Wednesday, February 09, 2011

Capítulo 21 - O chamado

A Débora e eu havíamos acabado de voltar de um fim de semana em Criciúma, no dia 14 de dezembro de 1997, quando recebemos a notícia: meu avô havia falecido. Coloquei a Bíblia numa pasta e fiz a seguinte oração: “Senhor, se Tu quiseres que eu fale algumas palavras no sepultamento do meu avô, faze com que alguém me peça isso.” Imediatamente fomos para Florianópolis e tomamos o primeiro ônibus para Criciúma. Eu sabia que a família (especialmente minha mãe) estava sofrendo muito e desejava poder falar-lhes da ressurreição dos mortos e das últimas conversas que havíamos tido com meu avô.

Uns quinze dias antes, quando ele ainda conseguia falar, a Débora e eu fomos visitá-lo no hospital. Pudemos dizer o quanto Deus o amava e queria vê-lo salvo. Minha mãe também teve oportunidades de falar do amor de Jesus enquanto cuidava do pai que tanto estimava. Procuramos lembrar-lhe dos assuntos que havíamos estudado na Bíblia alguns anos antes, especialmente sobre a promessa da volta de Jesus e a esperança da Nova Terra.

Quando chegamos ao Velório Municipal de Criciúma, encontramos quase uma centena de pessoas no local. Como meu avô havia sido vendedor de leite na juventude e treinador de times de futebol, era conhecido de muita gente. Todos estavam ali para dar o último adeus ao “Zé Tostão”.

A Débora e eu observamos brevemente o corpo inerte no caixão e nos sentamos ao lado de alguns parentes. Discretamente coloquei a pasta com a Bíblia embaixo da cadeira. Instantes depois, um pastor pentecostal começou a pregar o sermão fúnebre (ele havia sido convidado pela irmã do meu avô, que também é pentecostal). Notei a expressão de contrariedade de alguns enquanto o homem esbravejava e soltava ameaças sobre o “fogo eterno” para aqueles que vivem em pecado e não se preparam para o encontro com Deus. Quão inconveniente era aquela mensagem estridente para pessoas de precisavam de conforto e esperança.

Terminada sua fala (durante a qual algumas pessoas haviam se retirado do recinto), o pastor foi embora e deixou um líder da igreja dele responsável por dar andamento ao sepultamento. Naquele momento, uma tia (das que mais criticaram o fato de minha mãe, a Manu e eu termos nos tornado adventistas) tocou-me o braço e perguntou: “Você não vai falar nada?” Era o sinal que eu havia pedido a Deus!

Quando estávamos quase chegando ao local em que seria depositado o caixão, coloquei a mão no ombro do auxiliar do pastor e disse:

– Eu sou neto dele e quero falar algumas palavras.

O homem ficou surpreso com o meu pedido e deu um passo para trás. Abri minha Bíblia no capítulo 11 do Evangelho de João e falei a todos sobre a ressurreição de Lázaro. Depois, passeando pelas páginas sagradas, falei sobre o sono da morte, a volta de Jesus e a Nova Terra, onde não haverá mais choro, dor ou morte; onde Jesus enxugará nossas lágrimas e onde o mal não se levantará pela segunda vez.

Depois do sepultamento, alguns familiares vieram me agradecer por ter-lhes confortado com verdades bíblicas. Aquilo me deixou feliz, apesar da dor da perda. Senti-me usado por Deus para “abraçar” minha família por Ele. Na volta de Jesus, quero abraçar meu vovô também.

Anos depois, em 2006, minha avó Idalina, então com 82 anos, foi batizada na Igreja Adventista Central de Criciúma. Tive o prazer de entrar com ela no tanque. Curiosamente, nosso novo nascimento seguiu a ordem inversa das gerações: eu, minha mãe e minha avó. Em 2006, minha avó também faleceu, e a cerimônia fúnebre, desta vez, foi realizada pelo pastor adventista da Igreja Central de Criciúma.

*****

Em Florianópolis, a rotina prosseguia. Acordar às cinco da manhã, tomar o ônibus, viajar quase uma hora e encarar as crianças e adolescentes, alguns dos quais perguntavam: “Pra que estudar História? Tudo isso já passou mesmo.” Por mais que eu me esforçasse como professor, sempre me sentia aquém do ideal, o que me deixava num estado de frustração constante. Além disso, era difícil aceitar o fato de ter perdido as economias de todo um ano num apartamento que nunca seria construído. Eu já havia desistido de tentar entender por que Deus nos havia deixado passar por aquilo. Em lugar disso, entreguei tudo nas mãos dEle e resolvi esperar pela resposta. Afinal, como diz a Bíblia, “a minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto, esperarei nEle. Bom é o Senhor para os que esperam por Ele, para a alma que O busca” (Lamentações 3:24, 25).

Fazia um ano que a Débora e eu estávamos casados. Essa era a parte boa da história. Era maravilhoso poder contar com minha querida esposa em todos os momentos. Poder adormecer e acordar ao lado dela. Ela me dava força e motivação para continuar lutando em busca de nossos sonhos. Eu sabia que ela estava disposta a tudo, mesmo que tivesse que ir para o Chile comigo, caso o “plano B” tivesse dado certo. Como não havia um “plano C”, continuamos contando com a boa vontade dos pais dela e morávamos num dos quartos da casa deles.

Continuei servindo à Igreja Adventista da Barra como ancião e, juntamente com minha esposa, ministrávamos muitos estudos bíblicos nos fins de semana. Durante a semana, ambos trabalhávamos para tentar economizar algum dinheiro: ela numa creche no bairro Caminho Novo, e eu na escola adventista de Florianópolis. Mas ganhávamos pouco e não víamos muitas possibilidades de ter nosso próprio lar.

Não foi fácil decidir pelo casamento nessas circunstâncias, mas como já namorávamos havia quase três anos e não sabíamos quando os “bons ventos econômicos” iriam soprar a nosso favor, decidimos, com o apoio de nossos pais, ir avante com o matrimônio assim mesmo e batalhar unidos por um futuro melhor.

Quando acordava antes de o Sol raiar, para ir à escola, olhava para a Débora na cama, ainda dormindo, e frequentemente me lembrava de quão linda ela estava naquele dia em que a vi entrar de vestido branco pelo corredor do templo adventista de Campinas. Foi um dos dias mais felizes da minha vida. Pudemos receber a bênção de Deus por intermédio do pastor e amigo Ademar Paim. Ao tomar minha amada como esposa, prometi protegê-la e amá-la para sempre. A lembrança desse momento, toda vez que beijava o rosto macio da minha esposa antes de sair para o trabalho, de certa forma carregava minhas baterias.

Mas, um ano depois, mesmo que eu não quisesse demonstrar, era visível para a Débora (de quem eu não mantinha segredos) que o desânimo começava a me rondar. Quando estava no limite das minhas forças, Deus interveio e me deu um motivo para prosseguir com mais ânimo: fui chamado para apresentar, juntamente com o jornalista e amigo Felipe Lemos, um jornal diário na recém-inaugurada Rádio Novo Tempo de Florianópolis. A emissora pertence à Associação Catarinense (a mesma entidade mantenedora das escolas adventistas no Estado) e é ligada à Rede Novo Tempo de rádios do Brasil. Fiz grandes amigos lá, especialmente o Felipe e o meu chefe, o radialista Amilton Menezes, um verdadeiro cristão.

Antiga localização da rádio Novo Tempo de Florianópolis
O trabalho era difícil. Eu tinha que ir bem cedo para a escola, dar as primeiras aulas do dia, depois cruzar a ponte Colombo Sales, ir para a rádio (que ficava no continente) e preparar o jornal. Ao meio-dia, corríamos para o restaurante, almoçávamos depressa e regressávamos à rádio, pois à uma hora o jornal ia ao ar, ao vivo. Das catorze às quinze horas, eu gravava alguns programas e depois regressava à escola de ônibus para dar as últimas aulas do dia. Realmente era um ritmo intenso, mas a satisfação de poder atuar na área de comunicação me fez recobrar um pouco do ânimo quase perdido. Só que o salário ainda era baixo, e com a perda das economias feitas para comprar o “apartamento virtual” não tínhamos como sequer pensar em alugar uma casa.
Depois de alguns meses, com a ajuda do meu cunhado Dilamar, pude comprar um Fusca 1973, em Criciúma. Era azul, bem conservado e todo original: calotas e para-choques cromados, volante grande e estribos. Com ele, ir para o trabalho e cruzar a ponte de lá para cá e de cá para lá todos os dias acabou ficando mais fácil (curiosamente, o primeiro automóvel do meu pai também havia sido um Fusca). Fiquei seis meses nessa correria de dois empregos, até que numa manhã, enquanto preparava o jornal daquele dia, recebi uma ligação que mudaria minha vida de uma maneira que eu sequer poderia imaginar naquele momento.

– Michelson, é o pastor Rubens Lessa, da Casa Publicadora Brasileira. Ele quer falar com você.

O Felipe era muito brincalhão o que me fez pensar que se tratasse de algum tipo de “trote”. Rubens Lessa era o redator-chefe da editora adventista do Brasil. Por que ele telefonaria para mim?

– Deixa disso, Felipe! Estou muito ocupado para brincar.

– Tô passando a ligação.

– Alô?

Era uma voz diferente e percebi que não se tratava mesmo de trote.

– Aqui quem fala é Rubens Lessa, da Casa Publicadora. É o Michelson?

– Sim – respondi, quase gaguejando.

– Tenho recebido seus textos e os apreciado muito. Além disso, temos aqui o seu currículo e queremos fazer uma entrevista com você.

Eu havia perdido a conta de quantos artigos tinha enviado para a Revista Adventista. Um deles havia sido publicado em 1992, quando eu estava no primeiro ano da faculdade de Jornalismo. E do meu currículo, já tinha até esquecido.

– Você pode vir aqui para conversarmos? Cobriremos todas as suas despesas com a viagem.

O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés ao ouvir aquele convite.

– Claro, pastor. Quando devo ir?

– Pode ser na semana que vem?

– Tudo bem. Vou conversar com a diretora da escola e com o meu chefe aqui na rádio. Creio que eles possam me liberar.

Desliguei o telefone ainda achando que fosse um sonho. Tinha que contar aquilo para a Débora, senão ia explodir. Liguei para a creche e ela atendeu.

– Oi. O que você acha de nos mudarmos para Tatuí? – disparei.

– Do que você está falando?

– Acabei de receber uma ligação do redator-chefe da Casa Publicadora Brasileira me convidando para fazer uma entrevista lá.

– É verdade?

– Claro que sim! Eu não ia tirar você da sala de aula para fazer piada, né?

– Isso é maravilhoso!

Eu também achava maravilhoso, mas me sentia um pouco inseguro, afinal, não tinha formação teológica, como a maioria dos editores da Casa, e era jovem e inexperiente demais para função tão importante.

Não conseguia deixar de alimentar esperanças. Seria essa, finalmente, a resposta para nossas orações? Mesmo assim, procurei deixar os pés bem firmes no chão da realidade. Estava “escaldado”.

*****

A semana demorou a passar. Numa segunda-feira de abril de 1998, tomei o ônibus para São Paulo. Assim que o veículo começou a se mover, lembrei-me da viagem que havia feito para o Instituto Adventista de Ensino quase dois anos antes. Será que dessa vez as coisas dariam certo? Ou teria que regressar novamente, com meus sonhos guardados na bolsa? Seria esse o plano de Deus para minha vida, afinal? Ou voltaria para casa com outra decepção e a cabeça cheia de por quês?

Na manhã do dia seguinte, desembarquei no Terminal Tietê (pelo menos esse eu já conhecia), peguei o metrô (pela primeira vez na vida) até o Terminal Barra Funda onde embarquei noutro ônibus que me levaria a Tatuí.

A viagem pela rodovia Castello Branco, na maior parte formada por longos trechos em linha reta, pareceu nunca acabar. Observava ansioso as placas no caminho querendo logo ler a palavra “Tatuí”. Menos de duas horas depois, de repente, o ônibus saiu da Castello e entrou na rodovia SP 127, que passa em frente à Casa Publicadora Brasileira. Levantei-me, peguei minha bolsa e pedi ao motorista para parar na editora, ao que ele respondeu: “Ali está ela.”

Mal pude acreditar no que vi. Do outro lado da rodovia estava uma das maiores editoras adventistas do mundo, que eu só conhecia por fotos. Dava para ver quase todo o pavilhão industrial e parte do prédio administrativo. Era tudo muito grande e bonito.


O ônibus parou e na minha frente desembarcou um senhor que eu identifiquei como um dos editores. Como eu admirava aqueles homens e mulheres que usavam o computador e a caneta como “púlpito” para alimentar milhares de leitores com palavras que salvam e edificam. Estremeci só de pensar que talvez pudesse vir a me tornar um deles.

