Sabia que era preciso praticamente atravessar a cidade para pegar a tal caixa, mas como era motorista novato, ansioso por aproveitar qualquer oportunidade de dirigir, e meu pai havia enchido o tanque do carro, atendi ao pedido. Convidei duas amigas para me acompanharem e rumamos para o bairro Próspera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conversávamos animadamente quando, de repente, numa curva a pouco mais de um quilômetro do colégio, surgiram diante de nós dois pares de faróis alinhados e em alta velocidade. Meu Deus! Se continuasse em frente, seria colisão na certa. Rapidamente olhei para o lado. Avaliei a situação e concluí que na velocidade em que o carro ia não conseguiria entrar na estrada à direita, poucos metros adiante. Só havia uma alternativa: subir na calçada e passar pelo gramado, entre uma pedra – grande o bastante para destruir a frente do automóvel –, e um muro de uns três metros de altura. Uns dez metros à frente havia uma árvore bem no meio do caminho. Mas até lá eu já teria conseguido voltar para a estrada... Curiosamente, que todos esses pensamentos ocorreram em uma fração de segundos. Tudo bem. Era só manter a calma. Seria uma manobra perfeita. E, de quebra, ainda aproveitaria a situação para impressionar minhas amigas com minhas habilidades ao volante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reduzi um pouco a velocidade, sem travar os freios. Girei o volante à direita e percebi, com o canto do olho esquerdo, os dois carros passarem voando como um borrão de luz. Seria uma batida e tanto! Por pouco! E se tivesse tentado entrar na rua à direita, teria destruído a lateral do Fiat Uno zero quilômetro do meu pai. Sem dúvida, havia tomado a decisão certa. Uma manobra perfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então que percebi que não tinha mais controle sobre as rodas dianteiras. Ah, não! O carro estava derrapando na grama. Minha manobra perfeita... Girei o volante para a esquerda, e nada. Os pneus haviam perdido a aderência. Nem me lembrei de tirar os pés do freio. Na verdade, acho que acabei pressionando mais ainda. A árvore! O tempo parecia congelado. Tudo estava acontecendo em câmara lenta. &lt;i&gt;Meu pai vai me matar!&lt;/i&gt; A árvore se aproximava lentamente. &lt;i&gt;Tomara que a polícia não apareça.&lt;/i&gt; De nada adiantaria explicar a situação: eu não tinha habilitação. &lt;i&gt;E logo hoje que saí sem pedir o carro para o meu pai. A primeira vez sem pedir...&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu tempo até de imaginar como seria me chocar de frente com uma árvore. Seria como num carrinho de choque dos parques de diversão? Acho que não... Quando a “câmera” deixou de ser lenta, tive tempo apenas de gritar: “Segurem-se!” Firmei as mãos no volante e instintivamente fechei os olhos. O som estranho de metal se retorcendo e vidro quebrando invadiu-me os ouvidos. Depois veio o silêncio. O motor ainda estava ligado e alguma parte dele estava encostando na lataria, pois produzia um som metálico irritante. Desliguei a chave. Certifiquei-me de que minhas amigas estavam bem e abri a porta. Ainda um pouco atordoado, ajeitei os óculos, sai do carro e avaliei o estrago. Encostei o queixo no teto do automóvel e coloquei as mãos sobre a cabeça. Nenhum palavrão, nem mesmo qualquer sentimento de raiva me veio à mente. Apenas um pensamento: “Hoje é sábado... O que estou fazendo aqui?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;﻿ &lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi5hS9ss3I/AAAAAAAANBY/NNlF2vjqcZo/s1600/Uno.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="180" s5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi5hS9ss3I/AAAAAAAANBY/NNlF2vjqcZo/s400/Uno.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;blockquote&gt;Foto tirada poucos meses antes do acidente&lt;/blockquote&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-114061500574002080?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/114061500574002080/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=114061500574002080&amp;isPopup=true' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114061500574002080'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/114061500574002080'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/02/captulo-3-acidente.html' title='Capítulo 3 - Acidente'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUi4H9zLXvI/AAAAAAAANBM/RDL8I1DIp_Q/s72-c/3quimica1990.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-113818508135085256</id><published>2006-01-25T02:28:00.000-08:00</published><updated>2011-01-31T18:27:59.330-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 2 - O dia em que o tempo voltou</title><content type='html'>&lt;em&gt;Débora Borges&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Localizada cinquenta quilômetros ao sul de Florianópolis, a Praia da Pinheira pode ser considerada um verdadeiro “paraíso na Terra”. É uma das poucas praias catarinenses que ainda desfruta de natureza exuberante e intocada. Isso porque a região está dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, área ambiental protegida por lei estadual. E ali estava eu, naquele paraíso, com minhas amigas, como sempre costumávamos fazer nos fins de semana de Verão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUdu98L0EnI/AAAAAAAANA4/9Rebae5OOIM/s1600/Praia+da+Pinheira+-+Panoramio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="245" s5="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUdu98L0EnI/AAAAAAAANA4/9Rebae5OOIM/s400/Praia+da+Pinheira+-+Panoramio.