Meu coração acelerou quando vi o logotipo da Casa em aço em frente à portaria da empresa. Os olhos ficaram úmidos de emoção. Identifiquei-me e entrei no complexo. Enquanto caminhava em direção à recepção interna, fiquei encantado com os belos jardins floridos e com as árvores majestosas que lembram pinturas da Nova Terra. Tudo era realmente muito belo, limpo e organizado. Na fachada principal, pude ler: “Casa Publicadora Brasileira, Editora dos Adventistas do Sétimo Dia.” E em letras azuis: “Jesus Cristo é a Resposta.”

Passei por dois tanques com carpas douradas, brancas e pretas, entrei pelas portas de vidro fumê e a recepcionista sorridente avisou à secretária do pastor Lessa de que eu havia chegado. Em instantes, o homem surgiu na minha frente. Ele era magro, caminhava com passo firme e tinha um olhar inteligente. Pelo porte não aparentava os sessenta e tantos anos que tinha. Apertou minha mão e sorriu.

– Como vai? Fez boa viagem?

Respondi que sim.

– Venha comigo. Minha sala é por aqui.

À medida que caminhávamos em direção à Redação, pude avistar vários corredores longos e pessoas indo e vindo com papéis e pastas na mão. Seria fácil me perder naquele labirinto...

– Andréa, este é o Michelson. O da foto, lembra?

– Ah, sim, lembro – ela não conseguiu esconder o sorrisinho maroto. – Como vai?

A secretária do pastor Lessa era bem simpática, gentil e prestativa. Tempos depois, ela acabaria me revelando o “mistério” da tal foto. Meses antes da entrevista eu havia enviado um artigo acompanhado de uma foto. A única foto boa que eu tinha de terno e gravata havia sido tirada no intervalo de um curso para jovens realizado no antigo Centro Adventista de Treinamento (Catre), em Itapema, SC. Era Inverno e a Débora eu caminhávamos pela praia. Subi num brinquedo que tinha uma tela e nela havia um buraco. Coloquei o rosto ali e a Débora me fotografou. Gostei da foto. Pensando que na editora poderiam “recortar” meu rosto, enviei a foto junto com o artigo.

Algum tempo depois, vasculhando os arquivos, a Andréa localizou minha foto e mostrou ao pastor Lessa.

– Esse é o Michelson? – ele perguntou.

– Sim – ela respondeu, e completou: – Não parece que ele está num galinheiro?

Os dois caíram na risada. E por isso tiveram que conter o riso quando o “moço do galinheiro” apareceu na Redação.

O “moço do galinheiro”
Quando entrei na sala do redator-chefe, fiquei maravilhado. Atrás da cadeira dele havia uma estante de madeira cheia de livros. Na parede à direita, dois quadros com pinturas de cenas bíblicas ornamentavam o ambiente. Sentei-me em frente à mesa de madeira escura e, enquanto o pastor Lessa me fazia várias perguntas – relacionadas à minha conversão, passando por meu casamento e atuação na igreja, até o meu trabalho na escola adventista de Florianópolis e na Rádio Novo Tempo –, estremeci só de pensar que daquela conversa dependia todo o meu futuro. Elevei a Deus uma prece silenciosa.

O sinal do meio-dia soou, interrompemos a conversa e fomos almoçar no refeitório da empresa. A comida era vegetariana e centenas de funcionários faziam suas refeições ali todos os dias. Depois do almoço, sempre dava fazer uma caminhada em meio aos jardins. Que contraste entre aquele ambiente tranquilo e o corre-corre dos meus dias em Florianópolis, quando mal dava para engolir o almoço antes de entrar no ar.

À uma hora, o pastor Lessa e eu estávamos de volta à sala dele. Depois de mais alguns minutos de conversa e uma prova oral de conhecimentos gerais, fui submetido a um exame escrito de gramática, na sala de reuniões da Redação – apropriadamente batizada de Sala de Reuniões Guilherme Stein Jr., já que esse pioneiro havia sido o primeiro editor a produzir literatura adventista em língua portuguesa, além de ter sido o primeiro converso da Igreja Adventista batizado no Brasil.

Às quinze horas, o sinal soou novamente, deixando-me confuso. Seria o fim do expediente, tão cedo? Depois fui informado de que além dos costumeiros sinais de início e fim da jornada de trabalho e do intervalo para almoço, o sinal soa às nove e às quinze horas, avisando os funcionários de que é o momento da pausa para oração. Onde quer que esteja, a pessoa – funcionário ou visitante – é convidada a participar de uma prece pelo trabalho desempenhado na editora e pela pregação do evangelho. Aquilo me deixou impressionado.

Terminado o exame, fui levado para um tour pela editora. Pude ver as enormes impressoras planas e a rotativa de vários metros de comprimento, capazes de imprimir milhares de páginas por hora com textos que salvam e instruem. Pude ouvir algumas histórias relacionadas com a editora, como a do ex-presidiário transformado por um folheto. Quando foi libertado, ele não sabia que rumo dar a sua vida. Sentado numa sarjeta após a chuva, ele pôde ver um pedaço de papel amassado vindo em sua direção, boiando no fio de água que corria embaixo de suas pernas. Ele pegou o folheto impresso pela Casa Publicadora Brasileira, leu a mensagem, procurou uma igreja adventista, recebeu estudos bíblicos, foi batizado e começou nova vida.

Essa era apenas uma entre muitas histórias que mostram que a CPB é mais do que apenas uma editora de livros e revistas. Seria bom demais fazer parte dessa história, dessa missão...

À noite, depois de me levar para jantar, o pastor Lessa gentilmente me mostrou a cidade de Tatuí, também conhecida como “cidade da música”, devido ao fato de abrigar um famoso conservatório musical mundialmente conhecido. O centro da cidade fica a uns dez quilômetros da CPB. O município tem quase duzentos anos, mas a população não passa muito de cem mil habitantes e dá para contar nos dedos o número de edifícios. No entanto, o que me chamou a atenção mesmo foi a quantidade de praças na cidade. Pareceu-me haver uma por quarteirão.

Às 23h30 embarquei no ônibus que me levaria a Curitiba, onde tomaria outro para Florianópolis. Dormi pouco na viagem que durou toda a madrugada, pois o veículo parava muito e minha mente estava fervilhando de pensamentos e sonhos. Mal via a hora de poder contar para a Débora tudo o que eu havia visto.

*****

Trinta longos dias se passaram sem que eu recebesse qualquer notícia da Casa Publicadora Brasileira. Já estava me consolando com o pensamento de que havia sonhado alto demais, afinal, eu era apenas um jovem recém-formado, sem muita experiência em jornalismo e menos ainda do ramo editorial. Devia haver muita gente interessada no cargo que eu poderia ocupar na editora. Então por que eu?

Enquanto aguardava a quebra do silêncio angustiante, lembrei-me de algumas cartas que havia trocado com um jornalista adventista que, como eu, dava aulas de História em Curitiba. Ruben Dargã Holdorf era também repórter do jornal O Estado do Paraná (hoje ele é professor no curso de Jornalismo do Unasp). Não sei bem como iniciamos a correspondência (na época ainda não usávamos e-mail), só sei que procurávamos animar um ao outro, pois nosso desejo era de contribuir na obra de Deus por meio de nossos talentos e formação.

Numa dessas cartas, datada de 14 de julho de 1997, Dargã escreveu: “Graças ao poder divino, temos suportado todas as provas, galgando sempre novos degraus e, assim, aperfeiçoado nosso caráter. Fique certo de que estaremos orando para o Senhor apresentar a você e sua família Seus planos. Confie nEle e aceite o que vier. Viva o presente, confiando que o futuro pertence a Ele somente. Mais para frente Deus repartirá com você Seus anseios e desejos. Nós também vivemos uma tremenda expectativa, mas aprendemos, após muito apanhar, que, às vezes, precisamos nos aperfeiçoar mais na escola da vida, do dia a dia. Assim, nossa esperança cresce.”

De fato, o sofrimento e as lutas nos preparam para enfrentar a vida. Moisés teve que passar quarenta anos no deserto pastoreando as ovelhas do sogro, até que Deus o considerou apto para a tarefa gigantesca de guiar milhões de pessoas à terra prometida. Paulo também teve sua escola no deserto antes de poder falar às multidões. Longe de querer me comparar a esses gigantes da fé, o que quero destacar é que o meu “deserto” durou pouco: apenas dois anos e meio.

Numa manhã de abril, o telefone tocou na redação da rádio. Era o presidente da Associação Catarinense.

– Olá, pastor. O senhor tem alguma notícia para mim?

– Tenho sim. Mas não sei se é o que você gostaria de ouvir...

Não sei por que, tive a impressão de que ele estava brincando comigo e tentei averiguar.

– O senhor está brincando...

– Estou, sim, filho. Pode arrumar as malas. A CPB te chama. Eles precisam de um editor associado para livros didáticos. Alguém que escreva bem e que tenha experiência em sala de aula. Parece que acharam a pessoa certa.

Livros didáticos! O pastor Lessa tinha comentado isso comigo durante a entrevista, mas na ocasião eu não me havia dado conta de como as coisas se encaixavam perfeitamente e de como o meu “deserto” realmente não fora tão prolongado. Meus dois anos e meio de experiência em sala de aula haviam sido o verdadeiro teste; a preparação adequada. E pude constatar mais uma vez que o trabalho bem feito, não importa qual seja – se numa metalúrgica ou numa escola –, é um verdadeiro cartão de visitas que depõe contra ou a favor de nós. Conforme escreveu Ellen White, “aquilo que merece ser feito, merece ser bem feito” (Mensagens aos Jovens, p. 145).

*****

No dia 1º de maio de 1998, um dia frio de feriado, entramos na casa alugada em que moraríamos a partir dali. Uma casa de meio lote no bairro Junqueira, em Tatuí. A casa estava praticamente vazia, pois não tínhamos mobília. Mas era a nossa casa. A partir dali iríamos ter nossa vida. Era como se estivéssemos começando a vida de casados. Uma nova vida em todos os sentidos.

O escritório na Redação da Casa Publicadora Brasileira (2005)
No dia seguinte, abri a porta da minha sala na redação da Casa Publicadora Brasileira. Sentei-me na cadeira giratória em frente ao computador. Contemplei o jardim que podia ser visto através da janela do escritório. O céu estava azul, sem nuvens. Com um sorriso nos lábios, repeti em pensamento: “Bom é o Senhor para os que esperam por Ele, para a alma que O busca.”

Tuesday, February 08, 2011

Capítulo 20 - Um só coração

Débora Borges

“Dar-lhes-ei um só coração e um só caminho, para que Me temam todos os dias, para o seu bem e bem de seus filhos” (Jeremias 32:39).

Era o nosso terceiro ano de namoro e eu não conseguia mais imaginar a vida sem meu amado. Mas as circunstâncias não eram favoráveis para pensar em casamento, pelo menos não naquele momento. Não tínhamos condições financeiras de ter nossa casa própria e de manter um lar. O Michelson não conseguia trabalho em sua área de formação (comunicação), pelo fato de ser fiel aos mandamentos de Deus e guardar o sábado bíblico. Além disso, ele dava poucas aulas na escola adventista. Eu era recém-formada no ensino médio e ainda estava pensando em me preparar para cursar uma faculdade no ano seguinte. Mesmo assim, sentia que Deus nos ajudaria de alguma forma, e ao pensar no futuro, meu coração se enchia de esperança de que nossa situação iria melhorar. Então, apesar de não termos dinheiro suficiente, marcamos a data do casamento para o fim daquele ano de 1996, e eu comecei a sonhar com o grande dia.

No segundo semestre, surgiu a oportunidade de eu substituir uma auxiliar de professora numa creche da rede estadual. Era uma experiência nova que me marcaria a vida. Aprendi muitas coisas, principalmente o que fazer e o que não fazer no relacionamento com crianças e com as famílias delas. Na verdade, aquele emprego acabou me influenciando para cursar Pedagogia anos depois.

O salário na creche era baixo, mesmo assim, foi possível guardar um pouco de dinheiro para ajudar nas despesas do casamento. Além do mais, eu gostava de trabalhar lá e apreciei as amizades que fiz.

No primeiro dia de trabalho, a professora que eu iria auxiliar, a Stela, percebeu que eu era religiosa e me abordou com a pergunta: “Você acha que Deus pode perdoar qualquer pecado? Qualquer um?” Ela revelou angústia e inquietação no olhar. Procurei assegurar-lhe de que o amor de Deus é incondicional – eu sabia disso por experiência. Ele nunca deixa de nos amar e está sempre disposto a nos perdoar e nos dar uma chance de mudar. Ela me pediu para confirmar isso várias vezes e me fez muitas perguntas sobre a Bíblia. Ofereci-me para estudar a Palavra de Deus na casa dela, nos sábados à tarde, e ela aceitou com alegria.

Uma professora de outra classe sempre ficava me observando quando nos encontrávamos. Eu achava que ela não gostava de mim porque minha tia havia sido noiva do esposo dela e aquela reação à minha presença poderia sem algum tipo de implicância. Um dia, no horário do lanche das professoras, ela sentou ao meu lado e me perguntou em alto e bom som, para que todas pudessem ouvir:

– E aí, Débora, você que conhece bem a Bíblia, diga para nós quando é que Jesus vai voltar.

Olhei para ela e vi que estava sorrindo. Interpretei aquilo como deboche e senti o rosto ficar quente. Devo ter corado, mas procurei responder com calma, porém, num tom de seriedade:

– A Bíblia diz que o dia e a hora ninguém sabe, mas Jesus nos deixou alguns sinais que mostram a proximidade desse dia.

– É mesmo? Eu gostaria de saber mais sobre isso – ela disse com sinceridade na voz. – Posso estudar a Bíblia com vocês, na casa da Stela?

Fiquei tão surpresa que não soube o que dizer naquele momento. Estava esperando provocação, mas, na verdade, ela queria mesmo conhecer as Escrituras Sagradas. A partir daquele dia, nos tornamos grandes amigas e ela passou a estudar a Bíblia conosco.

Nosso grupo de estudos foi crescendo. A coordenadora da creche estava de licença por causa de depressão e ficou sabendo dos estudos bíblicos. Ela e o esposo pediram para se unir a nós. Depois de mais algum tempo, outra auxiliar nos contou que o marido havia estudado a Bíblia com um adventista. Na época, ela foi contra porque tinha muito preconceito. E de tanto brigar com ele por causa dos estudos, ele acabou desistindo. Mas ela começou a ler a lições dele e a compará-las com a Bíblia. Viu que o que ele havia estado estudando era correto e descobriu muitas coisas que não conhecia sobre Deus e sobre a vontade dEle. Agora ela estava arrependida de tê-lo feito desistir dos estudos, mas ele realmente havia perdido o interesse e não quis voltar atrás. Sabendo disso, a convidamos para se unir a nós nos estudos e ela concordou.

Infelizmente, a Stela, que motivou o início dos estudos na casa dela, não foi perseverante. Na verdade, ela nunca abriu de verdade o coração. Estava sempre agitada e não se concentrava no que estávamos estudando. A exemplo de Marta, irmã de Lázaro e Maria, ela ficava preocupada com outras coisas e mal conseguia se sentar para ouvir. Deixava que tudo ao redor interrompesse sua atenção e aos poucos foi colocando empecilhos para não continuar o estudo. Fiquei triste por ela. Era uma pessoa boa, mas nunca conseguia estar em paz – e eu sabia que Jesus podia dar-lhe a paz que ela desejava. Continuei orando por ela, mas tivemos que mudar o local da classe bíblica e prosseguir sem ela.

*****

Minha vida e do Michelson antes do casamento virou uma correria só e mal tínhamos tempo para namorar. Apesar de sentir muita satisfação por tudo o que fazíamos, minha esperança era de que depois de casados pudéssemos ter mais tempo para nós.

Como não tínhamos automóvel, perdíamos muito tempo no percurso entre um lugar e outro. Um dia calculei quanto tempo havia desperdiçado dentro dos ônibus e achei absurdo. O Michelson conseguia ler até em pé, nas viagens, mas eu ficava enjoada.

Desde a segunda série eu pegava ônibus para ir à escola. Na sexta-série, fui estudar em Florianópolis e aí a viagem demorava ainda mais. Se tudo corresse bem e o trânsito fluísse normalmente, levava uma hora para ir e uma hora para voltar. Mas, na volta para casa, o congestionamento era terrível e a viagem frequentemente levava até duas horas. Isso em um ônibus velho, com bancos desconfortáveis e cheirando a óleo queimado que eles passavam no assoalho do veículo. De vez em quando, via pessoas escorregando por causa daquele óleo. Não sei por que passavam aquilo no ônibus.

A pior parte da viagem era quando saíamos da BR 101 e entrávamos num bairro anterior àquele em que eu morava. Ali não havia calçamento. A estrada era de terra e cheia de buracos e curvas. Mesmo assim, os motoristas não diminuíam a velocidade e íamos literalmente sacolejando até chegar à Barra do Aririú. Quando a porta do ônibus se abria para sair ou entrar passageiros, junto entravam nuvens de pó. Se lambêssemos os lábios, dava para sentir o gosto do barro. Então, eu chegava em casa com odor de óleo misturado com poeira, e os cabelos quase nem mais balançavam.

A creche em que eu trabalhava não ficava tão longe de casa, mas era preciso tomar dois ônibus, ou apenas um e caminhar mais uns dois quilômetros. Eu preferia caminhar, quando não estava chovendo.

*****

O tempo ia passando e a data marcada para o casamento se aproximava. Eu ainda esperava por um milagre. Sonhava em pelo menos ter nosso cantinho para morar. Nem que fosse um cômodo e um banheiro, mas que pudéssemos ter nossa privacidade e começar a construir a vida juntos. Fomos até ver uma quitinete para alugar, mas qualquer aluguel consumiria a maior parte do nosso salário, e todos diziam que era jogar dinheiro fora. Não sabíamos o que fazer. E o Michelson ainda sonhava e fazia planos para cursar teologia. O futuro era bem incerto, mas orávamos e eu sentia que Deus estava cuidando de tudo. Eu me sentia mesmo como uma filhinha querida e confiava que meu Pai celestial cuidaria de nós, de um jeito que eu ainda não conhecia.

É claro que às vezes eu ficava ansiosa e surgiam sentimentos de angústia e vontade de ver tudo resolvido mais rápido e da maneira que eu queria, sem esperar que Deus fizesse do modo dEle. Mas ainda bem que Ele é soberano e dirige tudo, porque se Ele atendesse todos os meus pedidos, não sei onde estaríamos sofrendo hoje. É como escreveu C. S. Lewis, em seu livro O Problema da Dor:

“Quando queremos ser algo além do que Deus quer que sejamos, estamos desejando na verdade aquilo que não nos fará felizes. As exigências divinas que soam aos nossos ouvidos naturais mais como as de um déspota e menos como as de alguém que ama nos conduzem aonde deveríamos querer ir, caso soubéssemos o que desejamos” (p. 63).

Certo dia, o Michelson e eu fomos visitar a amiga Rafaela. Ela havia conhecido um jovem, filho de líderes da Igreja Adventista Central de Palhoça. Namoraram pouco mais de um ano e se casaram três meses antes de nós. A casa deles era pequena, mas bem bonitinha. Tudo era novo, ficava em um bairro razoavelmente bom, e o melhor: era deles. O Michelson pregou na igreja que ficava ali perto e passamos o dia lá. Foi muito agradável. A Rafaela amava muito o esposo e não mais parecia guardar qualquer ressentimento por mim. Conversamos muito sobre a Bíblia e também sobre os planos que tínhamos para o futuro. Mas, embora nosso casamento estivesse marcado, não sabíamos dizer onde iríamos morar ou quando poderíamos ter uma casa, como nossos amigos tinham.

Na volta para a casa dos meus pais, no ponto de ônibus, o Michelson notou que meu olhar estava um pouco triste e talvez ele tenha ficado meio chateado comigo. Como se pudesse ler meus pensamentos, ele disse:

– Eu sei que você gostaria de estar numa situação parecida com a deles. Só que enquanto ele trabalhava e guardava dinheiro para comprar casa e carro eu estava estudando e gastando dinheiro. Mas saiba que não me arrependo nem um pouco. O que ele tem pode acabar, mas o conhecimento que adquiri ninguém pode me tirar, e para mim vale muito mais.

Eu não queria que o Michelson sentisse aquele peso e nem desejava dar a impressão de estar fazendo qualquer tipo de comparação entre a vida deles e a nossa. Na verdade, eu também pensava como meu noivo, mas sonhava ter nossa casinha e não precisar mais perder tanto tempo andando de ônibus. Mas, definitivamente, bens materiais nunca foram a prioridade do Michelson. Ele só tinha interesse em continuar estudando e pregando o evangelho. Se Deus nos acrescentasse algo, seria muito bom, mas meu futuro marido não buscava lucro. Até hoje, quem se preocupa mais com a parte financeira de casa sou eu. E não reclamo disso.

Eu sabia que ele era uma pessoa muito especial, diferente daqueles que só pensam em acumular tesouros neste mundo. Ele me ensinou que nossa segurança, até mesmo financeira, reside em nossa dependência de Deus. Por isso, ao lado dele, eu me sentia tranquila, embora não tivesse quase nada concreto em que me apoiar. Mas, dentro de pouco tempo, nossa fé seria ainda mais severamente provada.

Numa noite de sexta-feira, uma prima que morava num bairro distante aguardava no carro com meus tios em frente à igreja. Fiquei muito surpresa ao vê-los ali nos esperando e mais ainda quando nos contaram o motivo da visita. Ela soube que eu iria me casar e veio nos oferecer um apartamento financiado que ela queria vender. Ficamos interessados, mas pedimos desculpas e explicamos que não iríamos conversar sobre negócios nas horas do sábado. Expliquei-lhes que era o dia do Senhor e que nós respeitávamos a Lei de Deus. Eles ficaram um pouco desconsertados, mas não insistiram e prometeram voltar no domingo pela manhã.

Fiquei completamente entusiasmada e queria crer que aquilo era uma resposta às minhas orações. Saí falando para todo mundo, sem nem saber se o negócio daria certo, porque eu queria muito que Deus nos desse um lugar para morar.

No domingo, eles levaram todos os papeis para nos mostrar: planta, contrato, fotos. Acreditamos cegamente que aquele plano havia “caído do Céu” e fechamos negócio sem ao menos ter ido ao local. Para o Michelson isso não importava muito, pois nos planos dele moraríamos lá por pouco tempo. A promessa era de que o apartamento ficaria pronto em fevereiro daquele ano, três meses depois do nosso casamento. Então, ele achava que ficaríamos lá apenas até o fim do ano, quando poderíamos vender o imóvel para ir para o Chile, onde o Michelson pretendia cursar Teologia. Ele se referia a essa ideia como “plano B”, já que o “plano A” (de estudar no Unasp) havia falhado.

Não seria fácil pagar as parcelas do apartamento e ainda manter as despesas normais de um lar. Não teríamos dinheiro para comprar mais nada. Ainda assim, contaríamos com a ajuda do meu pai para a alimentação ou qualquer necessidade extra que surgisse.

Eu estava feliz e preocupada. Muitas pessoas nos aconselharam a pensar melhor no negócio, mas eu nem me dei tempo para duvidar de nada. Queria que desse tudo certo, e pronto. Quais eram as nossas opções? Morar no “meu” quarto, na casa dos meus pais, ou pagar aluguel. E, se realmente fôssemos para o Chile no ano seguinte, teríamos feito um ótimo investimento, pois os imóveis costumam valorizar.

Na segunda-feira, providenciamos os documentos necessários e saquei o valor que minha prima pediu para cobrir o que ela já havia pago. Era exatamente o que eu tinha conseguido economizar. Lá no escritório da construtora, chamou-me a atenção uma jovem que estava muito impaciente. Ela falava nervosamente que não aguentava mais esperar e por fim saiu dizendo: “Eu desisto!” Perguntei para outra moça que estava ali o que havia acontecido para aquela mulher ficar assim tão nervosa, e a moça explicou que era pela demora na entrega do apartamento. Então fiquei sabendo que aquela já havia sido a terceira remarcação de data, e que provavelmente, pelo andamento das obras, dali a cinco meses o nosso apartamento ainda não estaria pronto. Mas a moça parecia bem mais otimista do que aquela que tinha saído aos gritos, e acreditava que no máximo até o meio do ano eles entregariam as chaves.

Fiquei um pouco desanimada ao pensar que teria que esperar tanto tempo, mas já que estávamos ali no escritório prestes a assinar o contrato, fomos adiante. Quem sabe eles conseguissem entregar o nosso apartamento antes do prazo...

Minha prima não havia mencionado absolutamente nada sobre essa demora e ficou um pouco envergonhada ao me ver descobrir tudo minutos antes de assinar os documentos. Eu simplesmente ignorei as evidências e a insegurança que estava sentindo. Ingenuamente e também constrangida de voltar atrás, quis manter o negócio e ainda acreditar que logo teríamos nosso lar.

Depois daquilo, os preparativos para a cerimônia e a festa de casamento absorveram toda a minha mente, meu coração e meu tempo. Nossos pais iriam dividir os gastos e dentro do orçamento me deram carta branca para escolher o que eu quisesse. Minhas ideias começaram a fervilhar. Passei a prestar atenção como nunca em vestidos de noiva, decorações... e reunia aquilo que eu achava mais bonito de cada casamento.

Vi um casamento em que os noivos paravam embaixo de um quadrado de flores (que não eram naturais) em frente ao pastor. Achei lindo e quis fazer um arco de flores para nós, mas com flores naturais e bastante verde. Assisti a outro casamento em que os pilares dos arranjos do corredor eram de vidro e iluminados. Então comecei a pensar como seriam os nossos. Fui a algumas floriculturas a procura de bons preços e de quem estivesse disposto a materializar cada detalhe dos meus sonhos.

Na terceira tentativa, encontrei uma pequena floricultura no caminho da creche em que eu trabalhava. Na entrada do estabelecimento, havia uns suportes (pedestais) que mais pareciam colunas romanas, com lindos arranjos de flores. Perguntei se aqueles suportes poderiam ser usados nos corredores da igreja, no meu casamento, e a Rita, a proprietária, disse que sim e também concordou em fazer o arco de flores, e tudo por um ótimo preço. Ela era muito simpática e atenciosa, e vibrava comigo imaginando como tudo ficaria lindo.