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Parecia um dia como outro qualquer. Depois de tomar sol por algum tempo, o calor e o suor tornaram a água fresca do mar extremamente convidativa. A Marcelli, a Teca e eu resolvemos nos refrescar um pouco. Deixamos nossas coisas na areia e entramos no mar. Quando a água estava na altura dos joelhos, o cenário tranquilo começou a mudar completamente. De repente, ouvimos um som como de trovão, ao longe, ecoando por detrás das montanhas, mas tão forte que o chão parecia estremecer. Quando olhei para baixo, percebi que a água havia se tornado vermelha como sangue. O céu ficou cinza com manchas avermelhadas. As nuvens corriam rapidamente e faziam movimentos circulares, parecendo enrolar-se. Tudo acontecia ao mesmo tempo. As pessoas gritavam e corriam de um lado para o outro, desesperadas, sem entender o que estava acontecendo. Fiquei atônita e paralisada de medo, enquanto minhas amigas me observavam com os olhos arregalados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tati, o que está acontecendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era como se eu tivesse que lhes dar uma resposta, já que elas me consideravam a mais religiosa do grupo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só havia uma explicação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei o que é isso. Jesus está voltando!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao ouvir minhas próprias palavras, saí do estado de estupor e tive vontade de correr e me esconder, mas percebi que não daria tempo e nem teria para onde fugir. Então, caí de joelhos ali mesmo, dentro da água sanguinolenta, e implorei por misericórdia. Eu não tinha a mínima chance de estar salva e ir para o Céu. Eu sabia disso. Sabia que não poderia contemplar a face pura e santa de Jesus. Eu havia dado as costas para todos os princípios bíblicos que tinha aprendido não muito tempo antes. Estava deliberadamente transgredindo os mandamentos de Deus e tentando ignorar as profecias, achando que esse dia jamais chegaria. Troquei o convívio dos irmãos da igreja pelo dos “amigos” que só queriam “curtir” a vida. Deixei de buscar a santidade e a pureza de coração para dar rédea solta aos sentimentos e ao desejo de “aproveitar a vida”, como se essas coisas pudessem preencher o vazio e a sensação de inutilidade que cresciam em minha vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, minha consciência nunca teve paz e, no fundo, eu gostaria de ser outra pessoa e não aquela que estava ali, na praia, fracassada diante das tentações e vaidades que o mundo oferece para uma jovem de dezesseis anos. Se antes o drama de um coração dividido já era intenso, naquele momento em que o mundo literalmente desabava a angústia se tornou mortal. Jesus voltou e eu me perdi. Perdi tudo! Perdi a chance de estar com meu Criador para sempre. Joguei fora a vida eterna e a felicidade completa. Perdi minha família... Estava tudo perdido! E pelo que troquei a salvação? Que prazer deste mundo compensou a perda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca consegui ser plenamente feliz. Nunca tive calma e paz. Nunca encontrei solução para a ansiedade e a angústia que me atormentavam. Onde andei buscando felicidade? Simplesmente vivi como se uma onda tivesse me apanhado e fosse me levando; e eu, sem tentar me levantar ou mesmo nadar contra aquele turbilhão de sentimentos, segui a “maré”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo foi fútil e desprezível. Agora percebia o quanto as coisas poderiam ter sido diferentes, se eu tivesse aceitado a salvação e vivido, pela graça, à altura da verdade que tive o privilégio de conhecer. Poderia ter sido nobre; poderia ter sido um instrumento para salvar outros – quem sabe minhas próprias amigas que agora estavam gritando desesperadas. Mas não. Escolhi ser apenas mais uma na multidão que tristemente se conformou com este mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos esses pensamentos me passaram pela cabeça em poucos segundos e então me vi clamando por misericórdia, pedindo a Deus que, por favor, me desse apenas mais uma chance. O tempo passou rápido demais enquanto eu adiava meu retorno para Jesus. Eu sabia que agora era impossível voltar. Mas tinha que haver alguma maneira... O tempo tinha que voltar! Isso era tudo o que eu queria naquele momento: que o tempo voltasse. Se tivesse outra chance, faria tudo ser diferente. Finalmente, entendi que nada era mais importante do que estar com Jesus. Com certeza, se o tempo pudesse voltar, eu entregaria minha vida a Ele. Então, esse foi meu único e último pedido antes que Jesus aparecesse no céu e eu fosse destruída: “Faça o tempo voltar! Faça o tempo voltar!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei repetindo esse pedido, quando finalmente acordei banhada em lágrimas. Estava de volta à minha vida vazia e sem sentido, mas aliviada porque ainda havia uma chance para mim. Parecia que o tempo realmente havia voltado. Mas, e agora? O que fazer? Como aproveitar essa oportunidade? Pedi a Jesus que me ajudasse a mudar porque eu realmente não tinha forças para voltar para a igreja e viver da maneira que eu julgava ser a adequada. Queria ser uma pessoa que eu não era e não via como poderia acontecer essa mudança. O drama do apóstolo Paulo se repetia ali, quase dois mil anos depois, em 1993: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço” (Romanos 7:18, 19).