Pendurada na parede havia a foto de um bebê. Quando perguntei quem era, lágrimas rolaram pela face da mulher. “É minha bebezinha. Ela morreu no ano passado com quatro meses de vida. Os médicos não descobriram o motivo. Dizem que foi morte súbita.”

Então, falei-lhe sobre a volta de Jesus e a ressurreição. Quase todos os dias eu passava lá, conversávamos sobre o casamento e sobre as promessas de Deus de nos dar a vida eterna em companhia daqueles a quem amamos. Tenho certeza de que foi Deus quem me encaminhou especificamente para aquela floricultura.

O tempo voava e eu vivia sonhando acordada. Queria que tudo saísse do jeito que eu havia planejado. A ansiedade estava tomando conta de mim. Para os homens, esses detalhes talvez não importem tanto, mas para a maioria das mulheres o dia do casamento e de se vestir de noiva é como viver um dia de princesa parecido com os contos de fada da infância.

Eu estava vivendo um sonho e quase nem mais pensava nos dias que se seguiriam à cerimônia e à festa; em nosso futuro. Achava que o assunto do apartamento estava caminhando muito bem e logo tudo estaria finalmente resolvido. Eu só pensava no “grande dia”; no momento em que eu entraria na igreja vestida de branco.

A Rita disse para não me preocupar com a decoração, pois as noivas ficam tão nervosas durante a cerimônia que praticamente não notam nada. Foi a pior coisa que ela poderia ter me dito, porque coloquei na cabeça que iria reparar em cada detalhe! Só uma coisa poderia estragar tudo: a possibilidade de eu chorar. Se começo a chorar, não paro mais. Perco o controle das emoções. Todos os dias eu orava pedindo a Jesus que não me deixasse chorar. Era um pedido especial e eu sabia que somente Deus poderia segurar minhas lágrimas.

Quanto mais o grande dia se aproximava, mas a correria para deixar tudo pronto se intensificava. Para piorar minha tensão, tivemos alguns contratempos com coisas muito mais importantes do que a decoração. Simplesmente duas semanas antes do dia do casamento, os responsáveis pelo buffet que eu havia contratado me disseram que não seria mais possível realizar a festa no salão combinado.

– Como assim?! Faltam apenas duas semanas para o casamento, os convites foram distribuídos... O que vou fazer?

Os cozinheiros da festa haviam prometido alugar um belo salão com vista para a ponte Hercílio Luz, no clube da empresa da qual eles eram funcionários. Mas, àquelas alturas, eles tinham descoberto que só poderiam usar o salão pagando uma taxa irrisória se fosse para a família deles. Do contrário, o valor cobrado seria muito maior. Nossos recursos já estavam comprometidos e ficamos sem saber o que fazer.

Há situações em que só nos resta chorar. E foi isso mesmo o que fiz. Procurei a diretora do clube, expliquei-lhe a situação e comecei a chorar diante dela. Mesmo assim, ela disse que só poderia me ajudar com cinquenta por cento de desconto. Foi uma ajuda válida e valeu cada lágrima.

Estava tudo quase perfeito. Mas, por mais que tentemos, parece que sempre ficam detalhes para resolver no último dia, no último momento. De manhã, eu quis ir até a igreja para ver como estava a decoração. Quando cheguei com o Michelson, fiquei totalmente frustrada. Eu havia combinado que seriam flores em tom pastel, mas os decoradores estavam colocando todo tipo de flores e cores. Tive a impressão de que deviam ser sobras de outro casamento realizado no sábado, pois, além de tudo, estavam um pouco murchas. Quando vi os pedestais no corredor, desanimei de vez. Disseram-me que não era possível usar os que eu havia escolhido porque eram muito pesados. Em lugar deles, acabaram levando uns de madeira rústica. O Michelson percebeu meu olhar de tristeza e decepção. Então, as palavras dele conseguiram me animar e despertar para a realidade:

– Débora, vai ficar bonito. As cores fortes darão mais vida, as fotos ficarão mais bonitas. Ninguém vai reparar nos pedestais. Não fique preocupada; confie neles. Eles sabem o que estão fazendo.

Aquelas palavras me fizeram pensar no que realmente era importante. Fiquei tão feliz em olhar para meu noivo e por tê-lo ao meu lado! Agradeci a Deus porque eu estava vivendo aquele dia e iria me casar com o amor da minha vida, um homem tão bom e temente a Deus.

Apesar de todos os detalhes não terem ficado como eu havia planejado, consegui relaxar e pensar que depois de tudo o que ficaria na memória das pessoas eram a impressão do nosso amor, a felicidade e a presença de Deus.

Na verdade, acho que não foram somente as palavras do meu noivo que me acalmaram, mas, sim, a atitude dele. Ele me transmitia segurança. O Michelson conseguia sempre ser otimista e dificilmente perdia a calma. Eu era bastante ansiosa e muitas vezes via as dificuldades maiores do que realmente eram, só para perceber, no fim das contas, que a maioria dos meus temores não se concretizava. Com o tempo, fui aprendendo a me entregar realmente nas mãos de Deus e parar de antecipar sofrimentos, uma vez que “Ele tem cuidado de [nós]” (1 Pedro 5:7) e sempre convida: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei” (Mateus 11:28).

Depois de todo o estresse e da correria, mal acreditei que havia chegado à porta da Igreja Adventista de Campinas, em São José, pontualmente às dezenove horas, como combinado. Estava ali pronta para entrar, quando vieram correndo me avisar para não sair do carro porque o pai do Michelson havia ido levar o bolo ao salão de festas e estava preso no congestionamento de Verão, na BR 101, próximo à entrada de Florianópolis. Naquele horário, os turistas costumavam sair das praias e o trânsito ficava extremamente lento. Por isso, fiquei ali esperando por uma hora até o pai do noivo chegar! Só que, como a noiva sempre leva a culpa, todos pensaram que eu havia chegado atrasada para a cerimônia.

Finalmente, ouvi a marcha nupcial. Parecia um sonho! Aquela música me encheu de emoção, e quando fitei o Michelson com olhar de cumplicidade, as lágrimas ameaçaram jorrar. Imediatamente clamei a Deus em pensamento e O lembrei do nosso acordo: “Por favor, Senhor! Não me deixe chorar!” “Engoli” o choro e continuei sorrindo.


A cerimônia foi singela, mas o pastor Ademar Paim conseguiu tocar o coração dos convidados. À porta, pude notar que todos estavam emocionados e transmitiam sentimentos de carinho e contentamento. Foi muito gostoso receber tantos abraços amistosos e sinceros. Parecia que as pessoas estavam exalando amor. O clima era de felicidade e esperança, não somente em relação a nós dois. Pude sentir que o sermão e as músicas – uma das quais cantada pela Emanuela – haviam promovido um verdadeiro reavivamento entre as famílias.

Geralmente, os casais dizem que não conseguem comer em sua festa de casamento. No entanto, toda a tensão daquele dia havia me deixado faminta. Agora eu estava tranquila e realizada. Fiz questão de comer muito bem e de aproveitar cada momento. Infelizmente, o tempo passou rapidamente e algumas pessoas tiveram que ir embora – principalmente alguns parentes que moravam longe – sem conversar conosco. Tive a sensação de que algo estava faltando. Mas era uma grande ilusão pensar que seria possível dar atenção a todos os duzentos convidados.

No dia seguinte, dois jovens felizes e cheios de sonhos caminhavam de mãos dadas por uma praia deserta, em Garopaba, SC. O dia estava nublado e não muito quente, fazendo com que a praia fosse só “nossa”. Acho que estava estampado em nosso rosto: “Recém-casados!” Estávamos simplesmente “abobalhados”. Às vezes, fixávamos o olhar um no outro e caíamos na risada. Então o Michelson me abraçava e sussurrava: “Minha esposa”, e eu devolvia: “Meu marido.” Era como se estivéssemos dizendo repetidamente: “Casei! Casei! Casamos! Nem acredito!”

Minha tia Roseli havia sido muito bondosa em nos emprestar por uma semana a casa de praia da família dela. Ali tivemos uma amostra do que é viver casados e ter nosso próprio cantinho para construir nova vida juntos. Foram momentos preciosos e inesquecíveis. Uma confirmação de que os planos de Deus para o ser humano sempre são os melhores.


Depois que a lua de mel acabou, tivemos que voltar para a casa dos meus pais e ajeitar nossos poucos pertences no “meu” quarto: a cama de casal que havíamos ganhado de presente do tio João, uma estante de livros do Michelson, a escrivaninha usada dele e um aparelho de TV velho que ele tinha ganhado quando era criança. Os outros presentes ficaram encaixotados na sala de estar, até que nosso apartamento ficasse pronto e pudéssemos levar tudo para lá. Era só uma questão de meses, pensávamos, sem saber o que nos aguardava.

Com o passar do tempo, nossa esperança de morar no apartamento foi se transformando em angústia. Cada vez que chegava a data marcada para a entrega das chaves, havia nova remarcação de datas. Não víamos progresso na construção, apesar de os pedreiros estarem na obra. Dos quatro prédios do projeto, apenas um tinha sido levantado, e não era o nosso. A construtora alegava muita inadimplência, mas nós estávamos pagando fielmente em dia, com muito sacrifício. A maior parte do salário do Michelson era usada para pagar as prestações e o restante apenas cobria as despesas dele com transporte e alimentação. Ou seja, ele estava trabalhando apenas para pagar o apartamento. Se quiséssemos comprar algo ou passear, tinha que ser com o meu salário mínimo. Por isso, tudo era bem calculado e racionado.

Meus pais demonstraram muita bondade em nos acolher. Morávamos na casa deles sem contribuir com nada. Aquela situação era muito desconfortável para nós.

O fim do ano foi chegando e pude ver que o cansaço e o desânimo estavam quase vencendo meu marido. Ele estava profissionalmente insatisfeito, pois havia se preparado para ser jornalista e não professor de adolescentes. Quando ele chegava em casa, depois do longo percurso em um ônibus lotado, eu percebia no rosto abatido sinais de frustração. Falar do “Plano B” era única coisa que o reanimava.

Fazia algum tempo que o Michelson estava se comunicando com um amigo que cursava Teologia no Chile. Ele até havia comprado a Lição da Escola Sabatina em espanhol e estava tomando algumas aulas com um colega professor que tinha morado na Argentina. O valor das mensalidades da faculdade adventista lá era mais baixo do que no Brasil. Então, o “Plano B” consistia em vender o apartamento quando ele ficasse pronto, a fim de que, com o dinheiro, pudéssemos começar os estudos no outro país, no ano seguinte. Poderíamos ter guardado dinheiro naquele ano, mas acho que o Michelson decidiu investir no apartamento mais por minha causa, para satisfazer meu desejo de ter um lar.


"Meu" quarto, nossa primeira "casa"

Mas o sonho nunca se concretizou. O ano terminou e ainda morávamos no “meu” quarto. Colocamos um anúncio no jornal para vender o apartamento “em construção”, mas ninguém se interessou em comprá-lo naquelas condições.

Estávamos agora meio desnorteados. O contrato previa devolução de certa quantia do dinheiro pago, caso desistíssemos do plano. Mas iríamos perder boa parte do valor investido. Eu estava esperando saber que rumo iríamos tomar, para decidir onde faria minha faculdade. Enquanto esperava, me matriculei no curso de Pedagogia da UFSC, como aluna especial. A vantagem era que, se depois eu passasse no vestibular, poderia eliminar as matérias que já havia cursado.

Em fevereiro do ano seguinte, nossas esperanças em relação ao apartamento foram totalmente desfeitas. A construtora declarou falência e o dono acabou se suicidando. Agora não tínhamos nem mesmo a chance de reaver parte do dinheiro. Com isso, o “Plano B” também afundou. Não tínhamos um “Plano C” – mas não sabíamos que Deus tinha.

Quando o Michelson chegou em casa com a triste notícia da falência da construtora, meu mundo desabou. Foi muito difícil dormir naquela noite. De manhã, meus olhos estavam inchados de tanto chorar. Quis perguntar a Jesus por que Ele havia permitido tudo aquilo. Mas me lembrei de que quando fechamos o negócio não havíamos consultado a Deus como deveríamos. Apesar de todos os sinais contrários, fui teimosa e escolhi ser iludida. Coloquei minha vontade acima de tudo.

Mas Deus é muito bom e nunca deixa de nos amar. Embora às vezes tenha que permitir que soframos as consequências de nossas más escolhas, Ele nunca nos abandona. Mais uma vez pude sentir a mão dEle segurar a minha. Depois de orar, tirei da caixinha de promessas um cartãozinho com um verso bíblico: “O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5). Aquela “noite” parecia tão longa, mas ainda teria fim.

Decidimos ir até a Associação Catarinense conversar com o diretor de educação. Queríamos expor nossa situação e pedir que ele ajudasse o Michelson a conseguir mais aulas ou alguma maneira de ele obter ajuda para um aluguel. Na verdade, queríamos mais era desabafar e ver se ele poderia nos dar algum conselho, apontar uma luz no fim do túnel que para nós parecia ficar cada vez mais escuro e estreito.

No trajeto para lá, ainda no ônibus, senti mais uma vez o toque de Jesus me consolando. Sintonizei meu rádio portátil na emissora adventista Novo Tempo, coloquei os fones de ouvido e comecei a ouvir uma música muito bonita. Senti como se aquela letra houvesse sido escrita especialmente para mim. Ela falava de uma promessa bíblica muito preciosa: “Serei contigo na alegria ou na dor. Quando orares, Eu te ouvirei. Lutarei nas batalhas que o mal te trouxer. Serei contigo, serei contigo, pois Eu sou teu Deus.” A música era cantada pelo grupo Harmuss, mas, para mim, parecia a voz de Deus me falando ao coração: “Filha, Eu estou vendo tudo; a vida de vocês Me pertence. Eu estou no controle. Nunca vou deixá-la.”

Ali, no ônibus, as lágrimas brotaram mais uma vez. O Michelson me olhou com compaixão, apertou mais forte a minha mão e encostei a cabeça no ombro dele. Ele ainda não sabia, mas Deus já estava me confortando. Eu sentia que Deus tinha reservado algo de bom para o nosso futuro, só não sabia exatamente o quê.

O diretor do departamento de educação foi muito atencioso conosco e demonstrou grande empatia. Depois de pensar um pouco sobre como poderia nos ajudar, ele fez algumas ligações telefônicas. Não havia espaço para o Michelson dar mais aulas, mas existia a possibilidade de ele trabalhar em algo que lhe daria mais prazer. Naquela época, a rádio Novo Tempo de Florianópolis tinha sido recém-inaugurada e estava precisando de jornalista para produzir um jornal diário. O diretor da rádio ficou interessado e marcou uma entrevista com meu marido. Na semana seguinte, ele já era o novo membro da equipe da emissora.

Como a rádio estava começando suas atividades, tinha orçamento apertado. Por isso, o Michelson iria trabalhar somente algumas horas por dia. O salário aumentou um pouco, mas o que mais lhe trazia satisfação era o fato de poder atuar na área de formação dele. Fiquei feliz em vê-lo mais animado.

Foram feitos arranjos na escola para que o horário das aulas não coincidisse com o expediente na rádio. Mesmo assim, era difícil chegar a tempo nos dois lugares. O Michelson precisava sair correndo da escola, pegar ônibus e cruzar a ponte a fim de chegar à rádio. Depois do almoço com tempo cronometrado, ele ajudava a apresentar o jornal ao vivo e em seguida voltava para a escola. Alguns dias nessa correria foram suficientes para o Michelson decidir:

– Vamos comprar um Fusca.

– Um Fusca?! Eu não gosto do cheiro de Fusca. Não pode ser um Chevette, um Fiat 147, qualquer outro?

– Não. Meu pai começou com um Fusca. Todo mundo na minha família começou com um Fusca.

– Detesto barulho de Fusca.

– Você vai se acostumar. O Fusca é um carro forte, de manutenção barata. Não podemos ter um carro velho que fique quebrando a toda hora. Vamos guardar dinheiro neste ano e o Fusca é só para nos ajudar em nossas necessidades. Será um veículo missionário.

O Fusca azul 1973
Assim, nosso fusquinha azul-claro se tornou um grande “companheiro” de atividades, de viagens para Criciúma e de trabalho missionário. Eu até estava começando a gostar dele. Sem dúvida, era bem melhor do que andar de ônibus. Para os admiradores de Fuscas, ele era lindo. Tinha sido fabricado em 1973 e era todo original. As calotas eram cromadas e o pegador da marcha tinha um caranguejo dentro do plástico transparente. Eu achava superbrega.

A verdade é que o Fusca nos ajudava a ganhar tempo e, com ele, conseguíamos dar mais estudos bíblicos. Se algo estava nos trazendo alegria e satisfação no meio daquele turbilhão de desapontamentos, eram as pessoas sinceras que Deus colocava em nosso caminho para estudar a Bíblia.

Aquele grupo de estudos que começou com minhas colegas da creche já havia rendido frutos. A Simone e a Alessandra entregaram a vida a Jesus e foram batizadas naquele mesmo ano. O Pedro Daniel e a esposa, Salete, ainda não haviam tomado a mesma decisão das duas, mas sabíamos que eles eram pessoas especiais e que no momento certo a semente da Palavra de Deus germinaria também no coração deles. E foi o que aconteceu algum tempo depois. A semente frutificou mesmo!

Em janeiro de 2011, quando o Michelson e eu visitamos a Igreja Adventista do Rio Grande, em Palhoça (não muito longe da Barra do Aririú), encontramos lá o Pedro, a Salete, a Alessandra e o esposo dela. Mas não foi apenas isso. O filho da Salete e a filha da Alessandra, Filipe e Monique, na época dos estudos bíblicos eram apenas crianças. Em 2011, os dois, além de noivos, haviam se tornado líderes daquela igreja em fase de organização. Eles fazem um trabalho parecido com o que meu esposo e eu fazíamos na Barra. Vimos o cumprimento da promessa de Eclesiastes 11:1: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás.”

Frutos da classe bíblica iniciada com colegas da creche; no centro, Filipe e Monique

Depois da conversão da Simone e da Alessandra, ainda estudamos a Bíblia com mais dois casais. Certo dia, encontrei no ônibus uma amiga de infância. Deixei com ela um folheto bíblico e anotei nele meu telefone. Ela ligou alguns dias depois pedindo estudos bíblicos. Ficamos muito felizes em poder iniciar os estudos com ela e o esposo. Eles tinham verdadeira sede da Palavra de Deus e muitas vezes nos emocionamos conversando sobre o amor de Jesus ao dar a vida por nós. Eles também se tornaram grandes líderes da igreja e levaram a muitas pessoas o conhecimento da mensagem de salvação. Em 2010, a filha mais velha desse casal foi estudar no Unasp e se tornou excelente colportora.

O outro casal com quem estudamos a Bíblia era formado por dois jovens que haviam aceitado o convite para assistir a uma série de palestras sobre saúde. Eles enfrentaram alguns obstáculos para conseguir cumprir a vontade de Deus, como o trabalho no sábado, por exemplo. Mas pouco a pouco Deus foi abrindo as portas e até uma nova profissão o moço pôde aprender. Depois de muitas lutas vencidas pelo poder de Deus, eles puderam ser batizados. Infelizmente, como ocorreu na parábola do semeador, eles acabaram permitindo que os problemas sufocassem a semente e abandonaram o convívio dos irmãos da igreja. Mas ainda podemos ter surpresas, como já aconteceu e acontece com outras pessoas que voltaram para Jesus. Deus por certo deve estar trabalhando no coração deles, de maneiras que nem imaginamos.

Envolvendo-nos com a salvação de outras pessoas não tínhamos tempo para lamentar nossa situação. Estávamos felizes e ocupados. Depois da fase do choro e dos questionamentos, passamos a sentir paz, contentamento e vivemos com a esperança de que Deus nos reservava um futuro melhor. Esse mesmo Deus que até ali havia conduzido nossas vidas, tornando-nos uma só carne e um só coração.

Thursday, November 22, 2007

Capítulo 19 – Planos e sonhos

Michelson Borges

“Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de Deus como missionário. Aquele que bebe da água viva, faz-se fonte de vida. O depositário torna-se doador” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 195).

Entre as muitas coisas que aprendi com meu “pai na fé”, o Vanderlei, uma delas é que para ser espiritualmente forte o cristão deve trabalhar para Deus e pelo semelhante – e isso ele me ensinou na prática, mesmo antes de eu ser batizado na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Depois que terminei o estudo do Apocalipse e mais uns dois outros cursos bíblicos, o Vanderlei me convidou para ministrar estudos bíblicos para um jovem que morava no bairro Pinheirinho, em Criciúma. De início, o Vanderlei explicava os temas para o rapaz, mas com o tempo foi me passando essa responsabilidade e apenas completava meus comentários. Ele teve a mesma atitude de Jesus com os discípulos dEle: treinou-os para o discipulado. Tenho mais essa dívida de gratidão com o meu “pai na fé”.

No ano anterior à minha aprovação no vestibular da UFSC e de minha mudança para Florianópolis, meu pai havia me dado uma Mobilete usada que o Vanderlei e eu apelidamos de “Evangelista”, já que a usávamos para dar estudos bíblicos em lugares diferentes da cidade. A cena era até hilária, pois éramos grandes demais para a motoneta. Mas ela suportou bem o esforço. E pudemos partilhar as verdades bíblicas com muitas pessoas, inclusive com meus avós, Idalina e José (mais conhecido como Zé Tostão), e minha tia “Neca”. Nessa época, meu avô já estava com a saúde e a mobilidade bem comprometidas devido a alguns derrames cerebrais. A imagem que eu tinha dele era a de um homem forte, enérgico e carinhoso. Por isso era difícil vê-lo naquele estado. O Vanderlei e eu levávamos um velho projetor de slides, projetávamos belas figuras na parede e falávamos da esperança da volta de Jesus e da Nova Terra. Muitas vezes meu avô derramava lágrimas ao ouvir as promessas bíblicas.

Outra missão que nos impusemos foi voltar àquele bairro onde havíamos tido uma experiência missionária frustrada meses antes – e onde o Vanderlei tinha me feito compreender a incoerência de querer pregar o que eu não vivia. Dessa vez, conseguimos ensinar a Bíblia para umas quatro famílias.

Assim que fui batizado, fiz um pacto com Deus de, com a ajuda dEle, levar pelo menos uma pessoa por ano a Jesus. E Deus nunca falhou comigo. As primeiras pessoas que tive o prazer de ver passar pelas águas do batismo graças à atuação do Espírito Santo através do meu trabalho foram a minha mãe e a Emanuela. Em seguida, vieram a tia “Neca” e um jovem chamado Willian Bittencourte, que eu havia conhecido num trabalho missionário interessante no CIS, o colégio no qual eu havia completado o ensino médio.

Durante a aula de religião, uma aluna perguntou à professora sobre a besta do Apocalipse. Como a professora não sabia a resposta, outra aluna, que era membro da Igreja Adventista Central de Criciúma, disse que poderia convidar alguém para falar sobre o tema. A professora aceitou a proposta e a moça me pediu que fosse ao colégio para falar a sua turma. Quando cheguei lá, fiquei surpreso ao descobrir que aquela havia sido minha professora de religião no primeiro ano do ensino médio. Ela ficou muito feliz em saber que eu seria o palestrante. Mas, em lugar de falar sobre a besta do Apocalipse, fiz-lhe uma proposta: se ela me permitisse, poderia desenvolver o assunto em mais aulas, dando aos alunos uma visão geral do livro profético. Ela concordou e disse que eu poderia usar quantas aulas quisesse e que, além disso, poderia utilizar sua cota de fotocópias para reproduzir as lições. Era bom demais para ser verdade!

Foram várias sextas-feiras à noite lecionando gratuitamente para centenas de estudantes. Ao tomar o ônibus para ir para casa, pude perceber que um dos meus alunos – um rapaz de cabelos longos, pretos e escorridos – morava na mesma rua em que meus pais moravam. Fiz amizade com ele e sempre que a aula acabava íamos embora conversando sobre o assunto que eu havia apresentado. Depois, ao invés de ir para sua casa, o Willian parava na minha e ficávamos conversando sobre religião até altas horas da noite. Meses depois, tive que interromper as aulas no colégio (alguns pais de alunos começaram a reclamar da “pregação” deles em casa), mas prossegui os estudos com o Willian. Ele cortou o cabelo, leu o livro O Grande Conflito em algumas semanas, se apaixonou por Jesus e foi batizado. 


Lilian (Teca), Willian, Débora e eu, em Joinville, SC, 1994
Infelizmente, com minhas idas cada vez menos frequentes a Criciúma, o Willian acabou voltando a se relacionar com os antigos amigos e a se distanciar dos irmãos da igreja. Certa vez, convidei-o para ir à casa dos meus pais para conversarmos. Ele disse que estava enfrentando uma luta muito grande entre o que sabia ser o correto e o que gostava de fazer. Disse até que preferia não ter conhecido a verdade bíblica, pois agora se sentia como “uma formiga fora do formigueiro”, tanto na igreja quanto no “mundo”. Choramos muito naquela noite e eu disse que havia partilhado o que tinha de mais precioso com ele: Jesus. E que ele só seria realmente feliz ao lado do Mestre.

Mais tarde, para a minha tristeza, o Willian acabou abandonando a igreja. Orei durante quinze anos para que ele voltasse para Jesus, até que um dia recebi um e-mail que me deixou tremendamente surpreso. Mais vou deixar que o próprio Willian conte o que aconteceu:

“Meu primeiro contato com a mensagem adventista se deu por volta dos meus quinze anos de idade. Nesse período, eu cursava o ensino médio no Centro Interescolar de Segundo Grau Abílio Paulo (CIS), em Criciúma, SC. A professora de religião de então havia convidado um jovem chamado Michelson Borges para nos ministrar algumas aulas sobre o Apocalipse. Ao longo das aulas, acabei descobrindo que o Michelson morava próximo à minha casa. Sempre, no fim das aulas, pegávamos o ônibus de retorno juntos e ficávamos até altas horas da noite conversando sobre religião e a mensagem da salvação.