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus é fiel e poderoso. Ele sabia da minha sinceridade em querer mudar, ainda que ninguém acreditasse mais em mim – nem eu mesma. Esse meu anseio era a oportunidade que Ele esperava para poder me ajudar. Eu não sabia o que fazer, nem como; mas achava que assim como Deus faria Sua parte eu deveria fazer a minha. Por isso, naquela manhã fui procurar o líder da igreja adventista do bairro em que eu morava (a Barra do Aririú, no município de Palhoça, SC) e pedi para ele novamente estudar a Bíblia comigo. Eu desejava que a chama do “primeiro amor” reacendesse em meu coração e que o milagre pelo qual eu orava finalmente acontecesse. Como o tempo havia voltado para mim, eu não perderia essa chance.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20395736-113818508135085256?l=www.deusnosuniu.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://www.deusnosuniu.com/feeds/113818508135085256/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=20395736&amp;postID=113818508135085256&amp;isPopup=true' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/113818508135085256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/20395736/posts/default/113818508135085256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://www.deusnosuniu.com/2006/01/captulo-2-o-dia-em-que-o-tempo-voltou.html' title='Capítulo 2 - O dia em que o tempo voltou'/><author><name>Michelson</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/-XsNYJzRTSEI/TfeXldkWZnI/AAAAAAAAOKs/HT5hvKbF4Ho/s220/twitter.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUdu98L0EnI/AAAAAAAANA4/9Rebae5OOIM/s72-c/Praia+da+Pinheira+-+Panoramio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-20395736.post-113655063389190225</id><published>2006-01-06T04:30:00.000-08:00</published><updated>2011-01-31T18:21:59.540-08:00</updated><title type='text'>Capítulo 1 - Frente a frente com o inimigo</title><content type='html'>&lt;i&gt;Michelson Borges&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tínhamos acabado de assistir no cinema ao filme &lt;em&gt;Ghost, do Outro Lado da Vida&lt;/em&gt;. Mesmo sabendo que se tratava de uma história irreal, em alguns momentos meus olhos ficaram úmidos. A razão me dizia que o enredo era pura ilusão, mas meus sentimentos haviam sido tocados – e não é isso o que faz a maioria dos filmes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUdscqdSMLI/AAAAAAAANAs/LnWC3nhHgTU/s1600/Criciuma+-+Panoramio.com+5.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; cssfloat: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="200" s5="true" src="http://3.bp.blogspot.com/_1nuzdTcJ1wQ/TUdscqdSMLI/AAAAAAAANAs/LnWC3nhHgTU/s200/Criciuma+-+Panoramio.com+5.jpg" width="150" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;Torres da Igreja Matriz&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;O frio era tão intenso que eu não tinha coragem de tirar as mãos do bolso para conferir que horas eram. O relógio da torre da Igreja Matriz estava escondido pelos prédios da rua onde estava localizado o antigo Cine Ópera. Devia ser quase onze da noite. De qualquer forma, estava bastante tarde para minha amiga Simone, uma loira alta e bonita, ir para casa sozinha. Dispus-me a levá-la até sua residência e nos despedimos de nossos outros amigos que também haviam assistido ao filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À medida que caminhávamos pelas calçadas já desertas (eram poucos àquela hora os que se aventuravam a encarar a brisa gelada do inverno criciumense), Simone partilhava comigo os sérios problemas pelos quais sua família estava passando. Segundo ela, o pai vinha agindo de maneira estranha. Por duas ou três vezes, as feições dele ficaram transtornadas e a voz, alterada. Nessas ocasiões, ele dizia ser a avó da minha amiga. O maior problema é que essa avó estava morta fazia alguns anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como vocês podem ter certeza de que não se trata de brincadeira, algum problema mental ou coisa parecida? – perguntei, tentando sondar todas as possibilidades antes de expor o pensamento que tomava forma em minha mente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Michelson, você deveria ver aquilo. Ele fala com a voz dela! É muito estranho. Não acredito que seja uma simples doença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Numa dessas ocasiões em que meu pai disse ser a mãe dele, chegou a mencionar um objeto que eu havia perdido algum tempo atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o que tem isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Somente minha avó e eu sabíamos disso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você tem certeza?