“Confesso que a inteligência daquele jovem me impressionava. Todos os questionamentos que eu lhe fazia sobre religião, muitos até em tom provocativo, ele me respondia com paciência e muita convicção. O tempo nos tornou verdadeiros amigos – desses de um frequentar a casa do outro e tudo mais.

“O tempo, a amizade, os estudos da Bíblia e de outros livros me levaram a aceitar Jesus. Fui batizado nas águas. Tornei-me adventista do sétimo dia. Foram realmente dias felizes em minha vida!

“Passado algum tempo, o Michelson precisou se ausentar de Criciúma, já que ele cursava Jornalismo na Universidade Federal, em Florianópolis, capital do nosso Estado. Sua ausência, aos poucos, tornou-se definitiva, e o Michelson passou a frequentar uma igreja em Florianópolis e a morar nessa mesma cidade. Como eu tinha poucos amigos na igreja, e como o Michelson agora pouco vinha a Criciúma, comecei a sair com meus antigos ‘amigos’. E aí deu no que deu. Acabei me afastando da fé.

“Já fora da igreja, me profissionalizei em contabilidade, também me formei em Direito e me pós-graduei em Processo Civil. Posteriormente, em 2005, abri juntamente com um sócio uma empresa na área de assessoria tributária. Obtive muito sucesso profissional. Atualmente [2010], me dedico à profissão de contabilista, sou advogado e empresário. Tenho 32 anos, sou casado e tenho um filho.

“Mas o que mais chama atenção em minha história é o plano que Deus tinha para mim. Sou obrigado a confessar que sempre fui uma pessoa muito ambiciosa. Sempre pensei em estudar para ganhar muito dinheiro. E, nesse aspecto, Deus foi muito generoso comigo. Coisas que jamais imaginei alcançar, mesmo em sonho, Deus me permitiu conseguir. Comprei carro importado dos mais modernos, terrenos em áreas nobres da cidade, cobertura duplex com piscina em bairro chique, frequentava festas sociais, Lions Club, e várias outras coisas com as quais muita gente sonharia.

“Todavia, mesmo tendo conseguido tudo isso, eu não era feliz. Vivia triste, desolado. Alguma coisa me faltava. Tinha tudo, e ao mesmo tempo não tinha nada. Algumas vezes, inclusive, pensei até em fazer coisas piores que não convém aqui nem mencionar...

“Sucesso profissional, bens materiais, juventude (apenas 32 anos de idade), uma linda esposa, um lindo filho, mas na verdade uma pessoa muito infeliz. Esse era o retrato da minha vida.

“Um dia, em uma reunião com um cliente na empresa (o nome dele é Celézio Morona), ele me questionou acerca de minha fé. E eu, muito tristemente, lhe respondi que não tinha nenhuma. Que era infeliz. Incomodado, ele me perguntou: ‘Mas como? E tudo isso que tu tens?’ Respondi-lhe que tudo não passava de ilusão!

“Disse-lhe, então, que na minha juventude havia frequentado uma igreja, e que, naquela época, embora não tivesse nada de bens materiais, eu havia sido muito feliz! Qual não foi minha surpresa quando, com alegria, meu cliente me disse que era adventista; que havia recentemente abraçado a fé e sido convertido. Ficamos, então, conversando por um longo tempo sobre esse assunto.

“Posteriormente, cada vez que esse meu cliente vinha à empresa, nós conversamos sobre religião. Certo dia, meu cliente me perguntou se eu não gostaria de voltar a estudar as Escrituras. Se eu aceitaria fazer estudos bíblicos ministrados por um pastor chamado Arildo Oliveira, segundo ele homem muito consagrado. Prontamente aceitei.

“Logo ao fim do meu primeiro estudo bíblico (numa sexta-feira à tarde), o pastor Arildo me convidou para ir à igreja no outro dia, sábado. Quem iria pregar era um pastor de Florianópolis, muito conhecido. A pregação seria na mesma igreja que eu havia frequentado quando jovem. Disse-lhe que iria pensar.

“No sábado pela manhã, acordei cedo, tomei coragem e fui ao culto. Chegando à igreja, meu coração disparou. Lembrei-me de todos os momentos felizes que havia passado ali naquele local. Mas a surpresa maior ainda estava por vir. Iniciado o culto, o assunto do sermão foi a história do jovem rico. Foi uma das pregações mais lindas que já ouvi em toda a minha vida. Deus estava falando comigo ali, naquele momento, disso eu tenha certeza! Chorei copiosamente o culto inteiro. Não tive vergonha!

“Confesso, aquele sermão me abalou demais. Fiquei estupefato. Tive certeza de que Deus estava me chamando. Chegando em casa, entrei no quarto do meu filho, fechei a porta em secreto, e orei a Deus com todo o meu coração, como nunca antes!

“Em profunda oração, questionei: ‘Meu Deus, se aquela mensagem sobre o jovem rico foi para mim, se o Senhor falou comigo, se o Senhor está me chamando, por favor, me dê um sinal aqui e agora, estou com Tua Palavra sob minhas mãos; vou abrir a Bíblia e se Tu tens alguma coisa para me dizer, me diga.’

“Por incrível que pareça, em lágrimas, ao abrir as Escrituras, deparei-me novamente com a história do jovem rico! Não tive dúvidas. Deus realmente estava me chamando! Tudo aquilo não podia ser coincidência!

“Na semana seguinte, disse ao pastor Arildo que queria ser rebatizado o mais rápido possível. Contei-lhe tudo que tinha acontecido e da certeza que tive de que Deus havia me falado! Fui rebatizado nas águas no dia 21 de novembro. Encontrei novamente minha felicidade!”

Pastor Arildo batiza o Willian, em novembro de 2009
Nem preciso dizer que essa história do Willian me comoveu profundamente, e me fez ter certeza, uma vez mais, de que os planos de Deus sempre são os melhores para nossa vida. Vale a pena semear a “boa semente”!

*****

Em Florianópolis, também aproveitei as oportunidades que Deus me ofereceu para partilhar o conhecimento de Sua Palavra. Assim que conheci melhor meus dois companheiros de república, ofereci-me para estudar a Bíblia com eles. Eles aceitaram a oferta e nos reuníamos uma noite por semana. Infelizmente, como nossos cursos eram integrais e estudávamos em vários períodos, nossas agendas não mais possibilitavam os encontros. Depois disso, comecei a dar estudos bíblicos para dois colegas de curso.

Quando soube que a Débora estava estudando a Bíblia com a amiga Teca, tive ainda mais certeza de que ela era a resposta às minhas orações, afinal, eu não havia pedido a Deus que simplesmente me enviasse uma namorada, mas que ela tivesse interesse na salvação das pessoas e espírito missionário. Pouco depois de termos iniciado o namoro, a Débora me convidou para dar estudos para sua mãe. A “dona” Lúcia foi batizada alguns meses depois, o que nos trouxe muita alegria.

Apesar do conselho do Sr. Palma (aquele adventista que vendia livros usados no campus e que me motivou a concluir a faculdade de Jornalismo), minha vontade de cursar Teologia ainda era forte.

Depois de quase três anos de namoro, a Débora e eu já falávamos em casamento, mas ainda não tínhamos a vida profissional definida. Meu salário na escola adventista (eu dava poucas aulas) e o dela na creche, como auxiliar de professora, não nos conferia a estabilidade econômica necessária para iniciar a vida a dois.

Foi então que surgiu um negócio de ocasião: uma prima da Débora havia comprado e queria vender um apartamento na planta, num plano habitacional cujas parcelas eu poderia assumir com meu pequeno salário. O “seu” Zulmar ofereceu um quarto da casa dele para a Débora e eu morarmos enquanto o prédio era construído. Praticamente todo o meu salário seria utilizado para pagar as prestações, mas acreditamos que seria um sacrifício válido. Além do mais, depois de estar com as chaves na mão, poderíamos até mesmo vender o apartamento e fazer outros planos. Fechamos o negócio.

Um pouco mais animado com a aquisição do apartamento (que ainda não existia, é verdade), convidei a Débora para irmos até o Instituto Adventista de Ensino (IAE, hoje Unasp), em Engenheiro Coelho, no interior de São Paulo. Eu sabia que as faculdades adventistas tinham planos para bolsistas e que o IAE tinha apartamentos para casais. Não custava tentar algo lá (já que na colportagem eu não havia me dado bem). Se Deus quisesse que eu fosse pastor, as portas se abririam.

Fizemos algumas economias e numa quinta-feira de outubro de 1996 embarcamos no ônibus rumo a São Paulo. Na bagagem, levava, além das roupas, meu portfólio com alguns trabalhos publicados – desenhos e textos. No coração, ansiedade; e na mente, muitos sonhos.

As horas e os quilômetros transcorriam cheios de incertezas. Mas era confortante ter minha noiva ali, ao meu lado, e saber que tanto ela quanto seus pais acreditavam em meu sonho e apoiavam meus projetos. Aquilo me deu forças para ir avante.

Desembarcamos muito apreensivos no terminal Tietê, o maior de São Paulo. Nunca havíamos visto tanta gente circulando rapidamente num só local. Pessoas de todo tipo caminhavam para lá e para cá. Parecia que estávamos no interior de um formigueiro. Segurando firmemente a bagagem e a mão um do outro (duvido que se alguém parasse para nos observar não perceberia que éramos do interior), caminhamos até o guichê da empresa que nos levaria até Campinas e de lá para Engenheiro Coelho. Fomos informados de que o ônibus passava bem em frente à entrada do colégio.

Colocamos nossas bolsas no bagageiro e nos sentamos nas poltronas. À medida que nos distanciávamos da Capital, a paisagem ia mudando. Era tudo bem diferente do que estávamos acostumados a ver no Sul. Não havia montanhas altas, nem tampouco – e obviamente – o mar aparecendo de quando em quando. O horizonte podia ser visto ao longe, entre colinas suaves e verdejantes, geralmente cobertas por pés de cana-de-açúcar. Os minutos se transformaram em horas e eu já estava ficando impaciente quando, finalmente, pude avistar a placa do colégio.

Pedi ao motorista que parasse ali e desembarcamos. Só então descobrimos que teríamos que caminhar uns cinco quilômetros até o portão do colégio. Olhamos um para o outro, demos de ombros e começamos a caminhada pela estrada de pó vermelho (na época ainda não havia asfalto ali). Felizmente, alguns metros depois, um professor parou e nos deu carona.

Assim que chegamos ao prédio administrativo fomos informados de que o diretor do colégio estava viajando e somente retornaria na segunda-feira. Ficamos desolados. Todo aquele esforço para nossos planos terminarem em nada? Na verdade, havíamos sido imprudentes, pois devíamos antes ter telefonado para saber se o diretor estaria ali ou não. Mas agora era tarde e não sabíamos o que fazer. Foi então que a Débora se lembrou de uma moça que havia conhecido quando colportava em Itajaí, a Elisângela. A família dela morava no colégio e o pai cuidava da pecuária.

Caminhamos mais um quilômetro por uma estrada de terra em declive e encontramos a casa da Elisângela. Meio sem jeito, explicamos nossa situação e perguntamos se podíamos pernoitar ali a fim de partirmos no domingo. O “seu” Amós, pai da moça, não somente nos acolheu como fez mais: ofereceu-nos pousada até a segunda-feira para que pudéssemos falar com o diretor. Além disso, quando soube que eu era jornalista e que havia escrito um livro-reportagem sobre a chegada do adventismo ao Brasil, ele se ofereceu para me apresentar ao então diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White e do Centro Nacional da Memória Adventista, Dr. Alberto Timm. Ele estava precisando de um assistente para ajudá-lo a levar avante alguns projetos. Tentaríamos falar com ele naquele mesmo dia.

Estrada que leva ao setor pecuário do Unasp
Como o Dr. Timm teria aulas pela manhã, meu plano era falar com ele à tarde, mesmo sabendo que as tardes de sexta-feira são uma correria para os funcionários e professores do colégio. É o momento que eles têm para fazer compras, ir ao banco, lavar o carro, etc.

Depois do almoço, fui até a casa do Dr. Timm. Ele já me esperava ao lado do seu automóvel. Convidou-me para entrar no carro e explicou que precisava levá-lo ao mecânico na cidade. “Podemos conversar no caminho e enquanto o mecânico verifica o carro.”

Fiquei impressionado com a simplicidade e prestatividade daquele servo de Deus que na época já era um ícone da educação adventista. Com doutorado pela Universidade Andrews, nos Estados Unidos, o Dr. Timm era mundialmente respeitado como teólogo e professor.