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Absoluta. Além do mais, minha mãe também disse que não há como explicar de outra forma certas coisas que meu pai diz e faz nesses momentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o que vocês acham que significa tudo isso? – perguntei já prevendo a resposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que é o espírito da minha avó. Só não sei por que ela está fazendo isso com a nossa família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiquei calado por alguns segundos, pensando em como dizer o que eu estava pensando. Não sabia o que podia ser pior: o suposto “espírito” de uma mulher morta ou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sabe, amigo – ela interrompeu meus pensamentos e quebrou o silêncio, – somos muito católicos e jamais pensamos em recorrer ao espiritismo. Mas acho que só temos essa opção agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imediatamente pensei em como o inimigo de Deus nos empurra para certas armadilhas. E justamente naquela noite tínhamos que assistir &lt;em&gt;Ghost&lt;/em&gt;, um filme declaradamente espírita? Bem, de qualquer forma, aquela era uma boa oportunidade para falar sobre o estado dos mortos segundo a Bíblia. E eu aproveitei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Simone, preste bem atenção ao que vou lhe dizer. Tenho estudado bastante a Bíblia ultimamente, como você deve saber, e o melhor conselho que posso lhe dar é: não busque a ajuda do espiritismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Por que não? Se é mesmo o espírito da minha avó, talvez um médium ou coisa parecida possa nos ajudar a saber o que ela quer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu sei que você crê na Bíblia, assim como eu. E é exatamente por esse motivo que vocês não devem cair nessa cilada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não estou entendendo. Cilada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Tudo o que vimos naquele filme não passa de ilusão diabólica – minha amiga me observava fixamente, sem piscar, enquanto caminhamos pelas ruas agora totalmente desertas, a meio caminho da casa dela. – A Palavra de Deus assegura que as pessoas, quando morrem, como que adormecem. Basta ler textos como João 11:11-14 e Mateus 9:24. Além do mais, de acordo com o livro de Gênesis, nós não temos uma alma imortal. Nós somos essa alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como assim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Está escrito em Gênesis 2, verso 7: Deus fez o homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida. Então, o ser humano &lt;em&gt;se tornou&lt;/em&gt; alma vivente. Não está escrito que ele &lt;em&gt;recebeu&lt;/em&gt; uma alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas só podia ser a alma da minha avó...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Calma. Eu chego lá. Quando Satanás tentou Eva, ele disse que mesmo que ela desobedecesse certamente não morreria, embora Deus tivesse dito claramente que o “salário do pecado é a morte”. Você percebe? Até hoje o inimigo tenta fazer as pessoas acreditarem que, independentemente do que façam, viverão para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Mas como você pode provar que os mortos não se comunicam com os vivos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como lhe disse, isso é o que descobri na Bíblia. Em Eclesiastes, capítulo 9, versos 5, 6 e 10, está escrito que os mortos não têm mais parte alguma no que se faz neste mundo. Em Levítico 19:31 e em outros textos, a Bíblia condena a prática de se consultar os mortos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Então o ser humano não tem uma alma imortal? É isso o que a Bíblia diz?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Exatamente. O único que possui imortalidade inerente é o Criador, conforme 1 Timóteo 6:16. Se os seres humanos são mesmo imortais, por que Bíblia diz que um dia, na segunda vinda de Cristo, seremos “revestidos de imortalidade”? Isso está escrito em 1 Coríntios 15:53 e 54. Por que ser revestidos de algo que já temos? – eu estava realmente surpreso com a facilidade com que me lembrava dos textos bíblicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o espírito, o que é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Segundo a compreensão bíblica mais usual, nada mais é que o “fôlego de vida” dos seres vivos. Não é à toa que Salomão escreveu, em Eclesiastes 3:19, que os seres humanos e os animais têm o mesmo fôlego. Quando morrem, o pó da terra, ou corpo, volta a terra e o fôlego volta a Deus. Está lá em Eclesiastes 12:7. Assim, os seres humanos mortos permanecem no pó até que Deus os chame de volta à vida, por ocasião do retorno de Jesus. [cf. João 5:28, 29 e 1 Tessalonicenses 4:13-16.] Por isso mesmo, antes da ressurreição, os mortos não podem participar do mundo dos vivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Você mencionou duas vezes a volta de Jesus. Acredita mesmo nisso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– De todo o meu coração. Foi Ele mesmo quem prometeu voltar e essa promessa está espalhada nas páginas da Bíblia. Deus não brincaria com um assunto tão sério. Na verdade, hoje entendo que a volta de Jesus será a solução definitiva para todos os problemas da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que você acha, então, que está acontecendo com o meu pai – percebi um tom de angústia na voz da minha amiga. Profundamente comovido com a situação, olhei nos olhos dela e disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O único interes