Quando chegamos à mecânica, na pequena cidade de Artur Nogueira, a uns sete quilômetros do campus, mostrei meus trabalhos ao Dr. Timm e lhe falei de meus sonhos. Ele manifestou interesse em meus textos e desenhos e disse que precisava de alguém como eu para ajudá-lo no Centro da Memória Adventista. Fiquei empolgado e cheio de esperanças. Seria bom demais trabalhar ao lado de um homem como ele e poder lidar com a história da igreja no Brasil.

De volta ao IAE, antes de me deixar na casa do irmão Amós, o Dr. Timm me aconselhou a falar com o coordenador do curso de Teologia, o Dr. José Carlos Ramos, no domingo de manhã.

Aquela sexta-feira havia sido muito agitada e cansativa. Depois de um banho revigorante e do lanche na casa do irmão Amós, alojado na sala de estar, dormi feito uma pedra.

*****

Acordei com o cantar de galos e o mugir do gado no pasto. Dava para sentir no ar o cheiro da fazenda e da cevada sendo coada na cozinha. A mãe da Elisângela era uma senhora muito simpática e prestativa. Levantei-me depressa para não atrapalhar quem quisesse cruzar a sala e, minutos depois, as duas amigas também já estavam de pé. Fizemos um breve culto e tomamos o desjejum com pão integral e geleia natural. A paz reinava naquela casa e nos sentíamos como hóspedes esperados, apesar de termos aparecido de surpresa. Como era bom estar num verdadeiro lar adventista.

O sábado foi maravilhoso. Assistimos ao culto no auditório principal, ao lado do refeitório (na época, o templo com mais de três mil lugares ainda não havia sido construído). O sermão foi inspirador e pude constatar que o ambiente no colégio era realmente muito agradável. Moços e moças sorridentes, com a Bíblia na mão, caminhavam em meio às árvores, conversando animadamente.

Na manhã de domingo, o irmão Amós me levou para conhecer a leiteria e outras partes do colégio. Naquela época (1996), o IAE tinha apenas treze anos de existência e havia sido desmembrado do campus São Paulo. Futuramente, com a inclusão do campus Hortolândia (Iasp), os três internatos se tornariam o Centro Universitário Adventista de São Paulo. Era maravilhoso imaginar como seria morar e estudar naquela instituição que inspirava sabedoria e santidade. Um sonho bom demais.

Vista aérea do Unasp, campus Engenheiro Coelho
Depois do tour, o irmão Amós pediu ao namorado da Elisângela que me levasse para conhecer o Dr. Ramos. Com uma enxada nas mãos, ele estava cuidando do jardim de sua casa, na “vila dos professores”. Conversamos alguns minutos, ele me deu alguns conselhos e disse que iria orar para que minha conversa com o diretor transcorresse conforme a vontade de Deus. Aquela noite, a terceira na casa do irmão Amós, me encontrou tentando conter a expectativa pelo desenrolar dos fatos no dia seguinte.

*****

Às nove horas da manhã, o pastor Walter Boger nos recebeu em sua sala, no prédio administrativo. A Débora e eu falamos de nossos planos de nos casarmos dali dois meses e de meu sonho de estudar teologia e ser pastor. Contei também que o Dr. Timm havia demonstrado interesse em ter-me como auxiliar e que gostaríamos de receber uma bolsa de estudos do colégio. A resposta não foi a que esperávamos:

– Meus jovens, por mais que eu reconheça a nobreza dos planos de vocês, no momento o IAE não pode ajudá-los. Não há condições de admitir mais bolsistas do que já temos. Lamento. O que sugiro é que vocês voltem para Santa Catarina, façam um “pezinho de meia” por lá e voltem com algum dinheiro para se manterem por alguns meses. Depois a gente vê o que pode ser feito.

“Como vamos fazer um ‘pé de meia’ se mal tenho dinheiro para comprar as meias?”, pensei. Olhei para a Débora desolado, agradeci ao diretor por nos ter recebido e voltamos para a casa do irmão Amós, a fim de pegar as bolsas para retornar a São Paulo. Eles ficaram bastante tristes com a notícia. Fizemos uma oração e nos despedimos agradecendo a amizade e a grande hospitalidade da família. (Eu nem imaginava que, anos depois, voltaríamos àquele colégio em circunstâncias bem diferentes.)

A viagem de volta para Santa Catarina foi bastante triste. O futuro parecia não querer sorrir para nós. Pelo menos tínhamos o apartamento...

Agora eu precisava contar para a Débora o meu “plano B”.

Wednesday, September 19, 2007

Capítulo 18 - Novo nascimento

Débora Borges

Quando era ainda bem pequena, eu olhava para o céu e perguntava por que eu tinha que ter nascido ali, naquele lugar, e levar aquela vida, enquanto meus colegas de escola pareciam ter vida bem melhor do que a minha. Aliás, como eu bem sabia, minha vinda a este mundo nem havia sido planejada.

Minha mãe perdeu o pai em um acidente quando tinha apenas seis anos de idade. Minha avó não podia sustentar os seis filhos sozinha e acabou dando alguns para famílias conhecidas e deixando outros sob os cuidados de um orfanato em Florianópolis. Foi o caso da minha mãe, que, de repente, viu sua infância mudar drasticamente. Num dia, ela corria livre, brincando com os irmãos pelos pastos e plantações da pacata colônia alemã de São Pedro de Alcântara, com seus pouco mais de três mil habitantes e distante 31 km da Capital. No outro, estava confinada a um orfanato católico dirigido por freiras, cheio de regras e horários rígidos. A vida dela se transformou num eterno sofrimento de dias que duravam tempo demais. A dor, a saudade e a carência afetiva pareciam não ter fim.

São Pedro de Alcântara foi a primeira colônia alemã de Santa Catarina

Minha avó nunca deixou que ela fosse adotada, pois tinha esperança de que um dia poderia reunir a família novamente. Mas esse dia nunca chegou. Minha mãe tinha quinze anos quando a mãe dela tornou a se casar. Então ela pôde sair do orfanato, mas não voltou para casa. O padrasto, também viúvo, tinha quatro filhos e não queria mais bocas para alimentar. A solução para minha mãe foi trabalhar na residência de outras famílias. Por isso, por alguns anos ela morou em várias casas, sem nunca encontrar seu lar.

Quando ela conheceu meu pai, já tinha vinte e dois anos e morava com um de seus irmãos, mais velho que ela e casado. Naquele dia, meu pai casualmente pegou o mesmo ônibus que ela para visitar a namorada. Mas, quando viu aquela linda loira de olhos verde-claros, não resistiu. Ele não poderia deixá-la desaparecer sem saber quem era aquela moça de quem ele não conseguia desviar o olhar.

Ele desembarcou do ônibus logo atrás dela e descobriu que ela iria à missa. Começaram a conversar e ambos acabaram desistindo de seus respectivos compromissos.

Os dois namoraram pouco tempo e logo casaram. Meu pai era recém-formado em Geografia e trabalhava como bolsista no Museu de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina. O salário dele, aliás, meio salário mínimo, apenas ajudava a custear os estudos. Mas, de repente, a notícia da gravidez veio como uma bomba. Agora o mísero salário tinha que milagrosamente sustentar uma família. Com o tempo, a situação financeira obrigou meu pai a desistir do mestrado que estava iniciando e enterrar seus sonhos. Acabou deixando o trabalho no museu e foi lecionar Geografia em escolas estaduais em busca de uma renda maior.

No primeiro ano de casados, eles moraram com meus avôs paternos. Era uma casa de madeira sem pintura, com as tábuas enegrecidas pelo tempo e algumas até apodrecidas, se desfazendo. Eles tinham que colocar alguma coisa para remendar os buracos a fim de não deixar o vento entrar. Ali, em quatro cômodos, moravam doze pessoas: minha mãe, meu pai, os sete irmãos dele, mais meus avôs e eu, recém-nascida.

Não era um ambiente muito agradável para um bebê. As brigas e a gritaria eram frequentes. Finalmente, quando eu tinha quase um ano, meu pai construiu nos fundos do terreno uma casinha de madeira com dois cômodos. Até que ela era bonitinha, pintada de amarelo e com as portas e janelas brancas. Mas era muito simples, não tinha nem mesmo forro ou banheiro. Quando ventava muito, lembro-me de que ficávamos com medo e corríamos para baixo da mesa a fim de nos proteger, caso o vento arrancasse uma telha e ela caísse dentro da casa.

O “banheiro” era um caso à parte. Era comum naquela época os mais pobres não terem banheiro. Todos tinham as terríveis e nojentas patentes (latrinas). Eram um cubículo de madeira com uma tábua que servia de assento, com um buraco no meio. E, claro, não havia descarga. O cheiro era insuportável, por isso elas tinham que ficar bem longe da casa. Nossas patentes – da minha casa e dos meus avôs – ficavam praticamente dentro do mangue. Tinha até um caminho feito com pedras para chegar até elas cheio de caranguejos por perto.

A casa dos meus avôs ficava bem em frente à praia. Havia só uma ruazinha de terra que passava em frente e a separava da areia branca. Logo depois da rua estava o rancho das canoas do meu avô, ao lado dos ranchos dos vizinhos, que também viviam da pesca. Eram como pequenos galpões de madeira com telhado baixo, feitos para abrigar as canoas e guardar utensílios de pesca, como redes, tarrafas, remos, etc. A uns três metros do rancho ficava o mar, com suas ondas sempre suaves e calmas. Ali da praia se avista a ilha de Florianópolis, uns sete quilômetros à frente, em linha reta, indo pelo mar.

A paisagem é muito bonita. Ao longe, se veem as cadeias de montanhas da Serra do Tabuleiro, que ficam a poucos quilômetros dali. E a praia faz belas curvas, formando baías ornamentadas com pedras de vários formatos e tamanhos. Entretanto, o mar não é próprio para banho, pois o fundo é cheio de lama e restos de conchas.

Vista do alto do Morro do Cambirela, na Serra do Tabuleiro. As montanhas ao fundo são da ilha de Florianópolis
O terreno dos meus avôs até que não era pequeno. Era de areia, mas na frente da casa havia um gramadinho com algumas flores – algo típico em Santa Catarina. Atrás da casa havia um “ranchinho”, que era uma espécie de segunda cozinha, com um fogão a lenha feito de barro, utilizado mais para fritar e assar peixes, prato principal na região. Ao lado esquerdo do ranchinho, havia algumas árvores frutíferas, como goiabeira, limoeiro e um pé de fruta-do-conde, que eu adorava.

Uns quatro metros para trás, ficava minha casinha amarela. E mais um pouco para o fundo, do lado direito, ficava o galinheiro, onde patos, marrecos e galinhas conviviam em paz. Em seguida, começava o manguezal, com algumas centenas de metros de extensão, talvez um quilômetro.

Minha mãe não estava acostumada àquela realidade e estranhou muito no começo. Eram culturas bem diferentes. A família dela era de origem alemã e trabalhava nas plantações o dia inteiro. Parecia não terem tempo para risos e brincadeiras. Depois ela foi criada na cidade e acabou se adaptando à comodidade da vida urbana, com seus confortos – como um banheiro decente, por exemplo.

Meus pais, Zulmar e Lúcia, comigo
Embora eu tenha nascido em circunstâncias não muito favoráveis para meus pais, sei que fui muito amada. E o amor que minha mãe nutria por mim aliviava um pouco o sofrimento de sua vida difícil. Depois, apesar de não desejarem outro filho naquela situação adversa, ela engravidou de meu irmão e, quando eu tinha um ano e cinco meses, o Robson nasceu.

Enquanto minha mãe o embalava para dormir, eu a imitava com meu boneco de plástico. Eu tinha muito ciúme dele e sempre estávamos disputando a atenção da mãe. Mas eu também queria ajudar a cuidar dele e protegê-lo. Quando crescemos um pouco, eu sempre o defendia se algum menino quisesse brigar com ele. Entretanto, quanto mais os anos passavam, mais distantes ficávamos um do outro. Tínhamos carinho mútuo, mas nossos interesses eram muito diferentes e, se ficávamos muito tempo juntos, acabávamos brigando.


Débora e Robson em 1986
Pouco antes de eu completar três anos, nossa casa de madeira foi transportada em cima de um caminhão para um terreno que meu pai havia comprado, distante uns dois quilômetros da casa dos meus avôs. O lugar ainda era pouco habitado na época e havia apenas umas cinco famílias ali, nossos vizinhos. Logo teve início a construção de nossa nova casa de alvenaria. O banheiro – sim, agora tínhamos banheiro! – ficou pronto bem rápido. Mas a construção toda só ficou pronta vários anos depois.

O Binho (como chamávamos o Robson) e eu nos divertíamos muito brincando naquele lugar com nossos amiguinhos. Não havia muitos perigos como hoje e corríamos livremente com as outras crianças do bairro. Subíamos nas muitas árvores – principalmente pitangueiras – que havia ao redor das casas e nos terrenos da vizinhança. Comíamos pitanga de várias qualidades o dia inteiro, até enjoar. Brincávamos de esconde-esconde, de carrinho, de casinha, de taco e muitas outras brincadeiras que inventávamos e que em nossa imaginação eram grandes aventuras.

Somente quando fui para a escola é que comecei a considerar minha vida infeliz. Aos seis anos, a primeira série foi um tormento para mim. Eu era excessivamente insegura e tinha medo de ficar longe da minha mãe. Com o tempo, fui me acostumando àquela rotina e me conformando com a situação. Mas foi quando mudei de escola que as coisas pioraram de vez. Eu já havia me tornado mais independente, nessa época. O problema era outro.

A primeira escola em que estudei era pública e todos os alunos eram praticamente da mesma classe social. Na verdade, quase todos eram ainda mais pobres do que eu. Porém, na segunda série, meus pais decidiram – e com razão – que eu me desenvolveria mais estudando numa escola particular no centro da cidade.
Na minha turma havia duas outras meninas que também moravam na Barra do Aririú. A maioria dos alunos eram filhos de comerciantes, empresários e políticos que moravam perto da escola. As crianças ricas nos menosprezavam porque morávamos num bairro pobre e distante dali.

As carteiras (mesas) acomodavam dois alunos. A professora fazia rodízio para que sempre mudássemos de lugar. Certa vez, uma menina recusou sentar-se comigo. Ela disse que eu devia ter cheiro de peixe e que meus cadernos eram encapados com saco de lixo. A professora a repreendeu na frente de todos e a puniu pela discriminação. Mesmo assim, continuamos a ser excluídas das brincadeiras. Éramos alvo de piadas e acabamos nos sentindo diferentes.

Passei a me considerar inferior. Ficava triste quando saía da escola e via meus colegas entrando em seus lindos carros, ao passo que eu tinha que pegar o ônibus velho. Antes eu não sentia falta de quase nada em minha vida simples de criança. Mas a verdade é que não era a carência de bens materiais que mais me entristecia agora; era o fato de me sentir rejeitada. Não entendia por que a vida era tão injusta e por que meus pais não poderiam ter tido a mesma oportunidade de prosperar.

Meu pai sempre tentava me consolar mostrando o quanto eu era privilegiada. Ele dizia que quando tinha a minha idade fazia o mesmo percurso de sete quilômetros da Barra ao centro caminhando descalço, pois não tinha calçados nem para ir à escola. Mas isso não me servia de consolo e, sem querer, acabei desenvolvendo valores distorcidos. Achava que só gostariam de mim se eu estivesse bem vestida, tivesse uma bela casa e um bom carro.

Eu amava profundamente meus pais e era grata por tudo o que eles faziam por mim. Sabia que eles estavam me dando o melhor que podiam, mas se eu pudesse escolher onde nascer, teria escolhido outro lugar. Queria ter a mesma família, mas em circunstâncias diferentes. Meu pai dizia que eu deveria estudar muito, e tudo mudaria. O que eu queria mesmo era nascer de novo, mas não sabia como. Deus iria atender o meu pedido – de uma maneira completamente diferente do que eu esperava.

Nessa época eu já conversava com Deus, mas não O conhecia. O que eu pedia era que Ele me ajudasse a ser como as outras crianças da escola.

Eu não conhecia quase nada sobre o verdadeiro Deus. A família do meu pai era espírita. Minha avó me contava histórias sobre feiticeiras que assombravam aquele lugar e se escondiam dentro das moringas (vasos de barro feitos pelos oleiros da região). Histórias de mulheres misteriosas que seduziam os pescadores no mar e depois desapareciam. Meu avô também sempre tinha um “caso” assombroso para contar, de coisas sobrenaturais ocorridas durante as pescarias. Ele até descrevia em detalhes a vez em que foi perseguido pelo “lobisomem”.

O resultado disso tudo foi que meu pai e seus irmãos passaram a se relacionar com os “espíritos” e a procurar centros espíritas para buscar explicação para tais fenômenos. Eu cresci com muito medo de “fantasmas”. Sentia pânico só de ficar sozinha e queria estar sempre o mais perto possível da minha mãe. Ela aprendeu a doutrina católica com as freiras do orfanato, mas nunca a vi se relacionar com Deus. Ela achava que Deus era muito severo e estava sempre disposto a castigar quem desobedecia, o que a mantinha distante dEle. Afinal, foi essa a religião que ela aprendeu desde a infância.

Mas mesmo com todo o medo que eu sentia, no fundo e de alguma forma eu sabia que podia recorrer a um “Ser maior” e mais poderoso e pedir para Ele me proteger. Em meio a tanta confusão sentimental e espiritual, eu já sentia os pequenos “toques” de Deus me preparando para um dia conhecê-Lo de verdade e me libertar de tudo aquilo.

Quando Jesus me encontrou, eu era uma adolescente que já se havia machucado de tanto correr atrás de ilusões. Mas ainda queria ter a chance de nascer de novo. Começar outra vez. Como nos meus sonhos infantis.

O dia do meu batismo na igreja adventista foi exatamente isso. Jesus me deu um novo coração. Novas motivações. Libertou-me daquela ambição tola de achar que ter é poder. Livre do medo de um inimigo que atormenta as pessoas, brincando de “fantasma”. Livre, finalmente, para ser feliz ao lado do Deus que havia muito tempo estivera tentando chamar minha atenção, como que a dizer que meu desejo de nascer de novo era possível – o Deus que sempre havia cuidado de mim e esteve disposto a dar o que é melhor para minha vida, para me aperfeiçoar e me tornar uma pessoa melhor.

Foi num domingo à noite, 25 de setembro de 1994, que a minha vida enfim passou a fazer sentido. Começava ali uma nova caminhada. Um caminho totalmente diferente daquele no qual eu até então havia andado. Ainda tropeço, de vez em quando, como uma criança que se esforça para caminhar ao lado do pai. Mas Jesus nunca solta minha mão e me levanta quando caio. O medo se foi.

Ainda morava ali, naquele mesmo lugar. Eu é que havia mudado. Jesus me devolveu a capacidade de ser feliz com as coisas simples desta vida e eu me sentia novamente como uma criança.

A Primavera é a minha estação preferida. Tudo parece renascer nessa época. O clima agradável me traz uma sensação de alegria, festividade e a esperança de que os dias sejam sempre melhores. Nada melhor, então, do que me entregar totalmente a Jesus no Batismo da Primavera. E foi o que decidi.

Aquele dia estava quente e agradável. No fim da tarde, o famoso vento sul começou a soprar cada vez mais forte, tornando-se numa grande ventania que refrescou a noite em que a Teca e eu seríamos batizadas.

Na tarde daquele dia, a Teca e a Rafaela foram até a minha casa. O Michelson já estava lá. A Teca e eu precisávamos conversar antes do nosso batismo. Não sei por que, nossa amizade parecia um pouco desgastada ultimamente. Talvez porque agora eu passava muito mais tempo com o Michelson, o que fez com que ela acabasse buscando o apoio e a companhia da Rafaela. Sentíamos falta uma da outra, mas quando estávamos juntas frequentemente divergíamos sobre alguns assuntos. Eu sofria naturalmente a influência do meu namorado e ela, a da Rafaela. Mas sabíamos que nada mudaria o amor que tínhamos uma pela outra. Éramos como irmãs, e irmãs nem sempre estão de acordo. Nos abraçamos, pedimos perdão por eventuais mágoas e oramos pedindo a Jesus que permanecesse para sempre conosco e nunca deixasse nossa amizade acabar – muito mais a partir daquele momento em que iríamos renascer juntas nas águas do batismo. Para mim, aquele dia era um milagre. Uma resposta de Deus às minhas orações regadas com muitas lágrimas.

Alguns irmãos da igreja do meu bairro foram assistir ao nosso batismo, realizado na Igreja Central de Florianópolis, a mesma igreja onde sete meses antes eu havia conhecido o amor da minha vida. Meu irmão e minha mãe aceitaram nosso convite e foram assistir à cerimônia. Infelizmente, nenhum parente da Teca compareceu (mas Deus tinha planos especiais para o irmão mais novo dela, o Lenilson).

O Robson, meu irmão, ficou bastante emocionado com tudo o que viu. Mas foi minha mãe quem me surpreendeu: ela não só ficou emocionada naquele momento especial, mas parece que se tornou outra pessoa a partir dali. Até então, ela sempre se esquivava de nossos convites para estudar a Bíblia conosco e conhecer melhor a mensagem adventista, porque achava que iríamos fazer algum tipo de “chantagem emocional” ou ameaçá-la de queimar no “fogo eterno”, caso não se convertesse. “Já cansei de ouvir essa conversa”, ela dizia. Sem perceber, minha mãe ainda dava ouvidos aos ecos da religião distorcida e opressora que havia aprendido na infância. Como tudo é diferente quando se conhece o verdadeiro Deus revelado em Cristo! Como eu queria que ela conhecesse esse amorável Salvador a quem eu estava entregando a vida.

Graças a Deus, ao me ver no tanque batismal e contemplar minhas lágrimas de alegria, algo mudou dentro dela. O Espírito Santo transformou seu coração e ela pareceu ter visto Jesus em pessoa naquela noite. Não parava mais de pensar nEle e de querer estar com Ele. No dia seguinte, ela pediu para estudar a Bíblia com o Michelson e comigo, o que fizemos com muita alegria.

Aos poucos, minha mãe foi compreendendo que, ao contrário do que ela pensava, Deus faz e continua fazendo de tudo para nos dar a vida eterna – Jesus já pagou a dívida da humanidade na cruz e prossegue Sua obra de intercessão no santuário celestial. Finalmente, aquela menina órfã encontrou consolo nos braços do Pai. O amor de Jesus venceu todos os preconceitos e rancores dela. Dali alguns meses, ela também seria batizada como eu fui, o que deixou meu pai muito feliz por ter a família quase completa na mesma fé.


Naquela noite do meu batismo, na Igreja Central de Florianópolis, era impossível não me emocionar. Ao olhar para a Teca ali do meu lado, pude perceber como o poder de Deus faz o impossível acontecer. Ao recordar tudo o que nós duas havíamos passado para estar ali, juntas, senti o amor de Jesus uma vez mais nos envolvendo, cuidando de nós de maneira carinhosa e especial. A maior evidência da existência de Deus e de Seu amor naquele momento éramos nós duas e nossa vida renovada. Sentia-me serena e feliz, como nunca antes. Uma paz indescritível invadiu-me o coração. E no momento em que vi que o Michelson cantaria uma música especial para mim, as lágrimas brotaram abundantes.

Ele se virou para mim, olhou em meus olhos e cantou uma linda canção, cuja letra dizia que Jesus me ama como uma criança, para sempre. Senti-me como uma menininha novamente, como se toda a minha história estivesse começando a partir daquele momento, quando ouvi as palavras “Como criança eu pra sempre vou te amar”. Tive a certeza de que Jesus me trataria com o mesmo amor, para sempre, mesmo que eu viesse a falhar de vez em quando, tropeçando aqui e ali para aprender a caminhar. Ele me amaria como Sua filhinha e jamais me abandonaria.

A música originalmente cantada pelo pastor Fernando Iglesias era muito linda. Mas para mim ela se revestiu de um significado ainda mais profundo pelo fato de ter sido cantada pelo Michelson. Eu o amava tanto e pensava que para ter o amor de alguém tão maravilhoso Deus realmente havia me perdoado.

Nós dois ainda frequentávamos a Igreja Central de Florianópolis, mas nossas visitas ao grupo da Barra do Aririú se tornaram cada vez mais frequentes. O Michelson era convidado para pregar lá pelo menos uma vez por mês. E como fomos nos envolvendo cada vez mais nas atividades da congregação e ministrando estudos bíblicos para pessoas ali do bairro, acabamos ficando de vez com os irmãos daquela igreja. Algum tempo depois, o Michelson foi eleito diretor do grupo.

Eu havia sofrido tanto ali, no passado. Só que agora tudo prometia ser diferente – Deus estava me dando, até nesse aspecto, uma chance de recomeço. Agora eu sabia realmente quem era Jesus e tinha o Michelson ao meu lado.

Um dia fui ajudar minha mãe a limpar a igreja do nosso bairro. Como não havia utensílios suficientes lá, eu levei de nossa casa uma vassoura e um balde. Terminado o trabalho, voltávamos para casa, conversando felizes pela rua. Eu estava cansada e suada, mas muito satisfeita por ter ajudado a deixar em ordem a casa de Deus. De repente, me dei conta da minha aparência e comecei a rir comigo mesma. Vestia uma “roupa de crente”, com chinelos de borracha e uma vassoura nas mãos. Realmente não me importava mais com superficialidades ou com o que os outros iriam pensar de mim, contanto que estivesse fazendo o que era correto e nobre. Deus havia quebrado meu orgulho e vaidade. Meu conceito de beleza era outro agora: a beleza da simplicidade, do bom gosto e da decência.

Finalmente eu me sentia livre por não mais pertencer a este mundo. Quando era ainda bem pequena, eu olhava para o céu e perguntava por que eu tinha que ter nascido ali, naquele lugar, e levar aquela vida. Naquela tarde, essa pergunta não mais me incomodava. Olhei para o céu, mas em lugar da pergunta, fiz um agradecimento: “Obrigado, meu Jesus, por me fazer nascer de novo.”